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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A viagem surpresa de volta para casa

A história de horror das jornalistas norte-americanas Euna Lee e Laura Ling acabou graças a uma visita surpresa de Bill Clinton à obscura Coreia do Norte, o vizinho comunista chinês fechado que só. O ex-presidente dos Estados Unidos - e a Casa Branca - garante que a iniciativa de visitar Kim Jong Il foi privada, mas a agência norte-coreana faz questão de dizer que o final feliz se deve principalmente a uma mensagem de Barack Obama. Especulações diplomáticas numa missão que tem caráter histórico.

Primeiro, o que veio depois. A dupla de intrépidas jornalistas, com origens asiáticas, uma coreana, outra chinesa, foi presa em março ao supostamente adentrar o território da Coreia do Norte. Pena: 12 anos de reeducação via trabalhos forçados. Resultado, moeda de troca no jogo de gato e rato empreendido por Pyongyang, com tiro na mosca, o inimigo número um, os EUA.

Desde maio que o governo do querido líder, a alcunha de Kim Jong Il, anda bem saidinho, entrando de vez para as manchetes mundiais ao promover exercícios militares, como testes com mísseis e tals. A quase esquecida Coreia do Norte volta ao palco midiático alvo de sanções e tema em sessões da ONU, outro dos vilões da vez.

As apirações nucleares herdadas já dos tempos de papai Kim Il-Sung, o Grande Líder, fundandor da Coreia do Norte e objeto de culto fanático ainda hoje, causam dores de cabeça aqui pelos pagos asiáticos. E seu Clinton resolve aparecer. Ele é o segundo ex-presidente norte-americano a visitar a capital do lado norte da península coreana, o primeiro foi Jimmy Carter, em 1994.

Hoje, a mídia chinesa, que dá voz aos despachos oficiais da KCNA, a agência norte-coreana, ecoou:

"A decisão de libertar as jornalistas norte-americanas é uma manifestação da política humanitária e pacífica da República Popular e Democrática da Coreia." Sim, aqui o reino do sagrado querido líder tem nome e sobrenome, segundo a mesma cartilha imposta ao povo que, pasmem, ganha menos do que 2 euros ao dia. A fonte desta última informação é o blog delícia www.coreiadonorte.wordpress.com, que acabei de encontrar. Curtam, viu.

A abreviação do pesadelo de Euna e Laura foi alcançada, seguem as agências oficiais daqui, em meio a uma atmosfera sincera, na qual Clinton e Kim Jong Il tiveram conversações francas e profundas. E eles acrescentam:

"Clinton transmitiu de forma cordial uma mensagem verbal do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que expressou seu profudndo agradecimento por isso".

Quem falou o que, não se sabe, mas os norte-coreanos dizem que a visita contribuirá para fortalecer o entedimento entre os inimigos de longa data, a fim de que desenvolvam confiança bilateral. Um passo a mais de Clinton, cuja mulher, a Hillary, havia pedido na semana passada, durante encontro na Tailândia, a retomada das conversações sobre a questão nuclear na península, que ainda integra Coreia do Sul, Japão, China e Rússia. Conversas estas interrompidas unilateralmente desde finais de 2008 pelo querido líder.

Falar em querido líder, amanhã o programa da noite será conhecer cartazes de cinema norte-coreano, numa iniciativa da livraria mais bacana de Beijing, a Bookworm, oásis cultural da cidade e espaço de debates que em geral não se debatem por aqui. Volto para contar depois.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O Jogo das Nossas Vidas



O poster aí de cima foi lançado na Coréia do Norte em 1966, quando a seleção do país participou da Copa do Mundo, realizada naquele ano na Inglaterra. Os donos da casa, aliás, foram os campeões, na competição que reuniu outras 15 equipes e da qual o Brasil se despediu ainda na primeira fase.

Apesar de ter sido o palco da última atuação oficial conjunta de Pelé e Garrincha, não houve brilhantismo para seguir adiante. Eles foram até marcaram os gols na única vitória do Brasil naquela campanha, quando o time estreou com um 2 a 0 sobre a Bulgária.

Voltemos à Ásia. Até agora, esta foi a única participação da Coréia do Norte no torneio (cujo cartaz você vê ali abaixo) - talvez em 2010 a coisa mude, pois a equipe está em segundo lugar no Grupo 2 das Eliminatórias Asiáticas para a Copa, atrás da vizinha Coréia do Sul. Na competição regional, classificam-se automaticamente os dois primeiros colocados de cada grupo (ainda há mais quatro jogos pela frente, mas quem sabe, né).



A estréia norte-coreana nas Copas ocorreu de forma inusitada. Após um boicote dos países africanos e de uma vitória inesperada sobre a Austrália em território neutro - Mianmar -, os norte-coreanos garantiram a vaga na Inglaterra. Fechados em seu regime, foram recebidos com curiosidade pelos ingleses.

Um feito brilhante - ou apenas golpe de sorte - alçou os moços ao topo. Na primeira fase, eles foram responsáveis por despachar os italianos, ao vencerem a Azurra por um modesto, mas surpreendete 1 a 0. A garra norte-coreana parecia não ter limite. Nas quartas, em 22 minutos de jogo, a equipe abriu uma vantagem de três gols sobre os portugueses, fato no qual ninguém acreditava, nem mesmo o narrador da partida. Os lusos, no entanto, não deixaram barato. Eusébio - que terminou como artilheiro em 1966, com nove gols, e cuja foto está logo ali abaixo - marcou quatro vezes, na partida que terminaria em 5 a 3 para os portugueses. Fim de competição para o único representante da Ásia, que resultou numa volta para casa celebrada como um retorno de heróis. A história é fofa, fofíssima.



Pois Dan Gordon e Nichollas Bonner fizeram um documentário exatamente sobre ela, chamado O Jogo das Suas Vidas (numa tradução totalmente livre que eu fiz para o título original The Game of Their Lives). O documentário vale a pena cada minuto. Não só pela história, pelas imagens de arquivo, mas pelo valor que tem como documento de um país tão fechado em si mesmo que, para ser mostrado, exige mil e uma aprovações, o que a dupla Dan e Nichollas garantiu.

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Hoje pesquisando na internet, vi que há outro documentário sobre futebol chamado The Game of Their Lives, este falando sobre os norte-americanos na Copa de 1950, aquela mesma entalada na garganta dos brasileiros quando os donos da casa, o Brasil, perderam a final em pleno Maracanã para o Uruguai. Não confunda os dois documentários, pois.

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O documentário sobre os norte-coreanos, não sei se há como encontrar na internet. Mas, repito, vale cada minuto. Recomendo.