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quinta-feira, 9 de julho de 2009

A Rota da Seda

Mais uma vez, o professor Manuel Lopes nos dá aquela mão lá de Portugal para que possamos entender um pouco mais sobre Xinjiang. Hoje, o foco é a Rota da Seda, a ligação secular Ocidente-Oriente cujo traçado inclui Xinjiang. Vamos lá?

Em termos históricos, a Rota da Seda tem origem na China, numa iniciativa do Imperador Wu Di, da dinastia Han. Decorria o ano de 138 a.C. quando o imperador encarregou o explorador/emissário chinês Zhang Qian de contactar uma tribo/reino que se queria vingar de uma afronta praticada pelos Xiong Nu (Hunos), adversários do povo chinês. Com esta iniciativa, o Imperador visava estabelecer uma aliança no sentido de uma ação conjunta contra os Xiong Nu.

A comitiva de Zhang Qian partiu de Chang´na (actual Xi'An), rumou para oeste da Grande Muralha (marco da luta milenar entre populações nômades e sedentárias) seguindo-se as peripécias duma viagem que durou 13 anos e que permitiu um tal manancial de conhecimentos ao Imperador chinês, responsáveis por uma ação concertada e apoiada de abertura de uma via de intercâmbio político, comercial e cultural entre o Oriente e o Ocidente, pelo interior do continente asiático.

E se abre a Rota da Seda

A partir do Imperador Wu Di, há uma orientação do poder chinês para estender a influência administrativa/logística para Oeste, a fim de garantir em cooperação com outros poderes a segurança das caravanas de mercadores.

O traçado da Rota da Seda estendia-se por enormes percursos que atingiam cerca de 7 mil quilómetros ligando o vale do Rio Amarelo ao Mediterrâneo, atravessando percursos muito difíceis, desérticos ou montanhosos. Este traçado deu vida a muitos oásis e a lugares que ficaram a perpetuar este intercâmbio. O centro nevrálgico desta via inter-civilizacional era exatamente Xi'An, a cidade que ficou mundialmente conhecida devido aos guerreiros de terracota.

Quais as consequências?

Ainda não se sistematizaram as consequências desta abertura da China ao Ocidente, mas temos algumas pistas para reflexão.

• Nível político

– Para a China:
Reforço da influência do poder chinês para a Ásia Central, para além da Grande Muralha, através de boas redes de alianças, nas quais a seda desempenhava o papel de “presente precioso” (já que era desconhecida a sua técnica de fabrico por outros povos) no relacionamento entre o poder chinês e os poderes “bárbaros”.

As formas originais de pacificação da periferia do espaço chinês, para além do casamento com princesas chinesas (ouh lala, esta coisa de estrangeiro casar com chinesa também é milenar - e para deixar claro, a observação entre parênteses é da autora deste blog).

Contatos nas periferias do império romano com o poder chinês.

Aumento do dispositivo de defesa chinês para além da Grande Muralha para proteção das caravanas.

Grandes efeitos práticos da diplomacia chinesa ao garantir a pacificação da periferia do seu espaço contra as invasões nômades por via das vantagens do intercâmbio.

– Para outros poderes:
A China desenvolveu inovações científicas e tecnológicas que de alguma forma justificaram o avanço sobre outras civilizações: pólvora, papel, tecnologia de impressão, uso do papel moeda, bússola, sistemas de irrigação e construção de canais.

• Nível econômico

–Para a China e outros povos

Aumento exponencial das transações num vasto espaço entre as origens e os destinatários finais, trocando os produtos mais variados nos dois sentidos (plantas, produtos, animais...)

“Cidades oásis”, intermediárias no comércio, ganharam uma enorme importância, junto a Xi'An, o centro mais cosmopolita de então.

À sombra deste comércio floresceram sobretudo mercadores chineses, indianos, persas, sírios e gregos.

Só a partir do séc. II é que a seda passa a chegar a Roma via marítima.

• Nível cultural

É na área cultural que se situam as mais importantes consequências da abertura da rota da seda, em especial no que diz respeito à própria China.

1–Religião
Pela Rota da Seda a China conheceu o budismo indiano. Este ímpeto budista iria influenciar e transformar toda a sociedade chinesa, manifestando-se no comportamento das pessoas e nas manifestações artísticas mais importantes. O budismo que influenciou e foi influenciado na sua travessia pelo espaço chinês chegou à península coreana e ao Japão.

2 - Pintura, Escultura, Arquitetura

Milhares de pinturas e esculturas têm como motivos principais o budismo, mas sem desconhecer o meio, seja derivado de poderes imperiais, seja de expressão popular.

Em Dunhuang, cavernas são hoje conhecinhecidas como “Grutas dos Mil Budas” pelas inumeráveis esculturas de pedra que ornamentam as paredes representando o Buda, os luohan (iluminados), os bodhisattvas e outros personagens do panteão budista.

Nas grutas mais antigas (dinastia Wei) as imagens sagradas demonstram ainda a influência indiana nos trajes, nos traços finos e delicados do rosto; outras grutas, pelo contrário, apresentam motivos tipicamente chineses, dragões, cavalos voadores, homens alados. Nas grutas da época Tang os personagens esculpidos e pintados são caracterizados pela expressão realista das caras, para significar a humanidade do budismo, a suavidade ou o vigor marcial (dos luohan, por exemplo).

É da época do vigor da Rota da Seda que nasceram divertos templos budistas por toda a China.

• A perda de importância da Rota da Seda

Diversos fatores levaram ao declínio da rota

– A valorização progressiva das rotas marítimas perante a instabilidade/insegurança do percurso terrestre, em especial a partir do século VIII, a partir de Cantão (Guanzhou).

- A chegada de novos poderes à Ásia Central, de influência islâmica.

- O conhecimento por outros países do segredo do fabrico da seda.

- A orientação de auto-fechamento face ao exterior já evidenciado no final da dinastia Ming e reafirmado na Dinastia Qing como forma de a China se proteger dos bárbaros “ocidentais”.

Coisas que eu não entendo

• Ódio racial. Quer dizer, entendo, mas não gostaria que fosse assim.

• Repressão sexual e o sentimento de que o corpo pode ser casa do pecado.

- Os balineses nunca estendem roupa acima de 1,5 metro, ou quase isso. Mesmo lavadas, as roupas por terem tido contato com o corpo, são sujas. Não devem ser postas mais perto das alturas, onde vivem os deuses.

- A moça ieminita que veste véu e trabalha comigo, e que além de tudo me faz pensar como eu ando pelada por estar de blusinha sem manga e bermuda, está hoje cobrindo a cabeça com um lenço de oncinha. Estampas de oncinha sempre me lembram a sensualidade vulgar dos anos 80. Tem alguma coisa que não está combinando na mocinha recatada. Vou pedir para ela usar algo mais neutro. Mas acho que isso não combinaria com meu modelo também.

• Mandarim. Eu gostaria muito de entender o mandarim, mas não entendo. Então hoje,como a geladeira lá de casa está estragada desde domingo, motivo pelo qual perdemos muita grana em comida boa agora estragada, a dona mandou mensagem para avisar que compraria uma nova. Uma 新的冰箱,ou xinde ping alguma coisa. Como eu não entendo chinês, liguei de volta para agradecer e pedi que a minha empregada perguntasse à dona do apartamento quando seria entregue a nova geladeira.

Detalhe, a minha empregada só fala mandarim. Não me pergunte como a gente se entende,mas a gente se entende.

A dona falou, aliás, que o conserto custa 380 kuais, tipo uns 100 reais, enquanto uma nova, sai por 1000 kuais, tipo uns 250 kuais. Como a gente é estrangeira, ela vai comprar uma nova, pois ela gosta muito de estrangeiros. Se a gente fosse chinês, ela mandaria a conta do conserto.

- Ela falou isso mesmo? - perguntei pra minha empregada, que confirmou.

Tem vezes em que seria tão melhor não entender chinês, não é mesmo?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Saiba mais :)

Recebi há pouco um material produzido em Portugal pelo professor Manuel Lopes, sempre atento à China, para os seus alunos de Relações Internacionais sobre Xinjiang. Vale a leitura para entender mais sobre a região, que nomeadamente é uma Região Autônoma Especial, sob o poder da República Popular da China.

• A Região Autônoma Uigur de Xinjiang está situada em plena Ásia Central, cercada de montanhas (com um grande deserto no interior, o Taklamakan), zona de passagem obrigatória da antiga Rota da Seda e dos atuais projectos de ligação euro-asiáticos e tem 5,6 mil quilômetros de fronteira com oito países.

• População em 2004: 19.630.000. Neste cálculo, a etnia uigur (de origem turcófona) surge com 45% e a etnia han com 41%, sendo os restantes distribuídos por 47 grupos minoritários.

• O Islã é dominante, substituindo o budismo.

• Xinjiang, ou Nova Fronteira, na tradução, deve o seu nome às iniciativas da Dinastia Han (século III aC) de estender a influência para Oeste e assim proteger as rotas de caravanas da Rota da Seda.

• No final do século XIX, a Rússia estendeu a influência à parte desta área, no episódio conhecido como o Grande Jogo,a saber uma disputa com os britânicos.

• Durante o período da República (1911–49), Xinjiang foi dominada por “Senhores da Guerra”, virtualmente independentes do governo central, sendo a então URSS dominante na zona.

• Só em 1950 o poder comunista tomou o controle total de Xinjiang, criando uma Região Autónoma em 1955.

• Também ali chegaram os efeitos do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, criando instabilidade e fomentando o movimento independentista que atingiu maior expressão violenta após 1980 na sequência da intervenção soviética no Afeganistão, ao favorecer a militância islâmica.

• Em Xinjiang estão presentes, segundo as autoridades chinesas, os “três demônios”: separatismo, fundamentalismo e terrorismo.

• Os ataques de 11 de setembro acabaram por ter um efeito significativo sobre as atividades do movimento independentista Frente de Libertação do Turquestão Oriental, ao ser conotado pelas autoridades chinesas com a Al Qaeda e os talibã, sofrendo os efeitos de uma maior coordenação dos esforços internacionais na luta contra o terrorismo na Ásia.

***

Para uma visão econômica

• As principais indústrias estão relacionadas à atividade mineira (carvão), além do aumento da exploração energética (gás e petróleo).

• A importância de Xinjiang também deriva do fato de ser uma área de escoamento da energia vinda da Ásia Central, do Cáspio e da Ásia Setentrional.

• Xinjiang alimenta expectativas com o turismo, através da revitalização da antiga Rota da Seda. A China e quatro países da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão), em parceria com o Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas, criaram um programa que visa favorecer o investimento, o comércio e o turismo na região.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Eu que não pego nem gripe comemoro dois anos de paixão chinesa

Hoje, 12 de junho, para deixar claro aos que estão em solo brasileiro e em 11 horas de algum lugar do passado sob a minha perspectiva chinesa, eu comemoro dois anos de febre amarela, a metáfora fácil para os que se encantam pela China.

Enamoramentos orientais. Eu já tinha no meu DNA, se é que se adquire DNA aos cinco anos, que é quando eu vim para o Japão, daquela vez trazida por papai e mamãe. Os seis meses da infância cercada de olhos puxados que liam letras estranhas e de cujas bocas saíam sons ininteligíveis deixaram marcas. Já me achando dona do meu nariz, tentei aprender japonês e mais, caí de amores pelos japoneses. Do grupo de amigos para entender que os nossos japoneses eram melhores que os dos outros foi fácil, então eu tive paixões japonesas e lá estava eu em 2000 supernamoradona do Yu, passando férias no Japão. Nada mais natural. Depois acabou. O namoro, eu digo. Não a paixão pelo Japão, pelos olhinhos puxados, muito menos meu megacarinho pelo Yu, esse é do tipo pra sempre. Mas deixa esse papo pra lá. Era só pra dizer que talvez explique muita coisa.

Numa perspectiva chinesa, tenho o meu passado à minha frente. Para eles, os chineses, deixe-se claro, numa inversão de valores ocidentais, o passado que tu conheces e sentes está sempre no teu caminho. O futuro, este ilustre desconhecido, é referido como algo que ficou para trás, obscuro – e quem sabe pode até te apunhalar pelas costas, te trazendo surpresas desagradáveis. Acho a lógica cruel, mas me rendo a ela. Alguma coisa eu deveria tentar entender neste país, porque o resto quase todo não dá.

Deve ser este sem fim de lógicas ilógicas, crenças e comportamentos peculiares que vão atiçando a curiosidade de quem se arrisca por estas terras acolhedoras. Seda pura. Desavisados como eu vêm para cá para passar um tempo, tipo intermináveis 12 meses, na minha ilusão de marinheira chinesa de primeira viagem. Aí ficam dois anos, se preparam para ficar três, depois eu nem sei. Quem sabe sobre o futuro? Nem os chineses sabem.
Mas como hoje é dia de comemorar e contemplar o que aprendi em dois anos e tentar entender por que não consigo ir embora, vou tentar ir além do meu DNA asiático. Aliás, o que eu já teria incorporado e o que teria acontecido em dois anos?

1 – Existem os chineses. E depois o resto. Sob a ótica deles e sob a nossa. Eles se orgulham de ser quem são e são chineses nascidos no Brasil, chineses nascidos na América, chineses sei lá onde. Sempre chineses. E nós, os ocidentais, reforçamos isso com todos os requintes. A gente vive aqui, mas ou vai a bar de estrangeiro, ou sai em boteco chinês. Tem diferença, tá no nome, no nosso cotidiano. Ou alguém em Porto Alegre se refere a bar de estrangeiro e a bar brasileiro? E daí tem os caras que a gente pode pegar e aqueles que só gostam de chinesas. E tem os chineses que têm medo das ocidentais. Então, entre as solteiras sempre rola a pergunta “você já pegou algum chinês?”, como se eles fossem quase impegáveis. Até são. Mas sempre tem uns aí pra ajudar as ocidentais a descobrir o que o chinês tem. Eu descobri o fofinho Paul, que acho, agora, um baita samaritano, preocupado com as descobertas antropológicas das estrangeiras incautas pela noite de Beijing. Não bastasse ele ter tido um casinho com uma amiga italiana, há dois dias descobri que ele tava pegando uma brasileira que recém conheci. Meu faro pra galinha não falha nunca, até quando se come de pauzinho.

2 – Comida chinesa aos montes é incomível. Passo semanas sem sentir vontade de.

3 – Chineses têm uma carência de senso estético inacreditável. Um país de ávidos consumidores recentes, que querem tudo ao mesmo tempo agora. Do carro à casa, tudo tem pendurico, dourado, vermelho e detalhes em pelúcia. A roupa combina luxo e glamour fake com brilhos e estampas. Ao mesmo tempo, eu já disse. Ai, irrita.

4 – A grande massa é de analfabeto funcional, desculpa. Há uma retidão de pensamento atroz que deve derivar do sistema educacional que prioriza a memorização em detrimento da criatividade. Um desperdício para quem tem de aprender uns 3 mil caracteres para começar a ler jornal. Tem vezes que eu acho que o sistema ainda é mantido justamente para isso, para exercitar desde a tenra idade a memória e não o fluxo de ideias.

5 – Eu tou ficando cega. Faz meses que percebo que não tou enxergando bem.

6 – Existe um culto à hierarquia e fé cega nos detentores de poder. A moda agora é estar consciente de que o governo impõe limites, sim, em questões como a liberdade de expressão, por exemplo, mas é bom. Liberdade e demonstrações desta tal liberdade conduzem ao caos. O caos conduz a divisões, separações. E se perderia a unidade chinesa, que pode ser qualquer coisa, mas é, acima de tudo, um conceito abstrato e fantasioso. Tem muita minoria neste caldo, muitas das quais nem tão minorias assim.

7 – A vida cotidiana, aquela longe das elucubrações tão caras aos ocidentais que passam o tempo aqui tentando, ingenuamente, entender os chineses, é deliciosa. Há uma amabilidade e um esforço da maioria das pessoas em se fazer entender, em tentar nos entender. No dia em que descobri que secador de cabelo chama-se “Máquina de soprar vento”, ganhei uma lição das minorias. Eu disse que não falava mandarim e o menino que me massageava – um mimo que só na China poderia haver, pré corte de cabelo no salão de beleza - disse que também não, antes de mudar pra Beijing. Como assim? O mocinho era de uma minoria que não consegui entender. Pedi desculpa pelo meu pobre mandarim e disse que não tinha tempo de estudar.

- Você tem ou não tem vontade. Não é questão de tempo – me disse o mocinho.

8 – Lukuang Xinxi é um programa de táxi que fala sobre o movimento das ruas. Em algum momento no táxi você vai ouvir a vinheta. Lukuang Xinxi!

9 – Qualquer birosca de Beijing tem por perto uma sex shop. Aqui, se chama loja para saúde dos adultos.

10 – A melhor cerveja chinesa é a Harbin. A mais famosa e fácil de encontrar é a Tsingtao. A primeira é russa, a segunda alemã. Alguém tá afins de conhecer Moscou? Me convida.

11 – Dá pra ir pra muitos lugares paradisíacos perto da China. Eu mesma tou indo pra Bali ver minha irmã semana que vem. Se a gripe permitir. Eu que aqui não pego nada, nem gripe, espero que a declaração de pandemia não estrague ainda mais meus planos. Para ir, vou pagar uma multa de uns US$ 500 e na volta terei de ficar sete dias em quarentena compulsória. Eles juram que não vão me descontar das férias. Espero não pegar a gripe suína, nem aqui, nem na China.

12 – Tem tanta coisa pra falar da China, que eu ainda nem comecei, juro. Mas você já cansou de ler, que eu sei.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Porto Alegre no mapa do mundo

Porto Alegre será sede da Copa do Mundo 2014 (http://www.clicrbs.com.br/esportes/rs/futebol-copa2014), o que parece, até onde eu li, nenhuma novidade, pois a escolha por parte da Fifa já era esperada. Agora, para receber as estrelas do futebol, a capital gaúcha ganhará uma melhor cobertura na rede de tratamento de esgoto, em projeto que prevê um salto dos atuais 27% para 80%, a duplicação da Avenida Beira-Rio, Tronco e melhorias na Voluntários, além de uma suposta linha 2 do metrô, até o Menino Deus.

- Confirmada a participação, chegou a hora de colocar a mão na massa - afirmou em entrevista à Zero Hora o secretário da Copa, José Fortunati, por sinal, também vice-prefeito.

Nossa, fiquei superfeliz com a escolha, pois se bem lembro, há coisa de duas semanas a mesma ZH fez uma matéria em que contava o suplício que é sair do centro em horário de pico e tomar um ônibus em direção à zona norte. Imagino que talvez esta melhoria prevista aí na Voluntários, além de agradar os previstos entre 40 e 50 mil turistas que virão à cidade, também signifique alívio a quem rala todo o dia para fazer da cidade uma cidade melhor. Por isso que eu adoro futebol.

Vivendo em Beijing há dois anos, um deles pré-olímpico, eu presenciei um pouco de o que são os esforços de uma cidade para receber um evento de escala mundial, com forte apelo popular, como o caso daqueles esportivos. Os resultados que fazem de uma cidade um modelo de urbanismo capaz de sediar tais eventos são positivos e acabam por beneficiar o cidadão comum. Ampliação de metrô (em Beijing, às antigas duas linhas somaram-se outras seis), a abertura e alargamento de avenidas, etc. Para além da infra-estrutura, ainda há um sem número de empregos temporários, novas oportunidades ainda que efêmeras e o que muito interessa, exposição do nome da cidade no mundo, o que pode significar novos eventos, mais turistas, mais renda. E a economia gira.

Porto Alegre já esteve no foco e até hoje é lembrada por motivos mais nobres que o futebol, com o perdão daqueles que discordam. Quando me perguntam de onde eu sou, ou o interlocutor não sabe, ou sabe que venho da cidade do Fórum Social Mundial. Em termos gerais, o fórum fez sucesso entre os espanhóis e franceses. Com eles, é sempre meio óbvio que vão saber onde fica Porto Alegre. Agora, claro, abre-se a oportunidade para que o mundo venha a conhecer a cidade como aquela perto da Argentina onde vai haver algumas partidas de futebol.

- E a cidade tem potencial no tema, é a terra do Ronaldinho - poderão dizer alguns.

Aliás, na hora de os jornalistas estrangeiros irem retratar Porto Alegre, dar uns toques para os telespectadores mundo afora que não sabem que no Brasil tem lugar onde faz frio e a gente não precisa usar fantasia de carnaval o ano todo e nem biquinis minúsculos, quero ver quantos deles terão a brilhante ideia de bater um papo com a dona Miguelina enquanto ela toma chimarrão, a bebida dos gaúchos, como são chamados os brasileiros que moram em Porto Alegre. Nós enquanto jornalistas somos extremamente criativos, por isso vários coleguinhas comeram muito escorpião no palito em Beijing para mostrar como os chineses têm hábitos estranhos na hora de se alimentar. E o mundo ficou bem mais informado sobre a China. Ai, por isso que eu adoro esportes em geral.

Mas voltando ao Fórum, é daqueles tempos de euforia e debates pelo povo e para o povo que a cidade forjou outra marca, a do berço do Orçamento Participativo, um dispositivo que clamava pela participação popular na hora de definir investimentos públicos. A ideia é tão atrativa no que diz respeito à cidadania que sequer foi abolida pelo atual governo, o do prefeito José Fogaça, que desbancou 16 anos de mando petista, partido que gestou e implantou o OP. Claro que eu nem estou discutindo que o OP nunca deu tão certo assim, afinal o que vale é a intenção.
Agora, Porto Alegre voltará ao centro mundial do debate no que diz respeito à participação popular na Expo Shanghai 2010, aqui na China, no ano que vem. A cidadegarantiu o 22º lugar entre projetos apresentados por municípios do mundo todo na categoria "urbanização sustentável" devido ao projeto de "harmonia social" que mantém, que será apresentado na área de Melhores Prátcas Urbanas. Ao lado de Porto Alegre, apenas São Paulo é outra cidade brasileira com participação em destaque no evento, que pretende atrair 70 milhões de visitantes ao longo de seis meses, 5 milhões destes, estrangeiros.

Bem, um dos objetivos do governo brasileiro é divulgar a Copa 2014. Eu, como porto-alegrense, torço por uma parceria de peso no projeto de revitalização do Cais do Porto, o que pode significar a consolidação da capital gaúcha como um destino charmoso para turismo de negócios e de outro espaço delícia para a entrega à boemia. Shanghai, que tem o coração econômico e financeiro às margens do Rio Huangpu bem que pode servir de inspiração. Afinal, a gente até já batizou de rio o lago lindo o qual damos as costas quase o tempo todo. E viva o pôr-do-sol no Guaíba.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Lula e os 13 acordos com Hu

13 acordos sino-brasileiros , entre os quais US$ 10 bilhões em empréstimos do Banco de Desenvolvimento da China para a Petrobras, numa operação que deverá ajudar a brasileira a desbravar o pré-sal. E agora vai.

De brinde, a instalação de uma unidade da montadora chinesa Chery, (http://www.cheryinternational.com/), negócio que já havia sido anunciado, mas que agora parece ter data para começar. E será ainda neste ano. O que falta é definir o Estado que receberá a fábrica, mas como o Rio Grande do Sul está fora, a Yeda pode se livrar de ouvir, eventualmente, que mandou a Chery embora. Na real, ela tem outras tantas coisas para se preocupar.

Parece que foi mesmo produtiva a visita de Lula a Beijing – que só acaba amanhã. O petista celebrou junto ao colega chinês, o Hu Jintao, o fato de a China ter ultrapassado os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil. E tome fôlego.

Analistas de mercado dizem que os resultados positivos que alavancaram as compras do pais chinês são fruto do pacote de estímulo do governo do Partido Comunista da China para escapar da crise. Na onda do dinheiro vivo, vieram investimentos pesados em infra-estrutura e, logo, a necessidade de compra de minério de ferro. E da necessidade de combustíveis, diga-se petróleo. Santa coincidência. Ao lado da soja, que também bombou no mercado asiático, estes são os produtos brazucas que mais vendem por aqui.



O governo chinês mostrou que tem bala na agulha para deixar a crise para os outros e acabou por ajudar o Brasil. Tem mais. Hoje mesmo os bambambans do poder beijinense anunciaram que a China crescerá 8% em 2009, custe o que custar. E tem caixa para isso, uma vez que até agora, nem foi preciso usar todo o investimento previsto no pacote de estímulo de 4 trihões de yuans. E de onde veio esta desmesura de dinheiro tem mais, se preciso for.

Claro que nem tudo são flores pra Lula. Ele volta pra casa com dois temas a fazer. Um se refere à venda de aviões da Embraer para uma companhia chinesa. Há problemas de internacionalização dos produtchénhos. O outro, as vendas de carne bovina e suína para China. A galera aqui é chegada num porquinho, consumindo 40% da produção mundial – e os suinocultores brasileiros estão loucos para fisgar os glutões. Não é todo o dia que se descobre um quitute apreciado por um mercado de 1,3 bilhão de bocas. Ainda não foi desta vez que os chineses embarcaram nos porcos brasileiros, mas quem sabe avança.


Lula começou o dia na imprensa, ao publicar um editorial no China Daily (http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2009-05/19/content_7790017.htm), jornal estatal chinês em inglês. Ali, o presidente diplomaticamente reforçou o papel de peso dos dos países em desenvolvimento no cenário mundial. Como economias em franca expansão, China e Brasil parecem mesmo estar na dianteira. Mês que vem, outros dois parceiros do bloco Brasil, Rússia, China e Índia, os Bric, têm encontro em Moscou. A ver quem fala mais alto.
Falar em falar, para além dos acordos financeiros e comerciais, que é o que interessa, Lula reforçou a necessidade de mais entendimento cultural entre chineses e brasileiros. Eu estou aqui me esforçando. O cartunista do China Daily também.



segunda-feira, 18 de maio de 2009

Lula aqui


Lula e Hu durante a Olimpíada, foto de Ricardo Stuckert, Agência Brasil

A estas alturas, Lula e dona Marisa já jantaram com o excelentíssimo presidente da República Popular da China, Hu Jintao, casado com sabe-se lá quem. Acabei de me dar conta que não sei o nome da primeira-dama da China, sequer sei se ela existe. Mas deve existir.

Falemos, pois, do que interessa. O jantar no Jardim Imperial da Casa de Hóspedes do Estado, ou Diaoyutai (钓鱼台国宾馆) (http://www.chinadyt.com/index.htm) foi o primeiro compromisso oficial de Lula na viagem de três dias à China. Provavelmente, o mais diplomático, se considerarmos que este não previa o fechamento de contratos, anúncios de parcerias e cooperações bilaterais e etc. Mas diplomacia pode ser tudo, especialmente em se tratando do maior parceiro comercial do Brasil, status conquistado pela China em abril, quando o país asiático desbancou 80 anos de hegemonia norte-americana.

Gestada desde o ano passado, a viagem de Lula à China foi a segunda em um ano, pois o presidente esteve por aqui para a abertura da Olimpíada, em agosto último. No entanto, é a segunda visita em cinco anos à China na busca de parcerias estratégicas. Os objetivos são financeiros, deixe-se claro, mas também políticos, numa tentativa de afinar os discursos e jogar com mais força e em conjunto no cenário internacional. O papo de unir forçar Sul-Sul e etc. Nada mais oportuno.

O mundo vive a crise. A crise gerou previsões catastróficas. As exportações brasileiras para a China aumentaram 64,7% no primeiro quadrimestre em relação ao mesmo período do ano passado. A China passou os Estados Unidos como maior destino de produção verde e amarela. Opa, bom sinal. Tão promissor que Lula trouxe na pauta propostas como a de os países selarem contratos em moeda nacional, numa operação batizada como swap no jargão economês e que, em tese, escanteia o dólar e permite que os bancos centrais dos países envolvidos enviem dinheiro local um ao outro. Peso pesado político.

Ao presidente brasileiro cabem outras tarefas árduas, como convencer a China a comprar frango e suíno brasileiros, além de garantir acordos para áreas como tecnologia, biotecnologia, biocombustíveis e petróleo. A estratégia parece boa, já que Lula veio munido de um plano quinquenal, expressão tão recorrente no vocabulário político chinês, que estabelece as metas para o país em grandes congressos nacionais do Partido Comunista da China a cada cinco anos e depois lança os tais planos quinquenais, os verdadeiros guias do desenvolvimento por estas bandas. Como comentava ontem com amigos, melhor do que falar a língua é conhecer os meandros da cultura sociopolítica de um país para garantir bons negócios.

Amanhã Lula deve estar com a cartilha do mandarim na ponta da língua, seja esta recitada com ou sem tradutor. A agenda presidencial brazuca inclui encontros com a nata do poder chinês, a começar pelo primeiro-ministro, Wen Jiabao, que ocorrerá em Zhongnanhai, complexo onde vivem os figurões do partido. Dali, Lula seguirá para o Grande Palácio do Povo, onde se encontra com o vice-presidente, Xi Jinping, retribuindo a visita do chinês ao Brasil no final do ano passado, com o presidente da Conferência Consultiva do Povo Chinês, Jia Qinglin e, finalmente, com Hu. Antes de outro jantar entre a dupla Sul-Sul, ocorrerá uma sessão de assinaturas de acordos, que, se saírem do papel, podem significar números ainda mais animadores do que os 64,7% que alavacaram a China à posição de compradora número 1 do Brasil. A ver.

Ainda nesta terça-feira, o presidente concede entrevista à estatal chinesa de televisão CCTV e participa da cerimônia de inauguração do Centro de Estudos Brasileiros da Academia de Ciências Sociais da China, além de almoçar com empresários dos dois países.

terça-feira, 5 de maio de 2009

检疫, a palavra da discórdia

Você tem medo da gripe A (H1N1)? A China tem. Tanto que tomou medidas duras para tentar barrar o vírus no país do que antes era chamada a gripe suína, ou 猪流感, zhuliugan, por aqui. Agora ficou 甲型H1N1流感, ou gripe A(H1N1). Juro.

Talvez seja excesso de zelo por conta do trauma provocado pela SARS, que, como contou a Cláudia Trevisan no blog dela sobre a China, contaminou 8.096 pessoas e matou 774 em 29 países e regiões em 2003. Até agora, a tal Síndrome Respiratória Aguda Grave é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a mais séria doença contagiosa dos tempos recentes.

A SARS fez o maior número de vítimas na China e em Hong Kong. Hong Kong confirmou um caso da gripe que assusta agora. O paciente é um mexicano de 25 anos que chegou ao país no último sábado, passando por Shanghai. Pronto. Palavra de ordem: 检疫, ou jianyi, que quer dizer quarentena. Quarentena nele e nas pessoas que estiveram próximas. Grita dos países de quem ficou retido. Tem de mexicano a canadense nesta situação, passando pelos próprios chineses.

A China, gato escaldado, não quer nem saber se está reagindo drasticamente ou não e não parece se preocupar com os rótulos de antipática, racista ou radical. Para não parecer tão insensível, ofereceu ajuda humanitária de US$ 5 milhões ao México. Em dinheiro foram US$ 1 milhão, já transferido. O restante é em material de apoio. Até agora, dois aviões chineses levaram à Cidade do México kits com máscaras, termômetros e que tais. Não sei a situação da tripulação.

O governo local se defende. Segundo a subdiretora do Departamento Municipal de Saúde de Beijing, os confinados recebem flores e frutas, além de poderem se comunicar com o exterior, ver TV, ouvir música, ler livros e acessar internet. Então tá. Como pagamento, além do tempo dispendido em quartos de hotéis e de hospitais, têm de passar por exames duas vezes ao dia.

E segue o baile. Enquanto os humanos tentam lutar contra a gripe para que não se torne pandemia, os produtores de carne suína vão também pagando o pato por aqui. O preço da carne de porco caiu de 13,41 yuans, ou US$ 1,96, por quilo em janeiro para 9,88 yuans em abril, ou US$ 1,45.

A OMS, no entanto, vive advertindo. Comer porco, desde que bem cozido, não traz mal ao homem. Mas é a velha história de zelo e tals. A China, por via das dúvidas, suspendeu importações da carne e de derivados suínos do México e outras localidades dos Estados Unidos.

Sim, como vocês perceberam, não basta estar com um baita problema de saúde pública para resolver, é preciso ter encrencas econômicas envolvidas, convidadas inesperadas na ressaca mundial pós-crise.

Cliques

O movimento de 4 de maio, sobre o qual falei no último post, levou pouca gente às ruas, mas ainda assim quem foi fez barulho e alguns líderes chegaram a ser presos. A sacudida foi suficiente para acordar uma parcela intelectual da população que daria início ao movimento que desembocaria na fundação do Partido Comunista da China. Mas isso tudo a gente já viu ontem.

O que a gente ainda não tinha visto por aqui eram fotos da época. Então seguem duas, emprestadas do blog ilishi.com, que traz imagens antigas principalmente da China, mas também de outros acontecimentos marcantes mundo afora.


Neste clique, os revolucionários empunham duas bandeiras do primeiro período republicano chinês. Em tempos de governo central enfraquecido e tentantivas de volta ao império, era importante lutar pela democracia por meio da legitimação da república


Os estudantes de universidades conceituadas da China, especialmente a Universidade de Pequim (北京大学, Beijing Daxue, ou 北大, Beida) saíram às ruas da capital

Hoje, no meu parco mandarim, consegui entender que há registros de maio de 1968 em Paris.



Curti mesmo esta série de Suzhou, cidade conhecida pelos mais belos jardins da China. Os cliques são da década de 1980 e copio um aqui abaixo, mas sugiro fortemente todas as fotos. Os flagrantes da vida cotidiana de quase 30 anos são divertidos, e trazem um pouco do que era a moda e o estilo da época (e também lembra que estou velhinha)



Bueno, já que o tema que originou este post são os estudantes de 4 de maio de 1919, aqui vai o link para as imagens.

***

A China através das lentes de John Thomson - 1868-1872

Falando em fotos antigas, o Museu de Arte de Beijing exibe até 18 de maio A China Através das Lentes de John Thomson - 1868-1872. Thomson é um dos pioneiros do fotojornalismo. Nascido em 1837 em Edimburgo, na Escócia, mudou em 1862 para Cingapura e dali empreendeu diversas viagens asiáticas.

Quatro anos mais tarde iria viver em Bangcoc, capital tailandesa, e em 68 adotaria a então colônia britânica de Hong Kong, onde começou a estudar a cultura chinesa e a fazer viagens curtas à província vizinha de Guangdong. Em 1870, iniciou uma expedição pelo continente, que o levou até Fujian, no sudeste do país, passando pela então capital imperial, Beijing.

A viagem rendeu ao fotógrafo a alcunha de China Thomson na volta à Europa. E, claro, vários registros da época. A exibição que agora está em Beijing traz 150 imagens. A BBC preparou um slideshow com algumas delas, para quem tem preguiça de ir até o museu. Quem não tiver, siga o mapa. O museu fica na Fuxin Lu, número 9A, no Distrito Haidian.

Depois da capital chinesa, as fotos serão expostas em Fujian, de 14 de junho a 16 de agosto, em Guangzhou, de 26 de agosto a 27 de setembro, em Dongguan, de 3 de novembro a 2 de dezembro e, depois, no World Museum de Liverpool, em comemoração ao Ano Novo Chinês.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

90 anos de movimento estudantil chinês

A China celebra hoje o Dia Nacional da Juventude, data que merece pompa e circunstância, como pedidos do presidente, Hu Jintao, para que os jovens lancem mão de todo o seu patriotismo e trabalhem duro pelo desenvolvimento do país. Tudo isso porque em 4 de maio de 1919 estudantes saíram às ruas de Beijing para pedir democracia e protestar contra o governo, com vistas ao fim do que se convencionou chamar feudalismo.

Para a cúpula do poder chinês, tal vigor juvenil ainda serve como exemplo. O movimento de cunho político e cultural de 1919 acabaria na fundação do Partido Comunista Chinês (PCC) dois anos mais tarde, em Shanghai. Apesar dos louvores aos líderes e intelectuais revolucionários e sedentos por mudanças da época, aos jovens agora é ensinado que ao lançarem mão da energia típica a esta fase, que o façam trilhando os caminhos do socialismo com características chinesas, a denominação oficial do sistema político da China, que vive épocas de competição capitalista sob controle forte de atos e até de pensamentos, se possível.

Restrição à liberdade de expressão e pânico a movimentos organizados podem ser herança de uma outra peripécia da classe estudantil, esta realizada 70 anos depois da manifestação lembrada hoje e apagada da história pelo poder em Beijing. Parece-me que a moçada de 1989 que fincou pé na praça também pedia democracia, mas àquelas alturas, a mão mais forte do governo central tapou ouvidos e bocas. Tirou o povo de Tiananmen e fez com que o baile seguisse com a mesma batida orquestrada décadas antes. Os primeiros acordes estão no movimento democrático de 4 de maio. Vamos a ele?

O conceito de república na China é recente. Somente em 1912 o país deixou para trás um sistema imperial, ao acabar com a Dinastia Qing (1616-1911), graças a articulações de Sun Yat-sen, o fundador da república. A recém instituída República da China, ou 中华民国 - Zhonghua Minguo (cuja primeira bandeira você vê abaixo), tinha um poder incipiente e sofreria golpes de militares com pretensões imperialistas e a oposição dos senhores da guerra, os verdadeiros líderes que tomavam as rédeas de controles alfandegários e fiscais de diversas regiões da China, separadamente.



Yat-sen já nem estava mais no país e o governo central enfraquecido veria seu comando se perder ainda mais ao final da I Guerra Mundial (1914-18), quando graças ao Tratado de Versalhes, o acordo entre os países vencedores e perdedores, a China viu entregues ao Japão as concessões alemãs de então no país (concessões estas frutos de uma política internacional desastrada).

Num basta aos desgovernos e pedindo a soberania do país com ideais democráticos e pelo fim do feudalismo, estudantes e intelectuais tomaram as ruas de Beijing para protestar, onda que se espalhou país afora. Um dos líderes, Chen Duxiu, professor da Universidade de Pequim, seria fundador do Partido Comunista da China. Antes, ele fundou um dos veículos que mostraram e moldaram o novo pensamento chinês, ou daqueles que queriam mudança no modelo de então, a revista Nova Juventude (新青年, Xin Qingnian). Pois são a partir de artigos e textos da publicação, cuja capa se vê abaixo, que se percebe a orientação comunista de Chen, que veria no modelo político russo o ideal para a China.



À beira do primeiro centenário, a república chinesa encerra muito mais história do que um post poderia contar. Fato é que ela segue e, desde 1949, adotou o modelo sugerido nas páginas da Nova Juventude, quando finalmente o Partido Comunista da China chegou ao poder e fundou a República Popular da China, ou 中华人民共和国 - Zhonghua Renmin Gongheguo. Vida longa à República Popular da China diz o cartaz abaixo, ou 中华人民共和国万岁 (Zhonghua Renmin Gongheguo Wansui). Esta última, aliás, completa 60 anos em 1º de outubro. Mas isso é assunto para outra hora.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Graaaaaaaaaaaaaaaaande, Muralha

A Muralha da China cresceu. Agora, tem 8,5 mil quilômetros, a bagatela de 2,5 mil quilômetros a mais do que as contagens anteriores. Segundo reportagem de hoje da BBC, o novo número apareceu graças a uma pesquisa de dois anos feita pelo governo chinês.



A diferença existe porque até agora a extensão da barricada gigante era estimada apenas com base em fatos históricos. Aí entraram em cena equipamentos com infravermelho e tecnologia GPS e, plim, foram encontrados trechos antes escondidos - devido a tempestades de areia, por exemplo.

Agora, a muralha é oficialmente composta de

- 6.256 quilômetros de muralha
- 359 quilômetros de trincheiras
- 2.232 quilômetros de barreiras naturais, como montanhas e rios

As novas descobertas tratam-se de construções datadas da Dinastia Ming (1368-1644), entre as províncias de Liaoning e Gansu - um trecho que sai de perto do Mar Amarelo, passa por Beijing e vai em direção a Oeste.

O mapeamento da Muralha ainda demorará outros 18 meses.

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Passeio na Muralha

A foto que ilustra este post foi tirada pela Maíra Akemi, minha irmã, no ano passado, quando ela, o Cris e a Rafa vieram me visitar. Fica no trecho de Badaling, o mais turístico e bastante próximo da capital.

Para chegar até lá, há ônibus diários, saindo ao lado da Praça da Paz Celestial, por 100 yuans (e com almoço incluído. É, hm, tipo assim...).

domingo, 19 de abril de 2009

Acupuntura para quem precisa

Você meu leitor já entendeu que estou de dieta e passando por um tratamento de acupuntura, né? Conto isso tudo aqui, mas hoje, só hoje, resolvi republicar um post quase que na íntegra, até porque ele fala um pouquinho sobre o que é acupuntura, então acho que cabe. Pra ilustrar, minhas joaninhas quase à beira de um ataque, em fotinho da Paula.



A acupuntura integra a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e é utilizada na China para combater males há centenas de anos. Os primeiros registros datam de coisa de entre 2 mil e 3 mil anos. O princípio seria simples, manter a harmonia do corpo, alcançado através de estímulos em pontos específicos, que corresponderiam aos diversos órgãos. Para isso, a MTC delineou um mapa que aponta os hemisférios, ou os pontos onde deverá ocorrer a intervenção. No mapa aí de baixo, roubado daqui, você pode ter uma idéia do que estou falando.



O conceito trabalha com a questão do equilíbrio da energia no corpo, outra crença tão cara aos chineses, cujo símbolo máximo, o do equilíbrio, é o taoista Yin e Yang.

Até hoje a eficácia da acupuntura é debatida no Ocidente. Não é de agora que a técnica causa estranhamento e provoca desentendimentos. O primeiro deles ocorreu já na tradução, quando o tratamento foi mostrado fora dos limites asiáticos.

Acupuntura em mandarim é zhenjiu, ou 针灸, cujos caracteres significam agulha e moxa (este último, outra técnica da MTC que se utiliza de ervas incandescentes). Mas o jesuíta apressado (ou vítima de um mal entendido) traduziu para agulha e punção, o que no latim fica acumpunctum e dai você já entendeu. Resultado é que até hoje ligamos o nome às agulhadas e muitas vezes ignoramos que a técnica abarca outras modalidades, como a própria moxa e as ventosas.

Em resumo seria assim, a MTC tem mais de uma maneira de estimular os pontos, ou hemisférios, do nosso corpo, a fim de garantir a esse equilíbrio de energia e, logo, harmonia.

Organização Mundial de Saúde

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a acupuntura como Medicina Alternativa ou Complementar (MAC). Isso significa que a entidade acredita no tratamento como aliado às técnicas da medicina ocidental. Segundo a OMS, em países desenvolvidos, entre 70% e 80% da população já fez uso de técnicas da Medicina Tradicional – que inclui ainda fitoterapia e terapias manuais, como massagens.

No site da organização (em inglês), a entidade afirma que evidências mostram a eficácia da acupuntura no alivio de dores (e de yoga para prevenir crises de asma e de Taichichuan para o equilíbrio dos idosos, se vale a informação). No entanto, alerta que ainda são necessárias mais pesquisas. O que a entidade já faz e trabalhar junto aos países para que estes acrescentes a MT aos sistemas nacionais de saúde, a fim de que se garantam politicas sobre produtos e práticas e, por conseguinte, segurança e qualidade nos procedimentos.

Brasil

O Brasil também reconhece a acupuntura como Medicina Alternativa ou Complementar e desde 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) reconhece tais terapias como eficazes para a prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde. Assim, estão autorizadas no Sistema Único de Saúde (SUS).

Mas a mesma politica abriu um debate no meio médico e de saúde ao garantir o carater multiprofissional destes métodos. Segundo o texto, as práticas integrativas e complementares podem ser exercidas por profissionais de saúde de áreas diversas, desde que devidamente capacitados. A acupuntura, no Brasil, é realizada por profissionais da área da biomedicina, educação física, enfermagem, farmácia, fisioterapia, medicina e psicologia.

Aliás, de repente lembrei que não faço ideia da formação da minha terapeuta.

Golpe de mestre

Você que me lê por aqui provavelmente já ouviu falar de Jackie Chan, 55, e caso não conheça a estrela chinesa de filmes de kung fu, logo abaixo tem uma foto da carinha para refrescar sua memória. O clique é da página oficial do ator, durante filmanges de alguma coisa em Shinjuku, que, segundo o que me consta, é um bairro japonês. Deve ter alguma coisa sino-japonesa vindo por aí.



Chan figura em diversas propagandas por aqui, durante a Olimpíada, era quase mais famoso do que astros esportivos locais, como o jogador de basquete Yao Ming e o medalhista dos 110m com barreira em Atenas, Liu Xiang.

Pois neste sábado, Chan saiu das telas para entrar em cena e agradar uma plateia de elite, a de líderes políticos chineses, que junto a outros governantes da Ásia estavam reunidos em Hainan, ilha ao sul da China, para o Fórum de Boao. O evento anual seria a versão asiática do Fórum de Davos.

Pois bem, diante destes senhores, Chan, segundo a agência de notícias AP, foi breve:

- Eu não tenho certeza se seria bom ter liberdade ou não. Eu estou realmente confuso. Se você é livre, será exatamente como Hong Kong é hoje em dia. Super caótico, assim como Taiwan é caótica – disse o ator, que, aliás, é de Hong Kong.

A estrela do cinema – que tem uma legião de fãs por aqui, onde é conhecido como o Dragão Cheng, ou 成龙 – foi ainda mais querida para com o público que o assistia.

- Eu estou começando a sentir que os chineses precisam ser controlados. Se não for assim, faremos apenas o que quisermos – disse o ator.

Ao avaliar os jovens chineses, Chan disse que eles preferem o que outros (apesar de eu não ter entendido exatamente quem são estes outros) fazem, não o que os chineses fazem. Bueno, talvez ele também.

- Se eu preciso comprar uma TV, definitivamente comprarei a de uma marca japonesa. Uma chinesa poderá explodir.

Bom discurso para um encontro onde a maioria era de líderes chineses. Se tivesse Olimpíada de novo, garanto que ele novamente seria convidado para cantar na cerimônia de encerramento. Apesar de eu ter ficado de cara com a fala do astro cinematográfico, às vezes, sou obrigada a concordar com ele. Alguns produtos chineses são realmente uma bomba.

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Página em português do gajo.

terça-feira, 31 de março de 2009

1º de abril ou pirataria de pandas?

O panda é lindo, poderia dizer Caetano, né não?

Na real, Caetano e a torcida do Flamengo do mundo inteiro acham o panda fofinho. Os bichos em preto e branco, no entanto, desempenham papéis muito mais relevantes do que apenas transformar adultos em crianças e crianças em criaturinhas enlevadas pelas bolinhas blase de pelo chinesas. Pandas têm função diplomática também.

Quer ver o caso de Taiwan? Há três anos o governo chinês ofereceu um casal dos ursos ao zoo de Taipei. Mas durante a gestão de Chen Shui-bian, não houve conversa. Em maio, quando Ma Ying-Jeon, visto com mais simpatia por Beijing e tido como um concilidador nos temas espinhosos para os dois lados do estreito, resolveu aceitar o mimo.

Pois bem, em dezembro, Tuan Tuan e Yuan Yuan chegaram a Taipei. O gesto do governo chinês, que já se estendeu a países como Austrália, Japão e Estados Unidos, pega superbem. Os bichos estão em extinção, estima-se que haja pouco mais de 1,5 mil exemplares vagando à procura de bambu por aí. Um dos motivos para a escassez de pandas residiria no parco apetite sexual da espécie. A fêmea entra no cio de dois em dois anos e o panda macho é macho, mas parado que só. Além de demorar pra tomar uma iniciativa, parece que não é lá muito criativo e só faz um sexo preguiçoso e na mesma posição sempre. Acho que as pandas tão querendo uma renovada, sei lá, e se fazem de difíceis.

Pois esse não seria o comportamento da dupla Tuan Tuan e Yuan Yuan, cujos caracteres juntos (tuan e yuan) significam união. Parece que eles gostam de se unir bastante, segundo reportagem de hoje do jornal taiwanês Taipei Times. A responsável por eles no zôo, Connie Liu, disse que eles são tão ativos sexualmente que chegam a constranger pais e crianças. Panda é panda, mas o sexo dos pandas não seria tão fofinho assim.

Opa, o problema é justamente esse. Ser ou não ser panda, eis a questão. A reportagem diz que os pandas não são pandas, mas ursos selvagens de Wenzhou, outra região aqui da China. Seria primeiro de abril? A reportagem, eu digo. Não me passa pela cabeça que Taiwan teria recebido pandas falsos.



Ainda segundo a reportagem, o casal teria sido tingido, e agora os pêlos estariam aparecendo. Os pêlos marrons. O texto diz que o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Qin Gang, teria manifestado, por meio de um comunicado, que o governo chinês "espera que os amigos de Taiwan gostem dos raros ursos de Wenzhou dados como presente". Como não sei procurar muito em chinês, não achei este comunicado.

Mas, sério, tou custando a crer. Não seria por demais arriscado presentear ursos falsos justamente quando se trata de um mecanismo diplomático para aproximar regiões? O Taipei Times compara o escândalo ao do leite em pó contaminado por melamina, que deixou mais de 300 mil bebês doentes, a maioria com pedras nos rins, e provocou duas mortes.

Eu ainda tou pra ver se não é uma bela história de 1º de abril. Se for verdade, é a mentira mais legal dos últimos tempos.

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A foto eu roubei daqui.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Anos de estudo

Hábitos de uma sociedade estão aí para formarem uma unidade e para serem respeitados, certo?

Pois no ano passado, durante a febre olímpica e a invasão de tropas jornalísticas estrangeiras na China, o hábito que alguns chineses mantêm de cuspir onde quer que estejam virou manchete, grifo, tese, parte de matérias, fossem elas visuais, sonoras ou apenas escritas. Para ilustrar exatamente como os chineses se comportam, o cuspe virou multimídia, quase tão famoso como comer inseto - realidade esta tão próxima da maioria das famílias chinesas aqui de Beijing como a de macacos andando em cipós pelas principais cidades brasileiras.

Fato é que chineses escarram, sim, alguns mais, outros menos, creio que alguns nem o façam. Então, vá lá, apesar de haver um milhão de outras coisas para se falar sobre este povo com milênios de história, o cuspe acaba sendo meio central, talvez pelo fator inusitado, estranho à cultura ocidental. Agora não pense que a preocupação de barrar a cusparada seja atributo dos não chineses. A mania já foi alvo de propaganda (contrária, deixe-se claro) governamental ainda nos anos 50, como mostra esta pérola encontrada no Youtube, que achei graças a um artigo do site Shanghaiist. A mensagem deixa claro que cuspir pode transmitir doenças e seria mais adequado que os transeuntes o fizessem no seu próprio lenço. Durante a SARS, o governo lançou mão de campanhas severas em relação ao tema, desta vez preocupado com uma epidemia que poderia matar milhares de pessoas.



Tanto alarde para questões de saúde e higiene, no entanto, ainda não foram suficientes para barrar a moda. Para terminar, um cartaz recentemente fotografado por mim no mercado de pulgas de Beiijng, o Panjiayuan (潘家园).



Hm... menti. Não vou terminar com o cartaz. No ano passado, ainda na onda olímpica, as diversas campanhas pedindo para que se parassem como cusparadas foram interpretadas por muito estrangeiro como uma tentativa das autoridades para educar a população chinesa, segundo moldes ocidentais. Esquecemos, pois, que tais campanha também encerram caráteres mais primordiais, como saúde pública.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Um primeiro-ministro internético


Wen Jiabao (温家波), o primeiro-ministro chinês, é conhecido aqui na China pela simpatia e pela maneira afável, bonachona, com que trata os chineses. Hoje ele quis ser moderno também e participou pela primeira vez de uma entrevista online.

Apareceu de tudo, como dúvidas em relação ao salário de um premiê, se ele alguma vez na infância havia almejado chegar ao cargo e até uma pergunta infame perguntando o quanto - e quando - de álcool ele bebe, comparando-o a um dos antecessores, Zhou Enlai (bueno, não sabia que o amigo do Mao tinha fama de bebum, mas vai ver que tem). O episódio do sapato arremessado contra ele em Cambridge no início deste ano também veio à baila.

A preocupação central, no entanto, tem a ver com empregos e crise. Ou a falta de emprego e a necessidade de se ampliar o consumo. Apesar de até agora 15,3% dos 120 milhões de trabalhadores migrantes terem abandonado as cidades para voltar às suas aldeias, no chat quem mais perguntava sobre o tema desemprego eram jovens recém saídos da faculdade e também ainda sem ocupação. Aliás, a quantidade de perguntas de jovens pode indicar que a rede é mesmo popular nesta faixa estária.

A China, como diversos outros países, vê o desemprego afetar prioritariamente duas esferas diferentes da sociedade, os pouco instruídos trabalhadores migrantes (mão de obra barata para pegar no pesado) e os graduados ainda sem experiência profissional.

Wen não foi lá muito otimista. Disse que a crise está longe de acabar e que o caminho para superá-la será árduo. Sobre as decisões do governo acerca da questão e de outras más, ele disse que os cidadãos têm o direito de criticar e expressar suas opiniões.

Zona Política Especial

O fórum para a declaração de Wen acerca das críticas populares parece adequado. A Internet é vista na China como um espaço de construção democrática e de discussões que levam a decisões políticas, inclusive. Inclusão digital...

A coisa é levada tão a sério que o espaço, mesmo controlado por diversos filtros impostos pelo próprio governo chinês, é chamado de Zona Política Especial, uma referência às Zonas Econômicas Especiais, as cidades chinesas que têm status diferentes das demais e que, na prática, detém mais flexibilidade na hora de negociar com o Exterior. O modelo foi implantando no país pela primeira vez há 30 anos, mais ou menos.

Os chineses, que aprenderam que podem criticar, também aprenderam ser irônicos. Quando querem falar de algum tema mais sensível, usam a expressão hexie. Um chiste com o significado "harmonioso" que hexie pode encerrar, se grafado 和谐. É assim que o presidente, Hu Jintao, classifica a sociedade da China, uma sociedade harmoniosa - e é neste caminho que ele busca apoiar suas políticas. Os sensores, ao descobrirem que a harmonia pretensa dos internautas trazia vozes dissonantes àquelas almejadas pelo poder central, começaram a censurar mensagens e sites que continha a expressão. Mas o mandarim permite que um mesmo som tenha outro significado - e, na grande maioria das vezes, isso é escrito com diferentes caracteres. Agora, para marcar temas sensíveis, os internautas usam o mesmo hexie, mas para significar caranguejo do rio: 河蟹.

Aberto a críticas

Wen Jiabao disse estar aberto a críticas, não é mesmo? Um internauta aceitou a provocação do premiê. Há poucos dias na China ele provocou polêmica a ajudar com dinheiro uma criança portadora de leucemia de uma província vizinha a Beijing, Hebei, a garantir vaga e tratamento em um hospital da capital.

Durante o chat, Wen teve de admitir que não basta um primeiro-ministro bom, mas é necessária a constituição de um sistema médico que satisfaça as necessidades da população. A China tem 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma é avaliado em quase US$ 15 mil. Wen, aliás, doou US$ 1,46 mil à paciente em questão.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

China Daily nos Esteites



O maior jornal chinês em língua inglesa agora tem uma redação nos Estados Unidos. Desde segunda-feira, 23 de fevereiro, o China Daily USA circula nas bancas norte-americanas com uma proposta um tanto ousada, transformar o inverno econômico em primavera, segundo escreveu em carta aos leitores o editor-chefe da publicação, Zhu Ling.

O braço estatal do governo chinês chega com pompa e anuncia que é espaço para os tomadores de decisões e os pensadores independentes. Sem crise. Com tanto jornalão norte-americano pedindo água, o aporte chinês pode ser até alívio para os jornalistas. Entre as propostas, está a apuração dos fatos em cima dos fatos, com repórteres in loco. Certa contradição para uma imprensa - a chinesa - vista com ressalvas. Seria a forma de apuração o pulo do gato? Em tempos de enxugamento de redações, os chineses vão contra a maré.

Mas há mais coisas neste caldo do que só salvar jornalistas aflitos por empregos. Por mais que eleger modelos midiáticos mais modernos - e objetivos, digamos assim - possa ser um truque interessante, o alvo parece outro. O slogan do jornal é claro ao dizer a que ele veio: "Traga o seu negócio para perto da China". Somado a isso, o desejo claro dos chineses de propagandear o seu país por meio de uma visão sem preconceitos ocidentais.

Por enquanto, o China Daily USA circula em todos os estados norte-americanos e no Canadá na edição de segundas-feiras. Já de terça a sexta, a tiragem abrange apenas a cidade de Nova York.

Na China, a publicação em inglês, o único jornal nacional do gênero, tem uma tiragem diária de 260 mil exemplares. No celular, o número de assinantes supera os 150 mil. Segundo o próprio China Daily, 85% dos leitores estão na faixa dos 31 a 55 anos. Gente que consome - e que gera renda pra isso -, saca?

Para o outono de 2010 na Europa, o que a gente pode contar como algo perto de setembro, está previsto o lançamento da edição China Daily Velho Continente.

A iniciativa norte-americana é o primeiro passo concreto de um pacote governamental não anunciado formalmente, mas que vazou em janeiro na imprensa de Hong Kong. O governo planejaria gastar mais de US$ 6,5 bilhões para melhorar a imagem do país no Ocidente. Toda esta grana, voltada às principais mídias estatais chinesas.

Com uma estratégia a ser construída junto a consultores internacionais, o objetivo seria ganhar notoriedade. A Xinhua, agência oficial, por exemplo, ampliaria a presença exterior dos atuais 100 países para 186. Aliás, este mesmo ramal seria o responsável pela criação de um canal de televisão em português, o que até agora não consegui confirmar. Ai, mal de fontes. Para a telinha, um dos modelos a serem seguidos é o da televisão Al Jazeera, do Qatar.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Vai um cinezinho aí?



Primeiro vieram os Oscar, depois os holofotes todos para Slumdog Millionaire, o filme baseado no livro do indiano Vikas Swarup, batizado em 2006 no Brasil como Sua Resposta Vale Um Bilhão - e que agora tem nova edição em português.

Imagino que você saiba do que falo. A história se passa na Índia. Um ex-garoto de rua sofre durante infância e adolescência justamente em razão da condição financeira miserável - o que destrói a família, o leva para o mundo dos pequenos crimes, o deixa em contato com gente grande do crime. De repente, ele se vê prestes a botar a mão numa bolada por acertar respostas de perguntas sobre conhecimento geral em um programa de TV.

Na ficção, os responsáveis pela versão indiana do Show do Milhão (ai, o Sílvio Santos) desconfiam de Jamil Malik (o personagem principal, vivido por Dev Patel). Ele seria ou alguém de muita sorte, ou um gênio, ou um trapaceiro. Melhor mandar prender.

O roteiro eu vou parar de contar, caso alguém ainda não saiba. E se já sabe, menos motivo pra falar disso. Fato é que a história de miséria na Índia, em que há criminalidade, favelas e grandes diferenças entre ricos e pobres e que termina com final feliz, no jogo e no amor, chegará aos cinemas chineses até abril, segundo anunciou o Grupo de Cinema da China, responsável pela importação dos filmes estrangeiros no país.

Passou assim pela minha cabeça se um programa de TV como o que conduz o filme faria sucesso por aqui. Imagino que sim, que muito. Segundo o governo, Slumdog Millionaire irá para as telas sem cortes, pois traz uma mensagem positiva, de perseverança. E viva a liberdade! O anúncio oficial diz assim: "A decisão de adquirir os direitos de exibição do filme se deu devido ao valor artístico e ao tema positivo, saudável e inspirador da produção, comprovados pelos oito Oscar que conquistou neste domingo".

No site IMDb, o Internet Movie Database (ou banco de dados de filmes na internet), quem gostar da obra indiana com roteiro e direção ingleses também deve gostar de O Caçador de Pipas e de Cidade de Deus. Basicamente um sessão de "vamos entender como a pobreza funciona em diferentes países".

Pobreza indiana

Para mim, que pouco entendo do riscado, os planos e as sequências na favela indiana muito lembram Cidade de Deus. Como se não bastasse uma galinha aparecendo, destaque para a fala do bandido mirim Salim, irmão de Jamil (que quando criança é interpretado pelo fofo aí abaixo, o Ayush Mahesh Khedekar), que muda de nome quando resolve assumir a pose de chefe do crime.



- Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra - você deve ter lembrado. Ou deveria. Eu lembrei, pelo menos.

Toda a plasticidade sobre a pobreza em amarelo - a brasileira era mais cinza, tinha uma cor ocre só lá no início da Cidade de Deus - explorada pelas lentes e olhares britânicos, no entanto, viaja sem dó no mundo da pieguice de Bollywood ao terminar o filme dum jeito água com açúcar, com uma coreografia de "gosto duvidoso" ilustrando os créditos. Olha, foi de propósito, né? Tanto o final meloso quanto a dancinha, eu digo. Era uma ironia acerca de quão pobre um filme pode terminar, se esta for a intenção. Eu sinceramente espero que sim. Não vi nenhuma conexão entre o final e o resto.

Estrangeiros na China

Desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), 20 filmes estrangeiros podem ser exibidos nos cinemas do país, desde que haja divisão de lucros. Antes, eram 10 títulos.

A restrição, somada às pesadas taxas impostas às distribuídoras, faz que somente filmes muito atraentes aos espectadores chineses venham parar nas telas. Perder dinheiro por aqui é que não dá.

Para além de 20

Claro que um DVDzinho sempre rola. Eu já comprei meu Slumdog, assim como uma lista gigante de indicados e vencedores do Oscar por cerca de R$ 4, cada. Tenho restrições a esta prática, mas tem horas que me sinto tão feliz atualizada. Aliás, se alguém ainda não se atualizou, aqui vai o trailer do filme.



Constatação. Mesmo que seja para menos gente, a magia do cinema ainda está lá. Ver um filme na tela grande é outra história. O preço do ingresso aqui em Beijing varia entre algo em torno de R$ 10 e R$ 35, dependendo do cinema e também da classe da sala. Tem umas tais de salas VIP a que nunca fui. O truque é pegar o cineminha esperto às terças, quando todos os estabelecimentos da capital oferecem 50% de desconto. Adoro esta ideia!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

12 anos da morte de Deng Xiaoping



19 de fevereiro é a data da morte de Deng Xiaoping (邓小平), que, pra quem não sabe, foi o responsável por implementar a política de reforma e abertura da China. Hoje, no 12º aniversário de morte,flores foram levadas ao túmulo do ex-presidente, na cidade de Guangan, província de Sichuan.

Deng foi o sucessor de Mao no governo. A política que ele conduziu é simplesmente o motivo pelo qual o país deixou de ser uma nação pobre para se transformar na quarta maior economia mundial. Nada mal para 30 anos.

Oficialmente, a política entrou em vigor em 18 de dezembro de 1978, durante a terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China. Em julho do ano seguinte, o país implementaria quatro zonas econômicas especiais, umas das iniciativas mais visíveis para o exterior de o que a China se propunha no momento: fazer negócios com os demais países. As zonas escolhidas foram as cidades de Shenzhen e Zhuhai, em Guandgong (Cantão), então meras vilas de pescadores, e Shantou e Xiamen, em Fujian, outras duas cidades costeiras.

Em 1997, prestes a comemorar 20 anos da implementação da nova diretriz, a China recebeu da Inglaterra a então colônia Hong Kong, inaugurando um inusitado modelo que muito orgulha os dirigentes chineses, o de um país, dois sistemas. Hong Kong, centro financeiro mundial, manteve sua política capitalista, mesmo sob o manto do governo central de Beijing, que se denomina socialista, com características chinesas.

Tais características garantiram a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o que, na prática ajudou as commoditties da China a circularem mundo afora. Lembrem, as zonas especiais constituídas lá em 1979 tinham uma razão de ser. Para o país? Em 2006, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu a invejáveis 9,67%, bem acima da média mundial daquele ano, de 3,3%. O Brasil, para quem não lembra, após uma revisão dos métodos de cálculos feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em honrosos 3,7%.

Nestas últimas três décadas, o ganho anual dos moradores urbanos, numa média per capita, pulou de US$ 46 para US$ 1,611. Nas zonas rurais, este valor era de US$ 18 e hoje passou para US$ 491, segundo números do governo chinês. Aliás, a foto das moças aí abaixo é da década de 1980 e integrou uma exposição sobre os anos subsequentes à adoção da política de Deng realizada em Beijing no ano passado.




Livro


Deng Xiaoping tem todo este papel central nas reformas que garantiram à China o papel que ela ocupa hoje na política e economia global. No entanto, não sei se esta é uma impressão só minha, mas ele me parece um personagem esquecido quando o tema é governo, economia e política chineses.

Em português, um livro de leitura chata (opinão minha, dã), mas interessante, é A China de Deng Xiaoping, escrito por Michael E. Marti. No site da Livraria Cultura, é possível entrar o PDF do primeiro capítulo. Aproveita a palhinha.

Outro que citou o Deng foi o jornalista Daniel Piza, no artigo Ensaio da China, publicado por ocasião da Olimpíada do ano passado. O clique no link é mais do que recomendado.

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Ah, as fotos que ilustram este post estão no especial sobre os 30 anos da reforma de política e abertura publicado pela agência de notícias Xinhua. Em inglês.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Massinhas chinesas

Dia desses fui a um restaurante chamado Loft MianKu (escrito assim em madarim: 面酷), um local onde se comem massas (mian) oriundas da província de Shanxi (山西). A região, famosa pela produção de carvão, também responde pelos mais deliciosos vinagres da China. E vinagre é assunto sério nestas bandas. Vai com a massa, com saladas, com jiaozi - os famosos gyoza, como ficaram popularizados no Brasil.


O restaurante tem um astral muito peculiar. As paredes são pintadas num clima meio grafite. Panelas imensas com água fervendo lembram os restaurantes de lamen (ラーメン) que encontramos às pencas no Japão - pra quem está em São Paulo, a dica é ir ao gracinha Aska, na Liberdade.



Voltando a Beijing, o MianKu se notabiliza pelas massas feitas na hora, o que inclui modelar os pedaços em frente aos clientes. De um pedaço considerável de massa saem deliciosos espaguetes, bastando para isso que o cozinheiro antes se dedique a um intrincado estica e puxa - a expressão notabilizada pela Xuxa, vejam só.

Para quadradinhos, pega-se uma tira e vai-se arrancando nacos quadrados até que todo o pedaço tenha ido parar dentro d'água. Outro show. Tem foto aí abaixo, mas ao vivo é bem melhor. Quem diz isso acho que é o Faustão. Nossa, que fase a minha.



Uma das especialidades da casa é o macarrão de espinafre. Um fio comprido, comprido é cozido junto (sério, as massas ficam menos de dois minutos na água fervente, al dente, al dente!) e depois colocado inteiro no prato. Comprido é tipo uns 2 metros, imagino. Pois no dia do aniversário, o vivente tem de comer o fio de massa de cabo a rabo sem quebrá-lo ou mordê-lo, a fim de garantir que terá uma vida longa e sem percalços. Haja coração! Ai, não, Galvão Bueno só poderia aparecer por aqui pra indicar que esta é a rua onde fica o Aska, no número 466 (e pra quem perdeu o fim da meada, o Aska é o restaurante de lámen em São Paulo).

Bueno, o MianKu tem características chinesas que vão além da feitura das massas e do vinagre como condimento especial. O horário é o de jantar chinês, o que significa que é melhor nem pensar em ir até lá se já tiver passado das 21h30min. O preço segue os padrões chineses e, com duas cervejinhas por pessoa, a refeição custa uma média de 60 kuais, ou em torno de R$ 20.

Aqui abaixo, você vê dois tipos de massa, a de espinafre e um espaguete. Ao lado, estão diferentes molhos que acompanham. Você pode escolher entre sabores como refogado com carne de gado, beringela em conserva, entre outros. A pequenina chaleira - marrom que se vê na foto - traz o vinagre.



Pulinho no Japão

Se pela China as massas de Shanxi fazem sucesso, no Japão são as de Kyushu que têm boa reputação. O nome remete à ilha mais ao sul do arquipélogo, considerando-se as principais do país, que incluem ainda Hokkaido, Honshu e Shikoku.

O lámem de lá é o tonkotsu ramen (os japas escrevem ramen, e em katakana fica assim: ラーメン), massa também al dente cozida num ensopado consistente de porco. Na hora em que o prato é servido, dá-lhe fatias de porco para completar o visual e o sabor.

Quem estiver por Tokyo ou de viagem marcada para lá, é bom guardar o nome Kyushu Jangara Ramen, que em japonês é escrito assim 九州じゃんがらラーメン. Espalhado pelos principais bairros da capital japonesa, como Harajuku e Shibuya, a rede é simplesmente deliciosa - Taihen oishi desu!

Dica: o cardápio vem só em japonês e escolhido o prato, você faz o pedido no caixa e paga antes. Depois fica atento até o cozinheiro chamar.


De volta pra casa




Depois do passeio oriental, observe como terminou a noite no MianKu.




Enquanto os meninos que antes preparavam a massa matavam a fome,



outros davam um jeito de deixar tudo limpo pro dia seguinte.



Achei o maior barato a limpeza. Juro.