quinta-feira, 19 de março de 2009

Greta Garbo à chinesa

Pouca gente sabe quem é Ruan Lingyu (院玲玉), considerada uma das maiores atrizes chinesas, ainda que tenha atuado por cerca de apenas 10 anos, em filmes mudos dos anos 1920 e 30. Eu integrava a turma dos ignorantes a respeito de. Conheci a moça no painel Comparando o Campo de Atuação, Filmes Asiáticos e o Ocidente, com o crítico de cinema e diretor escocês Mark Cousins, que ocorreu na Bookworm, o melhor lugar pra estar antenado aqui em Beijing - na minha modesta opinião, claro.



Lingyu nasceu em Shanghai em 1910. Foi ali que morreu, aos 25 anos, após uma ingestão exagerada de remédios para dormir. O suicídio teria ocorrido porque, além de ter uma vida amorosa conturbada, ela seria vítima das fofocas da mídia da época. Não que as pessoas se matem hoje em dia por causa disso, mas bisbilhotar a vida das celebridades ainda ocorre. Canseira.

Lingyu era a queridinha do cinema na China - e como Cousins disse, nos anos 30, Shanghai e Tokyo viviam épocas de ouro. O cortejo da atriz, dizem os registros, reuniu milhares de pessoas. Três garotas teriam também cometido suicídio durante o funeral. O jornal New York Times deu na capa a história, dizendo que era o maior cortejo do século.



Até hoje Lingyu é lembrada por quem entende de cinema - em Shanghai, um monumento homenageia a atriz, já que a lápide em si foi destruída durante a Revolução Cultural. Ela é considerada uma lenda, um patrimônio da cultura shanghainense.



Goddess (神女), de 1934, é considerada uma das melhores atuações da chinesa de origem cantonesa (e é um trecho deste filme que você pode assistir logo abaixo).



Cousins compara Lingyu a Greta Garbo e se pergunta por que o Ocidente não conhece a mocinha dos olhos puxados. Sabem, mesmo aqui se conhece pouco da história do cinema. Em qualquer loja de DVD ou camelô de rua, se encontra uma gama sem fim de últimos lançamentos nacionais e do mercado internacional. Agora, filmes mais antigos, prata da casa, quase nada.

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Bueno, mas depois de falar um pouco da diva do cinema (mudo) chinês e mostrar algumas fotos da bonitinha, deixo com vocês um pouco sobre o Cousins.

Todos os meses, ele escreve artigos sobre cinema na revista britânica Prospect. Neste, de 2004, ele fala especificamente sobre as produções da Ásia e conta, claro, a história de Lingyu (mas é tudo em inglês). No ano passado, ele foi curador da mostra internacional de documentários no 13°Festival É Tudo Verdade. Escolheu 10 filmes que "Mudaram o Mundo" e justifica os eleitos neste texto, mal traduzido para o português. Achei a linguagem chaaaata.

De qualquer forma, ele afirma o que depois eu vi reafirmando ao vivo, que filmes podem ser, sim, instrumentos de educação e informação, por meio dos quais as pessoas podem aprender sobre uma sociedade, comportamento, cultura, etc - mesmo quando estes não têm qualquer traço documental, já que aqui em Beijing discutíamos mais as obras ficcionais. Cousins arrancou gargalhadas as dizer quem nem sempre é preciso ler livros para se manter informado - e se desculpou por estar dizendo isso justamente dentro de uma livraria que promovia um festival literário para o qual ele havia sido convidado. :p

Fato é que, segundo ele, ao ir mais fundo na ironia, disse que quem lê, lê para parecer mais inteligente, lê para conhecer mais, se tornar mais culto. Ao passo que quem assiste filmes, o está fazendo apenas como lazer. Aliás, superconcordo com estas perspectivas do moço escocês - que, pena não ter levado uma câmera para fazer uma fotita, vestia confortavelmente um kilt, aquelas sainhas escocesas com pregas e padrão xadrez. Cousins, cheio de estilo e várias teorias, também já se rendeu à escrita, que fique claro. Ele é autor do livro The Story of Film, sem tradução para o português.

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Toque brasileirinho

O 14°Festival É Tudo Verdade ocorre agora, de 25 de março a 5 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O cachorro roqueiro tibetano que meditava



Zheng Jun (郑钧) é um roqueiro quarentão chinês (e gato, vai) que entre outras pérolas, gravou em mandarim uma versão para Yellow, a fofa música do Coldplay. Para quem ficou curioso, o clipe está no final deste post. Para quem aguenta esperar, vou contar outra história sobre o cantante, antes mostrando por que eu disse que o moço era bonitão - a foto foi roubada do blog dele, cujo link abre este post, mas está tudo em chinês, já vou avisando.



Zheng tem outras duas paixões, além da música: quadrinhos e animais. E parece que o moço é criativo. Juntou todas elas para criar o Tibetan Rock Dog, uma história bacana, cheia de referências pop e trocadilhos em chinês - esta parte eu perdi...

A história começa no Tibet, onde o mastim Metal (麦头) nasceu. Ele cresceu num templo budista, depois que os pais morreram ao tentarem proteger camponeses. No templo, o avô, que aprendeu a meditar e a falar a língua dos homens depois de alcançar o mais alto grau da yoga canina, ensina a Metal os segredos da meditação canina e sobre o inimigo dos cães, o lobo tibetano.



Eis que um rock star adota Metal e traz o cão para Beijing, onde ele forma uma banda de... rock. Ah, os cães iluminados, além de conseguirem conversar com as pessoas, também podem tocar instrumentos!

Zheng já anunciou que vai transformar a história - lançada pela primeira vez há quatro anos - em filme. Eu achei divertidíssimo e, sinceramente, espero que ele faça isso. Ele quer conquistar o mesmo sucesso de Kung Fu Panda. Bobo ele não é, né: E é gato, eu já disse.

Agora, vamos à banda do Metal:



Nas guitarras, Zorro (佐罗), um dinamarquês cujo dono é também dono de um estúdio de tatuagens

Nos teclados, iKey, um labrador viciado em internet, culpa do dono, que trabalha em uma companhia de TI

Na bateria, Vaisly (瓦西里), um rotweiller descendente de família de cães que conhecem artes marciais

Wangcai (旺财), um são bernardo vegeteriano. Ele deixou de comer carne depois de encher o saco porque vivia em um restaurante de churrasco coreano, onde os clientes sempre insistiam em comê-lo. No pior sentido. O que me fez pensar se este cãozinho talvez seja veggie

Dingding (丁丁), um shnauzer hábil em bater papo, que virou o produtor da banda

Vivian (薇薇安), a golden retriever namorada do Metal



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Esta não é a primeira vez que Zheng usa a temática Tibet. Ele tem uma música chamada De Volta a Lhasa. Esta você poderá escutar após o vídeo e a letra em mandarim para a versão de Yellow, que entre os chineses ficou conhecida como Meteoro, ou 流星 (líuxīng).



流星

我想知道流星能飞多久
它的美丽是否
值得去寻求
夜空的花
散落在你身后
幸福了我很久
值得去等候
于是我心狂奔
从黄昏到清晨
不能再承受
情愿坠落在你手中
羽化成黑夜的彩虹
蜕变成月光的清风
成月光的清风
我纵身跳
跳进你的河流
一直游到尽头
那里多自由
我许个愿
我许个愿保佑
让我的心凝固
在最美的时候
情愿缀落在你手中
羽化成黑夜的彩虹
情愿不再见明媚的天
不再见明媚的天
幸福跳进你的河流
一直游到尽头
跳进你的河
我许个愿保佑
在最美的时候
我许的愿
我想知道
流星能飞多久
幸福了我很久

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Agora, De Volta a Lhasa

terça-feira, 17 de março de 2009

Japa Jazz

Assim, lá pelos anos 1990 a japinha Monday 満ちる (que lemos Michiru) iniciou no Japão o movimento de jazz e até hoje vai num clima acid jazz, smooth jazz e por aí vai. Pudera, a moça respira jazz.

Ela nasceu em 1963, filha da pianista japa de jazz Toshiko Akiyoshi e do saxofonista Charlie Mariano. Verdade que ela ganhou notoriedade no cinema, ao estrelar Hikaru Onna, filme de 1987 - pelo qual foi premiada pela academia japonesa. Mas logo ela se voltou para a música.

Até em casa ela mantém a paixão. Hoje ela mora em Nova York com o marido, o trumpetista Alex Sipiagin. O som de hoje é You Make Me, o hit da japonesa. Gostoso para manhãs de sol.

O cabeleireiro e o taxista

Dia desses estava no cabeleireiro, o mesmo a que vou desde o ano passado, e ele perguntava o que eu andava fazendo, há quanto tempo não aparecia e outras cositas más. Aproveitando todo o meu chinês, disse que estava estudando bastante, havia passado férias no Brasil, motivos estes o do desaparecimento há cinco meses. E eis que ele desfila um rol de fonemas totalmente sem sentido para mim.

Digo que não entendi lhufas. E ele, claro e direto:

- É, realmente precisas estudar mais chinês.

Acabou comigo, o cara! Conversa vai, conversa breca, conversa vem, ele me disse que eu precisaria falar com as pessoas, ter amigos, para aprimorar meu mandarim. Eu disse que seria impossível, que não conseguia ainda formar frases com sentido, me fazer entender em mandarim.

- E nós dois estamos falando o quê? - perguntou o fofo Lu Wei, cujo nome ocidental é Vicky.

Não precisei pensar muito para dizer que era mandarim.

- Viu? - retrucou ele, emendando: tu sabes falar. E, aliás, eu sou teu amigo.

TRI FOFO! Ganhou a cliente pra sempre.

Pois hoje, dia de resgate da bicicleta, quem me fez feliz foi um taxista. A bici estava abandonada desde domingo em frente a um restaurante russo, o Moscow, porque havia furado o pneu de trás bem na hora em que eu estava atrasada para um painel sobre literatura chinesa na Bookworm. Depois da aula, fui buscá-la.

Primeiro, o moço taxista, 师傅 na linguagem oral - a gente lê os dois caracteres como shifu e o significado é mestre (vai dizer, no Brasil a gente também chama o capataz, o motorista, o garçom, todo o mundo de mestre, não é? Menção honrosa para os mestres que tiram um chope supimpa) -, foi o primeiro a concordar em botar minha bicicleta no porta-malas, mesmo que isso significasse ir com a tampa aberta. Em algumas situações, adoro as confusões e as permissões a que as pessoas se propõe no terceiro mundo.

Ele não sabia onde eu morava, expliquei mais ou menos e fomos indo. Quase perto de casa, quando eu disse a famosa frase, "na próxima sinaleira, à direita", ele soltou um superelogio, pelo menos pra mim, que estou tentando me mexer um pouco pra ver se deixo de ser gorda:

- Você pedalou até lá?

- Sim, o restaurante fica perto da escola onde estudo mandarim, vou todos os dias, de segunda a sexta.

Não expliquei que o pneu tinha furado no domingo, quando eu estava indo a um encontro literário. Meu chinês não permite. Mas pensando bem, tou orgulhosa da minha vida atleta e do pouco mandarim que já falo. Daqui a pouco, chegará a hora de fazer amigos. Que tudo!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cachorrada



O registro aí acima é de um simpático cachorrinho aguardando pacientemente a sua vez no açougue. Tirada no último sábado em um hutong na região de Houhai chamado Mianhua Hutong, guarda pra mim uma autêntica tortura chinesa.

Não, não pense que o bicho irá para a faca dentro em pouco, ele é um amado bichinho de estimação. A coisa toda é que cachorro amarrado dentro do açougue, pobre cãozinho!

Anos de estudo

Hábitos de uma sociedade estão aí para formarem uma unidade e para serem respeitados, certo?

Pois no ano passado, durante a febre olímpica e a invasão de tropas jornalísticas estrangeiras na China, o hábito que alguns chineses mantêm de cuspir onde quer que estejam virou manchete, grifo, tese, parte de matérias, fossem elas visuais, sonoras ou apenas escritas. Para ilustrar exatamente como os chineses se comportam, o cuspe virou multimídia, quase tão famoso como comer inseto - realidade esta tão próxima da maioria das famílias chinesas aqui de Beijing como a de macacos andando em cipós pelas principais cidades brasileiras.

Fato é que chineses escarram, sim, alguns mais, outros menos, creio que alguns nem o façam. Então, vá lá, apesar de haver um milhão de outras coisas para se falar sobre este povo com milênios de história, o cuspe acaba sendo meio central, talvez pelo fator inusitado, estranho à cultura ocidental. Agora não pense que a preocupação de barrar a cusparada seja atributo dos não chineses. A mania já foi alvo de propaganda (contrária, deixe-se claro) governamental ainda nos anos 50, como mostra esta pérola encontrada no Youtube, que achei graças a um artigo do site Shanghaiist. A mensagem deixa claro que cuspir pode transmitir doenças e seria mais adequado que os transeuntes o fizessem no seu próprio lenço. Durante a SARS, o governo lançou mão de campanhas severas em relação ao tema, desta vez preocupado com uma epidemia que poderia matar milhares de pessoas.



Tanto alarde para questões de saúde e higiene, no entanto, ainda não foram suficientes para barrar a moda. Para terminar, um cartaz recentemente fotografado por mim no mercado de pulgas de Beiijng, o Panjiayuan (潘家园).



Hm... menti. Não vou terminar com o cartaz. No ano passado, ainda na onda olímpica, as diversas campanhas pedindo para que se parassem como cusparadas foram interpretadas por muito estrangeiro como uma tentativa das autoridades para educar a população chinesa, segundo moldes ocidentais. Esquecemos, pois, que tais campanha também encerram caráteres mais primordiais, como saúde pública.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Se você disser que eu desafino, amor

Dashan (大山) é o nome do cara que fala um chinês impecável, conhecido China afora pelo mandarim perfeito. Todos os dias, ele aparece no canal em inglês da TV estatal chinesa, a CCTV, para dar aulas de mandarim. São 15 minutos de muita atenção em frente à tela.



大山 é o nome chinês adotado pelo canadense Mark Rowswell. Significa Grande Montanha. Pois o amigo Grande Montanha antes de chegar à China havia estudado mandarim por quatro anos. Aqui, aprimorou de vez o que já sabia e até integra peças e programas televisivos humorísticos falando em chinês. Celebridade, considerado o cara que mais entende de cultura chinesa sem ser chinês. Pelo menos, o cara que mais aparece na TV com estas características, vamos combinar.

A carinha dele ainda estampa um sem fim de materiais para chineses aprenderem inglês, basta ir a qualquer das grandes livrarias chinesas para conferir. Carisma puro, ainda mais porque ele tem um discurso de ser um estrangeiro, mas não alguém de fora (大山虽然是外国人,但不是外人). Fácil ser alguém como 大山? Nãnãninanão.

Há quem diga que o aprendizado do mandarim - incluindo aí falar, ler e escrever - leva em torno de oito anos, para quem se dedicar, pelo menos, seis horas à língua todos os dias.

No ano passado, quando mantinha o China in Blog, falei sobre a estrutura do mandarim, que tem cerca de 400 verbetes monissilábicos que combinam os fonemas de 21 letras classificadas como iniciais a 44 diferentes combinações chamadas de finais.

São apenas com estes 400 verbetes que se forma toda a estrutura fonética do mandarim, ou seja, todas as palavras necessárias são resultado destes sons. Ou melhor, da utilização destes sons seguindo os padrões de uma língua tonal - um certo requinte de crueldade para acrescentar um nível a mais de dificuldade no que já é bastante complicado. Temos no mandarim quatro tons, ou até cinco, levando-se em consideração que há um tom neutro. Sopa no mel, eu juro, não reclame. Você poderia se dar ainda pior se resolvesse aprender o tailandês e seus seis tons ou o cantonês e o vietnamita, com nove cada um.

Feliz por saber que tem gente em pior situação neste mundo? Eu não. Confesso que os tons não são comigo. Apesar de boa memória, na hora de falar não sei usá-los bem. Quando começamos a aprender chinês, as primeiras aulas são chatíssimas repetições de cada um dos sons, representados por quatro sinais gráficos diferentes - ā, á, ǎ e à.

Em tese, eu sou realmente fraca. Os sinais indicam direitinho o que é pra fazer. Quer ver:

Primeiro tom. O ¯ que se usa chama-se mácron e indica que a vogal é longa. Ou seja, deve ser pronunciada de forma contínua. Quem nunca escreveu em e-mails ou msn um Obaaaa que atire a primeira pedra. Entendeu mais ou menos sobre o que estou falando?

Segundo tom. O ´ é o nosso velho amigo acento agudo. No mandarim, significa mais ou menos que você terá de pronunciar a sílaba como se estivesse fazendo uma pergunta. Sacou? Isso aí, exatamente o som que saiu quando você pronunciou o "ou".

Terceiro tom. O ˇindica um sobe e desce no meio da sílaba. Imagine que "Ahan" é uma única sílaba. Esta ondinha sonora existente entre o primeiro e o segundo "a" é exatamente o movimento necessário quando você tem de pronunciar o terceiro tom. Louvores para o "Ahan" pronunciado no final da propaganda da Polar a que vocês podem assitir abaixo.

Quarto tom. O ` é outro sinal gráfico bem conhecido dos brasileiros, nosso acento grave. Grave mesmo é o tom. Imagine que está encerrando uma fala meio brabo, meio enfático. E não enche mais o saco, pô! Pronto, taí a dica para um bom quarto tom.

Tom neutro. Ele é neutro, mas significa que deve ser pronunciado como a maioria das sílabas no português. Pena que aparece tão pouco, 是吗?

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Pra encerrar o post, uma frasezinha em que vamos do primeiro ao quarto tom, encerrando com o terceiro, que é pra você ir treinando tudo desde cedo: huāníng nǐ péngyǒu!

Ou "bem-vindo, amigo", que em chinês a gente deve escrever assim: 欢迎你朋友. E, claro, lembrar dos tons na hora de ler cada um dos caracteres. E, claro, lembrar dos fonemas de cada um dos caracteres. E, óbvio, lembrar dos significados de cada um dos caracteres também.

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Agora uma cervejinha, por favor!

quarta-feira, 11 de março de 2009

É bom viajar

Viajar é uma das melhoras invenções do mundo.



Nós brasileiros temos de agradecer ao ímpeto português de percorrer mares. Afinal, não fossem eles, nós não seríamos os brasileiros. Falamos um português diferente, maroto, enviesado, ou qualquer outra coisa que o valha. Nos apropriamos do caldo português, entornamos a mistura, botamos mais água para ferver bem e, no final das contas, com pitadas de exagero tropical, aprendemos, entre tantos outros, o valor de uma saudade.

Há quem sustente que somente os portugueses poderiam ter inventado a palavra saudade. Passavam tanto tempo a ver navios, longe de casa, saudosos de algo familiar, que precisavam batizar o sentimento. Pois foi por misto de saudade com certa familiaridade - ainda que apenas linguística - agora sem acento - àquele tempo que conheci o Paulo em Chengdu, capital da província de Sichuan.

Português viajando não seria bem uma novidade, mas parece que uma brasileira por aquelas bandas era coisa meio rara, tanto que o dono do bar onde estávamos, o Pepe (esse é o nome do dono, não o do bar), veio me falar, assim que soube minha nacionalidade:

- Quero que você conheça o Paulo, ele mora aqui e está com saudades de falar português.

Feito, conheci o guri, que é gente boa pra caramba e no dia seguinte já estava num restaurante com ele e os amigos, donde seguimos para uma danceteria. Os nomes, esqueci todos, tanto dos lugares, quanto dos amigos. Pra minha sorte, mantive contato com o Paulo, e vez que outra nos falamos via msn. Aqui ao lado na lista, tem o blog dele. Ali mantenho um baita contato, fico sabendo das andanças do moço.

Ele é português... curioso por conhecer lugares! Mas melhor do que isso, ele ainda partilha as experiências, que se revelam deliciosas em fotos lindas e textos leves.



Vez que outra ele fala do cotidiano, afinal, descobrir o novo é também olhar ao nosso redor - especialmente quando estamos em outro país. Mas agora, especialmente, está contando a viagem que fez nas últimas férias.



O mapa que abre este post - e mostra o roteiro percorrido pelo Paulo, cujo sobrenome é Xavier - te interessou? As fotos roubadas lá do blog do Paulo te chamaram a atenção? Não perca tempo e clique aqui para saber mais e mais o que este gajo está a contar.

terça-feira, 10 de março de 2009

Ah, a difícil vida chinesa

Tudo bem, estou num clima total aprender chinês, então acabo precisando dividir. Hoje estou encafifada com os caracteres. Não que já não estivesse há tempos, mas eles são sempre uma confusão à parte.

Tem coisas que eu acho que só chineses fazem. À lista
- Falar chinês
- Ler chinês
- Escrever chinês
- Fazer número 2 nos banheiros cujas louças sanitárias estão acopladas ao chão.

Forçoso dizer que, bem ou mal, já experimentei todas as tentativas acima. Reitero, a técnica aprimorada de qualquer um dos itens implica ter nascido na China.

Sobre o aprendizado do mandarim, passei do nível 2 ao 3 por pura falta de opção, já disse isso por aqui. No nível 2, supõe-se aprender 1,5 mil caracteres, número que - graças ao bom Deus ou a Buda - não muda no nível 3. Imagino que seja algo assim, no 2 a gente vê vários, no 3 aprende pra valer. Eu, como parei no 1, se muito sei uns 500 caracteres. Às vezes acho que nem isso.

Dizem que para ler um jornal, são necessários uns 2, 3 mil. Os livros para iniciantes trazem cerca de 900 caracteres. A dica é escrever cada um deles pelo menos umas cem vezes para decorar e saber que traços usar, em que ordem. Os caracteres são compostos de traços. Pode ser apenas um, como o do número um, assim ,o qual a gente lê Yi. Mas podem ser vários, como o complicado amor, ou , que a gente lê Ai, porque dói.

Cada traço tem um nome - e eles fazem toda a diferença. Hoje eu vou falar do , ou dian, um simples pontinho, encontrado ali na parte mais de baixo do caractere grande, , ou dai, por exemplo.

Estava eu em casa mostrando pra minha empregada meu chá preferido, cujo nome não sabia e que não é tão fácil de achar por aqui. Ele é um líquido de coloração marrom-dourada, a coisa mais parecida que me ocorre agora é gasolina para comparar. Mas o gosto é tri bom, nada doce, mas nada amargo também. Ao ver o rótulo, ela me perguntou o nome. Olhei e soltei um "malong cha".

- Errado - disse ela, rindo.

- Niaolong cha? - perguntei, numa segunda tentativa.

- Errado de novo - e ela caiu na gargalhada.

Depois me perguntou seriamente se eu não percebia que não poderia ser niao, posto que niao tem um dian a mais no meio. E muito menos poderia ser ma, que não tem dian nenhum, até a forma é diferente. A leitura correta do caractere em questão, aliás, ela me informou, é wu. Estava tomando wulong cha, recomendadíssimo.



Para quem quiser reconhecer pelo rótulo, compre aqueles que vêm identificados como 乌龙茶 (wulong cha), ok? Se ainda sobrou curiosidade, eu confundi o com da primeira vez, que se lê ma e significa cavalo. Depois, tasquei um , que lemos niao e significa pássaro. Aliás, durante a Olimpíada, o caractere foi mais do que famoso, pois 鸟巢 se refere ao Ninho de Pássaro, Niao Chao na leitura mandarinística, o nome do estádio principal das competições em 2008.

Aprendeu tudinho?

头屑洗发水


Olha, uma amiga perguntou, então aqui vai o registro, até para eu lembrar também, de como se diz xampu anticaspa em mandarim. É 头屑洗发水, ou touxie xifashui. Decorou?

单位

Danwei (单位) é unidade de trabalho em mandarim.

Poderia significar apenas isso, o local onde se trabalha. Mas o apelo é mais forte, e quem explica é a Lijia Zhang, uma jornalista chinesa por quem estou apaixonada. Estou lendo Socialism is Great, o livro em que ela conta o começo da vida profissional em uma fábrica chinesa no final dos anos 1970.

Naqueles tempos de controle forte sobre a vida do cidadão, era por meio do danwei (ou 单位) que o governo mantinha o vivente na linha. O documento indicava exatamente o local de trabalho do cidadão - o número da unidade para a qual servia -, o que, na prática, não só garantia acesso à previdência social, mas o direito a casar e ser cremado ou enterrado em caso de morte. Trivialidades...

Pois um dos sites chineses mais bacanas que conheço adotou não só o nome Danwei, como a ideia de formar uma unidade de trabalho. Ali, estão reunidas discussões - mas em inglês - sobre mídia chinesa, propaganda e a vida nas grandes cidades. Imperdível.

Todos os anos (e eles estão ativos desde 1990, então entendem do riscado), eles escolhem os melhores blogs em inglês sobre a China, basicamente Trabalhadores Modelo para a Unidade de Trabalho. Quem quiser ver, pode clicar aqui.



Os tais trabalhadores modelo é outra herança do conceito de 单位. Minha amiga Zhang foi indicada uma vez para o posto, mas, na época, não levou a distinção devido a uma jaqueta de oncinha que costumava usar e que era muito padrão burguês ocidental para a concepção do chefete recém saído do casulo forçado imposto aos chineses nos anos de Mao. Comportamento padrão dentro da fábrica, mas trajes adequados fora dela. E quem liga para uma certa divisão entre vida privada e profissional?

No site, os editores pegaram o conceito de Modelo emprestado e embarcaram de vez na ironia. Segundo eles, os ganhadores são escolhidos pelo Comitê Central do Danwei, sem nenhum tipo de democracia ou votação envolvidas.

Zhang conta no livro sobre o momento em que disputou a vaga com outra colega. "Os nossos nomes foram postos em consideração. A eleição era um exercício de democracia centralizada, democracia sob orientação central, com o líder sempre tendo a palavra final - esse era o jeito como a China se movia". Bueno, pelo menos no site não há pretensa participação.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Vida privada

Algumas coisas na vida nao sao explicadas. Por exemplo, meu computador consegue reconhecer caracteres japoneses e chineses, mas nao consigo digitar em portugues.

Outra questao eh, tudo bem que meus vizinhos estao fazendo reforma na casa e tudo isso dah uma sujeira e faz com que surja um monte de entulho. Mas precisa botar a privada no corredor comum?



Esta cena foi clicada no sabado a noite quando chegava em casa. Hoje o vaso sanitario esta na frente do elevador, ao lado da pia do banheiro e de um pedaco do armario da cozinha. Espero, sinceramente, nao encontrar uma familia vivendo por ali na semana que vem.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Breve desabafo sobre o mandarim

Estudar chinês é uma das coisas mais difíceis que já vivi. Eu que até hoje só tinha rodado em exame de direção (porque esqueci de desengatar a porcaria da - do, nunca sei - ré) e em exame médico de admissão (porque falei pra médica que poderia permitir que eu trabalhasse no Terra que eu sofrera de tendinite anos antes - e então ela me vetou para a vaga), estou passando por um teste em relação à humildade, dedicação e exposição em frente aos colegas. Sério, isso é meio duro pra mim.

Passei para o nível 3 sem ter feito o 2, o que impõe alguns obstáculos, como não saber ler muitas frases, não conhecer muitas palavras e não saber formular frases gramaticalmente corretas. Vejam que nem estou falando dos tons que o mandarim tem (quatro, mais um neutro, que pra mim é tom também) ou sobre escrever caracteres. Então, as aulas em que devo ouvir diálogos são uma tragédia, no período em que devo responder às perguntas da professora sobre o que os personagens do diálogo estavam fazendo eu sou um zero à esquerda, no tempo em que deveria fazer os exercícios gramaticais eu sou uma ameba que não entende ou o que é pra fazer, ou o que a frase está dizendo e por aí vai. Estudo numa turma que tem uns 10 adolescentes russos, o que complica bastante. Tem dois CDFs que, juro, tenho a impressão que fazem gracejo com a minha cara. Além de serem adolês, eles devem só estudar mandarim, provavelmente filhos de empresários-diplomatas que vieram parar na China por causa da vida dos pais. O chinês deles é simplesmente invejável. E eu me resigno à minha burrice, pela primeira vez na vida indo TODO O TEMPO fazer perguntas à professora. Até as mais idiotas. Às vezes conheço as palavras, mas não faço idéia do caracter, assim, não consegui reconhecer lavar roupa, apesar de saber que é xi yifu. Não soube dizer o que era mesa, mesmo conhecendo zhuozi. Mas eu não sabia que o verbo xi é grafado 洗, muito menos que zhuozi se escreve 桌子. Aprendeu não leu, pau comeu. Essa é a regra do mandarim.

Alem das três horas diárias, tenho estudado de duas a três horas em casa. Mas pensava que poderia revisar o nível 2 neste meio tempo. No entanto, neste período apenas faço os temas de casa - às vezes, nem acabo estes. Gente, chinês é desesperador. Preciso muito ter um objetivo, senão esta dedicação será infrutífera. Seria melhor que continuasse fazendo meus textos e, quem sabe, começando meus minidocumentários. Por outro lado, não conheco jornalista brasileiro que fale mandarim...

E estou começando a pensar que poderia fazer pesquisas relativas à internet na China, sociedade, política, redes sociais, participação, etc. LENDO EM CHINÊS, mesmo que na volta ao Brasil. Isso parece interessante e me estimula a ficar que nem uma pateta na frente dos russinhos. Na frente dos chineses eu nem preciso dizer, né?

quarta-feira, 4 de março de 2009

Viagens chinesas

Sexta francesa
Após filmar umas duas horas dentro de uma mesquita, a mais antiga de Beijing, fui encher a cara num boteco francês, com amigos franceses e brasileiros e finalmente beijei o francês que eu tava afins. Que me contou que mora com a namorada, que está em tempo indefinido no país dela. Ó vida, ó céus, ó azar.

Sábado chinês
Após vagabundear o dia inteiro e antes de me deliciar num dos melhores restaurantes de comida chinesa a que fui até agora (tá no meu blog), fui fazer uma massagem. Deito de bruços, o chinesinho aperta minhas costas, numa espécie de shiatsu, mas bem mais dolorido. Falou pouco, eu também tava mais a fim de descansar. Quando chega o momento de apalpar a minha bunda, acho que na segunda mãozada, veio a pergunta.

- De onde você é?

Sério, foi engraçado.

Domingo búlgaro
Após conhecer o paraíso literário de Beijing (tá no meu blog), fui jantar com duas amigas, uma egípcia e uma búlgara. Esta última relembrou os tempos de infância e adolescência, quando cresceu sob o regime comunista. Quando o país se abriu, o primeiro presente da mãe foi um lindo diário com cadeado, que a deixou maravilhada e livre pra escrever o que bem entendesse. Até que um dia a mãe mostrou como abria o cadeado usando um grampo de cabelo. No comunismo, pelo menos as pessoas não tem a falsa sensação de privacidade.

Segunda árabe
Minha amiga árabe me levou no melhor libanês, restaurante, que conheço até agora aqui em Beijing. Só me falta mesmo o kibe cru, apesar de a beringela gratinada deixar saudades. Tanto o gerente palestino quanto a egípcia e o chef alguma coisa não fazem idéia do que eu falei. Pois a egípcia contou uma conversa que teve com outra colega da Xinhua, esta do Iemen.

- Sabe que no Iemen poucas mulheres usam véu como eu - disse a garota, que tem a cabeça coberta pelo tecido, bem atado logo abaixo do queixo.

- Verdade? - replicou minha amiga espantada.

- Sim. A grande maioria deixa só os olhos de fora.

Estas são as explicações da nossa iemenita pra lá de moderna

Terça espanhola
Após assistir a Vicky Cristina Barcelona, cair de novo de amor por Barcelona, me decepcionar com os beijos - que imagina serem ardentes - entre a Scarlet e a Penélope e rir muito da pobre da Cristina, justamente a personagem da Scarlet, que se acha meio incopetente e sabe falar chinês (motivo de piada para a gostosa Penélope), saí para jantar com dois casais espanhóis no melhor japonês custo-benefício da cidade e tomar uma das melhores cervejas do mundo, a Asahi Super Dry, que em chinês chamamos JiaoRi.

Um dos espanhóis trabalha como crítico literário e fez mestrado em alguma coisa por aí. Foi uma das únicas pessoas que me deixou com calor ao descrever o frio: "me trepa por los pies hasta erizar los pelos de mi nuca".

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Um primeiro-ministro internético


Wen Jiabao (温家波), o primeiro-ministro chinês, é conhecido aqui na China pela simpatia e pela maneira afável, bonachona, com que trata os chineses. Hoje ele quis ser moderno também e participou pela primeira vez de uma entrevista online.

Apareceu de tudo, como dúvidas em relação ao salário de um premiê, se ele alguma vez na infância havia almejado chegar ao cargo e até uma pergunta infame perguntando o quanto - e quando - de álcool ele bebe, comparando-o a um dos antecessores, Zhou Enlai (bueno, não sabia que o amigo do Mao tinha fama de bebum, mas vai ver que tem). O episódio do sapato arremessado contra ele em Cambridge no início deste ano também veio à baila.

A preocupação central, no entanto, tem a ver com empregos e crise. Ou a falta de emprego e a necessidade de se ampliar o consumo. Apesar de até agora 15,3% dos 120 milhões de trabalhadores migrantes terem abandonado as cidades para voltar às suas aldeias, no chat quem mais perguntava sobre o tema desemprego eram jovens recém saídos da faculdade e também ainda sem ocupação. Aliás, a quantidade de perguntas de jovens pode indicar que a rede é mesmo popular nesta faixa estária.

A China, como diversos outros países, vê o desemprego afetar prioritariamente duas esferas diferentes da sociedade, os pouco instruídos trabalhadores migrantes (mão de obra barata para pegar no pesado) e os graduados ainda sem experiência profissional.

Wen não foi lá muito otimista. Disse que a crise está longe de acabar e que o caminho para superá-la será árduo. Sobre as decisões do governo acerca da questão e de outras más, ele disse que os cidadãos têm o direito de criticar e expressar suas opiniões.

Zona Política Especial

O fórum para a declaração de Wen acerca das críticas populares parece adequado. A Internet é vista na China como um espaço de construção democrática e de discussões que levam a decisões políticas, inclusive. Inclusão digital...

A coisa é levada tão a sério que o espaço, mesmo controlado por diversos filtros impostos pelo próprio governo chinês, é chamado de Zona Política Especial, uma referência às Zonas Econômicas Especiais, as cidades chinesas que têm status diferentes das demais e que, na prática, detém mais flexibilidade na hora de negociar com o Exterior. O modelo foi implantando no país pela primeira vez há 30 anos, mais ou menos.

Os chineses, que aprenderam que podem criticar, também aprenderam ser irônicos. Quando querem falar de algum tema mais sensível, usam a expressão hexie. Um chiste com o significado "harmonioso" que hexie pode encerrar, se grafado 和谐. É assim que o presidente, Hu Jintao, classifica a sociedade da China, uma sociedade harmoniosa - e é neste caminho que ele busca apoiar suas políticas. Os sensores, ao descobrirem que a harmonia pretensa dos internautas trazia vozes dissonantes àquelas almejadas pelo poder central, começaram a censurar mensagens e sites que continha a expressão. Mas o mandarim permite que um mesmo som tenha outro significado - e, na grande maioria das vezes, isso é escrito com diferentes caracteres. Agora, para marcar temas sensíveis, os internautas usam o mesmo hexie, mas para significar caranguejo do rio: 河蟹.

Aberto a críticas

Wen Jiabao disse estar aberto a críticas, não é mesmo? Um internauta aceitou a provocação do premiê. Há poucos dias na China ele provocou polêmica a ajudar com dinheiro uma criança portadora de leucemia de uma província vizinha a Beijing, Hebei, a garantir vaga e tratamento em um hospital da capital.

Durante o chat, Wen teve de admitir que não basta um primeiro-ministro bom, mas é necessária a constituição de um sistema médico que satisfaça as necessidades da população. A China tem 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma é avaliado em quase US$ 15 mil. Wen, aliás, doou US$ 1,46 mil à paciente em questão.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Boa música para o finde

Hoje o blog está com preguiça.
Vamos ficar com Bod Dylan

"You do good all day
And then you do wrong all night

When you're with me
I'm thousand times happier than I could ever say
What does it matter?
Or what price I pray?"




e Madeleine Peyroux.



Duvido que não levante o astral de qualquer um. Eu sugiro estas duas canções para um delicioso café da manhã em casa. Solzinho, boa companhia e a certeza de um dia perfeito.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

China Daily nos Esteites



O maior jornal chinês em língua inglesa agora tem uma redação nos Estados Unidos. Desde segunda-feira, 23 de fevereiro, o China Daily USA circula nas bancas norte-americanas com uma proposta um tanto ousada, transformar o inverno econômico em primavera, segundo escreveu em carta aos leitores o editor-chefe da publicação, Zhu Ling.

O braço estatal do governo chinês chega com pompa e anuncia que é espaço para os tomadores de decisões e os pensadores independentes. Sem crise. Com tanto jornalão norte-americano pedindo água, o aporte chinês pode ser até alívio para os jornalistas. Entre as propostas, está a apuração dos fatos em cima dos fatos, com repórteres in loco. Certa contradição para uma imprensa - a chinesa - vista com ressalvas. Seria a forma de apuração o pulo do gato? Em tempos de enxugamento de redações, os chineses vão contra a maré.

Mas há mais coisas neste caldo do que só salvar jornalistas aflitos por empregos. Por mais que eleger modelos midiáticos mais modernos - e objetivos, digamos assim - possa ser um truque interessante, o alvo parece outro. O slogan do jornal é claro ao dizer a que ele veio: "Traga o seu negócio para perto da China". Somado a isso, o desejo claro dos chineses de propagandear o seu país por meio de uma visão sem preconceitos ocidentais.

Por enquanto, o China Daily USA circula em todos os estados norte-americanos e no Canadá na edição de segundas-feiras. Já de terça a sexta, a tiragem abrange apenas a cidade de Nova York.

Na China, a publicação em inglês, o único jornal nacional do gênero, tem uma tiragem diária de 260 mil exemplares. No celular, o número de assinantes supera os 150 mil. Segundo o próprio China Daily, 85% dos leitores estão na faixa dos 31 a 55 anos. Gente que consome - e que gera renda pra isso -, saca?

Para o outono de 2010 na Europa, o que a gente pode contar como algo perto de setembro, está previsto o lançamento da edição China Daily Velho Continente.

A iniciativa norte-americana é o primeiro passo concreto de um pacote governamental não anunciado formalmente, mas que vazou em janeiro na imprensa de Hong Kong. O governo planejaria gastar mais de US$ 6,5 bilhões para melhorar a imagem do país no Ocidente. Toda esta grana, voltada às principais mídias estatais chinesas.

Com uma estratégia a ser construída junto a consultores internacionais, o objetivo seria ganhar notoriedade. A Xinhua, agência oficial, por exemplo, ampliaria a presença exterior dos atuais 100 países para 186. Aliás, este mesmo ramal seria o responsável pela criação de um canal de televisão em português, o que até agora não consegui confirmar. Ai, mal de fontes. Para a telinha, um dos modelos a serem seguidos é o da televisão Al Jazeera, do Qatar.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Vai um cinezinho aí?



Primeiro vieram os Oscar, depois os holofotes todos para Slumdog Millionaire, o filme baseado no livro do indiano Vikas Swarup, batizado em 2006 no Brasil como Sua Resposta Vale Um Bilhão - e que agora tem nova edição em português.

Imagino que você saiba do que falo. A história se passa na Índia. Um ex-garoto de rua sofre durante infância e adolescência justamente em razão da condição financeira miserável - o que destrói a família, o leva para o mundo dos pequenos crimes, o deixa em contato com gente grande do crime. De repente, ele se vê prestes a botar a mão numa bolada por acertar respostas de perguntas sobre conhecimento geral em um programa de TV.

Na ficção, os responsáveis pela versão indiana do Show do Milhão (ai, o Sílvio Santos) desconfiam de Jamil Malik (o personagem principal, vivido por Dev Patel). Ele seria ou alguém de muita sorte, ou um gênio, ou um trapaceiro. Melhor mandar prender.

O roteiro eu vou parar de contar, caso alguém ainda não saiba. E se já sabe, menos motivo pra falar disso. Fato é que a história de miséria na Índia, em que há criminalidade, favelas e grandes diferenças entre ricos e pobres e que termina com final feliz, no jogo e no amor, chegará aos cinemas chineses até abril, segundo anunciou o Grupo de Cinema da China, responsável pela importação dos filmes estrangeiros no país.

Passou assim pela minha cabeça se um programa de TV como o que conduz o filme faria sucesso por aqui. Imagino que sim, que muito. Segundo o governo, Slumdog Millionaire irá para as telas sem cortes, pois traz uma mensagem positiva, de perseverança. E viva a liberdade! O anúncio oficial diz assim: "A decisão de adquirir os direitos de exibição do filme se deu devido ao valor artístico e ao tema positivo, saudável e inspirador da produção, comprovados pelos oito Oscar que conquistou neste domingo".

No site IMDb, o Internet Movie Database (ou banco de dados de filmes na internet), quem gostar da obra indiana com roteiro e direção ingleses também deve gostar de O Caçador de Pipas e de Cidade de Deus. Basicamente um sessão de "vamos entender como a pobreza funciona em diferentes países".

Pobreza indiana

Para mim, que pouco entendo do riscado, os planos e as sequências na favela indiana muito lembram Cidade de Deus. Como se não bastasse uma galinha aparecendo, destaque para a fala do bandido mirim Salim, irmão de Jamil (que quando criança é interpretado pelo fofo aí abaixo, o Ayush Mahesh Khedekar), que muda de nome quando resolve assumir a pose de chefe do crime.



- Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra - você deve ter lembrado. Ou deveria. Eu lembrei, pelo menos.

Toda a plasticidade sobre a pobreza em amarelo - a brasileira era mais cinza, tinha uma cor ocre só lá no início da Cidade de Deus - explorada pelas lentes e olhares britânicos, no entanto, viaja sem dó no mundo da pieguice de Bollywood ao terminar o filme dum jeito água com açúcar, com uma coreografia de "gosto duvidoso" ilustrando os créditos. Olha, foi de propósito, né? Tanto o final meloso quanto a dancinha, eu digo. Era uma ironia acerca de quão pobre um filme pode terminar, se esta for a intenção. Eu sinceramente espero que sim. Não vi nenhuma conexão entre o final e o resto.

Estrangeiros na China

Desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), 20 filmes estrangeiros podem ser exibidos nos cinemas do país, desde que haja divisão de lucros. Antes, eram 10 títulos.

A restrição, somada às pesadas taxas impostas às distribuídoras, faz que somente filmes muito atraentes aos espectadores chineses venham parar nas telas. Perder dinheiro por aqui é que não dá.

Para além de 20

Claro que um DVDzinho sempre rola. Eu já comprei meu Slumdog, assim como uma lista gigante de indicados e vencedores do Oscar por cerca de R$ 4, cada. Tenho restrições a esta prática, mas tem horas que me sinto tão feliz atualizada. Aliás, se alguém ainda não se atualizou, aqui vai o trailer do filme.



Constatação. Mesmo que seja para menos gente, a magia do cinema ainda está lá. Ver um filme na tela grande é outra história. O preço do ingresso aqui em Beijing varia entre algo em torno de R$ 10 e R$ 35, dependendo do cinema e também da classe da sala. Tem umas tais de salas VIP a que nunca fui. O truque é pegar o cineminha esperto às terças, quando todos os estabelecimentos da capital oferecem 50% de desconto. Adoro esta ideia!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Comer, beber, ler


A Bookworm é o que mais se aproxima de uma Livraria Cultura aqui na China, com sede em Beijing e filiais em Chengdu e Suzhou. Você come, bebe, vê gente interessante e tem acesso a livros que nem o governo permitiria. Em inglês - ou caso você seja um associado, na língua em que você encomendar sua obra preferida. Associados, aliás, podem pegar emprestados os títulos do acervo da biblioteca.

Este universo literário-gastronômico-etílico está aberto diariamente das 9h à 1h e eu só fui conhecer na semana passada. Sorte ou azar, ainda não sei. Certo é que posso gastar lá muitos e muitos kuais, como é chamado o dinheiro chinês na gíria, tipo mango, pau, pila. Pensando assim, sorte que poupei um monte de grana.

Sorte que fui a tempo até a Bookworm - que significa traça, mas, na gíria, designa devoradores de livro. Quer dizer, na prática também, anyway. O a tempo eu já explico. É que de 6 a 20 de março o local vai celebrar o Festival Literário, evento que trará à China escritores libaneses, norte-americanos, jornalistas, poetas, chineses, outros estrangeiros, uma porção de gente bacana. A programação é tão extensa que pretendo ir falando sobre ela aos poucos.

Agora, se você for curioso, pode clicar aqui para estudar por si próprio e decidir se terás ciúmes de mim nestes dias. Eu teria. Seria o maior azar se não tivesse pintado pela livraria na hora certa.

Aliás, o que nos ensina a Bookworm:

"Não há amor mais honesto do que o pela comida", Bernard Shaw

"Vinho é a coisa mais civilizada do mundo", Ernest Hemingway

"Ler para viver", Gustave Flaubert

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Apesar de os autores aí acima serem bem conhecidos do público ocidental, é a quantidade de gente destas bandas daqui ou que fala sobre a China e arredores o que mais me prendeu à livraria. Eu estou lendo agora, por exemplo, Socialism is Great, da chinesa Lijia Zhang. A história é sobre ela mesma, como deixou um trabalho em uma fábrica de foguetes em Nanjing para se tornar jornalita. Eu ainda estou no início, mais eu conto depois, prometo também. Lançado em 2008, não creio que haja versão em português.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

BRIC

A coisa é mesmo russa quando uma brasileira se interessa por indiano na China. E ele não quer nada com ela.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Um restaurante

Dali Courtyard 北京 (caracteres que significam Beijing) é um dos melhores restaurantes a que já fui na capital chinesa. Por menos de R$ 40, incluindo uma bebida, você faz um passeio gastronômico pelo sudoeste do país, mais precisamente à província de Yunnan, que faz fronteira com o Vietnã. Dali é o nome de uma cidade da região.

O restaurante fica no hutong Xiaojingchang, na região de Gulou, próximo a Nanluoguxiang, uma das ruas de bares e restaurantes mais cool da cidade. Ficar dentro do hutong, as antigas vilas da capital, neste caso, significa ser construído numa casa que preserva o mesmo design daquelas construídas séculos atrás, conhecidas em chinês como siheyuan (四合院) - nome que se refere aos quatro pontos cardeias, leste, sul, norte, oeste. Em termos bem simples, é uma caixa com um jardim no meio. E mais explicações ficam para outro post, porque agora nós vamos falar de comida.

Dali tem mais de 4 mil anos de história e reúne 25 minorias étnicas da China, entre as quais a Bai é a maioria, representando 65% da população. Hoje, a cidade é paraíso de hippies mochileiros, um tanto pela natureza, outro tanto pelo astral, que dizem ser ótimos. Eu nunca fui. Ainda!

Fato é que a comida de lá é maravilhosa. Ou a comida de lá servida em Beijing. Se você pensa em uma comida chinesa muito saudável, certamente irá procurar pelos sabores de Yunnan.

O restaurante a que fomos tem uma regra especial. Você não escolhe os pratos, apenas informa aos garços se tem alguma restrição alimentar. Não tendo, prepare-se para uma um banquete de delícias. Ontem começamos com uma salada de tofu em lascas, numa espécie de talharim, temperado com vinagre e hortelã. Tivemos ainda carne de gado, macarrão de arroz frio temperado com pimentas vermelhas e... um camarão a vapor temperado com folhas de limoeiro que vou te contar. Come-se de joelhos.

O mais legal do restaurante é ir no verão, quando a gente senta ao ar livre. O único truque é ligar para reservar, sob pena de você chegar e bater com a cara na porta. Se estiveres em Beijing, aqui está o site. Pegue o telefone e vá com fome, muita fome. Ah, para beber, a cerveja Dali é a pedida.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Como ficar totalmente desapontada

Um cara que voce acha que está a fim de você conta que mora com a namorada. E você sente que seu feeling falhou, o que é quase pior do que a rejeição...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

12 anos da morte de Deng Xiaoping



19 de fevereiro é a data da morte de Deng Xiaoping (邓小平), que, pra quem não sabe, foi o responsável por implementar a política de reforma e abertura da China. Hoje, no 12º aniversário de morte,flores foram levadas ao túmulo do ex-presidente, na cidade de Guangan, província de Sichuan.

Deng foi o sucessor de Mao no governo. A política que ele conduziu é simplesmente o motivo pelo qual o país deixou de ser uma nação pobre para se transformar na quarta maior economia mundial. Nada mal para 30 anos.

Oficialmente, a política entrou em vigor em 18 de dezembro de 1978, durante a terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China. Em julho do ano seguinte, o país implementaria quatro zonas econômicas especiais, umas das iniciativas mais visíveis para o exterior de o que a China se propunha no momento: fazer negócios com os demais países. As zonas escolhidas foram as cidades de Shenzhen e Zhuhai, em Guandgong (Cantão), então meras vilas de pescadores, e Shantou e Xiamen, em Fujian, outras duas cidades costeiras.

Em 1997, prestes a comemorar 20 anos da implementação da nova diretriz, a China recebeu da Inglaterra a então colônia Hong Kong, inaugurando um inusitado modelo que muito orgulha os dirigentes chineses, o de um país, dois sistemas. Hong Kong, centro financeiro mundial, manteve sua política capitalista, mesmo sob o manto do governo central de Beijing, que se denomina socialista, com características chinesas.

Tais características garantiram a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o que, na prática ajudou as commoditties da China a circularem mundo afora. Lembrem, as zonas especiais constituídas lá em 1979 tinham uma razão de ser. Para o país? Em 2006, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu a invejáveis 9,67%, bem acima da média mundial daquele ano, de 3,3%. O Brasil, para quem não lembra, após uma revisão dos métodos de cálculos feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em honrosos 3,7%.

Nestas últimas três décadas, o ganho anual dos moradores urbanos, numa média per capita, pulou de US$ 46 para US$ 1,611. Nas zonas rurais, este valor era de US$ 18 e hoje passou para US$ 491, segundo números do governo chinês. Aliás, a foto das moças aí abaixo é da década de 1980 e integrou uma exposição sobre os anos subsequentes à adoção da política de Deng realizada em Beijing no ano passado.




Livro


Deng Xiaoping tem todo este papel central nas reformas que garantiram à China o papel que ela ocupa hoje na política e economia global. No entanto, não sei se esta é uma impressão só minha, mas ele me parece um personagem esquecido quando o tema é governo, economia e política chineses.

Em português, um livro de leitura chata (opinão minha, dã), mas interessante, é A China de Deng Xiaoping, escrito por Michael E. Marti. No site da Livraria Cultura, é possível entrar o PDF do primeiro capítulo. Aproveita a palhinha.

Outro que citou o Deng foi o jornalista Daniel Piza, no artigo Ensaio da China, publicado por ocasião da Olimpíada do ano passado. O clique no link é mais do que recomendado.

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Ah, as fotos que ilustram este post estão no especial sobre os 30 anos da reforma de política e abertura publicado pela agência de notícias Xinhua. Em inglês.

Pintou clima



Beijing teve três dias de neve seguidos, de terça a quinta-feira, tempo suficiente para a paisagem mudar e a gente ficar com o maior jeito de criança pelas ruas, de câmera na mão querendo registrar tudo. Ok, falo por mim, mas é inevitável esta sensação boba que chega junto aos flocos brancos.

Para nevar, sabe você, é necessário a temperatura adequada somada a uma umidade também, veja só, adequada. E, bem, esta última não é exatamente o forte de Beijing. Depois que a neve se foi, agora o índice já está em 29%.



Mas numa cidade em que existe o Centro de Comando de Modificação do Clima, seus problemas praticamente acabaram. São Pedro, ou o equivalente a ele nestas bandas asiáticas, garantiu nuvens e frio por um dia. O Centro não teve dúvidas. Aproveitou a mãozinha e pediu o braço inteiro. Conseguiu ampliar os dias de precipitação graças ao bombardeio de nuvens com cápsulas de iodeto de prata.



O objetivo principal era acabar com a seca. Para se ter uma idéia, Beijing ficou 110 dias sem chuva, até 12 de fevereiro. Foi a maior estiagem em 38 anos. A chuva - ou neve - veio exatamente no dia da Água da Chuva, uma das 24 divisões solares de acordo com o antigo calendário solar-lunar chinês, data em que normalmente chove. São bons estes caras, né?



As fotos que ilustram este post foram tiradas na manhã desta quinta-feira, a caminho do trabalho, à exceção da primeira, tirada à noite, quando voltava pra casa depois de uma bela cervejada.

O Jogo das Nossas Vidas



O poster aí de cima foi lançado na Coréia do Norte em 1966, quando a seleção do país participou da Copa do Mundo, realizada naquele ano na Inglaterra. Os donos da casa, aliás, foram os campeões, na competição que reuniu outras 15 equipes e da qual o Brasil se despediu ainda na primeira fase.

Apesar de ter sido o palco da última atuação oficial conjunta de Pelé e Garrincha, não houve brilhantismo para seguir adiante. Eles foram até marcaram os gols na única vitória do Brasil naquela campanha, quando o time estreou com um 2 a 0 sobre a Bulgária.

Voltemos à Ásia. Até agora, esta foi a única participação da Coréia do Norte no torneio (cujo cartaz você vê ali abaixo) - talvez em 2010 a coisa mude, pois a equipe está em segundo lugar no Grupo 2 das Eliminatórias Asiáticas para a Copa, atrás da vizinha Coréia do Sul. Na competição regional, classificam-se automaticamente os dois primeiros colocados de cada grupo (ainda há mais quatro jogos pela frente, mas quem sabe, né).



A estréia norte-coreana nas Copas ocorreu de forma inusitada. Após um boicote dos países africanos e de uma vitória inesperada sobre a Austrália em território neutro - Mianmar -, os norte-coreanos garantiram a vaga na Inglaterra. Fechados em seu regime, foram recebidos com curiosidade pelos ingleses.

Um feito brilhante - ou apenas golpe de sorte - alçou os moços ao topo. Na primeira fase, eles foram responsáveis por despachar os italianos, ao vencerem a Azurra por um modesto, mas surpreendete 1 a 0. A garra norte-coreana parecia não ter limite. Nas quartas, em 22 minutos de jogo, a equipe abriu uma vantagem de três gols sobre os portugueses, fato no qual ninguém acreditava, nem mesmo o narrador da partida. Os lusos, no entanto, não deixaram barato. Eusébio - que terminou como artilheiro em 1966, com nove gols, e cuja foto está logo ali abaixo - marcou quatro vezes, na partida que terminaria em 5 a 3 para os portugueses. Fim de competição para o único representante da Ásia, que resultou numa volta para casa celebrada como um retorno de heróis. A história é fofa, fofíssima.



Pois Dan Gordon e Nichollas Bonner fizeram um documentário exatamente sobre ela, chamado O Jogo das Suas Vidas (numa tradução totalmente livre que eu fiz para o título original The Game of Their Lives). O documentário vale a pena cada minuto. Não só pela história, pelas imagens de arquivo, mas pelo valor que tem como documento de um país tão fechado em si mesmo que, para ser mostrado, exige mil e uma aprovações, o que a dupla Dan e Nichollas garantiu.

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Hoje pesquisando na internet, vi que há outro documentário sobre futebol chamado The Game of Their Lives, este falando sobre os norte-americanos na Copa de 1950, aquela mesma entalada na garganta dos brasileiros quando os donos da casa, o Brasil, perderam a final em pleno Maracanã para o Uruguai. Não confunda os dois documentários, pois.

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O documentário sobre os norte-coreanos, não sei se há como encontrar na internet. Mas, repito, vale cada minuto. Recomendo.

Desespero

Você sabe que está mais ou menos desesperada para encontrar alguém quando a qualidade solteiro faz de praticamente qualquer homem um alvo em potencial.

Ô, vida.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A neve do 19º andar



Ontem voltei pra casa com neve, minha roupa ficou branquinha. Hoje ao acordar, me deparei com este cenário branco, tão raro na Beijing que, na maior parte do tempo, é seca, seca. Para se ter uma idéia, havia mais de 100 dias que não chovia por aqui, período interrompido por um mísero diazinho e uma chuvinha mais ou menos semana passada.

Agora, as condições climáticas garantiram uma nevinha, que, vez ou outra, é tri charmosa, ainda mais se eu pensar que no Brasil eu nunca vejo os floquinhos (aliás, uma das coisas mais engraçadas a se descobrir em relação à neve, é que os flocos são mesmo como os desenhos mostram, ou seja, tem extermidades que se dividem em uma espécie de estrela. E têm uma textura de isopor.

Hoje a humidade relativa do ar está em 86% - um montão, se pensares que há dias em que este índice cai para menos de 20%, a neve é leve e, pelo que vejo na previsão, amanhã continuaremos a ter floquinhos na cabeça.



Ah, ontem à noite, vindo de bike pra casa, descobri que neve nos olhos incoda. Tive de botar meus óculos escuros pra andar. Pedalando e aprendendo.

As duas fotos foram tiradas na hora em que acordei, de dentro do meu quarto, que fica no 19º andar.

Massinhas chinesas

Dia desses fui a um restaurante chamado Loft MianKu (escrito assim em madarim: 面酷), um local onde se comem massas (mian) oriundas da província de Shanxi (山西). A região, famosa pela produção de carvão, também responde pelos mais deliciosos vinagres da China. E vinagre é assunto sério nestas bandas. Vai com a massa, com saladas, com jiaozi - os famosos gyoza, como ficaram popularizados no Brasil.


O restaurante tem um astral muito peculiar. As paredes são pintadas num clima meio grafite. Panelas imensas com água fervendo lembram os restaurantes de lamen (ラーメン) que encontramos às pencas no Japão - pra quem está em São Paulo, a dica é ir ao gracinha Aska, na Liberdade.



Voltando a Beijing, o MianKu se notabiliza pelas massas feitas na hora, o que inclui modelar os pedaços em frente aos clientes. De um pedaço considerável de massa saem deliciosos espaguetes, bastando para isso que o cozinheiro antes se dedique a um intrincado estica e puxa - a expressão notabilizada pela Xuxa, vejam só.

Para quadradinhos, pega-se uma tira e vai-se arrancando nacos quadrados até que todo o pedaço tenha ido parar dentro d'água. Outro show. Tem foto aí abaixo, mas ao vivo é bem melhor. Quem diz isso acho que é o Faustão. Nossa, que fase a minha.



Uma das especialidades da casa é o macarrão de espinafre. Um fio comprido, comprido é cozido junto (sério, as massas ficam menos de dois minutos na água fervente, al dente, al dente!) e depois colocado inteiro no prato. Comprido é tipo uns 2 metros, imagino. Pois no dia do aniversário, o vivente tem de comer o fio de massa de cabo a rabo sem quebrá-lo ou mordê-lo, a fim de garantir que terá uma vida longa e sem percalços. Haja coração! Ai, não, Galvão Bueno só poderia aparecer por aqui pra indicar que esta é a rua onde fica o Aska, no número 466 (e pra quem perdeu o fim da meada, o Aska é o restaurante de lámen em São Paulo).

Bueno, o MianKu tem características chinesas que vão além da feitura das massas e do vinagre como condimento especial. O horário é o de jantar chinês, o que significa que é melhor nem pensar em ir até lá se já tiver passado das 21h30min. O preço segue os padrões chineses e, com duas cervejinhas por pessoa, a refeição custa uma média de 60 kuais, ou em torno de R$ 20.

Aqui abaixo, você vê dois tipos de massa, a de espinafre e um espaguete. Ao lado, estão diferentes molhos que acompanham. Você pode escolher entre sabores como refogado com carne de gado, beringela em conserva, entre outros. A pequenina chaleira - marrom que se vê na foto - traz o vinagre.



Pulinho no Japão

Se pela China as massas de Shanxi fazem sucesso, no Japão são as de Kyushu que têm boa reputação. O nome remete à ilha mais ao sul do arquipélogo, considerando-se as principais do país, que incluem ainda Hokkaido, Honshu e Shikoku.

O lámem de lá é o tonkotsu ramen (os japas escrevem ramen, e em katakana fica assim: ラーメン), massa também al dente cozida num ensopado consistente de porco. Na hora em que o prato é servido, dá-lhe fatias de porco para completar o visual e o sabor.

Quem estiver por Tokyo ou de viagem marcada para lá, é bom guardar o nome Kyushu Jangara Ramen, que em japonês é escrito assim 九州じゃんがらラーメン. Espalhado pelos principais bairros da capital japonesa, como Harajuku e Shibuya, a rede é simplesmente deliciosa - Taihen oishi desu!

Dica: o cardápio vem só em japonês e escolhido o prato, você faz o pedido no caixa e paga antes. Depois fica atento até o cozinheiro chamar.


De volta pra casa




Depois do passeio oriental, observe como terminou a noite no MianKu.




Enquanto os meninos que antes preparavam a massa matavam a fome,



outros davam um jeito de deixar tudo limpo pro dia seguinte.



Achei o maior barato a limpeza. Juro.