quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pressões da vida moderna

A manhã chinesa começou com outro caso de horror em jardins de infância do país. O agressor identificado como Wu Huanmin, de 48 anos, matou sete crianças - cinco meninos e duas meninas - e uma professora, voltou para casa e se suicidou. Ainda há um adulto e outras 11 crianças feridas, duas delas em estado grave. 

O caso das 8h desta quarta-feira na pequena vila de Lichang, na província de Shaanxi (a mesma famosa pelos Soldados de Terracota, localizados em Xi'an) é o quinto semelhante ocorrido em menos de dois meses. Segundo um especialista, cujo nome não é revelado, ouvido pela agência oficial de notícias, a Xinhua, as causas dos crimes são as pressões da vida moderna. Bela explicação para um crime ainda sem explicação. 

O primeiro da série, em 23 de março, teve o médico Zheng Minsheng como protagonista, num ato - desesperado? - após perder o emprego e a namorada. 

Como na China as armas de fogo são ilegais - e ainda que existam clandestinamente, não são fáceis de serem compradas - todos os casos envolvem mortes a facadas ou marteladas, um traço ainda mais cruel do que seria o desespero da tal pressão da vida moderna. 

Para mim, impossível não traçar um paralelo com uma característica que, embora seja baseada apenas em observações minhas por aqui, sem que sequer tenha lido ou ouvido alguma opinião mais efetiva a respeito, chama-me muito a atenção: os chineses, em geral, mais do que uma habilidade para copiar o comportamento alheio, o fazem quase como uma necessidade premente e inadiável. Ou não haveria outro jeito de descarregar as pressões da vida moderna que atacando criancinhas em jardins de infância?

O governo já prometeu a ampliação da segurança no entorno de escolas e jardins de infância e, ainda que circule extraoficialmente, a ideia seria atirar para matar supostos agressores. 

A morte ronda quem se sente pressionado, digamos. Hoje também foi o dia do anúncio do sexto caso de suicídio envolvendo funcionários da gigante de componentes eletrônicos Foxconn, um conglomerado de origem taiwanesa cuja planta em Shenzhen, no sul da China, emprega 300 mil pessoas. Todos os casos ocorreram ali. 

A Foxconn, que pertence ao grupo Hon Hai, produz equipamentos para a Apple e Sony, por exemplo. Além de extensas jornadas de trabalho e salários que podem não ser necessariamente motivo de inveja, a empresa prima por sigilo, dado ao alto grau de complexidade e sofisticação dos equipamentos que produz. Qualquer vazamento de informações de projetos conjuntos que realiza com as bambambans de gadgets e quetais poderia significar agito no mercado, quebra de contrato e algo por aí. Quem trabalha por ali é submetido a controle estrito. Fichinha. Os tais 300 mil empregados já vivem uma rotina sob slongas do fundador do conglomerado, Terry Gou, cujas fotos adornam paredes de um prédio aqui, outro acolá, tipo cantinas e outros essenciais à vida desta comunidade trabalhadora.

E seguem a imitação de tendências, estas tais tendências vindas das pressões da vida moderna, como disse o amigo especialista anônimo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Dia da Cultura Brasileira na China

Olha que bacana,
no último domingo, dia 9 de maio, a gente reuniu uma galera, mais de 200 pessoas, no 2 Kolegas, um bar com espaço ao ar livre aqui em Beijing para o Dia da Cultura Brasileira. Começamos às 14h com joguinhos pras crianças, teve homenagem para as mães, feijoada, pão de queijo, roda de capoeira, samba e professora de samba. A noite terminou, ou começou, com esta que vos escreve nas pick-ups (ahan), numa festa que foi das 19h à meia-noite.

Ficou um registro em fotos, que se parecem meio vídeo, que vocês podem conferir aqui.

Se der vontade, a próxima edição vai ser 13 de junho, também minha despedida da cidade. 
:(

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Estamos em luto, entendeu

Hoje se completa uma semana do terremoto de 7,1 graus na Escala Richter em Yushu, distrito de minoria tibetana na província chinesa de Qinghai. Segundo os números oficiais, pelo menos 2.064 pessoas morreram e há 175 desparecidos. Para ajudar no resgate, 8 mil soldados do Exército de Libertação Popular estão no local.

Não bastassem todas as cicatrizes pós tremor, o tempo frio - com tempestades de neve e de granizo - se alia à altitude, são quase 3,9 mil metros, para complicar a situação. Sem energia elétrica, com pouca infra-estrutura, o povoado nas montanhas, perto do Tibete, irá se recuperar a duras penas. 

Em uma semana, a pacata Yushu se transformou em palco de batalhas mais intricadas que apenas as operações de resgate exaustivas, esforço que reúne os soldados, monges, população local e exclui qualquer ajuda humanitária exterior. A China agradeceu via Ministério das Relações Exteriores o oferecimento de ajuda internacional, mas disse que tem número suficiente de gente para dar conta do recado.

O tibetano que define a população local atrai holofotes e acende debates, provoca paixões e garante decisões e considerações algumas vezes precipitadas. O Dalai Lama anunciou que queria vir apoiar a população local. Falou, mas não pode vir. Assim como quase toda a ajuda do exterior. Repórteres estrangeiros por lá ficam testemunhando o que podem, dizendo que a comitiva do presidente, Hu Jintao, barrou até a passagem de ambulâncias, por alguns momentos. 

Uma reedição do luto e dos esforços durante o terremoto de Sichuan, aquele que deixou quase 90 mil mortos em maio de 2008. Na TV, se repetem os esforços para arrecadar doações. Hoje, todos os canais são um só, tudo está fechado, ninguém se diverte. 

Luto forçado. Na internet chinesa, nem o Google, que andou protagonizando embates com o governo central devido à censura, escapou à regulamentação estatal e suspendeu o serviço de donwloads de músicas - que assim como serviços de jogos online, bate papo ou qualquer outra atividade que signifique diversão, estão inacessíveis ao longo de todo o dia. Até o site de compras online, o Taobao, gigante que seria uma espécie de Amazon local, exibe as cores preto e branco.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Parece, mas não é

Deu no China Daily, o jornal chinês em inglês: os anônimos que têm as caras das celebes. O Ronaldinho chinesinho tá um charme.

A galeria inteira você encontra neste link (http://www.chinadaily.com.cn/photo/2010-04/01/content_9677516.htm) e, são, por motivos óbvios, com estrelas chinesas majoritariamente.

terça-feira, 23 de março de 2010

Um país, dois sistemas: Um Google

O Google resolveu botar fim à contenda com o governo chinês, aberta em janeiro deste ano, quando a gigante norte-americana unilateralmente resolveu banir a auto-censura, desviando os serviços do Google na China continental para os servidores de Hong Kong. Agora, quando você digita www.google.cn, aparece no seu browser www.google.com.hk.

O anúncio, previsto para a segunda, 22 de março, tirou o sono dos chineses. Em terras orientais, ainda se respirava o que poderia ser o sereno da madrugada não fossem os rescaldos da tempestade de areia vinda da Mongólia Interior, que acabou por deixar a capital chinesa amarela na segunda - e que, como um prenúncio do comunicado googleano, também se abateu sobre a ilha, ainda que, em geral, seja apenas assunto interno do continente. 

Voltemos ao Google. A empresa norte-americana fez o anúncio já na terça, 3h, no horário de Beijing, despertando os oficiais à frente da questão. Quem acordou em hora de gente e foi para a internet ler as notícias chinesas em inglês, logo viu na capa do China Daily o que seria a reação oficial. 

"A Google violou sua promessa escrita feita ao entrar no mercado chinês ao retirar os filtros no serviço de busca e acusando a China em insinuações sobre supostos ataques de hackers", diz o comunicado. Bonitinho esta coisa de violar a promessa escrita, né.

Para os executivos da Google, a manobra, além de parecer legal, é razoável. A ver. Óbvio que já há boatos de que, em retaliação, o governo pode bloquear acesso tanto ao serviço de Hong Kong quanto ao serviço norte-americano, como já fez com Youtube, twitter, Facebook. Um serviço estrangeiro a mais ou a menos não faria a menor diferença. Ou faria?

Bueno, faria, sim. Ao expor em janeiro os motivos da possível saída, a Google acendeu discussões mundo afora, afinal não é todo o dia que uma empresa, ainda que bem das pernas, ao que parece, desiste de um mercado potencial de quase 400 milhões de usuários, segundo números atuais (e que só crescem). Em termos gerais, caso você não lembre da história, a Google disse que sairia porque cansara de censurar termos proibidos - a lista aquela que qualquer ocidental ligado em China já deve saber de cor, coloque aí Massacre da Praça Tiananmen e Dalai Lama. Tipo assim, a empresa teria ficado pê quando descobriu supostos ataques a contas de e-mail nos Estados Unidos de dissidentes ou pessoas ligadas a movimentos de direitos humanos na China. A empresa deu até o endereço de onde supostamente teriam partido os ataques, uma universidade em Shanghai e uma escola técnica secundária da província de Shangdong. Tudo oficialmente negado pelas autoridades chinesas, claro.

Para além do que seria um escândalo de ciberataques e espionagem, o caso Google x China é considerado histórico por desnudar a questão da censura dentro e fora do país. Criado o caso, ainda revela outra face, uma certa preferência do governo chinês por empresas nacionais, dificultando a entrada de negócios estrangeiros. Sim, é óbvio que isso também é veemente negado por Beijing, não se preocupe. Caso haja preferências, elas não são explícitas. Ou não eram. 

Um fato é certo. Ao debandar para Hong Kong, a Google nos lembra de o quão esquizofrênica é a relação da China com a parte não continental do país. Explicando. Hong Kong deu vida à expressão Um País Dois Sistemas, o mecanismo que permite regalias aos moradores da ilha ao passo que está sob o governo central de Beijing. 
Também permite ali o capitalismo do mal sem qualquer disfarce e serve de entreposto de importações e exportações, que encontram naquelas paragens praticamente paraísos de isenção fiscal ou taxas preferenciais antes de aportarem nos destinos finais - perfeito para chineses e estrangeiros que fazem negócios . Isso tudo porque, caso você não lembre, Hong Kong era uma concessão inglesa. Só retornou ao domínio chinês em 1997, processo que levará a uma total unificação somente em 50 anos. Talvez o Google venha dar dicas de qual dos dois sistemas prevalecerá em 2047, mas não custa nada sonhar que seja o mais democrático hongkongnense, né.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Um videozinho chinês

para alegrar os corações, já diria Simonal.


Ao clicar no link aí acima, você terá uma ideia de o que se passa no Ano-Novo chinês, duas semanas intensas de fogos para todos os lados, alguns dias mais intensos que outros, é bem verdade.

A função toda começou em 14 de fevereiro, quando chegou, segundo o calendário lunar chinês, o Ano do Tigre. Agora, vai até 28 deste mês, quando acontece o Festival das Lanternas, data tradicional em que as famílias saíam às ruas carregando lanternas vermelhas. Hoje tudo é motivo para fogo. Isso porque este é o único período em cidades como Beijng em que a brincadeira é permitida em qualquer canto da cidade. Fora dos festejos do festival mais amado dos chineses, soltar fogo está proibido. Além do barulhão, o que pega mesmo são os riscos. Você já sabe que não pode soltar balão na Festa de São João, não é mesmo?

Por aqui, a lógica é a mesma. Para se ter uma ideia da loucura em que se transforma a cidade, basta lembrar do incêndio que atingiu o prédio praticamente terminado do Mandarim Oriental, junto à nova sede da televisão estatal chinesa, a CCTV. Para aqueles que não sabem do que estou falando, basta clicar na tag CCTV aí ao lado, eu não posso tentar buscar o link porque não tenho acesso ao blog aqui da China, publico mesmo via email. Enfins, o incidente ocorreu justamente no dia do Festival das Lanternas no ano passado, o último dia de maluquice pirotécnica. Mais de 72 pessoas foram consideradas responsáveis pelo fato, que provocou bem mais que perdas econômicas, mas dores de cabeças gigantes ao governo. Até hoje, tudo está como um ano atrás, a nova CCTV vazia, o prédio ao lado, um monumento condundente à maluquice humana.

Hoje enquanto captava as imagens - Dia dos Fantasmas, quando se soltam quase tantos fogos como no dia da virada -, vi no prédio ao lado um senhor acendendo fogos no telhado. Eu moro no último andar, o décimo nono, e fiquei imaginando se algum outro esperto estaria fazendo algo semelhante sobre a minha cabeça. Sério, a loucura por aqui é tanta, que é realmente perigoso. Tá lá o prédio do hotel para me lembrar disso. Espero, aliás, que seja o único.

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Janaína Camara da Silveira
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Grande Intranet

Extra! Extra!

Até agora, as notícias sobre a possível saída do Google da China não tiveram qualquer desdobramento, a não ser especulações. A última chamada sobre o tema nos sites governamentais chineses era: Minstério do Comércio não recebe notificação do Google sobre saída da China. Pelo twitter, por volta das 18h desta sexta-feira, o que se tinha em conta era que os funcionários locais - diga-se de Beijing - estavam em reunião a portas fechadas e que o Conselho de Estado chinês já teria decidido por sanções ao website. O anúncio, segundo rumores, seria nesta noite. 

O que pega por aqui é saber o que realmente pode acontecer. Se apenas a retirada de cena do google.cn e seus subprodutos traduzidos para o mandarim ou toda a gama de serviços da empresa, que pode, por que não, ser barrada de operar em espaço chinês - a exemplo do que já aconteceu com o Youtube, o serviço de vídeos da companhia norte-americana, em março do ano passado. Sim, você que me lê, eu não tenho acesso ao Youtube há quase um ano. Você imagina a sua vida assim?

Em twits da infosfera chinesa - na qual se estima que haja até 30 mil usuários ativos, segundo o jornalista chinês Michael Anti -, há preocupações sobre como encontrar outro serviço para subsituir o Google Ad Manager, por exemplo. Ou seja, o motor de busca até tem competidor mais forte por aqui, mas e pense no Google Maps, cujo serviço não tem concorrente. Pois... ferrou. Quem usa Picasa talvez tenha de migrar, etc, etc. 

Em estudo da organização Freedom House publicado pela revista Época nesta semana, a constatação é triste: o mundo ficou menos livre em 2009 (http://epoca.globo.com/edic/609/FIW_2010_MOF-2.pdf). E quem está nesta lista de países cujas liberdades individuais estão bastante cerceadas: China, óbvio. Pois agora os cidadãos que detém tão pouco de liberdade poderão estar expostos à maior intranet da história mundial. Ninguém mais entra, quem puder, sai.

A saída providencial do Google gera duas correntes apostas de análise. Uns afirmam que a empresa dá exemplo ao não aceitar mais os limites impostos pelo governo do Partido Comunista da China. Outros dizem que se trata apenas de uma retirada honrosa ante um desastre estratégico na conquista do mercado chinês. A empresa teria aproveitado a já tomada decisão de sair para criar um fato e ganhar notoriedade, apoio e simpatia dentro e fora do país. Acho que ambas são simplistas e há implicações que podem muito bem mixar estas duas linhas de pensamento. 

Com a saída, no entanto, quem está encrecado mesmo é o usuário. Quem já usa meios de barrar a censura chinesa, por meio de proxies e VPN, vai continuar o fazendo. Quem é usuário mediano ou sem acesso - e sem dinheiro - para tanto, ficará limitado. Em tempo, um serviço de VPN custa cerca de US$ 60 anuais - e já tem muita piadinha internética por aí dizendo que será o novo negócio da Google para o mercado chinês. Bueno, caso você tenha achado novidade esta história de proxy e VPN, saiba que quem quer informação, acha. Não pense você que a mão forte irá barrar todo e qualquer desejo de navegar e se informar. Neste sentido, o que acontece é que os esforços chineses estão centrados na grande massa - 380 milhões de usuários de internet é bem mais que a população brasileira, certo?

Os tanques da Praça da Paz Celestial

Certa vez eu ouvi que estrangeiro ao falar sobre a China, fala sobre o massacre da Praça, lembra da imagem do tanque avançando sobre o até hoje não identificado chinesinho e sua sacola na avenida que, pra quem não sabe, é a principal da capital. Quem me disse falou com tristeza, desdém, incompreensão. Mas eu mesma vou ao Brasil e é sobre isso que os brasileiros me perguntam - quando conseguem formular algo mais politizado do que questões sobre se eu como cachorro ou escorpião. Ok, estou generalizando, mas é por aí. 

Na onda de generalizar e brincar com isso, desde que o Google.cn decidiu se rebelar contra o governo chinês, resolver dar uma de espertinho. Sabe quando você começa a digitar uma busca na caixa destinada a isso e o Google te dá sugestões? Então, por aqui, quando você digita Praça da Paz Celestial, que soa Tian'anmen e se escreve 天安门, a primeira opção que aparece é 天安门坦克, ou Tanque da Praça da Paz Celestial, a primeira uma palavra que você pode pronunciar em mandarim, olha que tudo. Tanque é tanke. Enfins, daí você vai todo faceiro clicar nos resultados, todos em mandarim, obviamente. E será inundado por uma enxurrada de informações sobre o desfile de aniversário dos 60 anos da Fundação da República Popular da China, comemorados no último 1° de outubro, quando as Forças Armadas chinesas foram as principais estrelas de uma parada ocorrida em frente à Praça. Tem também referências ao desfile que marcou a fundação da república de Mao, para aqueles que querem saber mais sobre história oficial. Ou seja, a brincadeirinha existe, mas na grande intranet chinesa, você só tem acesso ao que a intranet oferece. E, não, não vai ter página que descumpra os mandos e desmandos do Conselho de Estado e dos diversos órgãos subordinados a serviço de mais uma censura para você, amigo usuário.

Mas ante tamanha decepção, afinal a ironia sobre os tanques foi boa, mas os resultados, nada animadores, um amigo chinês veio me dizer como eu deveria fazer a busca: 天安门 64. Ou Praça da Paz Celestial 64. O 64 nada tem a ver com o famigerado 1964 que marcou a política - a história e a economia - brasileira, mas 4 de junho, o dia do massacre em Beijing. No Google.cn, desde terça-feira, o primeiro link remete à pagina http://89-64.org/b5/2223.htm, devidamente bloqueada aqui. Pois o site, em inglês e mandarim, traz detalhes e fatos sobre os idos de 1989. Os chineses, como o meu amigo chinês, sabia. Informação não se esconde mais. Não pra todos.

Em tempo, no Baidu, o serviço de busca líder, a referência à página http://89-64.org não existe. 

Em tempo 2, a saída do Google, independente da motivação e das intenções vai prejudicar só mesmo o usuário internético chinês que, mesmo vítima da Grande Intranet, pelo menos poderia ser abastecido com mais pistas do mundo lá fora.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Google sem censura

Já imaginou a sua vida sem Google? Se você mora na China, é bom começar a imaginar. O Google só fica no país se obtiver o direito de operar o seu sistema de buscas sem restrições, destas impostas pelo governo chinês desde que a internet é internet por aqui. O Google entrou na onda chinesa em 2006, sempre adequado às regras nacionais, e hoje ocupa 33,1% do mercado da indústria de buscas online. Por aqui, o mais famoso motor de busca é o Baidu.com, que detém uma fatia de 63,1%.

A decisão, anunciada no blog da Google, significaria a retirada total do mercado, fechando inclusive os escritórios na China - há um em Beijing, um em Shanghai e outro em Guangzhou, que empregam cerca de 700 pessoas. Por aqui, o grito de independência ou morte se deu antes do Dia do Fico - aquele dos tempos imperiais brasileiros. Aliás, o Google só fica se após as negociações que já tiveram início com o governo chinês avançarem para menores restrições à operação da companhia, segundo o post assinado por David Drummond, vice-presidente de Desenvolvimento e chefe do Departamento Legal da empresa.

Internauta chinês que conhece bem a linha dura adotada pelo poder em Beijing já teme a morte. Desde o início da tarde desta quarta-feira, quando a notícia se tornou popular tanto em sites internacionais quanto na infosfera chinesa, internautas se dirigiam espontaneamente à sede da Google em Beijing para depositar flores em frente ao logo da empresa (http://img.ly/mqZ). Via twitter, esse mesmo que foi banido desde maio, mas que muita gente acessa por aqui pelos mais diversos meios, foi combinado um ato em frente à empresa para as 17h. Aqueles que enfrentaram os -8°C da tarde de quarta-feira tinham de mostrar PERMISSÃO para deixar as flores no local. Óbvio que ninguém tem permissão. Permissão é o que menos se tem nesse país - quando se é um cidadão comum. Aqueles que têm poder brincam de se permitirem tudo.

O ato corajoso dos internautas, numa demonstração irônica do descontentamento com os desmandos governamentais e um rasgo raro de impetuosidade e ousadia - num país em que qualquer reunião pública só pode existir com o aval do governo - teve resposta imediata na web. Covardemente, o Renren, a maior rede social chinesa baniu a palavra Google de seu site. Capacho é capacho. 

A briga de cachorro grande - o Google é um dos primeiros entes, entre corporativos e governamentais que adota uma postura pública de impor condições ao governo chinês - chamou a atenção até da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Ainda na terça, comunicado publicado na página do Departamento de Estado (http://www.state.gov/secretary/rm/2010/01/135105.htm) informa que Hillary cobrará do governo chinês explicações sobre o caso. No texto, a secretária diz que "a habilidade de operar com confiança no ciberespaço é fundamental numa sociedade e economia modernas". 

A Google explica que tomou a decisão depois de ataques, supostamente vindos da China, a contas do Gmail de ativistas de direitos humanos com atuação no país. Teria sido a gota d'água, segundo a companhia, que até agora respeitou restrições locais, como a de eliminar dos resultados de busca dados sobre o massacre da Praça da Paz Celestial, por exemplo. O governo chinês, através da agência estatal, disse que quer saber quais os reais motivos da Google. A matéria (http://news.xinhuanet.com/english/2010-01/13/content_12804080.htm) não traz lá grandes informações, mas um empregado da empresa teria dito que foram informados oficialmente de que seus empregos correm mesmo risco.

Agora, seguindo na linha dos que baixam a cabeça para o potencial econômico chinês, o antigo CEO da Microsofot China Tang Jun disse ao China Daily, publicação estatatal em inglês, que esta é a decisão mais estúpida da Google, que perderia "metade do mundo". Se quiser ler com seus próprios olhos, em inglês, a declaração está aqui http://www.chinadaily.com.cn/china/2010-01/13/content_9315456.htm. Eu sei que são 1,3 bilhão de chineses, mas eu jurei que isso fosse 1/6 da população. Bueno, são estes exageros e este medo de perder o mercado e a bênção do governo chinês que dão a sensação a este mesmo governo chinês de que ele pode tudo. E os outros não podem nada, a não ser se adequar. 

O britânico The Guardian traz outros pontos de vista, mais semelhantes àqueles que compartilho. Na reportagem da correspondente Tania Branigan (http://www.guardian.co.uk/technology/2010/jan/12/google-china-ends-censorship) a Human Rights Watch felicita a decisão da Google, a tem como um exemplo e recomenda que as demais companhias seguissem o modelo do motor de busca. E você, é da turma do "se não pode vencê-lo, una-se a eles"? 

Em tempo, outro dos meios estatais para inglês ler do governo chinês, o Global Times, já avançou na morte do Google e perguntou para onde os internautas chineses migrariam, na hora de fazer suas buscas online (http://business.globaltimes.cn/world/2010-01/498180.html). Dos que responderam, 82,42% iriam para o já líder Baidu. Depois aparece o novato Bing, com 12,29%.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Carne de ovelha é massa

Carne de ovelha é massa

Primeiro, várias informações. Lá no sul do Brasil, a gente come carne de ovelha, não venha com cordeiro, carneiro ou sei lá como o resto do Brasil chama o animal. Segundo, em Beijing, há um prato bastante típico chamado 羊蝎子, que ao ler você deve pronunciar Yang Xiezi, um hot pot com carne de ovelha. Se você não sabe o que é hot pot, a explicação fica um pouco mais comprida, mas tentarei resumir. Trata-se de um prato chinês em que os ingredientes chegam à mesa crus e você os cozinha num molho previamente temperado que fica borbulhando em uma panela quente ao centro. A foto abaixo (roubada do site chinês dianping - http://www.dianping.com/shop/2400490-, um guia (também) de restaurantes que conta com atualizações e contribuições dos usuários) dão uma mostra sobre o que estou falando.

Pois no último sábado, dia de pagar o aluguel, fui convidada pela dona do apartamento onde moro para almoçar com ela, a irmã e o filho. Ótimo para socializar, treinar o chinês e conhecer um restaurante com gente local - elas moram na região desde que nasceram, sabem tudo de Niu Jie (牛街), reduto dos chineses muçulmanos, tanto os da etnia Hui, praticamente iguais à maioria Han, mas com a crença muçulmana, e os uigures, majoritariamente de Xinjiang, a região que se tornou conhecida em julho deste ano mundo afora, depois de ser sacudida por confrontos mortais entre a tal etnia uigur e os chineses Han. Mas estamos aqui para falar de comida, que é o que interessa neste post. Questões políticas e afins, em outras seções deste site, pois.

A escolha das anfitriãs foi o 老诚伊, que se lê Lao Chengyi e que não significa outra coisa, segundo minhas pesquisas, que o Velho Chengyi. Só consegui chegar à conclusão de que Chengyi é um nome, e deve ser um nome dum cara legal. A comida era uma delícia. Primeiro, chegaram suculentos pedaços do que era a costela da ovelha, que logo eram acrescentados ao molho fervente. Passados uns cinco minutos, com os palitos numa mão e uma luva em outra, estávamos nós saboreando a dentadas. De dentro, pedacinhos de tutano eram extraídos com os palitos, por aqui conhecidos como 筷子 (kuazi) e, ainda que eu tivesse os meus próprios, outros e outros chegavam ao meu prato, direto dos ossinhos das ex-ovelhas da dona do meu apartamento e da irmã dela - não, não me perguntem os nomes, não que elas tenham pedido anonimato, eu que sou péssima em chinês. Coisa de ser convidada de honra.

A experiência foi ótima. Tudo bem que a gente não possa dizer que a conversa tenha fluído às mil maravilhas, mas conversamos e conversamos bastante. Claro que não tanto quanto eu gostaria. Imagine que uma chinesa da gema te diz que "中国二十这年的变化可真不小",  ou alguma coisa assim, que você poderia ler como "Zhongguo ershi zhe nian de bianhua kezhen buxiao" e entederia como "A China mudou muito nos últimos 20 anos" e você só pode concodar, "Sim, mudou pra caramba". E não pode perguntar por quê porque não sabe perguntar e nem entenderia a resposta. Frustrante. Mas, bom, nós estamos falando de comida, então não fiquemos triste por falta de capacidade de papos mais sérios.

E eis que entre um tutaninho e outro, outro quitute era adicionado ao molho já bastante espesso e fervente na nossa panela aquecida por uma destas chapinhas elétricas - que eu sei lá se tem ou não no Brasil, mas é que capaz que tenha. Um quitute que em mandarim eu não soube saber o que era, mas a experiência de tantos mocotós me fez pensar que se tratasse de intestino de ovelha. Então resolvi pensar que não estava entendendo, enquanto me deliciava com mais e mais pedaços que vinham parar no meu prato. E ainda tinha batatas. Porque "老外非常喜欢土豆", isso foi fácil de enteder, "Estrangeiro adora batata", ou "Laowai feichang xinhuan tudou". 

Pra finalizar o almoço banquete, depois de eu nem conseguir praticamente respirar, chegou a hora dos 面片, ou massa. Além de ser uma delícia, dá uma prova de que macarrão é mesmo cosia de chinês. A coisa chega em tiras grossas à mesa, trazida por uma garçonete. Então, na frente dos clientes, ela faz um balezinho de massas, esticando e puxando, como diria a Xuxa, e o que era grosso vira uma massinha fina, coisa fina de se comer. Preparado, claro, no caldo mais que espesso depois da comilança. 

Super aconselho. Claro que depois de ter enchido a barriga - até demais, só consegui comer no dia seguinte, no almoço -, eu ainda me perguntava onde estava a beringela. Por que desde a hora do convite, a dona do apartamento me perguntava se eu gostava de comer beringela. Pelo menos era isso que eu havia entendido.

- 你喜欢吃茄子吗? - Ni xinhua chi qiezima?

E para que perguntar tanto se nem tinha beringela. Pois foi só hoje quando descobri que o prato principal se chama 羊蝎子, ou yang xiezi - cujo som xiezi se aproxia do qiezi, por mais que isso possa parecer estranho aos não iniciados no pinyin, que é como os chineses romanizam os sons dos caracteres -, que caiu a ficha que ela nunca me perguntou sobre beringelas. Agora vocês imaginem que perigo se eu perguntasse mais sobre as mudanças da China, o que eu poderia ter achado que teria entendido. Pelo menos, aprendi que tem coisas que não mudam, minha dificuldade com o chinês é uma delas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Camaradas, é hora da política de abertura!

A China anunciou hoje, véspera do Dia Mundial de Lutra contra a Aids - comemorado em 1° de dezembro -, que poderá permitir a entrada de estrangeiros portadores do vírus HIV no país, extinguindo uma regulamentação de mais de 20 anos aprovada no final da década de 1980 para tentar impedir o crescimento no número de casos no país. 

A primeira vez que a China registrou oficialmente um paciente com Aids foi em 1985. Hoje, o que há de oficial é uma estimativa do Ministério da Saúde, segundo a qual 740 mil pessoas seriam portadoras até o final deste ano.

– Eu espero que a China termine com a proibição de uma vez por todas até a Expo Shanghai - disse ao jornal em inglês China Daily o vice-ministro da Saúde, Huang Jiefu. 

O plano chincês para a exposição mundial, que vai de maio a outubro do ano que vem, é o mesmo adotado para a Olimpíada, quando foi permitida a entrada de turistas portadores do vírus, mas apenas durante aquele período. A esperança é que desta vez a medida não seja apenas temporária e faça com que a China abandone a lista dos poucos mais de 70 países que oficialmente barram pacientes com HIV. 

Hoje, o turista deve informar no cartão de entrada na China - a serem entregues nos guichês de imigração - se é portador do vírus. Aqueles que querem visto no país por mais tempo, como as modalidades para residência ou trabalho, devem se submeter a exame de sangue. Quem tem Aids, tá fora. 

Na matéria de hoje, a agência estatal nega que o cuidado seja sinônimo de preconceito ou desinformação, mas principalmente uma preocupação com possíveis gastos com cuidados médicos para estes turistas ou moradores eventuais (http://news.xinhuanet.com/english/2009-11/30/content_12562502.htm). Vai saber, né. 

Independente da motivação, a Aids é sim tabu e preconceito puro por estas bandas. Você nem precisa ser jornalista como eu, caso não seja tão preconceituoso quanto os meus coleguinhas chineses, para sacar que a área de destaque no site hoje liga automaticamente a Aids à comunidade gay - notadamente os homens gays, como se lê nas primeiras linhas da matéria sobre o primeiro bar gay oficial da China (http://news.xinhuanet.com/english/2009-11/30/content_12563452.htm). O lugar, ao qual eu não irei e não sei quem vai, ficará em Dali, cidade de Yunnan, a província chinesa que teria o maior número de casos de Aids, segundo o governo. Pois no lugar em que não será servido álcool, os clientes terão acesso a informações. Ou desinformação, vamos combinar.

Um país que trata de Aids como um problema ligado à comunidade gay masculina (as lésbicas seriam menos afetadas porque, em geral, são mais fiéis e mantêm uma mesma parceira por mais tempo - pô! não sou em quem tá dizendo, leia o link ali de cima, é em inglês, mas eu sei que você entende) só pode começar super errado na prevenção de uma doença que, como o próprio governo reconhece, implica gastos robustos em tratamento de saúde. Lembro que no distante 2005 eu trabalhei em um especial tambémsobre o 1° de dezembro, quando um dos motes era focar nas mulheres heterossexuais portadoras do vírus, que contraíram de diversas formas - em relações sexuais heterossexuais estáveis inclusive. E isos que não se tratava de nenhuma inovação. Mas aqui na China...

Aproveitando o mote gay da história toda, a Xinhua encerra seu quadro de chamadas para lembrar o Dia Mundial de Luta com a história de Wei Xiaogang (http://news.xinhuanet.com/english/2009-11/29/content_12559364.htm), documentarista que saiu do armário - na maravilhosa expressão chinesa 出柜, que se lê chu gui e significa exatamente sair do armário, dã! - e sofreu com isso, já que preconceito aqui é coisa bem séria. Não bastasse uma das principais missões dum chinês na vida ser a de produzir descendentes, homossexualismo aqui foi considerado doença mental até o ano 2001. Oficialmente, eu digo. Na prática, suspeito que ainda seja para muita gente, viu. 

Pois bem, como este papo tá pesado e afinal, que as pessoas sejam felizes, sigamos com a história do Wei. Ou melhor, com as histórias feitas pelo Wei. Ele mantém o site www.queercomrades.com - em chinês e inglês - e produz diversos documentários sobre o tema. Neste aqui cujo link é este grandão e super vale o clique, http://you.video.sina.com.cn/b/23280532-1286173051.html, ele conversa com dois pais, o Papai Sun e a Mamãe Wu, cujos filhos saíram do armário. Como perceberam que a decisão dos filhos implica em problemas familiares, resolveram, se não sair do armário, pelo menos sair de casa e se engajar à comunidade gay para ajudar quem não consegue falar, ajudar outros pais.

Bueno, o título deste post se refere aos Camaradas, 同志, ou tongzhi, em mandarim, que era como toda e qualquer pessoa era tratada por toda e qualquer pessoa por aqui nos tempos de maoísmo ferrenho e que hoje virou gíria para designar gay. Só para finalizar, 同志们出柜吧!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

twitter是什么?

No dia em que o presidente norte-americano, Barack Obama, conversou com estudantes no Museu de Ciências e Tecnologia de Shanghai, ou seja, nesta segunda-feira, a pergunta "O que é twitter", a mesma que dá título a este post, foi a maior ocorrência no Google chinês. A segunda foi 奥巴马上海, caracteres que em português se traduzem como Obama Shanghai.

O encontro de Obama com a juventude foi tão propagandeado quanto negociado entre as partes chinesa e norte-americana. O resultado, um teatro mal ensaiado - no qual todo o mundo embarcou em papéis mal interpretados. 

Obama já era celebridade entre os jornalistas e twitteiros chineses na véspera da visita de quatro dias ao país, que inclui além de Shanghai, a capital, Beijing. Na manhã de segunda, praticamente não havia outro tema no twittermundo destes pagos. E a coisa se desenrolou ao longo do dia, muitas das vezes acompanhada da hashtag #obamacn, quando a limitação de 140 caracteres por post permitia. E tão estrela quanto Obama, só o twitter mesmo.

O presidente respondeu a oito perguntas durante encontro de uma hora (começou às 12h50min, horário local), a maioria enviada por internautas por meio de um fórum aberto pela agência estatal chinesa. A questão sobre a venda de armas pelos Estados Unidos  a Taiwan estava lá, segundo a própria Xinhua havia cantado a pedra no sábado. A pergunta teria sindo feita por um suposto jovem empreendedor taiwanês com negócios em Shanghai que via os lucros aumentarem, mas estava preocupado com uma possível ajuda alheia à ilha que insiste em não ser China. Tipo, "senhor presidente, o senhor bem vê que todos estamos crescendo, os taiwaneses estão bem felizes com os laços junto à parte continental, então assuma de uma vez por todas que os EUA não apoiam qualquer movimento independentista da ilha". Obama não respondeu nem sim, nem não, mas reafirmou a soberania chinesa e a política oficial de Uma Só China, a que bota sob o mesmo chapéu todos os territórios que não eram antes ou aqueles que ainda não querem ser chineses - apesar de que a estas alturas, com tanto poderio político-econômico, eu bem acho que o que vale é alguma liberdade a mais de expressão e de preservação cultural, porque viver à sobra de Beijing nem é tão mal. Chame de universo paralelo ou nova conformação do poder mundial, mas se você acha que a China já invadiu seu mundo, você ainda não viu nada, a coisa tá só começando. E tem muita gente que não quer perder os benefícios de estar na crista desta onda. 

Digamos que o Obama também não e, apesar de estar do lado de lá da força, agora fala em diálogo forte, cooperação pragmática e todas estas expressões caras à diplomacia e que se traduzem em esforços para estabilizar a economia mundial, conter os perigos das mudanças climáticas e garantir a não proliferação de armas nucleares - com especial atenção para dois países especialistas em aprontar neste plano, o Irã e a Coreia do Norte. Hoje, depois de encontro com o colega chinês, Hu Jintao, ambos assinaram uma declaração conjunto que abrange um leque amplo de temas - estes aí de cima e outros mais -, numa retórica um tanto conhecida, um chover no molhado sobre o qual ninguém pergunta.

Ninguém mesmo. Na ENTREVISTA COLETIVA que se sucedeu à assinatura do documento, os repórteres foram avisados de que não poderiam fazer... perguntas. Gargalhada geral na platéia, me contam meus amigos correspondestes. Engraçado mesmo, não fosse também trágico.

A China tem suas formas clássicas de encenar grandes circos. Obama protagonizou um destes. Lembram do encontro com estudantes de que falei no início deste post? Pois muitos que estavam ali, principalmente aqueles que fizeram perguntas, pertenciam à Liga Jovem Comunista, tipo assim, aquela parcela de gente que já cresce com futuro brilhante, seguindo a cartilha oficial. Uma menina que não disse o nome, porque não é boba, garantiu à reportagem do New York Times que foi instruída durante quatro horas antes do encontro com Obama sobre o que deveria ou não falar. Eu sei que o link é grande e o texto é inglês, mas se você ficou curioso sobre o que o jornalão norte-americano tá contando hoje sobre a visita, pode clicar aqui http://www.nytimes.com/2009/11/17/world/asia/17prexy.html?pagewanted=1&_r=1&th&emc=th.

Bueno, de tudo o que se disse, o mais importante foi o fato de Obama dizer que não usa o twitter - momento em que respondeu à única pergunta escolhida pela embaixada norte-americana aqui na China e que poderia causar algum desconforto. A pergunta era clara: os internautas chineses têm direito à acessar o twitter, na opinião de Obama? Mais uma vez, ele não disse que nem sim, nem não, só que acredita no fluxo livre de informações que, em última análise, apesar de permitir a publicação de críticas, serve para fortalecer ou ajustar pontos de vista e políticas. E o mais revelador: ele mesmo não usa o twitter, por se achar desajeitado e ter dedos grandes para digitar no celular. 

Tipo assim, o @barackobama também é teatrinho? Parem as máquinas que eu quero descer.

As fotos foram roubadas do especial oficial sobre o presidente, que você pode conferir aqui, feito pela toda poderosa Xinhua www.chinaview.cn/obama0911. Obama na Cidade Proibida, que fez questão de conhecer na fria tarde de terça-feira (fez 1°C hoje, a máxima, eu digo) na primeira visita a Beijing e Obama com os estudantes em Shanghai, quando mostrava o tamanho dos dedos. Acho que era isso, assim espero, pelo menos.

domingo, 15 de novembro de 2009

Pragmatismo com características fofas

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chega à China neste domingo para a primeira visita de Estado ao país com um objetivo: construir uma cooperação pragmática, segundo adiantou em discurso na sexta-feira à noite no Japão, na primeira escala da turnê de nove dias à Ásia. O que exatamente isso significa eu não sei, mas é como se se manter aliado à China fosse cada vez mais importante. Obter a confiança de uma das mais novas lideranças globais, indiscutivelmente ganhadora de muito terreno no plano político asiático e africano, para citar apenas duas regiões sobre as quais o Partido Comunista Chinês (PCC) estende os tentáculos, é tarefa das prioritárias.

Aliás, eu não sei exatamente o que esta agenda toda pretende, mas eu sei quem sabe, a Cláudia Trevisan, então faça o favor de ler a matéria dela de hoje no Estadão, cujo link é este mesmo que segue aqui http://tinyurl.com/yc2ee2v.


Voltemos ao Obama. Obama começou a delinear os frutos positivos que busca colher deste périplo ainda em junho, quando informou ao Dalai Lama, que visitaria Washington em outubro, de que não o receberia na Casa Branca – a primeira vez que isso acontece desde 1991, quando Bush, o pai, deu início às recepções presidenciais ao líder espiritual em cada uma de suas idas à capital norte-americana. Melhor não cutucar a onça com vara curta – o que poderia ser até piada pronta, caso os chineses tivessem esse ditado por aqui.


Obama, ao contrário, já começou adulando o governo chinês em solo japonês.


- Os Estados Unidos não querem conter a China, ao contrário, o surgimento de uma China próspera e poderosa pode ser uma fonte de força para as nações – disse Obama, que um dia depois estaria com o colega chinês, Hu Jintao, em Cingapura,  durante encontro da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec, na sigla em inglês), grupo de 21 economias da Ásia, criado há 20 anos.


Cingapura pode ser um termômetro do que está por vir em Shanghai e Beijing. Troca de carinhos e pouca prática. O que os líderes acordaram é que não haverá grandes consensos em dezembro durante a Conferência do Clima de Copenhagen, que acontece de 7 a 18 do mês que vem e sobre a qual o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, alçava ao status de fundamental para o avanço do Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Obama e os amigos, no entanto, se comprometeram em empenhar grandes esforços políticos para a conclusão da Rodada de Doha em 2010 – outro destes planos mundiais de melhoria para todas as nações que nunca anda, que já nasceu emperrado, em 2001, no Catar, ainda que tenha como objetivo derrubar barreiras comerciais entre os países, em cartilha moldada e abençoada pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Aliás, todos os membrinhos bonitinhos da Apec e convidados especiais também juraram não lançar mão de protecionismo, que só faz o bem a curto prazo, mas a gente precisa pensar grande. Papo aprendido na cartilha, super bonitinho.


Mais bonitinho do que isso, só a foto oficial do evento – a que abre este post e sobre a qual a assessoria do encontro não colaborou, só botou a versão em baixa resolução no site (www.apec2009.sg) - em que os presidentes aparecem vestidos com roupa local. Aliás, voltando ao Obama, ele já avisou que quer ver todos de camisa floreada e saia de palha na versão hawaiana do encontro, para a qual os convidou em 2011. Ele está que é todo prosa junto aos olhinhos puxados. Numa declaração dúbia, sobre a qual ninguém arrisca dizer se Obama garante que os EUA estarão nessa ou se apenas quis dizer que acha a ideia super, o presidente foi só elogios ao tal Acordo de Parceria Estratégica Trans-Pacífico,  tipos um super acordo de livre mercado da Apec, que já angariou as adesões do Chile, da Nova Zelândia, de Cingapura e de Brunei (ô, agora vai). Seria só mais um dos passos do grupo, que, segundo expectativa da China, pode lançar mão de uma área de livre comércio já no ano que vem, justamente a Ásia Pacífico. Alguém duvida que neste turbilhão de planos os chinesinhos assumiriam o protagonismo? Os EUA que se cuidem.


Pois hoje, acho que pensando no bem dos norte-americanos, a Times deu como capa dicas preciosas aos atuais donos do mundo, mas talvez não por muito tempo no posto: Cinco coisas que os EUA podem aprender com a China (http://tinyurl.com/yjbn8f7) e os chineses. São elas: ser ambicioso, reconhecer a importância da educação, cuidar dos mais velhos, guardar mais dinheiro, olhar além do horizonte. De repente caiu comigo aqui a ficha que a fórmula bem que poderia ser copiada pelo Brasil.


O texto de Bill Powell, há cinco anos na China, mescla políticas governamentais a características culturais chinesas, numa mistura de público e privado que tem tudo a ver com a nova ordem estabelecida pelo PCC. E viva o socialismo com características chinesas, para bater na mesma tecla que você, leitor do bloguinho, já deve ter cansado de ler.


Anyway, Powell começa agressivo, ressaltando o vigor juvenil da nação de 5 mil anos, ante uma apatia presente no capitalismo careca e de dentes frouxos dos Estados Unidos – as metáforas dele até são outras, mas você entendeu.  A coisa começa pela ambição, em dois exemplos significativos da força chinesa: o fôlego sem fim para a construção de ferrovias cortando o país de leste a oeste e a promessa de que até 2015, toda a frota de ônibus das 13 maiores cidades chinesas serão equipadas com veículos elétricos – sinal de que a ambição chinesa enxerga além do horizonte, o último dos tópicos destacados pelo repórter da Times, garantindo liderança em recursos logísticos e preocupação ambiental.


Quando se fala em educação, então, alem dos espantosos mais de 90% de índice de alfabetização, o repórter destaca a importância que é dada a questão, muito devido à pressão absurda enfrentada pelos filhos únicos mas que, em última análise, será responsável por formar profissionais ao menos bilíngues, quiçá poliglotas, em diversos ramos.  Como o texto destaca, a China é a fábrica do mundo não pela mão de obra barata, mas pela mão de obra qualificada (tá, e barata, vamos combinar). Bueno, a questão educacional é bom nem comentar, que dá arrepios, se compararmos ao Brasil. Enquanto dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2008 mostra que 97,9% das crianças entre sete e 14 anos estavam matriculadas no Ensino Fundamental – ok, bacana -, a pesquisa 2009 revela que na faixa de 25 anos a 64 anos, aqueles com mais de 11 anos de estudo representavam 23,8% desta fatia da população, um quadro bem modesto diante dos 88% alcançados pelos EUA e pela Rússia. Apesar de não ter os dados chineses, tenho medo de ficar vermelha outra vez. Nem procurei muito.


Bueno, voltando aos holofotes obamaniáticos na China, o que se espera dele nesta segunda é um encontro com jovens em Shanghai, onde serão apresentadas algumas questões enviadas por internautas a um fórum organizado pela agência estatal chinesa, a Xinhua. As perguntas vão de estapafúrdias curiosidades acerca de quem paga os modelitos desfilados por Michelle, a se os EUA venderão armas a Taiwan. Em espaços não moderados pelo governo, o que os internautas queriam mesmo saber era se Obama pressionaria pelo fim de tanta censura internética. Neste ponto, talvez quem esteja sendo pragmático mesmo seja o governo chinês que, segundo rumores, proveria ao todo poderoso norte-americano usuários com acesso especial à web, a fim de que Obama ficasse online nos seus perfis de twitter e facebook, tão caros à eleição do presidente e à manutenção de seus status enquanto figura pública fofa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O jeito sutil chinês de dar o recado

A coisa pesaria no meu bolso, então resolvi ler direitinho matéria do China Daily, o jornal estatal chinês em inglês, sobre o aumento da tarifa de táxi em Beijing (http://tinyurl.com/ybfbe7p). A cada viagem, excetuando-se aquelas de tarifa básica (10 yuans, uns tipos R$ 2), será preciso pagar 1 yuan a mais - ou R$ 0,25, mais ou menos, sei que você já fez a conta. Bacana, nem vai doer tanto assim. Mas será a partir de quando que terei de dar o valezinho-gasolina-gás-ou combustível que o valha para o shifu, o mestre, como chamamos os taxistas por aqui?

Quem informou sobre o aumento não quis dizer a partir de quando a medida entra em vigor, segundo o jornal, cara de pau, como se todos não bebessem da mesma fonte, as tetas do governo chinês. O todos, no caso, são o entrevistado, o redator e o editor da matéria. Gente, chocadíssima com o jeito local de fazer jornalismo - ao qual não, não me acostumei. Nada que não pudesse ser suplantado pelas novas informações da tarde.

Circulou ontem pelo twitter (ao qual temos acesso usando outras plataformas) que o Barack Obama, o modelo do boneco de cera que abre este post, poderá atualizar aqui da China tanto as contas do twitter quando do Facebook, ambos bloqueados no país. É que para o presidente norte-americano, que visitará Shanghai e Beijing na semana que vem, há tratamento especial. Aliás, quem quiser conferir o Obama de cera aí de cima, deve ir a Shanghai também, aqui seguem os detalhes do museu: http://www.madametussauds.com/.

Deve ser para que o presidente não se sinta preso no Great Firewall of China, um trocadilho com a Grande Muralha (Great Wall, em inglês). Até porque o próprio porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Qin Gang, lembrou ontem o quanto Obama, um negro, deve saber dar valor à liberdade. 

- Ele é um presidente negro e entende o movimento de abolição da escravatura e a importância de Lincoln para o movimento - disse Qin, ao citar o ex-presidente Abraham Lincoln (1809-1865), responsável por muito debate em relação ao fim da escravidão nos Estados Unidos (e, depois, pelo fim da escravatura). Você pode ler aqui - http://tinyurl.com/ydkd5lb - caso duvide do que estou escrevendo.

A referência à cor de Obama, como se o fato de ser negro lhe imputasse mais compaixão pela causa escravagista - ou como se carregasse nos genes lembranças dos maus tratos sofridos pelos antepassados -, surgiu para lembrar que o presidente tem de entender o quanto foi importante para o Tibete a China ter libertado a região do regime escravagista perpetrado pela teocracia de Dalai Lama - figura com quem Obama já anunciou um encontro em um futuro próximo. E, bueno, a China sempre se opõe a qualquer encontro de qualquer líder mundial com o tibetano. 

O Obama negro terá carta branca para twittar, mas não poderá dar um pio sobre o papel humanitário desempenhado pelo Dalai. Liberdade, mas sem abusar. Coisas da China paradoxal.

Noutro movimento midiático interessante que mostra o quão sutil, ingênua ou esquizofrênica é a mídia chinesa, a agência estatal, a Xinhua, lançou uma parceria com a Unicef para comemorar o Dia Internacional da Infância, neste 20 de novembro. Num esforço para pautar os veículos mundiais, promete cobertura multimídia 24 horas e até criou selo para marcar a iniciativa. Então lá estou eu lendo o especial - http://www.chinaview.cn/ucd2009/ -, quando me deparo com uma notícia exaltando a qualidade da educação da Coreia do Norte.

Tudo bem que sejam vizinhos e compartilhem interesses políticos - a Coreia do Norte só é a Coreia do Norte porque a China tem muito a ver com aquilo -, mas exaltar ao mundo algum tipo de feito do governo norte-coreano é exigir demais da paciência alheia. E então me pergunto se é birra ou ingenuidade. 

O texto (http://tinyurl.com/ygorqwm) vai contando que a educação prima a formação de geniozinhos, muitos dos quais descobertos já nos jardins de infância, onde os professores são treinados para terem olhar apurado para aqueles pitocos que desenvolvem habilidades extraordinárias. Já viu o sufuco que os pobres vão passar, né: terão treinamento mais rígido, aprenderão a adorar ainda mais o sistema governamental e a gente acredita em Papai Noel. Em tempo, as crianças norte-coreanas, não. Por lá, o feriado cai no aniversário de Kim Il-Sung, o fundador da república que na China tem nome oficial de Democrática e Popular, quando as crianças recebem presentes. Meigo, não?

A montanha do imperador

Beijing teve a pior nevasca em 54 anos nesta quinta-feira, quando a humidade, quase nunca presente no inverno da capital chinesa, esteve sempre próxima ou superior aos 90%. A partir do dia seguinte, a sexta, a previsão voltava ao que se considera normalidade, anunciando dias de tempo seco. Como ainda faz frio - 0°C por volta das 11h desta sexta -, resolvi visitar um parque ainda desconhecido por mim, o Jingshan (景山公园), ou Parque da Montanha Panorâmica (Bah, esta tradução foi em quem fez, sei lá, não me soou bem. Azar). 

Voltemos ao que interessa. A Jingshan foi uma boa pedida para quem quis dar uma olhada nos tetos brancos da cidade antes que o gelo derretesse todo - por volta das 15h, a temperatura já estava em altíssimos 5°C.

O Jingshan fica no eixo central Norte-Sul de Beijing, ao norte da Cidade Proibida, que por aqui se escreve 故宫 e atende pela alcunha de GuGong. É o mesmo eixo do Templo do Céu, da Praça da Paz Celestial, das Torres do Sino e do Tambor e, claro, da principal obra dos tempos olímpicos, o Ninho de Pássaro. Ou seja, um eixo muito nobre, de construções que pontuam diversos momentos da história de Beijing. Aliás, a própria montanha em questão é uma construção, dos tempos da Dinastia Ming (1368-1644), feita com o material retirado para a formação dos canais que circundam a Cidade Proibida e outros interligados à rede. Em 23 hectares, há cinco picos, cada um com um pavilhão - dentro de um dos quais, há um Buda gigante.

O parque foi erguido para atender aos anseios imperiais de um bom fengshui, que advoga que as residências devem ficar ao sul de uma montanha. E ao norte do enorme complexo imperial, não havia uma. Se o imperador não vai à montanha, a montanha vem ao imperador, lembram? Pois então, uma vez que a montanha tenha vindo, o imperador de então - e os outros que se seguiram - acharam por bem manter o local restrito a quem merecia, ou seja, a corte. Afinal, montanha ir ao povo nunca pegou bem em qualquer cultura ou época que fosse. A coisa só mudou em 1928, quando o tempo imperial já havia se ido na China. Antes, um tom trágico para o parque. O último imperador Ming, Chongzehn (1628-1644), ao perceber que a Cidade Proibida fora invadida pelos inimigos, se abrigou no parque também restrito e se suicidou. O local do suicídio está bem sinalizado, para quem quiser ir visitá-lo, eu passei esta.

Fiquei com as fotos, que posto para vocês. Além disso, fiquei contente em saber que esta belezura de parque, do qual se contempla toda a cidade - a proibida e o restante - se estende pelos distritos Xicheng (西城区) e Dongcheng (东城区), os dois mais charmosos de Beijing, na minha opinião. Marcando uma visita ao parque no final da tarde e me convidando para dois dedos de prosa depois, a primeira cervejinha em NanluoguXiang fica por minha conta, ok?

***
Ah, para chegar ao Jingshan, não há estações de metrô próximas, mas você pode aproveitar para conhecê-lo após sair da Cidade Proibida ou pedir para ir direto para lá para qualquer taxista.

A taxa de entrada é de 2 yuans, o que, segundo a cotação de hoje, dá bem pouco mais do que R$ 0,50.

A cidade descolorida

Eis alguns cliques da Cidade Proibida, do Norte para o Sul, de um dos cinco picos - o mais alto deles - do parque Jingshan, também chamada de Montanha do Carvão, ou 煤山 (Mei Shan) e também Montanha do Fengshui (风水山 - Fengshui Shan), segundo explicação acima.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Vai um beijinho aí?

Enquanto isso aqui na China, a Liga Jovem Comunista organiza patrulhas no campus para que os estudantes não caiam em tentação. Qualquer demonstração pública de carinho está proibida, inclusive sentar lado a lado, num chamego mais evidente. E vamos com mais travas num povo que já é travado, tem uma sexualidade complicada já de berço – e educação sexual zero.

A Forestry University, de Nanjing, uma das capitais chinesas dos tempos do Partido Nacionalista, lá para os lados de Shanghai, recrutou cem estudantes, todos de baixa renda, para patrulharem o campus entre 10h e 21h. Quem fizer vistas grossas, diz o próprio jornal estatal Shanghai Daily (http://www.shanghaidaily.com/article/?id=418981), pode ser punido pelos professores.

A repressão aos pombinhos se dá por meio do olhar. O tal patrulheiro mala – que traz uma braçadeira vermelha de identificação -, se planta em frente aos dois e começa a encarar.


Vai encarar esta bronca? Tem gente que cede, devido à intimidação, mas já houve casos de patrulhadores, patrulheiros, seja lá que nome casa melhor com a prática, que foram insultados e até andaram se não apanhando, levando uma pára-te quieto. Ouh lala.


Isso me lembra que no Brasil a patrulha anda feia também, mas com estudante de roupa, sem roupa, pouca roupa. E um alarde midiático que já me torrou a paciência. Alguém vem aqui por os holofotes nestes pobres namoradinhos vigiados?


Ah,na matéria do Shanghai Daily, a intenção da patrulha é limpar o ambiente universitário. Então tá.

Uns livrinhos chineses na biblioteca

E de repente pintou uma curiosidade sobre a China, ou é hora de vir para cá. Depois de já ter percorrido a internet, o melhor é correr à livraria mais próxima e mais barata para dar uma geral nos livros. Há vários títulos publicados, mas alguns podem dar boas pistas sobre o país. Fiz esta lista a pedido de um amigo e aproveitei a deixa para publicar aqui. Todos os títulos estão disponíveis em português.

Livros dos amigos
O Felipe Machado escreveu no ano passado um livro tri divertido sobre a China, Ping Pong, sobre a cobertura da Olimpíada. Mas tem muito aspecto de Beijing, do cotidiano ali, acho que ele pescou direitinho. Uma delícia de ler, e ainda tem endereços dos lugares que ele visitou. Serve como um guia. 

A Cláudia Trevisan escreveu recentemente Os Chineses (imagem de reprodução da capa), que dá um panorama histórico bem legal, além de explorar aspectos atuais, contemporâneos, cotidianos e culturais. Li em dois dias. É o primeiro livro do gênero escrito em português, por uma brasileira. Ótimas sacadas e comparações entre os dois países.

Memórias
Os cisnes selvagens é um clássico, fala de três gerações de mulheres, da era pré-Mao à era Mao, que conta a história da Jung Chang, escrita por ela mesma, de sua mãe e de sua avó.

Caminhos da China, do jornalista norte-americano John Pomfret é uma mistura das lembranças do autor à vida de cinco colegas dos idos de 1978 retratadas a partir dos relatos já nos anos 2000. Foi um jeito bem peculiar de acompanhar as mudanças da China. Curti o livro.

Adeus, China, do bailarino Li Cunxin, fala da vida durante o maoísmo, de o quanto ele curtiu o mundo lá fora, de como foi difícil abandonar a família, de vários aspectos provocados pelo comunismo no país, à época em que ele era bem mais fechado que agora. Tem este toque de arte, porque o cara é bailarino, fala de relações interpessoais e diferenças culturais, educação, treinamento, e por aí vai.

História
China, Uma Nova História é um livro pesadão, coxudo, de história mesmo, mas é o primeiro quando se pensa em referência, escrito por John King Fairbank e Merle Goldman. Tipo, os sinólogos bambambans, saca.

Literatura
O complexo de Di, de Dai Sijie, o mesmo autor de Balzac e a Costureirinha Chinesa (que virou filme), conta a vida de um psicanalista chinês que viveu na França por 10 anos. Apesar de ser romanceado e não deixar isso claro, é a história real de Huo Datong, o próprio psicanalista, o primeiro a introduzir a psicanálise na China, em 1996, se não me engano, na província de Sichuan, a mesma atingida pelo terremoto do ano passado.

Biografias
Mao, A história desconhecida, da mesma autora de Cisnes Selvagens, traça um Mao de uma maneira extremamente pessimista, com um olhar que por vezes beira o ódio. Mas é um livro interessante, escrito junto ao marido da Chang, Jon Halliday

Vida Privada do Camarada Mao, escrito pelo médico pessoal do timoneiro, Li Zhisui. Ou seja, prato cheio para saber os segredos do fundador da Nova China.

Jornalismo
A China sacode o mundo, de James Kynge, traz uma série de textos com viés mais econômicos, mas super bem escritos e que te puxam pra próxima história, contando um pouco do milagre perpetrado pelo poder central de Beijing.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Obama é pop na China também

O moço da foto, Barack Obama, será a estrela da próxima semana na China. O presidente norte-americano chega a Shanghai na segunda-feira após visitar Cingapura, Tóquio e o Alasca. Na terça, estará em Beijing, onde visitará locais famosos, mas, principalmente, terá encontro com o coleguinha daqui, Hu Jintao. Depois, encerrará o périplo asiático na capital sul-coreana, Seul.

Por conta da visita ilustre, noticiou nesta terça-feira o South China Morning Post, jornal de Hong Kong e cujo artigo é só para assinantes (http://tinyurl.com/yh8rqar), o Departamento Municipal de Indústria e Comércio ordenou que lojistas tirassem das prateleiras as camisetas que trazem Obama caracterizado como um guarda vermelho, como ficaram conhecidos os estudantes e jovens chineses do exército criado por Mao em 1966 e exterminado pelo próprio partido um ano mais tarde, no início da Revolução Cultural (1966-1976).

A China não quer constranger o visitante, alvo da criatividade pop chinesa, que mistura facilmente elementos do Ocidente às referências maoístas, ícones dum tempo comunista que já se foi, mas que, em resumo, moldou a China atual. As peças vintage ocupam 11 entre dez vitrines das lojas descoladas da capital – e de outras nem tão descoladas, mas que embarcam na onda – de lugares bacanas, como é o caso da Nanluogu Xiang, rua apinhada de bares e lojas e point de quem é cool na cidade (a Cidade Baixa dos porto-alegrenses, a Vila Madalena de SP, se não estou desatualizada).

Voltemos ao protagonista. O Obama, eu não sei se está tão preocupado assim em ser cortês. O principal assessor do presidente dos EUA para assuntos asiáticos, Jeffrey Bader, já anunciou que ele vem para falar sobre direitos humanos e tocará no delicado nome de Dalai Lama – figura, aliás, que voltou hoje ao noticiário chinês após visitar Arunachal Pradesh, uma região disputada pela China e pela Índia, na fronteira entre os dois países – numa região em que se encontram Tibete, Mianmar e Butão. Haja Buda! O ato, qualificado pelo governo chinês como demonstração clara das intenções separatistas do Dalai, foi duramente classificado por Beijing, em declaração do porta-voz do Ministério dos Assuntos Exteriores, Qin Gang.

Qin trabalhou bastante hoje – numa das duas conferências semanais regulares de imprensa, às terças e quintas-feiras. Pelo menos, teve de tocar em temas chatos, na visão tão tacanha chinesa, a de preferir não comentar a ter de se defender. Bueno, na defesa, ele já avisou que os EUA não devem interferir em temas internos chineses, nomeadamente Taiwan e Tibete, segundo pontos já acordados entre as duas nações. Lembrando números do comércio bilateral, Qin ressaltou que o que vale mesmo é aprofundar os laços, numa parceria que hoje movimenta US$ 300 bilhões anuais, um baita avanço, comparados ao quase zero de 30 anos atrás.

Agora é esperar pela semana que vem.

O quinto panda marrom e branco

O quinto panda marrom e branco foi visto no domingo retrasado, 1° de novembro, na reserva chinesa de Foping, na província de Shaanxi, que fica no noroeste da China e cuja capital é Xi'an, sim, a cidade aquela dos guerreiros de terracota.

O "dono" do achado foi o engenheiro Liang Qihui, que trabalha na reserva. O quinto pandinha conhecido a trocar o preto pelo marrom teria cerca de dois meses e ainda estaria recebendo cuidados da mama panda.

Até hoje, há três hipóteses sobre os pandas de cor mutante. Eles estariam retornando às cores dos ancestrais, seriam uma variação do atual grupo ou, ainda, resultado das mudanças climáticas nas montanhas Qinling, onde vivem. Aliás, os três primeiros exemplares foram encontrados nesta mesma reserva, a Fonping, em 1985, 1990 e 1991. O último havia sido avistado em 1992, na reserva de Changqing, também na província de Shaanxi.

Fotos eu não achei, mas garanto que continuam fofinhos. Oficialmente, o governo chinês afirma que o país tem mais de 1.750 pandas, 180 dos quais vivendo em cativeiro.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Punk da periferia

faltou a foto!