Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

A Rota da Seda

Mais uma vez, o professor Manuel Lopes nos dá aquela mão lá de Portugal para que possamos entender um pouco mais sobre Xinjiang. Hoje, o foco é a Rota da Seda, a ligação secular Ocidente-Oriente cujo traçado inclui Xinjiang. Vamos lá?

Em termos históricos, a Rota da Seda tem origem na China, numa iniciativa do Imperador Wu Di, da dinastia Han. Decorria o ano de 138 a.C. quando o imperador encarregou o explorador/emissário chinês Zhang Qian de contactar uma tribo/reino que se queria vingar de uma afronta praticada pelos Xiong Nu (Hunos), adversários do povo chinês. Com esta iniciativa, o Imperador visava estabelecer uma aliança no sentido de uma ação conjunta contra os Xiong Nu.

A comitiva de Zhang Qian partiu de Chang´na (actual Xi'An), rumou para oeste da Grande Muralha (marco da luta milenar entre populações nômades e sedentárias) seguindo-se as peripécias duma viagem que durou 13 anos e que permitiu um tal manancial de conhecimentos ao Imperador chinês, responsáveis por uma ação concertada e apoiada de abertura de uma via de intercâmbio político, comercial e cultural entre o Oriente e o Ocidente, pelo interior do continente asiático.

E se abre a Rota da Seda

A partir do Imperador Wu Di, há uma orientação do poder chinês para estender a influência administrativa/logística para Oeste, a fim de garantir em cooperação com outros poderes a segurança das caravanas de mercadores.

O traçado da Rota da Seda estendia-se por enormes percursos que atingiam cerca de 7 mil quilómetros ligando o vale do Rio Amarelo ao Mediterrâneo, atravessando percursos muito difíceis, desérticos ou montanhosos. Este traçado deu vida a muitos oásis e a lugares que ficaram a perpetuar este intercâmbio. O centro nevrálgico desta via inter-civilizacional era exatamente Xi'An, a cidade que ficou mundialmente conhecida devido aos guerreiros de terracota.

Quais as consequências?

Ainda não se sistematizaram as consequências desta abertura da China ao Ocidente, mas temos algumas pistas para reflexão.

• Nível político

– Para a China:
Reforço da influência do poder chinês para a Ásia Central, para além da Grande Muralha, através de boas redes de alianças, nas quais a seda desempenhava o papel de “presente precioso” (já que era desconhecida a sua técnica de fabrico por outros povos) no relacionamento entre o poder chinês e os poderes “bárbaros”.

As formas originais de pacificação da periferia do espaço chinês, para além do casamento com princesas chinesas (ouh lala, esta coisa de estrangeiro casar com chinesa também é milenar - e para deixar claro, a observação entre parênteses é da autora deste blog).

Contatos nas periferias do império romano com o poder chinês.

Aumento do dispositivo de defesa chinês para além da Grande Muralha para proteção das caravanas.

Grandes efeitos práticos da diplomacia chinesa ao garantir a pacificação da periferia do seu espaço contra as invasões nômades por via das vantagens do intercâmbio.

– Para outros poderes:
A China desenvolveu inovações científicas e tecnológicas que de alguma forma justificaram o avanço sobre outras civilizações: pólvora, papel, tecnologia de impressão, uso do papel moeda, bússola, sistemas de irrigação e construção de canais.

• Nível econômico

–Para a China e outros povos

Aumento exponencial das transações num vasto espaço entre as origens e os destinatários finais, trocando os produtos mais variados nos dois sentidos (plantas, produtos, animais...)

“Cidades oásis”, intermediárias no comércio, ganharam uma enorme importância, junto a Xi'An, o centro mais cosmopolita de então.

À sombra deste comércio floresceram sobretudo mercadores chineses, indianos, persas, sírios e gregos.

Só a partir do séc. II é que a seda passa a chegar a Roma via marítima.

• Nível cultural

É na área cultural que se situam as mais importantes consequências da abertura da rota da seda, em especial no que diz respeito à própria China.

1–Religião
Pela Rota da Seda a China conheceu o budismo indiano. Este ímpeto budista iria influenciar e transformar toda a sociedade chinesa, manifestando-se no comportamento das pessoas e nas manifestações artísticas mais importantes. O budismo que influenciou e foi influenciado na sua travessia pelo espaço chinês chegou à península coreana e ao Japão.

2 - Pintura, Escultura, Arquitetura

Milhares de pinturas e esculturas têm como motivos principais o budismo, mas sem desconhecer o meio, seja derivado de poderes imperiais, seja de expressão popular.

Em Dunhuang, cavernas são hoje conhecinhecidas como “Grutas dos Mil Budas” pelas inumeráveis esculturas de pedra que ornamentam as paredes representando o Buda, os luohan (iluminados), os bodhisattvas e outros personagens do panteão budista.

Nas grutas mais antigas (dinastia Wei) as imagens sagradas demonstram ainda a influência indiana nos trajes, nos traços finos e delicados do rosto; outras grutas, pelo contrário, apresentam motivos tipicamente chineses, dragões, cavalos voadores, homens alados. Nas grutas da época Tang os personagens esculpidos e pintados são caracterizados pela expressão realista das caras, para significar a humanidade do budismo, a suavidade ou o vigor marcial (dos luohan, por exemplo).

É da época do vigor da Rota da Seda que nasceram divertos templos budistas por toda a China.

• A perda de importância da Rota da Seda

Diversos fatores levaram ao declínio da rota

– A valorização progressiva das rotas marítimas perante a instabilidade/insegurança do percurso terrestre, em especial a partir do século VIII, a partir de Cantão (Guanzhou).

- A chegada de novos poderes à Ásia Central, de influência islâmica.

- O conhecimento por outros países do segredo do fabrico da seda.

- A orientação de auto-fechamento face ao exterior já evidenciado no final da dinastia Ming e reafirmado na Dinastia Qing como forma de a China se proteger dos bárbaros “ocidentais”.

Coisas que eu não entendo

• Ódio racial. Quer dizer, entendo, mas não gostaria que fosse assim.

• Repressão sexual e o sentimento de que o corpo pode ser casa do pecado.

- Os balineses nunca estendem roupa acima de 1,5 metro, ou quase isso. Mesmo lavadas, as roupas por terem tido contato com o corpo, são sujas. Não devem ser postas mais perto das alturas, onde vivem os deuses.

- A moça ieminita que veste véu e trabalha comigo, e que além de tudo me faz pensar como eu ando pelada por estar de blusinha sem manga e bermuda, está hoje cobrindo a cabeça com um lenço de oncinha. Estampas de oncinha sempre me lembram a sensualidade vulgar dos anos 80. Tem alguma coisa que não está combinando na mocinha recatada. Vou pedir para ela usar algo mais neutro. Mas acho que isso não combinaria com meu modelo também.

• Mandarim. Eu gostaria muito de entender o mandarim, mas não entendo. Então hoje,como a geladeira lá de casa está estragada desde domingo, motivo pelo qual perdemos muita grana em comida boa agora estragada, a dona mandou mensagem para avisar que compraria uma nova. Uma 新的冰箱,ou xinde ping alguma coisa. Como eu não entendo chinês, liguei de volta para agradecer e pedi que a minha empregada perguntasse à dona do apartamento quando seria entregue a nova geladeira.

Detalhe, a minha empregada só fala mandarim. Não me pergunte como a gente se entende,mas a gente se entende.

A dona falou, aliás, que o conserto custa 380 kuais, tipo uns 100 reais, enquanto uma nova, sai por 1000 kuais, tipo uns 250 kuais. Como a gente é estrangeira, ela vai comprar uma nova, pois ela gosta muito de estrangeiros. Se a gente fosse chinês, ela mandaria a conta do conserto.

- Ela falou isso mesmo? - perguntei pra minha empregada, que confirmou.

Tem vezes em que seria tão melhor não entender chinês, não é mesmo?

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Saiba mais :)

Recebi há pouco um material produzido em Portugal pelo professor Manuel Lopes, sempre atento à China, para os seus alunos de Relações Internacionais sobre Xinjiang. Vale a leitura para entender mais sobre a região, que nomeadamente é uma Região Autônoma Especial, sob o poder da República Popular da China.

• A Região Autônoma Uigur de Xinjiang está situada em plena Ásia Central, cercada de montanhas (com um grande deserto no interior, o Taklamakan), zona de passagem obrigatória da antiga Rota da Seda e dos atuais projectos de ligação euro-asiáticos e tem 5,6 mil quilômetros de fronteira com oito países.

• População em 2004: 19.630.000. Neste cálculo, a etnia uigur (de origem turcófona) surge com 45% e a etnia han com 41%, sendo os restantes distribuídos por 47 grupos minoritários.

• O Islã é dominante, substituindo o budismo.

• Xinjiang, ou Nova Fronteira, na tradução, deve o seu nome às iniciativas da Dinastia Han (século III aC) de estender a influência para Oeste e assim proteger as rotas de caravanas da Rota da Seda.

• No final do século XIX, a Rússia estendeu a influência à parte desta área, no episódio conhecido como o Grande Jogo,a saber uma disputa com os britânicos.

• Durante o período da República (1911–49), Xinjiang foi dominada por “Senhores da Guerra”, virtualmente independentes do governo central, sendo a então URSS dominante na zona.

• Só em 1950 o poder comunista tomou o controle total de Xinjiang, criando uma Região Autónoma em 1955.

• Também ali chegaram os efeitos do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, criando instabilidade e fomentando o movimento independentista que atingiu maior expressão violenta após 1980 na sequência da intervenção soviética no Afeganistão, ao favorecer a militância islâmica.

• Em Xinjiang estão presentes, segundo as autoridades chinesas, os “três demônios”: separatismo, fundamentalismo e terrorismo.

• Os ataques de 11 de setembro acabaram por ter um efeito significativo sobre as atividades do movimento independentista Frente de Libertação do Turquestão Oriental, ao ser conotado pelas autoridades chinesas com a Al Qaeda e os talibã, sofrendo os efeitos de uma maior coordenação dos esforços internacionais na luta contra o terrorismo na Ásia.

***

Para uma visão econômica

• As principais indústrias estão relacionadas à atividade mineira (carvão), além do aumento da exploração energética (gás e petróleo).

• A importância de Xinjiang também deriva do fato de ser uma área de escoamento da energia vinda da Ásia Central, do Cáspio e da Ásia Setentrional.

• Xinjiang alimenta expectativas com o turismo, através da revitalização da antiga Rota da Seda. A China e quatro países da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão), em parceria com o Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas, criaram um programa que visa favorecer o investimento, o comércio e o turismo na região.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Poderia ser só internet, mas é também mídia e propaganda

Os protestos em Xinjiang provocam tantas discussões que é preciso um quê de interesse sobre a China somado à muita força de vontade para chegar ao fim deste texto. Mas eu conto com você. Os assuntos aqui serão a internet, a mídia e a censura. Preparado? Então ajuste o scroll, porque você vai precisar.

A política chinesa sobre a internet é a do controle. Então, ao primeiro sinal de que há algo errado ou de que algo pode dar errado, o poder central estende os tentáculos sobre a rede e já era espaço para gritaria.
Num jogo entre dissimulações e hipocrisia mal disfarçada adotado rotineiramente, a estratégia é dizer que o governo é contra a pornografia e outros temas que possam perturbar a sociedade harmônica sonhada por Beijing. O que entra em cena são filtros, que ganharam o apelido apropriado de Great Firewall of China. Depois a gente tem a figura malvada da Net Nanny, numa alusão à babá má que simplesmente tira de circulação o que os pimpolhos não devem ver. Exatamente botar abaixo e expurgar do alcance de mouses chineses referências ao Dalai, liberdade ao Tibet ou massacre de 1989.

Hoje, dois dias após o início dos protestos em Urumqi, a ideia foi abolir de vez alguns sites de redes sociais, e o Facebook – imune até então -, além da cópia chinesa do twitter, o Fanfou, pararam de funcionar, embarcando na mesma onda de twitter, youtube, blogspot. No Fanfou, a mesma mensagem deixada em 3 de junho, véspera do aniversário de 20 anos da Praça da Paz Celestial. Manutenção. Agora, a promessa é de que a coisa voltará à vida no dia 10.

Parece que o governo perdeu mesmo qualquer pudor em censurar o que não gosta. Duvida? Hoje mesmo o chefe do Partido Comunista da China em Urumqi, Li Zhi, deu declarações oficiais sobre o corte da rede para toda a cidade de Urumqi. A medida visa garantir que as incitações dos protestos não se espalhem. Uma desculpa boa, sobre a qual falei ontem. Sob o pretexto de preservar a paz e a harmonia, vale qualquer esforço, até o de calar vozes dissonantes. E isso tem apoio popular, acredite. E segue o baile sem internet.

Mas e o que fazer com os jornalistas que querem cobrir tudo isso? Conceder-lhes liberdade e uma sala com 50 computadores plugados à rede, ainda que os terminais sejam disputados quase à tapa, espero que sem disputas étnicas, numa sala de hotel, centro de imprensa montando às pressas na capital de Xinjiang.

Resultado? Declarações como a do correspondente do The Economist Ted Plasker à estatal chinesa de que nunca houve tamanha liberdade para trabalhar, nem mesmo durante os conflitos no Tibete registrados em março do ano passado (houve qualquer tipo de liberdade?), nem no terremoto de 12 de maio de 2008 em Sichuan, este último propagado como um exemplo da abertura da censura chinesa para a mídia estrangeira. Confesso que esta comparação me surpreendeu e encontra eco em outras fontes que estão no local. Tá que é uma festa para a cobertura. Claro, para quem conseguir chegar ao terminal e se manter zen ante a lentidão internética. Detalhes. E tudo contradição em termos. Quer ver um detalhe sutil? A mesma matéria que traz os elogios de Plasker à novidade no tratamento aos coleguinhas jornalistas ante o caos em Urumqi lembra que o entrevistado respondeu em chinês perfeito, resultado de longa experiência acumulada aqui desde 1989. Sutileza e detalhe, 89 é um ano a ser esquecido por aqui.

Mas esta suposta abertura lenta e gradual chinesa tem seus quês de crueldade. Na tarde desta terça-feira, a agência estatal publicou uma galeria de fotos tão de mau gosto que lembram as imagens que eu nunca vi publicadas após o acidente com o grupo Mamonas Assassinas, quando a internet ainda engatinhava e já mostrava que o ser humano tem tendência ao mau gosto e ao horripilante. Fiquei imaginando por que usar imagens fortes - e o quanto esta escolha está distante do jornalismo no qual acredito e que procuro praticar. E ainda usada oficialmente. Talvez para provar o improvável, que os mortos e feridos foram atingidos pelos manifestantes, não por policiais. Isso se daria por dois motivos primordiais. Um porque a maioria foi ferida na cabeça por estocadas ou pedradas, e não balas, e porque se trata de chineses han, os alvos dos supostos terroristas uigures.

Se estou certa, o governo agora quer tratar bem os jornalistas porque sabe que ao garantir acesso o mais facilmente às informações e às fontes, estará também conquistando mais confiança e conseguindo divulgar seus pontos de vista. Mas e por quê este caráter tão compreensivo?

Porque duas coisas, penso eu. Primeiro porque é importante divulgar o próprio ponto de vista. Segundo porque este ponto de vista tem razões para ser propagado, vamos refletir.

Das experiências que tive até agora, aprendi que que há mocinho e bandido nesta história. Nesta história eu digo cobertura sobre a China. Minoria étnica contra o governo chinês é sempre boazinha. População de baixa renda contra o governo chinês é sempre boazinha. ONG ambiental contra o governo chinês é sempre boazinha. O bom velhinho budista aquele exilado na Índia então, nem vou comentar.

Não estou dizendo que todos os que conseguem força e coragem suficientes para lutar por seus direitos dentro de um país que tolhe manifestações e o livre pensar já não tenham só por isso uma grande parcela de mérito. Mas me irrita a preguiça midiática que prefere sempre eleger a China como malvada e se esquece de apurar melhor os fatos. A coisa parte do quase insignifcamente tratamento no masculino para a Rebiya Kadeer (ninguém nem TENTOU BUSCAR UMA FOTO DA PESSOA PRA ILUSTRAR SUAS MATÉRIAS) ao fato de dizer que Xinjiang foi subjugada em 1949, período antes do qual era uma região independente. Até foi, mas foram tão poucos anos durante o combalido poder dos Nacionalistas que vou te contar...

A fórmula fácil de buscar mocinhos e bandidos desta vez não vai funcionar, o enrosco étnico está tão arraigado que vai sobrar maldade para ambos os lados. Ou todos os lados, nem creio que devamos ser maniqueístas neste caso. Assim como não vai funcionar a tentativa de mostrar que a China está preparada para uma cobertura aberta. Já teve equipe jornalística detida em Urumqi, sabe-se lá se não ocorrerão outras. E quanto ao esmagamento internético? Bem, você está me lendo aqui, então sabe que houve um jeito de barrar. Quer dizer, ainda estava me lendo?

Você é chinesa?

A primeira coisa que vem à cabeça ao pensar num chinês são os olhos rasgados, a pele amarela, o cabelo preto e liso. A fotografia básica pouco destoa entre um e outro cérebro imaginativo, mas eu mesma me surpreendo com os vizinhos de bairro aqui em Beijing. Moro na região de Niu Jie (牛街), ou Rua da Vaca, reduto dos hui, minoria muçulmana assim como os uigures de Xinjiang, região autônoma atingida por violentos protestos desde a noite deste domingo.

A diferença entre os chineses han e os uigures e hui está na cara e é tão marcante que por pelo menos uma vez alguém ousou me perguntar:

- 你是回族马? - ou "Você pertence à etnia hui"?

Ri, respondi que não e fiquei feliz com a pergunta. É que os traços turcos, iranianos e de outros povos da Ásia Central que deram origem aos hui são tantos que os olhos ficaram diferentes, a cor da pele, o jeito do cabelo. Só sendo uma hui, ou uma uigur, eu poderia ser uma chinesa. E morando ainda num bairro muçulmano, a pergunta até não pareceu tão despropositada.

Estou ambientada aos hui, aos hábitos de não comerem porco e à culinária delícia que desenvolveram. Eles professam o islamismo e, segundo revisões nas políticas a respeito das minorias étnicas da China (são 56 no total, incluindo a grande maioria han, que compõe 92% da população do país), se diferenciam dos uigures por terem incorporado mais a cultura han - estou simplificando, mas é por aí.

No bairro onde vivo, os hui estão por toda a parte, e o truque para identificá-los é procurar quais vestem chapéus brancos entre os homens, lenços brancos entre as mulheres (caso eles vistam, porque muitos aboliram o uso). Entre os muçulmanos uigures, a tradição é usar outras cores, como o preto e o verde. Aliás, esta última cor é considerada a favorita entre os muçulmanos chineses e é vista em fachadas de restaurantes, casas e lojas de Niu Jie.

Com tanta diferença gritante entre os han e os muçulmanos - que até fez uma chinesa confundir uma estrangeira com uma conterrânea -, as características físicas passam despercebidas e os traços destacados para se referir aos muçulmanos são sempre dois entre os han. Um é de espanto porque os primeiros não comem nada derivado do porco (carne preferida na China) e, bem menos cortês, o fato de serem um povo que rouba.

Acostumada à não violência chinesa, um dia perguntei se era seguro ir para casa passando por uma ruela mais escura, que liga meu trabalho ao meu apartamento.

- Melhor não, a região é de moradores vindos de Xinjiang.

Perdi as estribeiras, mas vi que era mesmo assim, um preconceito enorme. Para os han, o povo de Xinjiang ensina a roubar desde que as crianças são pequenas. Uma escola de pequenos crimes. E isto é contado na maior naturalidade, como se fosse um fato. Já estou bem acostumada a estes racismos no Brasil, afinal de qual trombadinha a gente desconfia primeiro? Do branco ou do preto?

Aqui, ser de Xinjiang significa ser tratado de jeito diferente, olhado às avessas. O preconceito rola sem qualquer traço de vergonha e se um estrangeiro diz que quer visitar a região, será aconselhado a não ir porque é perigoso. Some a este tempero o fato terem ocorrido levantes nos idos de 1990, quando diversos ônibus foram incendiados, e dois ataques terroristas terem resultado na morte de pelo menos 17 policiais às vésperas da Olimpíada do ano passado e você terá uma ideia de como são vistos os chineses muçulmanos por aqui.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

O culpado é a madame

A gente ainda nem sabia – e na verdade, nem sabe – o que estava se passando em Xinjiang, mas já tínhamos um culpado pelos protestos, a uigur Rebiya Kadeer, que desde 2005 mora nos Estados Unidos. Ela e a organização que lidera, o Congresso Mundial Uigur, numa tradução bem livre e que tem sede na Alemanha, estariam por trás dos ataques premeditados, oh, a expressão tão cara aos figurões de Beijing.

Rebiya poderia ser um nome mundialmente famoso, mas não. A causa pela qual ela advoga poderia ter apelo mundial, mas não. Em linhas gerais, se trata da mesma questão tibetana, a de um povo e de uma região que vive às turras com o governo central chinês por mais liberdade, seja esta de expressão cultural e religiosa e, claro, de gerência sobre os atos políticos e econômicos concernentes aos seus territórios.

Apesar de não dar Ibope, é mais do que válido um perfil de Rebiya, que chegou a ser indicada ao Nobel da Paz em 2006, mas não levou. A mãe de 11 filhos e casada duas vezes poderia já ter muito o que pensar apenas com esta tropa, mas antes de somar este número todo à prole, dividia as atenções com os negócios e parece que bem. Na esteira da abertura política e econômica chinesa capitaneada por Deng Xiaoping ela encontrou brechas que permitiram o gerenciamento de um negócio privado e dos 100 yuans iniciais, coisa de R$ 25, de investimento usado em 1977 para um negócio de compra e venda, construiu um império em Xinjiang que a elevou nos anos 1990 ao posto de 17º pessoa mais rica da China. Elevou bem mais, e ela integrou a Conferência Consultiva Política Popular da China e, em 1995, representou o país na Conferência Mundial das Mulheres, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Dor de cabeça pouca é bobagem e com tempo sobrando, ela resolveu usar de sua influência política para falar sobre os problemas que via na terra natal relativos ao povo do qual faz parte. Um tanto ingênuo para alguém com vida tão promissora. Não que ela tenha sido um caso isolado, porque no final dos 90, o partido, com medo de novos episódios nos moldes de 89 resolveu endurecer para empresários de grana que gastavam parte de suas fortunas com questões mais sensíveis. São as cifras oficiais que mostram que das 14,5 milhões de empresas privadas da época, 1 milhão foram fechadas e os bens dos proprietários, confiscados. Aliás, este é o status de Rebiya, que de pobre passou a pobre, com um intervalo de riqueza.

A situação da amiga complicou de vez em 2000, quando foi acusada de revelar segredos de Estado ao Exterior. O marido, outro dissidente, já morava nos Estados Unidos e foi para lá que ela mandava recortes de jornais. Suficiente para formar as provas de acusação (o fato de os jornais estarem nas bancas para que qualquer que lesse mandarim ou uigur é mero detalhe, claro). Daí Rebiya foi condenada a oito anos de prisão, teve a pena reduzida em um por bom comportamento e em 2005, devido a pressões da então secretária de Estado norte-americana Condelezza Rice, foi solta. No mesmo ano, ganhou permissão para deixar a China para fazer tratamento de saúde nos Estados Unidos e lá ficou. Mesmo com base no Exterior, a ex-empresária se dedica à causa uigur e acredita nos excessos do poder em Beijing, denunciando problemas como esmagamento da cultura local, racismo e falta de participação nas decisões políticas e nos louros econômicos de recursos tão importantes como o petróleo.

***

As informações sobre o início da carreira promissora de Rebiya como mulher de negócios e sobre a dura do governo chinês nos empresários bonzinhos de então constam do livro The Chinese, do jornalista Jasper Becker, sem tradução em português.

E a internet pifou

É manchete mundial. Os protestos que se iniciaram neste domingo em Urumqi, capital e maior cidade da Região Autônoma de Xinjiang, já deixaram ao menos 140 mortos, número que deve subir segundo as fontes oficiais devido à grande cifra de feridos, que superaria os 800.

O resultado sangrento dos protestos e mesmo as motivações e os desdobramentos que levaram ao confronto entre uigures e hans, a minoria maioria em Xinjiang e a maioria chinesa minoria na mesma região, deverá ganhar contornos apenas oficiais, ou pelo menos esta se delineia como a vontade do poder central.

Por volta das 15h, pouco menos de 24 horas depois do início dos protestos, o twitter foi outra vez bloqueado na China, numa reedição do que ocorreu às vésperas de 4 de junho. Se você acompanha de perto os esforços da Net Nanny para deixar os internautas do continente na mais santa paz, já sabe que há meses não temos youtube e blogspot.

Que todo o mundo dribla a censura, quase todo o mundo dribla. E segue o baile. Mas enquanto a gente dá um intervalinho na questão de Xinjiang, que tal falarmos sobre a internet chinesa, esta dissimulada? Ou, pelo menos, este ser tão na mira do governo chinês?

Que o país tem a maior população de internautas o mundo já sabe - são mais de 300 milhões. Que vive sob o humor da Net Nanny e o rigor do Great Firewall of China também não é novidade. Para aqueles que já leram sobre o tema, talvez também não haja nada de novo em dizer que a web já foi considerada por aqui uma nova zona especial, numa referência ao tráfego livre de informações - e críticas ao governo - e às Zonas Econônomicas Especiais implantadas durante o mandato de Deng Xiaoping e precursoras do salto econômico do país. Algo como comparar os experimentos que resultaram no colosso chinês feitos nas províncias de Fujian e Guangdong nos idos de 1980 a uma suposta democratização da sociedade chinesa conquistada a partir da cidadania expressa na rede.

Nesta onda, o governo que é socialista com características chinesas e não é bobo, tratou de dar o peso à internet que à rede não necessitava e buscou chamar para si a responsabilidade pelos louros do livre pensamento via bits. Pode ser só percepção minha e ninguém veio me dizer ou mesmo eu encontrei em artigos por aí, então posso estar falando bobagem, não tomem como verdade absoluta, mas o que percebi é que houve uma febre internética pós olímpica ante os pensadores da mídia chinesa a serviço do partido que procurou disseminar a cultura da internet como passaporte para a participação política e cidadã.

Não passava dia sem que algum veículo oficial não publicasse matérias baseadas em resultados de pesquisas online ou que desse voz aos clamores dos internautas chineses publicados em fóruns. Top manchete, numa piada interna, bordão que surgiu entre os colegas do meu antigo trabalho, eram mudanças de rumo ou guinadas em decisões articuladas, supostamente, após grita online dos internautas cidadãos chineses. Foi a redenção programada do ambiente web como expressão de desejos, a criação da varinha de condão para quem não pode protestar em praça pública, visto que qualquer demonstração na China pode ser apenas pacífica - e, em muitos casos, ser realizada apenas se obtiver permissão prévia (dan).

Aí que em 28 de fevereiro deste ano, o primeiro-ministro Wen Jiabao resolveu ser super e participou de um chat com os internautas cidadãos chineses. Foram duras horas de elogios, mas também de críticas e o sonho de uma internet mais democrática sendo construído por internautas e um governo atento às mudanças, disposto a tomar para si as rédeas da falação online chinesa. Eu, do alto da minha inocência, jurei que se trataria da estratégia mais do que batida do "já que não pode vencê-los...". E fiquei feliz.

Felicidade de internauta chinês dura pouco. Menos de um mês depois, o espaço web receberia o primeiro ataque, youtube nocauteado - para não voltar até agora. Aí veio um temor de que o 4 de junho pudesse ser celebrado via web e a coisa virou palhaçada, com a criação até do Dia Nacional da Manutenção, uma piada para justificar a queda de todos os sites de redes sociais ao longo de três dias, entre 3 e 6 de junho. Alguns até se recuperaram, mas a coisa do bloqueio foi tão patética que serviu para mostrar que as estratégias aqui são poucas ou toscas quando o momento é de tensão. Calar a boca é mais fácil. Ou continuar a usar o santo nome da internet em vão.

Vamos à estratégia atual, segundo minha opinião, deixe-se claro. Na manhã desta segunda, a versão oficial sobre os protestos iniciados no domingo em Xinjiang já dava conta de que o estopim fora um boato falso na internet. A internet é do mal, a internet provoca o caos. Em uma vista rápida sobre a questão, o governo estaria jogando entre o caos e a paz, esta última tão cara ao país e o primeiro tão temido. Para que se evite o caos é que o governo limita as liberdades e informações. Povo com liberdade e informação demais acaba por ter ideias diversas, cujas defesas podem resultar em confrontos. Em caos. Logo, guiados pelas mãos do governo, os chineses viveriam em paz.

Agora, internautas, não estão vendo os estragos que um boato na internet chata, boba e feia pode causar? Precisamos filtrar os conteúdos, para que se evite o derramamento de sangue como este de Xinjiang.

Bom, tomara que esteja errada. Se tiver, juro que passo no twitter e dou meu piu.

Internet é o estopim de novo episódio de tensão etno-política chinesa

Se você terminou o domingo bem informado sobre o que acontece pelo mundo ou tratou de fazer isso logo cedo na segunda, sabe que há um tumulto ocorrendo na China, desta vez na Região Autônoma de Xinjiang, berço da minoria étnica uigur, os muçulmanos chineses, para simplificar bem a explicação sobre este povo que tem ascendência quiçá turca, escreve em árabe e fala uigur.

Segundo fontes oficiais, nos protestos ocorridos no distrito de Bazaar, na cidade de Urumqi, neste domingo pelo menos 140 pessoas foram mortas. As notícias separam hans, maioria no país, de uigures, numa distinção cujas raízes econômico políticas se formaram há centenas de anos. Pena que a gente vá saber cada vez menos do que acontece por lá. Sim, a internet que botou lenha na fogueira desta última vez já foi bloqueada por aqueles prados.

Por volta das 17h deste domingo começou a confusão. Manifestantes tomaram as ruas para protestar contra o que consideraram atos racistas ocorridos em Guangdong, a antiga Cantão, no final do mês passado, quando uma briga deixou ao menos dois uigures mortos. De centenas para milhares foi um pulo e teve ônibus queimados, ataques a pessoas inocentes, segundo o governo, e tomada das ruas pela polícia. Depois, toque de recolher e atos violentos se espalhando pela cidade até a madrugada. Mas sobre isso, tudo são rumores, fato é que, para variar, as notícias de lá agora estão bem filtradas. Aqui http://www.thenewdominion.net ainda é possível ver algumas imagens.

Comecemos do início, pelo menos do atual capítulo. No dia 29 de junho, a agência de notícias chinesa, Xinhua, divulgou uma notícia que dava conta da prisão de um homem da etnia han que havia espalhado um boato falso via internet sobre um suposto estupro na fábrica de brinquedos Xuri, na cidade de Shaoguan. Os autores da atrocidade seriam trabalhadores migrantes uigures. Pronto, o dormitório onde ficam os empregados desta minoria foi atacado e houve mortes. A motivação seria simples. A fábrica tem 10 mil empregados, 800 dos quais uigures contratados entre maio e junho. Os han não gostaram de ver os postos de trabalho perdidos e resolveram agir.

A interpretação atual do governo chinês? Na verdade, tudo foi orquestrado e premeditado, desde o boato falso, para que os uigures encontrassem uma desculpa para atacar os han. Esta é a terceira versão sobre o mesmo tema. Antes, foi o simples fato de que os uigures são malvados. Depois, que os uigures eram vítimas de um han racista. Agora, que eles são malvados e espertos, sabem usar artimanhas e até a internet.

Isso lembra algo? Para mim, lembra as teorias de que o 11 de setembro foi maquinação do próprio governo norte-americano e lembra, ainda, uma repetição sem fim da expressão ataques premeditados, preferida da mídia chinesa para se referir a qualquer coisa que saia do eixo de controle do partido. Quando surgiu pela primeira vez? No famoso editorial de 26 de abril de 1989, quando o jornal voz do partido publicou falas do então presidente Deng Xiaoping, que afirmava que os protestos na praça naqueles idos eram premeditados e organizados devido a motivações antipartido e antisocialistas. Claro, agora os protestos de domingo já têm autor, a organização separatista World Uyghur Congress, liderada pela dissidente Rebiya Kadeer, que hoje mora nos Estados Unidos.

Acordar com um barulho destes na segunda-feira me faz pensar em outras questões sobre o mundo injusto e malvado. A versão oficial dá conta de que Xinjiang foi libertada pacificamente há 60 anos, coincidentemente o mesmo tanto de tempo da fundação da República Popular da China, aniversário que pode não ser muito bem-vindo, pois os tais libertados não estão muito convencidos disso. O Departamento de Estado norte-americano, por exemplo, também não está e no início deste ano divulgou um comunicado afirmando que o governo chinês estaria implantando severas repressões culturais e religiosas na região. Coincidência ou não, o centro de Kashgar, um dos mais preservados arquitetonicamente no que diz respeito aos traços uigures, foi posto abaixo porque os prédios centenários estavam para desabar. Restauração aqui ganha traços de instauração de tudo o que for han, numa preservação de história milenar sem traços que distoem dos interesses centrais.

O pulso forte em relação à região, que ocupa um sexto do território chinês – tipo assim, acho que quase a Europa inteira – tem nome: petróleo. O recurso é abundante por lá, onde também se produzem algodão e frutas deliciosas.

Pouca gente fala sobre Xinjiang, que faz fronteiras com países da Ásia Central, Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, além da Caxemira, aquela partezinha do globo espinhosa e causa das tensões incessantes entre Índia e Paquistão. É mole? Não, não é. Mas por que ninguém dá bola, como dá bola pro Tibete (até rimou)?

Outra vez, pensando aqui com meus botões, a problemática dos uigures não atrai olhares mundiais porque eles não têm o apelo Dalai e budista. Alguém já viu outrém levantar bandeira pró muçulmano sem ser taxado de terrorista? A antipatia global ante os seguidores do Corão é tanta que os deixem tentar sozinhos seus sonhos de independência. Buda era um cara bem mais legal e contido, apesar de gordo daquele jeito.

Fato é que nesta papagaiada toda, a única coisa que fica como lição é que as motivações são econômicas, os extremismos são religiosos e a primeira medida para que se possa apertar na repressão é calar a mídia e os ativistas. E a violência aparece como única saída numa espiral de caos e sentimento de injustiça e vitimização.

***

Para a primeira notícia sobre o suposto estupro em Guangdong, em inglês:
http://www.shanghaidaily.com/sp/article/2009/200906/20090629/article_405754.htm

Para um artigo interessante do Wall Street Journal sobre os protestos deste domingo
http://online.wsj.com/article/SB124684826272698823.html

Para a versão oficial
http://news.xinhuanet.com/english/2009-07/06/content_11658819.htm

Para atualizações interessantes via twitter
http://twitter.com/mranti

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Eu que não pego nem gripe comemoro dois anos de paixão chinesa

Hoje, 12 de junho, para deixar claro aos que estão em solo brasileiro e em 11 horas de algum lugar do passado sob a minha perspectiva chinesa, eu comemoro dois anos de febre amarela, a metáfora fácil para os que se encantam pela China.

Enamoramentos orientais. Eu já tinha no meu DNA, se é que se adquire DNA aos cinco anos, que é quando eu vim para o Japão, daquela vez trazida por papai e mamãe. Os seis meses da infância cercada de olhos puxados que liam letras estranhas e de cujas bocas saíam sons ininteligíveis deixaram marcas. Já me achando dona do meu nariz, tentei aprender japonês e mais, caí de amores pelos japoneses. Do grupo de amigos para entender que os nossos japoneses eram melhores que os dos outros foi fácil, então eu tive paixões japonesas e lá estava eu em 2000 supernamoradona do Yu, passando férias no Japão. Nada mais natural. Depois acabou. O namoro, eu digo. Não a paixão pelo Japão, pelos olhinhos puxados, muito menos meu megacarinho pelo Yu, esse é do tipo pra sempre. Mas deixa esse papo pra lá. Era só pra dizer que talvez explique muita coisa.

Numa perspectiva chinesa, tenho o meu passado à minha frente. Para eles, os chineses, deixe-se claro, numa inversão de valores ocidentais, o passado que tu conheces e sentes está sempre no teu caminho. O futuro, este ilustre desconhecido, é referido como algo que ficou para trás, obscuro – e quem sabe pode até te apunhalar pelas costas, te trazendo surpresas desagradáveis. Acho a lógica cruel, mas me rendo a ela. Alguma coisa eu deveria tentar entender neste país, porque o resto quase todo não dá.

Deve ser este sem fim de lógicas ilógicas, crenças e comportamentos peculiares que vão atiçando a curiosidade de quem se arrisca por estas terras acolhedoras. Seda pura. Desavisados como eu vêm para cá para passar um tempo, tipo intermináveis 12 meses, na minha ilusão de marinheira chinesa de primeira viagem. Aí ficam dois anos, se preparam para ficar três, depois eu nem sei. Quem sabe sobre o futuro? Nem os chineses sabem.
Mas como hoje é dia de comemorar e contemplar o que aprendi em dois anos e tentar entender por que não consigo ir embora, vou tentar ir além do meu DNA asiático. Aliás, o que eu já teria incorporado e o que teria acontecido em dois anos?

1 – Existem os chineses. E depois o resto. Sob a ótica deles e sob a nossa. Eles se orgulham de ser quem são e são chineses nascidos no Brasil, chineses nascidos na América, chineses sei lá onde. Sempre chineses. E nós, os ocidentais, reforçamos isso com todos os requintes. A gente vive aqui, mas ou vai a bar de estrangeiro, ou sai em boteco chinês. Tem diferença, tá no nome, no nosso cotidiano. Ou alguém em Porto Alegre se refere a bar de estrangeiro e a bar brasileiro? E daí tem os caras que a gente pode pegar e aqueles que só gostam de chinesas. E tem os chineses que têm medo das ocidentais. Então, entre as solteiras sempre rola a pergunta “você já pegou algum chinês?”, como se eles fossem quase impegáveis. Até são. Mas sempre tem uns aí pra ajudar as ocidentais a descobrir o que o chinês tem. Eu descobri o fofinho Paul, que acho, agora, um baita samaritano, preocupado com as descobertas antropológicas das estrangeiras incautas pela noite de Beijing. Não bastasse ele ter tido um casinho com uma amiga italiana, há dois dias descobri que ele tava pegando uma brasileira que recém conheci. Meu faro pra galinha não falha nunca, até quando se come de pauzinho.

2 – Comida chinesa aos montes é incomível. Passo semanas sem sentir vontade de.

3 – Chineses têm uma carência de senso estético inacreditável. Um país de ávidos consumidores recentes, que querem tudo ao mesmo tempo agora. Do carro à casa, tudo tem pendurico, dourado, vermelho e detalhes em pelúcia. A roupa combina luxo e glamour fake com brilhos e estampas. Ao mesmo tempo, eu já disse. Ai, irrita.

4 – A grande massa é de analfabeto funcional, desculpa. Há uma retidão de pensamento atroz que deve derivar do sistema educacional que prioriza a memorização em detrimento da criatividade. Um desperdício para quem tem de aprender uns 3 mil caracteres para começar a ler jornal. Tem vezes que eu acho que o sistema ainda é mantido justamente para isso, para exercitar desde a tenra idade a memória e não o fluxo de ideias.

5 – Eu tou ficando cega. Faz meses que percebo que não tou enxergando bem.

6 – Existe um culto à hierarquia e fé cega nos detentores de poder. A moda agora é estar consciente de que o governo impõe limites, sim, em questões como a liberdade de expressão, por exemplo, mas é bom. Liberdade e demonstrações desta tal liberdade conduzem ao caos. O caos conduz a divisões, separações. E se perderia a unidade chinesa, que pode ser qualquer coisa, mas é, acima de tudo, um conceito abstrato e fantasioso. Tem muita minoria neste caldo, muitas das quais nem tão minorias assim.

7 – A vida cotidiana, aquela longe das elucubrações tão caras aos ocidentais que passam o tempo aqui tentando, ingenuamente, entender os chineses, é deliciosa. Há uma amabilidade e um esforço da maioria das pessoas em se fazer entender, em tentar nos entender. No dia em que descobri que secador de cabelo chama-se “Máquina de soprar vento”, ganhei uma lição das minorias. Eu disse que não falava mandarim e o menino que me massageava – um mimo que só na China poderia haver, pré corte de cabelo no salão de beleza - disse que também não, antes de mudar pra Beijing. Como assim? O mocinho era de uma minoria que não consegui entender. Pedi desculpa pelo meu pobre mandarim e disse que não tinha tempo de estudar.

- Você tem ou não tem vontade. Não é questão de tempo – me disse o mocinho.

8 – Lukuang Xinxi é um programa de táxi que fala sobre o movimento das ruas. Em algum momento no táxi você vai ouvir a vinheta. Lukuang Xinxi!

9 – Qualquer birosca de Beijing tem por perto uma sex shop. Aqui, se chama loja para saúde dos adultos.

10 – A melhor cerveja chinesa é a Harbin. A mais famosa e fácil de encontrar é a Tsingtao. A primeira é russa, a segunda alemã. Alguém tá afins de conhecer Moscou? Me convida.

11 – Dá pra ir pra muitos lugares paradisíacos perto da China. Eu mesma tou indo pra Bali ver minha irmã semana que vem. Se a gripe permitir. Eu que aqui não pego nada, nem gripe, espero que a declaração de pandemia não estrague ainda mais meus planos. Para ir, vou pagar uma multa de uns US$ 500 e na volta terei de ficar sete dias em quarentena compulsória. Eles juram que não vão me descontar das férias. Espero não pegar a gripe suína, nem aqui, nem na China.

12 – Tem tanta coisa pra falar da China, que eu ainda nem comecei, juro. Mas você já cansou de ler, que eu sei.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Glossário muito importante

para os próximos dias

Cerveja - Bir
Eu quero comer o que eles estão comendo - Saya mau masakan seperti yang mereka pesan.
Obrigada, tava uma delícia - Enak sekali, terima Kasee
Água mineral - Air botol ou aqua

A gente lê quase como em português quase todas as letras, à exceção do e, que às vezes
quase desaparece. E o c tem um som meio que de tche, bastante parecido ao chines, me pareceu.
E é bom a falar este e...

Bem-vindo - Selamat datang
Bom dia, até 11h - Selamat pagi
Bom dia, das 12h as 14h - Selamat siang
Bom dia, das 15h às 18h - Selamat sore
Boa noite - depois de anoitecer - Selamat malam
Boa noite, para alguém que está indo dormir - Selamat tidur
Tchau, para alguém que está ficando - Selamat tinggal
Tchau, para alguém que está partindo - Selamat jalan

Agora, não sei o que fazer se eu encontrar alguém entre as 11h e as 12h,
entre as 14h e as 15h ou entre as 18h e o anoitecer. Ou se e encontrar
alguém e eu não tiver relógio. Ou se eu não aprender a pronunciar o maldito e.
Caso aprender e quiser matar a curiosidade, poderei perguntar
Jam berapa sekarang? Sim, que horas são?

Mas afinal de contas, Apa ini? Ou, o que é isso? Se alguém não sabe, eu, Maíra, Gustavo e Cláudia, mais o irmão do Gustavo e a namorada, estamos indo em alegre bando para Bali.

Algumas poucas palavras têm algum som latino, garanto que teve uma influência perdida por aí. Vou rezar pra que sim. Aliás, em rezando, olha que fácil. Saya cari gereja. Eu tou procurando uma igreja. Iguereja, Gereja...

Agora se eu tiver Saya cari kantor, não, não estarei procurando nenhum cantor, mas algum órgão público. Kantor Pariwisata é posto de informações turísticas.

Para qualquer problema, você pode perguntar se o indonésio fala inglês. Facinho: Bisa berbicara Bahasa Inggris?

Cara, eu vou falar Inggris, Inggris o tempo todo.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Dia da Sombrinha - mas e cadê a água fresca?

Dia 4, mas poderia ser 35. Não que o número tenha qualquer relação ao calor acachapante que elevou os ponteiros dos termômetros para os 35ºC por volta das 13h, quando resolvi visitar a praça. Foi apenas um jeito de os internautas falarem sobre o aniversário, batizando de 35 de maio o que seria 4 de junho. Não teve jeito, os censores perceberam o truque e eis aí outro termo banido da net chinesa. Espertos.

E os 35ºC tiveram seu valor oficial. Era uma boa desculpa para o uso das sombrinhas, acessório na bolsa de 10 entre 10 mulheres chinesas no verão, que fazem de tudo para manter o tom branco da pele, sinal de nobreza. E tendência entre os homens também. A mania é tal que salta aos olhos dos recém chegados, dá um toque colorido às ruas e provoca ainda mais confusão no vai e vém da multidão, num sem fim de esbarra aqui, esbarra ali, dá-me cá minha sombrinha.

Alguém superinteligente da superinteligência do partido percebeu o poder da sombrinha. Botou uma na mão de cada agente à paisana na praça, que fingia estar lá turistando, mesmo que parado como poste horas a fio. E, não, não era o poder da sombrinha enquanto instrumento facilitador do trabalho de espionar sob o sol inclemente e acessório acoplado ao modelito pensando em salvar a pele dos dedos-duro.

Era algo bem menos nobre. Era o poder de a sombrinha se posicionar indolente em frente às câmeras. Qualquer câmera, a qualquer hora, durante os dias 3 e 4, pelo que sei até agora, pelo menos. Com o perdão, patético até não poder mais. O vídeo aí embaixo está em inglês, mas mesmo quem não fala deveria clicar. É hilário se não estivesse sendo encarado a sério. E logo, sendo triste.



A tentativa ingênua revela um desespero para se livrar da sombra dos protestos de há 20 anos. Uma tentativa que nunca é clara, de qualquer ângulo sob o qual analiso. O truque infantil da sombrinha, que remete ao nosso ditado popular sobre tapar o sol com a peneira, se repete na internet. Este vídeo da CNN eu vi aqui sem nenhum subterfúgio. Mas ao bloquear outros tantos sites famosos, como twitter e Hotmail, para citar apenas dois, se instala o burburinho mundo afora, que se espraia desde as profundezas da velha e desatualizada, desantenada e desconectada estrutura burocrata censora. Burros. Nem vou falar que as redes sociais em chinês também vieram abaixo, com data marcada para acabar o período de manutenção forçado. Burros. Tolos. Desesperados. Ingênuos. Donos do mundo e sarcásticos? Continue lendo e chegue lá.

Este jogo de luz e sombras – e sombrinhas patéticas em frente a camêras ávidas para focar apenas em poucos ângulos – é que perpetuou um mito ocidental de luta democrática e um tabu interno no que concerne a demonstrações populares.

Hoje, há dois pontos claros. O país e o partido, que, em todas as instâncias representam uma unidade, sustentam que já têm opinião formada sobre o tema, o incidente foi fruto de uma manifestação orquestrada por dissidentes antigoverno. A afirmação consta da edição de hoje do China Daily, o jornal chinês em língua inglesa (http://www.chinadaily.com.cn/china/2009-06/05/content_8250388.htm). O outro ponto, levantado na quarta-feira pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, é de que é necessário implantar na China mais liberdade (http://www.state.gov/secretary/rm/2009a/06/124292.htm) e rever os atos de 1989 como forma de homenagear as vítimas.

Mas que vítimas? Internamente não há reconhecimento de vítimas. No exterior, eles são mártires. Há textos que falam sobre o protesto pacífico pró-democracia esmagado à força e que resultou num derramento de sangue. Ninguém comenta que os estudantes se reuniram por ainda outras causas, algumas desencontradas e que o movimento teve líderes tanto dos tipos radical quanto cabeças-dura, que não conseguiram chegar a consenso e protestar em uníssono. Que a mídia estrangeira já estava quase abandonando o barco devido ao enfraquecimento dos atos, como conta o autor da célebre foto do homenzinho em frente ao tanque, Charlie Cole (http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/4313282.stm). Aí veio o episódio do tanque e o bando que estava na praça havia dias foi alçado à categoria de jovens destemidos. Não que eles não fossem, mas imagino que você entendeu.

Temos, sim, no ocidente impressões erradas de o que foi 89. Hoje ainda vi um vídeo no site da Globo, cujo link nem vou reproduzir, pois ele vai ser tirado do ar em poucos dias, que fala sobre os 10 anos do protesto. E afirma que o estudantezinho da foto de Cole foi morto pelo tanque. Hoje se sabe que o ícone daqueles dias nunca foi identificado e seu destino é incerto. Preso, pode muito bem ter sido executado, mas certeza ninguém tem. E o texto é tão raivoso quanto equivocado, como se os malvados do partido usassem um povo tolo como marionete. E o povo tolo resolveu agir, mas foi massacrado.

Em muitos termos é assim mesmo. Mas o governo por vezes é tolo também. Que digam as sombrinhas. E esse jogo de sombras que perdura até hoje. Graças a esse enclausuramento e recusa a falar é que se alimentam não apenas especulações, mas clamores por mais clareza. E tem horas que o povo não é tolo, mas tem motivações outras que podem ser resumidas a padrões de vidas melhores, ampliação de liberdades e garantias sociais, conquistas inimaginadas há 20 anos. Este, aliás, é o mantra que o governo repete e que encontra eco em várias camadas da sociedade.

Você pode dizer que não é suficiente, mas quando uma jornalista como a chinesa Lijia Zhang fala, talvez tentamos de prestar atenção. Ela não analisa a sociedade que viveu 89. Ela integra esta sociedade. E ela é crítica ao governo, o que poderia dar a ela um quê de isenção. Pois é ela quem usa uma metáfora um tanto apropriada, segundo meus pontos de vista. Os chineses continuam numa gaiola. O que ocorre agora é que esta é tão grande, tão vasta e tão cheia de atrativos, que muita gente nem nota. O texto, em inglês, foi publicado no New York Times (http://www.nytimes.com/2009/05/31/opinion/31lijia.html?_r=1&ref=opinion).

***

Ontem, para os estrangeiros, a gaiola tava um saco. Para entrar na praça, só com passaporte. Quem tinha visto de jornalista carimbado ainda tinha outra burocracia a cumprir, pedir autorização num escritório tal. E depois enfrentar as sombrinhas.

Rola uma água fresca agora?






Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Dia de Manutenção da Internet na China

3 de junho, céu azul e calor de rachar na capital chinesa. Nas ruas, tudo normal, exceto por até agora quatro equipes de TV terem sido tiradas da praça, onde há 20 anos estavam acampados estudantes que durante a madrugada seriam enxotados dali. À força.

Comecei a manhã checando emails e redes sociais que podia e que não podia. As que não podia, por meio de sites que te ajudam a desviar proxy e vamos lá. E já me preparava para reunir o maior número de material possível, inclusive aqueles postados nas redes chinesas que, segundo minha teoria que mais tarde se mostraria infudada, só seria inacessível devido à barreira linguística.

Então, pela manhã, estava lá usando meu perfil no Fanfou.com (www.fanfou.com/janajan), a cópia do twitter cujo nome significa "Já comeu?" para procurar o que o povo estava escrevendo sobre o 4 de junho, o bloqueio do twitter e tantos outros etceteras. Eles falavam sobre tudo isso, podem acreditar, mas quentes mesmo estavam os tópicos sobre o acidente com o avião da Air France e a GM. Estavam.

Eu iria dizer que os chineses podem, sim, se expressar, que o governo estava barrando mais as vozes estrangeiras, uma interminável sucessão de teorias que reforçariam o que comecei a escrever ontem e que agora à tarde vieram abaixo.

Nem deu tempo de eu dizer que um fanfoufeiro (seria esse o termo para quem ainda não papou?) postou "Harmonizaram o twitter" e explicar que a expressão revela uma crítica social presente na internet chinesa, que ironiza os sempre reiterados pedidos do presidente Hu Jintao para que a sociedade seja harmoniosa. A gente harmoniza, mas do nosso jeito, calando quem distoa. Haja diapasão.

Como numa repetição do que ocorreu há duas décadas, quem tentou falar foi abruptamente interrompido. Desde a tarde desta quarta-feira, a maior parte dos sites chineses de redes sociais, microblog e colaborativos exibem avisos de sob manutenção.

O meu querido fanfou, espero, exibe no seu recado ironia. Ele agradece o apoio de todos os usuários e diz que a fim de melhor servi-los, tem de passar por uma manutenção técnica emergencial, cujo fim está programado para a madrugada do dia 6.

O baile segue em inúmeros outros sites chineses, mas para mim, o mais legal até agora foi o Wordku.com, um dicionário colaborativo. Eles também avisam que a manutenção técnica vai, olha que coincidência, até o dia 6, e que, aliás, estão a fazendo para respeitar o Dia Nacional de Manutenção da Internet.

Eles perdem o direito de serem acessados, mas não perdem a piada. Quer dizer, a piada já perderam, desde ontem, quando o Twitter foi bloqueado. É, pra falar a verdade, tá perdendo mesmo a graça.

**

Só pra constar• Chinese Internet Maintenance Day" (中国网站维护日)




Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Bico calado

2 de junho, a dois dias do aniversário de 20 anos dos protestos na Praça e tentando falar aqui de Beijing.

O temor não declarado das autoridades chinesas levou a um sem número de bloqueios internéticos para barrar opiniões estrangeiras. Hoje, não temos aqui Youtube, Blogger, Wordpress, Google Reader, Twitter, Flickr, Ning, o recém saído do forno Bing, sei lá o que mais.

Dentro de casa, o fanfou.com, uma imitação descarada do Twitter, discute a campanha para o uso de roupas brancas no dia 4 (http://fanfou.com/q/白色衣服) e lembra o protesto estudantil que culminou numa manifestação violenta na Praça. Desde que o fenômeno seja observado com os olhos locais, tudo bem. Será?

Claro que não é bem assim e quem fala o que o governo não quer é calado também, como o blogueiro Michel Anti, que em 2005 teve o blog banido da blogsfora chinesa pela Microsoft - a pedidos, óbvio. Em entrevista recente a um dos sites mais bacanas em inglês da China que fica de olho na mídia local, o Danwei (www.danwei.org), Anti alertava aos amantes do twitter para que piassem enquanto houvesse tempo. Depois, bico calado.

Calaram-se. Haveria necessidade de tanto barulho para um mar de silêncio, ou pelo menos, de certezas vagas?

Quando a Coréia do Norte começou a encrespar com esta histórinha de satélite de longo alcance para lá e para cá, imaginei que nunca um agito oriental caísse tão bem. Os camaradas teriam acertado na mosca. Ainda no mundo animal, a gripe suína rende outro pano pra manga e reportagens intermináveis, alarmando a população para o que poderia se tornar uma reprise de SARS.

Nesta até eu me dei mal, não bastasse estar quase calada, agora tenho férias programas e na volta serei obrigada a ficar sete dias trancada em casa. Todos os que saírem da China e trabalham na minha unidade, governamental, terão a quarentena compulsória. Bingo. E perderei sete dias de férias no Brasil.

Voltando às notícias que abalam o mundo, tem horas em que as precauções excessívas e insesatas chinesas me irritam. Em tempos de concordata da GM e do horror que esta sendo a triste história do vôo AF477 perdido no Atlântico quando ia do Rio para Paris nem tem gente querendo voltar ao passado. Ou deste, ter apenas as boas recordações das vítimas do acidente, a quem deixo minhas mais sinceras orações.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Porto Alegre no mapa do mundo

Porto Alegre será sede da Copa do Mundo 2014 (http://www.clicrbs.com.br/esportes/rs/futebol-copa2014), o que parece, até onde eu li, nenhuma novidade, pois a escolha por parte da Fifa já era esperada. Agora, para receber as estrelas do futebol, a capital gaúcha ganhará uma melhor cobertura na rede de tratamento de esgoto, em projeto que prevê um salto dos atuais 27% para 80%, a duplicação da Avenida Beira-Rio, Tronco e melhorias na Voluntários, além de uma suposta linha 2 do metrô, até o Menino Deus.

- Confirmada a participação, chegou a hora de colocar a mão na massa - afirmou em entrevista à Zero Hora o secretário da Copa, José Fortunati, por sinal, também vice-prefeito.

Nossa, fiquei superfeliz com a escolha, pois se bem lembro, há coisa de duas semanas a mesma ZH fez uma matéria em que contava o suplício que é sair do centro em horário de pico e tomar um ônibus em direção à zona norte. Imagino que talvez esta melhoria prevista aí na Voluntários, além de agradar os previstos entre 40 e 50 mil turistas que virão à cidade, também signifique alívio a quem rala todo o dia para fazer da cidade uma cidade melhor. Por isso que eu adoro futebol.

Vivendo em Beijing há dois anos, um deles pré-olímpico, eu presenciei um pouco de o que são os esforços de uma cidade para receber um evento de escala mundial, com forte apelo popular, como o caso daqueles esportivos. Os resultados que fazem de uma cidade um modelo de urbanismo capaz de sediar tais eventos são positivos e acabam por beneficiar o cidadão comum. Ampliação de metrô (em Beijing, às antigas duas linhas somaram-se outras seis), a abertura e alargamento de avenidas, etc. Para além da infra-estrutura, ainda há um sem número de empregos temporários, novas oportunidades ainda que efêmeras e o que muito interessa, exposição do nome da cidade no mundo, o que pode significar novos eventos, mais turistas, mais renda. E a economia gira.

Porto Alegre já esteve no foco e até hoje é lembrada por motivos mais nobres que o futebol, com o perdão daqueles que discordam. Quando me perguntam de onde eu sou, ou o interlocutor não sabe, ou sabe que venho da cidade do Fórum Social Mundial. Em termos gerais, o fórum fez sucesso entre os espanhóis e franceses. Com eles, é sempre meio óbvio que vão saber onde fica Porto Alegre. Agora, claro, abre-se a oportunidade para que o mundo venha a conhecer a cidade como aquela perto da Argentina onde vai haver algumas partidas de futebol.

- E a cidade tem potencial no tema, é a terra do Ronaldinho - poderão dizer alguns.

Aliás, na hora de os jornalistas estrangeiros irem retratar Porto Alegre, dar uns toques para os telespectadores mundo afora que não sabem que no Brasil tem lugar onde faz frio e a gente não precisa usar fantasia de carnaval o ano todo e nem biquinis minúsculos, quero ver quantos deles terão a brilhante ideia de bater um papo com a dona Miguelina enquanto ela toma chimarrão, a bebida dos gaúchos, como são chamados os brasileiros que moram em Porto Alegre. Nós enquanto jornalistas somos extremamente criativos, por isso vários coleguinhas comeram muito escorpião no palito em Beijing para mostrar como os chineses têm hábitos estranhos na hora de se alimentar. E o mundo ficou bem mais informado sobre a China. Ai, por isso que eu adoro esportes em geral.

Mas voltando ao Fórum, é daqueles tempos de euforia e debates pelo povo e para o povo que a cidade forjou outra marca, a do berço do Orçamento Participativo, um dispositivo que clamava pela participação popular na hora de definir investimentos públicos. A ideia é tão atrativa no que diz respeito à cidadania que sequer foi abolida pelo atual governo, o do prefeito José Fogaça, que desbancou 16 anos de mando petista, partido que gestou e implantou o OP. Claro que eu nem estou discutindo que o OP nunca deu tão certo assim, afinal o que vale é a intenção.
Agora, Porto Alegre voltará ao centro mundial do debate no que diz respeito à participação popular na Expo Shanghai 2010, aqui na China, no ano que vem. A cidadegarantiu o 22º lugar entre projetos apresentados por municípios do mundo todo na categoria "urbanização sustentável" devido ao projeto de "harmonia social" que mantém, que será apresentado na área de Melhores Prátcas Urbanas. Ao lado de Porto Alegre, apenas São Paulo é outra cidade brasileira com participação em destaque no evento, que pretende atrair 70 milhões de visitantes ao longo de seis meses, 5 milhões destes, estrangeiros.

Bem, um dos objetivos do governo brasileiro é divulgar a Copa 2014. Eu, como porto-alegrense, torço por uma parceria de peso no projeto de revitalização do Cais do Porto, o que pode significar a consolidação da capital gaúcha como um destino charmoso para turismo de negócios e de outro espaço delícia para a entrega à boemia. Shanghai, que tem o coração econômico e financeiro às margens do Rio Huangpu bem que pode servir de inspiração. Afinal, a gente até já batizou de rio o lago lindo o qual damos as costas quase o tempo todo. E viva o pôr-do-sol no Guaíba.

Noivas à beira-mar









O aparato todo das fotos aí de cima não revela um casamento coletivo à beira-mar, mas flagras de uma mania nacional chinesa registrados no último final de semana, quando estava na cidade costeira de Qingdao (青岛). São as fotos para os álbuns de casamento, uma espécie de book do casal, tão importante na celebração quanto o sim dos noivos. Diria que tão ou mais importante, uma vez que as fotos são produzidas com semanas ou até meses de antecedência ao dia da festa - que, dependendo das finanças dos pombinhos, algumas vezes nem existe.
É comum andar por lugares turísticos e-ou bonitos da China e dar de cara com noivas, noivos, fotógrafos, assistentes e maquiadores. A gente até acostuma. Mas as hordas que vi em Qingdao foram surpreendentes. Talvez haja um porquê. A cidade é muito verde, o mar é bonito, as pedras dão um toque a mais na paisagem e se é pra retratar a felicidade que espera-se seja eterna, nada melhor do que um cenário inspirador. E natural.

A brincadeira, que envolve disposição do noivo e da noiva para bancar os modeletes e passar horas sorrindo, pulando, fazendo pose e trocando de roupa, sai cara. Em um estúdio de foto onde fiquei pesquisando preços, vi que os pacotes variavam entre 3 mil RMB e 7 mil RMB, algo entre R$ 860 e R$ 2 mil. Claro que eu não entendi o que cada pacote continha, mas, em termos gerais, vale dizer que os modelos vão vestir roupas ocidentais para casamento, algumas roupas de festa, trajes de casamento tradicionais chineses e, algumas vezes, até os velhos uniformes comunistas azuis dos tempos de Mao.

O que eles fazem com isso? A agência vai montar um álbum com capa dura, cujas fotos podem ter dimensões até então impessáveis pra mim, como coisa de 60cm por algo, se não mais. Outras vão virar quadrinhos, outras vão parar em porta-retratos e as melhores ainda viram poster nas paredes das salas dos recém-casados.

1, 2, 3... Beringela*! E saia bem na foto.

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* Ok, você não tem obrigação nenhuma de entender o beringela aí de cima. É que em chinês o nosso "Xis" é substituído por Beringela na hora de mostrar os dentes. Claro que o som é outro em mandarim, "Qiezi", que a gente lê quase como "tchiêdzzu".

E viva os noivos!

Um dia em branco

Os dias que precedem a quinta-feira 4 de junho de 2009 são de expectativa na China. Governo e dissidentes, gente ligada ao movimento dos estudantes de há 20 anos, esperam que o dia passe em branco. Enquanto o primeiro apenas no sentido figurado, o segundo, literalmente.

Um dos líderes de 1989, Wang Dan, deu início a uma campanha via web desde Taiwan, onde vive atualmente, para que as pessoas vistam branco na parte continental no dia 4. O branco, que na visão ocidental é a cor da paz, por aqui simboliza luto. Wang, preso por duas vezes após os protestos e finalmente exilado nos Estados Unidos em 1998, ganhou ecos de outros nomes não queridos por aqui, como o do blogueiro Michael Anti.

Anti teve o blog derrubado pela Microsoft devido ao conteúdo em 2005. Hoje, via twitter (http://twitter.com/mranti) também pediu que as pessoas vistam o branco na quinta. Para ele, aliás, tais pedidos via serviço do microblog podem terminar em breve. Segundo ele, o twitter ainda só é o twitter na China porque os sensores ainda não se deram conta de o que ele pode significar. Ou signifca.