quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Punk da periferia

faltou a foto!

Vivendo pra cachorro

Quem tem alergia a cachorros, histórias de cachorros, gatinhos e quetais, desista deste email agora. Os que não têm, encarem este texto como a despedida da Bolota, a cachorra que eu achei que não morreria mais. Pois depois de 20 anos, seis meses e dois dias, ela morreu. Na verdade, teve de ser sacrificada, a parte que eu achei triste em toda esta história.

Há dois dias que ela não andava e estava com dor, pois uivava de um jeito meio desesperado, segundo ouvi no skype, enquanto falava com meu pai e minha mãe. Ou seja, sem dúvidas de o que deveria ser feito. Ainda fiquei aqui rezando pra ela dar uma batida nas botas durante a noite, acho meio cruel a história de tomar a decisão de sacrificar, mas não teve jeito. Tadinhos dos meus pais, fiquei com pena de não estar lá em casa.

A Bolota nasceu quando a gente morava em Sanga Funda, no interior de Terra de Areia, se é que vocês podem imaginar que haja interior em Terra de Areia. Filha da Tiquinha, outra vira-latas que estava com a família havia alguns anos (e com Bolota e Tiquinha, vocês podem perceber o quanto a gente era criativo lá em casa, né), ganhou a simpatia da minha mãe porque trazia uns buracos no pescoço, causados por um fungo qualquer que a gente achava, mataria a pobre logo cedo. Esta coisa de fragilidade sempre desperta compaixão, né, não. Algumas visitas ao verterinário depois e algumas aplicações de um fungicida qualquer, eis que Bolota estava salva. E sã. 

A vida no interior foi dura. Quando a gente mora no interior, a gente não faz como as pessoas da cidade. O cachorro dorme na rua, em caixa de papelão. No inverno, os bichos até ganham algum pedaço de lã sobrado dum blusão velho, sem esta de muito luxo. Ração, nem pensar, eles comem o que sobram da casa, ninguém nunca se preocupou lá em casa se este resto era osso de galinha ou peixe com espinha - refeição entre as preferidas da Bolota, aliás.

Desde cedo ela queria ser independente. Tinha a bóia garantida, mas cresceu caçando preás, travando brigas ferrenhas com gambás, animais com cheiros ruins e cheiros bons - e vez que outra exibia cabeças de peixe em frente à casa, pra comprovar que gostava mesmo de pescado. Quer dizer, acho que pescar ela não pescava, mas tinha talento nato pra achar uma que outra carcaça na beira da lagoa.

Cachorro do interior tinha banho de sabão no tanque, jogava bola com os donos e vomitava quando tinha de andar de carro. Mas daí, em meados dos 90 ela teve a chance de ir para a cidade grande, virar cachorra de apartamento, tomar banho em petshop (palavra que ela desconhecia até mudar pra São Leopoldo). Virou até fresca, rosnava pras visitas, encontrou o canto preferido no sofá. Incrível como esta gente que sobe na vida fica esnobe.

Mas quem tem um pé na vida mundana nunca abandona a pilantragem. Foi a família decidir passar as primeiras férias na praia que a danada fugiu, deu pra algum vira-lata e lá estávamos nós, de volta ao apartamento de São Leopoldo, com a cadela dando à luz cinco cachorrinhos, um dos maiores trabalhos de parto a que assisti. Não parava mais de sair cachorro - todos nasceram saudáveis e foram devidamente doados. Bolota já era uma mãe velha, talvez na altura dos 10 anos caninos, faça a conta o montão que dá. Lembro de na época sugerir que se ficasse com um dos filhotes, pra gente manter a linhagem, afinal uma família que começa com Tiquinha é uma família de respeito. A ideia não vingou.

Perto de completar 14 anos, a gente começou a pensar o que fazer quando a Bolota morresse, e a opinião geral era que a melhor saída seria empalhar. Imagina, depois de 14 anos vivendo com o bicho, como dar tchau. Não sei se a Bolota entendeu o destino reservado pra ela, mas começou a se recusar a morrer, mesmo ficando doente vez que outra. Parece que voltava do veterinário cada vez melhor (deve ser uma das únicas cachorras que teve o mesmo veterinário durante 14 anos, ou tou errada). Depois de tantos anos sem morrer, eu já tinha me convencido de que ela já estava empalhada, só que ninguém tinha percebido. Enxergar e ouvir eram tarefas difíceis pra velha, atender ao chamado dos pais e irmãos, então, impossível. 

Aí que a centenária foi pra Guarda com a família na última Páscoa - um mês antes do aniverário de 20 anos caninos. Como não fazia barulho, vivia quietinha, foi preciso algumas horas para que as pessoas na casa se dessem conta de que ela havia sumido. Surda, nem adiantava chamar o nome da cadela. Por volta da 1h, me contaram depois, a família já estava triste, achando que a Bolota tinha se ido. Então o tio Claudinho, amigo da família e conhecedor dos hábitos boêmios dos Camara da Silveira, resolve ir ao centrinho da Guarda e quem ele encontra, molhada depois de banhos no rio e circundando os botecos: a biruta da Bolota, que deve ter saído pra ver se encontrava algum cachorrinho dando sopa. Felizmente, desta última vez ela não voltou prenha, imagina o trabalho. Se bem que até gostaria de ter um cachorrinho da linhagem Tiquinha. 

Como não tem, seguem fotos da vira-lata, uma das quais na versão punk da periferia, na praia do Curumim, em frente à casa do Tio Claudinho, onde ela tomava banho de sol ao lado da garrafa térmica enfeitada com adesivos da Ultramen, a banda preferida da Bolota, vocês bem devem desconfiar. Um dos últimos registros é do inverno gaúcho deste ano, na festa do chapéu, na casa de papai e mamãe, em São Leo, pra onde o Scooby Doo se mudou. Tinham muito em comum os dois. Como vocês podem notar, ela era a estrela do evento.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Neve em Beijing

O domingo de neve começou a 0°C, bem diferente dos 12°C registrados por volta das 13h de sábado, uma queda brusca que trouxe, com a humidade, também a neve. O governo municipal de Beijing, que sofria com a seca, resolveu dar uma ajuda e bombardeou as nuvens com iodeto de prata, fazendo com que a precipitação recrudesce e, então, pintando de branco a cidade. Ficou tão fofo.

Nunca tinha visto tanto floco tão grande cair junto e, à exceção do tempo em que fiquei na rua passando frio e sofrendo com o vento e o frio causado pelo gelo que derrete no nosso nariz, bochechas, pescoço, dedos e lentes da câmera, achei tudo muito lindo. 

Divido aí um pouco de cliques com vocês.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

The Village

Beijing tem meu shopping preferido, dos poucos que conheço, o The Village. Acho que a concepção de vários prédios um lado do outro, com um espaço gigante ao ar livre e um abuso do colorido com tons de vermelhos e verdes faz dele algo diferente.

O projeto, que reúne 19 prédios, é capitaneado pelo japonês Kengo Kuma (http://www.kkaa.co.jp/E/main.htm), que se juntou a outros cinco escritórios de arquitetura (nenhum da China, aliás) para criar o complexo, inspirado nos hutongs, as vielas de Beijing onde viviam as famílias dos mandarins há coisa de 600 anos - e que hoje acaba sendo moradia de quem é bem mais humilde. Nada a ver com o The Village. O que mais de humilde tem por ali são trabalhadores da construção civil que acabam o dia descansando em frente ao imenso telão. Super crônica da faceta cruel do capitalismo que se integra cada vez mais ao cotidiano chinês. Eles estão ali, sonhando os sonhos de consumo que a classe média - ou mais que média - realiza em lojas de médio padrão, como a japa UniQlo, a espanhola Mango, e outras cuja origem não sei, mas que têm fãs, como a Benneton e a Espirit.

Mas, bueno, além do ótimo design e da sensação de amplidão que o The Village me dá, o que eu curto mesmo por ali é comer, sempre em dois endereços, estes norte-americanos. Ou o Element Fresh (com um suco de cenoura e gengibre sensacional) e o Starbucks, o único lugar em que encontro algo parecido com o que seria um misto quente, torrada para meus queridos conterrâneos gaúchos.

Aqui, mais um pouco do The Village http://www.thevillage.com.cn/en/index.html, em inglês.

Um flagra no metrô

Toda a catigoria e o estilo das ruas de Beijing, bem perto de você, numa viagem pela linha de metrô número 10, que corta a cidade de leste a oeste, fazendo alguns zaques, outros zigues. 

O casalzinho aí desembarcou em Guomao, zona central do distrito de negócios da capital chinesa, lotado de escritórios, lojas de marcas luxuosas, mas longe de ser ponto de encontro de gente descolada, sequer patricinhas e mauricinhos. É reunião de gente comum, que trabalha de terno e tailleur, uniforme de limpeza ou que se veste como quer, ainda que pra mim, no caso da foto, lembre um estilo livremente inspirado no Falcão, o cara da pérola "Ai, minha mãe, minha mãe/ Ai, minha mãe, minha mãe/ Ai, minha mãe, minha mãe/ É a mulher do meu pai".

Som na caixa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pulinho na Coreia

Dei um pulinho na Coreia do Sul, mais precisamente na capital, Seul, e já voltei.
Depois conto outras novidades, mas por enquanto deixo registro das lindas flores vermelhas características do outono na região, clicadas no Jardim Secreto do Palácio Changdeok, um dos cinco de Seul e aquele ao qual se recomenda a visita, caso não haja muito tempo para conhecer os outros quatro.
O ingresso custa pouco menos de R$ 5 e as visitas são permitidas apenas com guia. Em inglês, os tours saem às 11h30min, 13h30min e 15h30min. Para chegar lá, estação de metrô Angkug, saída 3. Siga reto toda vida e se depare com o complexo, construído pelos anos de 1400. Mas como eu disse, mais eu conto depois.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um pouquinho de comunismo

Ontem à noite conheci um restaurante que, na tradução, pode ser chamada Clássico Vermelho, ou 红色经典 (hongsejingdian), título de um dos hinos populares do maoísmo. O restaurante de Beijing é mais um do estilo, que tem como principal atrativo show de música, dança e pequenas esquetes que lembram os tempos do Mao. Pelas paredes, dizeres e cartazes, inclusive os que lembram a Revolução Cultural. Nada de grandes reflexões, a coisa é diversão.

Enquanto você paga um preço mínimo pela comida, o que a gente no Brasil chamaria de consumação e que equivale a cerca de US$ 10, assiste aos atores. Um bando de jovenzinhos que até encarnam os demônios japoneses (isso eu entendi e eles falam assim mesmo) e os inimigos do Partido Comunista, aqui conhecido como Guomintang (国民党), aqueles que foram retirados do poder depois da revolução do timoneiro - aquela mesmo que levou à fundação da Nova China em 1949 e que resultou em trapalhadas ou experimentos de dimensões que só a China pode oferecer, como a morte de milhares de pessoas por fome durante o Grande Salto Adiante ou pela violência perpetrada entre 1966 e 76, a época da famigerada Revolução Cultural, a época de maior culto ao líder, menor liberdade de expressão e pensamento e, em tese, maior ícone do fervor patriótico chinês.

Pois foi este fervor que me deixou arrepiada. Velhos, crianças, adultos, adolescentes e até bebezinhos, estes ainda sem nem entender o que se passava, estavam todos lá bem felizes acenando e respondendo às palavras de ordem da moçada no palco. Juro que fiquei com medo e este mix de orgulho com o frescor da história recente me fez, por alguns instantes, entender que é possível manipular massas. Claro, as demonstrações eram um momento de descontração, mas uma descontração que me constrange. Celebrar um passado que significou a morte de tanta gente não me parece normal. E um passado hoje posto em dúvida até pelo único partido no poder desde 1949, o comunista, que de comunista tem pouco ou quase nada.

Nos dizeres de longa vida ao pensamento de Mao Zedong e ao Partido Comunista da China, estão incluídos tantos outros elementos... Que diga a Coca-Cola, símbolo máximo do capitalismo nestas bandas chinesas, presente em um sem número de registros pop contemporâneos que fazem referência à abertura da China. Seja ela qual for.

Bueno, estas foram as minhas impressões, e você bem pode ter as suas. Vindo a Beijing, inclua um destes restaurantes no seu roteiro. A comida nem é boa, mas neste país de paradoxos, contradições e hipocrisias mil, para que se preocupar com detalhes, não é. Ah, é difícil chegar ao local, então mesmo com o endereço amigo aí abaixo, vale dar uma ligada para a atendente, que pode explicar tudo direitinho ao taxista.

红色经典

266 Baijialou, Dongwuhuan,
Chaoyang
东五环白家楼266号
Abre das 9h30min às 14h30min e das 16h às 21h30min

6574-8289

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Sambinha no Rio

Salve, gente boa.

Escrevo aqui de Beijing para convidá-los para uma festinha no Rio nesta sexta-feira, no Estrela da Lapa. Nao que eu vá estar lá - uma pena, pois amaria. 

Quem estará lá é o Tonho Crocco, que lanca neste dia o Teto Solar, o EP recém lancado lá no Sul, de onde eu venho. Aliás, é lá do Sul que vem Teto Solar, Quadratura, Árida Saudades e outros sambas, sambinhas, sambarock, sambalanco e sambasoul do Tonho.

Eu se fosse vocës náo perderia essa chance de conhecer como um gaúcho faz um bom samba. A festa é o seguinte

Nesta sexta, dia 16, Tonho Crocco (Ultramen), lança o EP "Teto Solar" na festa Sambadelic! com participacoes especiais de Rogê, Marcelinho da Lua e Marcio Local

No Estrela da Lapa (Mem de Sá, 69)
21h - o show começa às 22h

Precinho camarada da lista amiga: R$ 15 (mandando email para sambadelica@gmail.com com qtos nomes quiser). Na hora é R$ 25. Depois do show, tem o DJ Zé Octávio botando a galera pra dançar com muito sambalanço, sambarock e sambasoul.

Eu achei estas infos num fotolog, do Joca, se nao tou errada (http://www.fotolog.com/jocasan/38995129)
onde se lë ainda

Por volta das 2h estaremos (eu e Tonho) em Copacabana para a já tradicional Black Friday. Tonho assumirá seu lado DJ pela segunda vez na festa com seu set "para a pista" que abrange o melhor do dancehall/ragga, hip hop, MPB e old school funk. Para quem quiser ir somente na festa (e não no show) a lista amiga é de R$ 10 (até 01h). Para entrar nesta lista dê um reply com qtos nomes quiser para o meu email mesmo (jocavidal@gmail.com). Para aqueles que vão na Sambadelic! e depois na Black Friday, o preço desta última fica ridículo: apenas R$ 5!

Agora, se você está se perguntando quem é Tonho Crocco, seguem algumas referências:

Acústico MTV Bandas gaúchas - Ultramen e Falcão d´O Rappa:http://www.youtube.com/watch?v=LwgW8qostnA

Marcelinho da Lua feat. Tonho Crocco - Ela partiu (do Tim Maia):http://www.youtube.com/watch?v=gi7YF7gC8E0

Tonho Crocco - Teto solar: http://www.youtube.com/watch?v=ecexCb1fNo0

Site do Tonho Crocco: http://www.myspace.com/tonhocrocco

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A parada

A parada

O aniversário chinês seguiu o roteiro. Sol como o prometido, apesar de o dia ter amanhecido nublado. Façanha alcançada graças a 18 aviões que desde a noite de quarta bombardeavam as nuvens no coração de Beijing com iodeto de sódio e gelo seco.

O sol a pino e o azul do céu contrastrando com o vermelho do Portão Tian'anmen eram o que faltavam para a festa. Apareceram e, então, era hora de o Politburo entrar em ação. O presidente chinês, Hu Jintao, surpreendeu no modelito quando apareceu, isso perto das 10h. Usou um terno à Mao, no estilo em que o Timoneiro vestiu para fundar a República Popular, há 60 anos. Os demais companheiros vieram com ternos normaizinhos, combinando as gravatas vermelhas, embora algumas aparecessem lisas, outras riscadas, outras com bolinhas. Sem muitas surpresas.

Surpresa, aliás, é o que menos se viu no desfile, que durou quase três horas. Suspiros provocaram as esbeltas militares, beldades que desfilaram de minisaia, em uniformes verde-musgo, branco e vermelho - este último, combinando com botinhas brancas. Super 60s! Até o Hu soltou uma risada marota ao ver as meninas, provando que tesãozinho amigo não tem barreira cultural.

Pois a chinesada gostosa, avisou a agência estatal, tinha uma média de idade de 22 anos. Todas moram em Chaoyang, que, apesar de ser um dos maiores distritos de Beijing, é também o mais habitado por estrangeiros. Rapazes, se você é deste time de ocidentais loucos por orientais, taí uma dica.

Claro que a mensagem pretensa da festa era bem outra. Não foi nem o terninho Mao de Hu, nem as pernocas torneadas das gurias. Mas estas mensagens propagandistísticas são sempre tão chatas que até preciso puxar da memória para lembrar quais elas eram. Ah, sim. Dizer que as 56 minorias étnicas que oficialmente compõem o país vivem em harmonia, que o país é dono de um poderio militar consistente, que trilha o caminho do desenvolvimento junto à conquista de tecnologia própria, que as crianças darão segmento ao socialismo com características chinesas, que é a atual doutrina do partido.

Mas deixa pra lá. Hoje é dia de celebrar a China, de curtir um feito do governo, o de fazer o céu ficar incrivelmente azul. Vou brindar com uma cervejinha, porque ninguém é bobo. E esperar a queima de fogos das 21h, que dizem, será maior do que a da abertura da Olimpíada.

Aqui, para você curtir aí um sem fim de fotos, imagens para quem curte a China. Aliás, é deste monte que roubei esta que abre o post.

国庆快乐!

http://www.xinhuanet.com/photo/60dyb/

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O retrato do Mao

Ele é a personificação de o que é a China hoje. Parece que foi sempre deste jeito, mas não foi. Pop art pura, Mao Zedong foi um dos principais modelos de Andy Warhol, o pai da tal pop art, que se inspirou no retrato oficial do líder chinês, pendurado na entrada da Cidade Proibida, para apresentar ao mundo ocidental o tal timoneiro. Isso era 1973.

 

Mao já estava no portão desde antes da fundação oficial da Nova China, de boné e roupinha comunista pobre. Nem assim tinha a lata carismática do Che. Vai ver por isso a imagem nem vingou, e o que faz sucesso junto ao argentino com características cubanas é mesmo a estampa setentista – já bem mais careca, mas ainda assim, com mais cabelo do que a imagem agora imutável. É você pode não ter percebido, mas muita coisa mudou por aqui.

 

Em 1 de outubro de 1949, a data lembrada nesta quinta, o líder apareceu sozinho e mais sério no pórtico. O primeiro retrato como presidente já o mostrava sem boné. E cabeludo. Durou pouco. Um ano depois, tomadas as providências mais urgentes, era hora de trabalhar o culto ao líder. Foram selecionados 30 estudantes do Instituto de Arte de Beijing e coube  a Zhang Zhenshi a tarefa do retrato oficial.

 

De 1950 a 1964 ele foi o responsável pelo quadro a óleo de 6m x 3m, que mesmo baseado em fotos oficiais, evoluiu conforme avançava a idade de Mao. E daí a coisa de perder cabelo.

 

Em 1967, no entanto, um detalhe sutil revelaria uma faceta chinesa, a arte interminável de leituras das mensagens subliminares nas pinturas. Esporte nacional, as interpretações de obras já renderam boas dores de cabeças, provocaram perseguições e prisões, especialmente nesta época, a do início da Revolução Cultural (1966-1976).  Mao, que assim como Warhol se apropriou, aparecia até então com apenas uma orelha voltada ao exterior, passou a ter as duas retratadas, numa tentativa de mostrar que ele ouvia a todos durante a revolução e não apenas a selecionados do seu grupo de camaradas.

 

O retrato do Mao até já mudou de cor com a pop art, mas depois de Zhang, virou preto e branco somente por um curto período, após setembro de 1976, quando o retratado morreu, em sinal de luto. Depois – assim como aconteceu agora – voltaram as cores e o quadro só é trocado para se manter sempre novo em folha.

 

E ele se renova em outros objetos, de canecas a camisetas, relógios e bolsas, passando pelas notas. De 1 a 100 yuans, ou seja, a maior unidade da medida da moeda chinesa, lá está ele.

 

Por aqui, a velha dúvida sobre se Jesus Cristo ou John Lennon é o mais famoso nem tem vez. Houve brasileiro que já tenha sido perguntado

 

- Quem é esse? – por um chinês que via uma imagem do Redentor, sim, o que está de braços abertos sobre a Guanabara.

Os 60 anos em 200 mil

É assim, a parada militar vai ser coisa para mostrar que o belicismo é parte central do governo cujo partido único confundido com Estado manda no Exército de Libertação Popular. A China quer deixar claro que está pronta para a guerra, se preciso for. Um recado mais ou menos assim: melhor que não seja preciso ir à guerra, queremos só o G2 – um imaginário (mas cobiçado) grupo das duas nações mais importantes, pois esta de onde vos escrevo e os Estados Unidos.

 

Mas talvez muita gente fique espantada com sincronismos e movimentos massivos ensaiados à exaustão pelos 200 mil que, dizem, desfilarão nesta quinta-feira pela principal avenida de Beijing, a Chang'An, tão importante que é justamente a que separa a Cidade Proibida da Praça da Paz Celestial.

 

Esta tudo milimetricamente estudado. Até os narizes dos pobres soldadinhos foram medidos. Até as golas dos uniformes exibiam agulhas espetadas em cada borda, a fim de que as microestocadas intermitentes nos pescoços ensinassem os músculos o quão importante é não mover a cabeça. Olhar certeiro, para frente e sem piscar. Sim, os soldadinhos foram treinados a não piscarem por um período que vai de entre 40 segundos e dois minutos.

 

Todas as bizarrices não se aplicam aos pitocos, cuja participação vai somar 80 mil crianças amanhã na praça. Eles vão segurar bandeiras, acenar, fazer coreografias. Tudo ensaiado em pequenos grupos diariamente ao longo de quatro meses, marcado in loco em três ocasiões, quando ensaios gerais provaram que o caos também visita Beijing e que a parada iria sair como no script.

 

Pois os pequetitos escolhidos para a festa exibem orgulhosos por aí mochilas que viram banquinhos, conforto para quem terá de esperar horas a fio até iniciar a participação. Nada muito grave.

 

Li Mei, de 11 anos, vai sair de casa às 6h30min. Vai para a escola. É de lá que seguirá para a praça, junto aos colegas com quem ensaiou a coreografia de flor. Ela está feliz em participar da festa nacional. Como quase todo o resto dos moradores de Beijing, os pais vão assistir pela TV, grudados na telinha para tentar identificar o rosto familiar na multidão. Para isso, até pediram folga dos trabalhos, num descanso que vai custar à mãe pouco menos de R$ 10, o que ganha como empregada doméstica por três horas de faxina. Mas e quem se importa de ficar um pouco mais pobre num dia em que o país celebra a pujança?

O quão longe a bici te leva

Faltam 10 horas para a China celebrar via televisão para todo o país os 60 anos da República de Mao, numa história de sucesso econômico e sonhos de prosperidade coletiva. O resto é falácia, quem está aqui não quer saber, não foi ensinado a querer saber e tem raiva de quem sabe – numa frase adaptada de um velho ditado de um velho sábio chinês.

 

A festa da República Popular promete terminar em carnaval, donde concluo que um detalhe me preocupa: o povão não foi convidado. Mas sabe que eu acho que ele nem se importa? Ele o povo, eu digo. Chinês, para deixar claro.

 

Desde os tempos em que as massas foram chamadas para juntos construírem uma nação, elas aprenderam que por estas terras a união nacional tem um preço, o do credo cego na liderança – que por ser líder e doar a vida ao bem nacional não faz mais do que a obrigação em aceitar alguns privilégios. Amanhã os vips representarão o povo nas tribunas instaladas em frente à Praça da Paz Celestial, exatamente no mesmo lugar onde o Timoneiro declarou a fundação da Nova China, daquela vez, outubro de 1949.

 

Hoje ao sair do trabalho, peguei a bici para ir até a praça, o palco da festa – que estará interditado à maioria dos normais durante a quinta-feira. O passeio me mostrou muito mais do que uma praça cujas cercas metálicas que a separam da via pública foram retiradas. Muito mais do que o espaço que agora abriga telões gigantes, 56 colunas em vermelho e dourando lembrando as 56 etnias chinesas ou gigantescas lanternas vermelhas. Bem mais do que os telões ao lado de Sun Yat-sen, o cara considerado o pai da raiz democrática chinesa circundado por imagens marcantes – e lindas – de momentos históricos oficiais do país.

 

Mostrou que o povo se apropria da festa como pode. Sem ser convidado para a pompa oficial, hoje fez vigília por ali. Quem estava por perto, aproveitou a noite de luar para uns dedinhos de prosa com os amigos. Tinha família de bandeirinha da China na mão. E o que tinha de pedestre e ciclista de celular em punho, camera de foto e até de video registrando a véspera do desfile não era brincadeira. Eu tinha também, mas sem bateria, lamentável. Enquanto meus camaradas mal disfarçavam um sorriso orgulhoso, ouviam pelos megafones da segurança pedidos para que não parassem por ali, seguissem adiante.

 

A ideia é manter sigilo sobre a festa, que tem toques da grife Zhang Yimou e presença confirmada do jeito chinês de fazer propaganda, numa mistura de estilos que beira o kitsch. Ou ultrapassa e bem este limite, já diria outro sábio chinês.

 

Tudo era motivo para clique. Até os guardinhas que desembarcavam aos pelotões de caminhões do exército, cada um segurando seu próprio banquinho de madeira, provavelmente o bem mais valioso desta madrugada, onde vão se apoiar para uma descansada. Ou a turma da limpeza, gente que vai participar no apoio da festa toda, e que, às 21h30min de quarta-feira, já mostrava as credenciais e passava pela inspeção de segurança. Gente pobre que para participar tem de dar o sangue. Uma pena mesmo não ser VIP. Mas quem se importa.

 

O meu passeio de bicicleta serviu para pensar no orgulho destes chineses todos, os das bandeirinhas, os das máquinas em punho, os dos banquinhos de madeira e daqueles que já devem estar entre insones e automatos para deixar tudo brilhando. Eles estão vibrando com a data, que não é ruim em si. Eles comemoram os resultados de 60 anos de governo de união de um país cuja história recente é permeada de grandes períodos de fome, escassez, incertezas. Eles se orgulham de voltar à posição geográfica que atribuem a estes pagos desde os tempos imperiais, o de Império do Meio, ainda que seja figurativamente, dada à importância politico-econômica da nação hoje. Muitos têm banheiro dentro de casa, comem melhor, se vestem melhor e têm promessas de sistemas universais de acesso à saúde e à previdência. Não, ninguém remotamente nem sonhava com tais conquistas há 60 anos – e bem verdade que se alguém sonhasse há 30, correria sério risco de sumir do mapa.

 

Meu passeio de bici me fez viajar. Em tentar descobrir as motivações dos donos da casa, a identidade nacional chinesa, o jogo de poder do Partido Comunista. Confesso que viajei longe e não cheguei a lugar algum. Devo passar a quinta-feira grudada na TV, o jeito pop de não perder a festa. Vou ser mais uma a digerir a informação filtrada, a ouvir a ladainha ultrapassada de ode a uma ideologia que não existe em si, a do socialismo com características chinesas, este cujo molde se fixa à harmonia e ao desenvolvimento científico, num desfile de conceitos tão fantasiosos quanto a parada desta quinta, que vai celebrar uma paz que não existe.

 

E quando eu de novo me emocionar com algum olhar sincero de um chinesinho orgulhoso e sorridente qualquer, vou voltar à velha questão que justapõe felicidade e ignorância, o oposto do que acredito, mas formula fácil de satisfação de massas. E viva a República Popular.

Tempos de festa popular sem povo e com paranoia

A contagem é regressiva. Está tudo pronto para a celebração dos 60 anos da fundação da República Popular da China. Tudo mesmo, até os textos de o que vai acontecer amanhã, 1° de outubro, quando Beijing para para que o mundo e o povo chinês vejam o poderio militar e econômico que a mão forte do Partido Comunista moldou no país.

Nada deverá estragar a festa, nem o tempo. Apesar de os dois dias que antecedem a parada terem sido cinza, a promessa do governo é que amanhecerá céu azul. Se amanhecer, eu conto a vocês e ficarei pensando seriamente que esta gente brinca de Deus. Controle sobre a vida das pessoas eles já tem faz tempo.

Desde às 12h desta quarta-feira, a principal avenida da cidade está com todo o comércio fechado. Todo o comércio da Chang'An significa uma pá de coisa, e considerando-se que nela estão as maiores empresas e os escritórios multinacionais, isso quer dizer muita gente usando laptops, netbooks e outras geeks gadgetices para continuar trabalhando em meio a uma cidade que demonstra também na intervenção cotidiana o quanto pode. Aliás, para os moradores, a ordem é de que não se abram as janelas que dão para a avenida.

Por ali, a partir da manhã desta quinta-feira desfilarão os feitos e as conquistas dos últimos 60 anos da China, numa festa que incluirá Hong Kong, Macau e Taiwan, estas duas primeiras celebrando à volta ao continente. O espetáculo popular em que o povo ocupa o papel de telespectador - todos vão ouvir as mensagens de casa, já que o acesso à Praça só será garantido por escassos convites - ainda promete acabar em carnaval, o que eu tou recebendo para ver.

Um carnaval com 60 carros alegóricos, alas, avenida. Mas sem povo. A paranóia aqui tá grande. Amanhã, no grande dia, todos os pilotos estrangeiros que atuam em empresas chinesas estão proibidos de cruzarem o espaço aéreo nacional. O aeroporto de Beijing ficará fechado das 9h às 12h. Nos caças que darão o ar da graça, mísseis prontos para o disparo trarão ogivas ativas. Os pilotos, estes da Força Aérea chinesa e chineses, já foram instruídos a não dispararem. Me sinto muito mais tranquila. Este será o 14° desfile militar da era pós Mao, mas o segundo em que os mísseis estarão prontos a disparar. A gente nunca sabe, né. A primeira, ocorreu justamente na parada de fundação, quando o Partido Nacionalista ainda não tinha sido totalmente derrotado no continente. Tempos de ameaças.

Esta paranóia ou mania de perseguição que deixa o país sempre alerta lembra um pouco a coisa do gato escaldado ter medo de água. E gato aqui se chama mao, numa mera coincidência.

A véspera do aniversário da república rende histórias inusitadas. Objetos cortantes, perfurantes, machucantes, estilos facas, tesouras e familiares não podem ser mais vendidos em Beijing já há coisa de duas semanas e  até o fim das comemorações. Tudo para evitar violências – estilo o ataque que aconteceu no dia 17 de setembro em Dashilan, perto da Praça da Paz Celestial, e que deixou dois mortos. Claro, quem mataria alguém usando uma faca usada, tirada da cozinha de casa, não é mesmo?

Turistas estrangeiros ao Tibete, não depois de 24 de setembro, não antes de 10 de outubro. Quem já está por lá, pode ficar. Mas que não está, fica para a próxima.

Tanta coisa que até fica difícil lembrar. O bloqueio mais evidente, no entanto, é o da internet, que afeta estrangeiros e locais, num controle que recrudesceu nos últimos dias, quando mesmo o batalhão que costumava lançar mão de VNPs e proxy viram seus subterfúgios sucumbirem aos censores, no que se chama Great Firewall of China. Minha aposta é que logo, logo, tudo será restabelecido, até porque depois dos 60 anos o que a China quer é mostrar os ares de modernidade, sustentabilidade e urbanismo consciente na onda da Shanghai 2010, a Expo Mundial que na internet começará ainda neste ano, num ambiente em 3D, que tem perfil no twitter e no Facebook. Não, você não está enganado. Estes dois últimos ainda não funcionam por aqui.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jovem Guarda na China

Na próxima sexta, 2 de outubro, em plena ressaca das comemorações dos 60 anos da Nova China, cuja festa será celebrada com parada militar e China parada, devido à mobilização e à segurança em larga escala implantada para que tudo ocorra segundo o plano no país, Beijing também celebrará os 60, com características brasileiras.

Desta vez, os 60 da vez serão os Anos, aqueles dourados de Beatles e Rolling Stones, em que a Jovem Guarda estourou no Brasil e transformou as histéricas fãzocas do Roberto nas eternas caçadoras de rosas em shows do Rei - síndrome, aliás, que parece hereditária, e algumas vezes passa de mãe para filha.

Estas e outras paradas serão curtidas graças a esta que voz escreve, que discotecará junto à Fernanda Morena e à Paula Coruja.

O que falta na minha play list abaixo?

Aretha Franklin
Son of a Preacher

Geral
I Only Want To Be With You Tell The Boys (Medley)

Jovem Guarda
Biquíni de Bolinha Amarelinha
Rua Augusta

Os Vips
A Volta

Roberto Carlos
Calhambeque
É Proibido Fumar
Eu Sou Terrível
Namoradinha de um Amigo Meu
Não Vou Ficar
Todos estão surdos

Rolling Stones
Honky Tonk Women
Jumping Jack Flash
Paint It Black
Susie Q
Under My Thumb

Sérgio Reis
Coração de Papel

The Animals
Dimples

Don't Let Me Be Misunderstood
I'm Mad Again

The Beatles
Come Togheter
Day Tripper

Eleanor Rigby
Get Back
We Can Work It Out

The Fevers
Menina Linda

The Hollies
Bus Stop
Stay

The Monkees
Im a Believer
Mary, Mary

The Zombies
Time of the Season

Trini Lopez
If I Had a Hammer

Wanderléa
Pare o Casamento

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Solucionado o mistério

No ano passado, no período olímpico, uma coisa me chamou a atenção nas estações de metrô de Beijing, uma máquina para mim parecia uma betoneira (juro que nunca achei que conseguiria usar esta palavra). Não tive dúvidas e pedi pra marida clicar. Hoje, lendo sobre os preparativos para os 60 anos do aniversário da Nova China, solucionei o mistério daquelas geringonças. Se tratam de máquinas de desativação de bombas.
 
Acho que quando fiquei brincando com a minha, ela estava em deuso. Meda. Alias, você conhecia uma máquina de desativação de bomba:

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Janaína Camara da Silveira
***
www.twitter.com/chinainblog
www.linkedin.com/in/janajan
www.janajan.blogspot.com
***
Phone: 0086 (10) 8355 6368
Mobile: 0086 1352-151-4145
***
Xuanwu District - Beijing - China

Variação sobre o mesmo tema

Nos ensaios para a parada militar que comemorará os 60 anos de fundação da República Popular da China, uma cena que me lembrou episódio de há 20 anos. O clique é da fotógrafa da AP Elizabeth Dalziel. Aliás, aqui http://ow.ly/qPyy você pode ver outras maravilhas em imagens sobre os preparativos da grande festa do governo.

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Janaína Camara da Silveira
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Xuanwu District - Beijing - China

Casar é Pop

A China que eu conheço, esta que acontece agorinha mesmo, em 2009, tem duas características marcantes, entre tantas outras tão marcantes quanto.

A primeira é uma total guinada na vida da população, que experimenta uma liberdade um tanto impensada há pouco mais de 30 anos e enfrenta novos paradigmas, que fazem do outrora condenado modelo capitalista o sistema em que todos embarcaram. A segunda é resquício dos tempos duros de controle estatal, em que vida pública, profissional e privada se resumiam numa só. Hoje você bem pode mudar de cidade, ter dois ou três filhos, escolher que profissão seguir. Basta que tenha dinheiro. Ou quase isso. Sério, antes não podia.

Hoje ao chegar ao trabalho, me deparei com uma galeria de fotos celebrando as novas leis para o casamento, promulgadas no início da década de 1950, logo nos primeiros anos de Mao. Aliás, é dela que roubei a foto que ilustra este post. Para quem quiser ver todas, o que fortemente recomendo, siga este link http://www.chinadaily.com.cn/china/2009-09/24/content_8727518.htm .

Voltemos ao casamento. O que se celebra na Nova China é uma ruptura com os moldes casamenteiros do passado, tachados como feudais oficialmente, quando, a partir da estrutura civil da República Popular homens e mulheres passaram a ser iguais - ainda que na prática, nunca tão iguais assim. Até hoje, o Comitê Central do Politburo, as nove cabeças realmente importantes na esfera política chinesa, nunca teve participação feminina. Mas, bueno, no Politburo eles não são tão iguais assim. Falemos do povo - essa entidade que sempre se ferra e é feliz, já ensinava uma música qualquer.

Casar na China após 1950 deixou de ser arranjo entre famílias, e as mulheres puderam defintivamente abandonar o costume cruel de terem os pés atados para criar os famosos pés de lótus, um fetiche masculino que consistia na deformação dos tais pés, num esforço iniciado ainda na infância, quando as mães enfaixavam os pés das meninas para que estes não crescessem para além de 13cm, 14cm - mas o ideal mesmo eram aqueles que mediam 10cm. Com a deformação, as mulheres tinham um caminhar cambaleante, e o homem sabia que não perderia sua presa, praticamente impossiblitada de fugir de casa. A tradição já havia sido banida na criação da República, em 1911, mas foi com a ascensão de Mao ao poder que passou a ser crime. E viva a igualdade.

O que fica omitido na galeria de fotos que celebra a liberdade matrimonial foi o peso gigante da estrutura estatal nas decisões caseiras. Nos primeiros dois anos em serviços estatais, por exemplo, era proibido namorar. Os casais, muitas vezes, eram apresentados pelo representante local do Partido, num jogo em que a sugestão deveria ser aceita, sob pena de retaliações para a família do jovem que se recusasse. Afinal, só quem tão bem conhecesse sua comunidade para sugerir as uniões. Uma cena contudente está no filme de Zhang Yimou Viver (To Live, em inglês, 1994), proibido na China e que conta a história recente do país - notadamente a maoísta - sob a perspectiva de uma família. Pois a filha do casal protagonista é muda. E lá vem o chefete local arranjar o casamento da moçoila com um par manco, uma vez que dois portadores de deficiências não poderiam esperar casar com alguém "normal". Sutilezas do jeito chinês de arranjar as vidas, como eu disse, numa mistura geral de o que é de foro privado ou público. Na vida real, divórcio, só com permissão da unidade de trabalho - e ninguém tá preocupado em saber porque o casal queria divorciar.

As fotos mostradas no China Daily, jornal estatal, aliás, revelam aspectos típicos da sociedade, como o passeio de bicicleta após o casamento - cena, aliás, muito bem ilustrada em Viver. Não pense que o costume hoje tenha se perdido, apenas o meio de transporte mudou. Ao ver uma fila de carrões pretos decorados com flores, saiba que se trata de um desfile para recém casados. Juro que da primeira vez pensei se tratar de um cortejo fúnebre, impressão desfeita ao encontrar um colega chinês, que logo tratou de explicar que a procissão pomposa e em ritmo lento pelas ruas de Beijing se tratava de comemoração.

Muita coisa mudou, não apenas o abandono das bicicletas. Mas nos 60 anos, outro flagra mostra ainda Mao abençoando o casal, cena típica dos tempos de Revolução Cultural, quando as fotos que lembravam o casório eram tiradas em frente a retratos do Timoneiro e nas quais os pombinhos seguravam o famoso Livro Vermelho. Sinal de que a mística ainda é forte. Longa vida!

Se o Partido tenta dar esta cara de fim de casamentos arranjados na Nova China, esquece de dizer que segundo as palavras de Mao, os casais deveriam guardar energia para o trabalho, em vez de fazerem sexo. A vida privada envolvendo o prazer era um tabu tão grande que ainda hoje há quem esteja focado no trabalho e deixando de literalmente gozar a vida para não desperdiçar gás. Sinal de que a máquina propagandística é eficaz, alguns ecos ainda reverberam nas novas gerações. Gerações estas que podem ver no jornal a felicidade da união entre uma moça han com um tibetano, de casais celebrando a união em românticas carroças por ruas em Xinjiang. Tou falando da galeria do jornal estatal. Se você ainda não viu, clique. Mais uma chance:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2009-09/24/content_8727518.htm .