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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Noivas à beira-mar









O aparato todo das fotos aí de cima não revela um casamento coletivo à beira-mar, mas flagras de uma mania nacional chinesa registrados no último final de semana, quando estava na cidade costeira de Qingdao (青岛). São as fotos para os álbuns de casamento, uma espécie de book do casal, tão importante na celebração quanto o sim dos noivos. Diria que tão ou mais importante, uma vez que as fotos são produzidas com semanas ou até meses de antecedência ao dia da festa - que, dependendo das finanças dos pombinhos, algumas vezes nem existe.
É comum andar por lugares turísticos e-ou bonitos da China e dar de cara com noivas, noivos, fotógrafos, assistentes e maquiadores. A gente até acostuma. Mas as hordas que vi em Qingdao foram surpreendentes. Talvez haja um porquê. A cidade é muito verde, o mar é bonito, as pedras dão um toque a mais na paisagem e se é pra retratar a felicidade que espera-se seja eterna, nada melhor do que um cenário inspirador. E natural.

A brincadeira, que envolve disposição do noivo e da noiva para bancar os modeletes e passar horas sorrindo, pulando, fazendo pose e trocando de roupa, sai cara. Em um estúdio de foto onde fiquei pesquisando preços, vi que os pacotes variavam entre 3 mil RMB e 7 mil RMB, algo entre R$ 860 e R$ 2 mil. Claro que eu não entendi o que cada pacote continha, mas, em termos gerais, vale dizer que os modelos vão vestir roupas ocidentais para casamento, algumas roupas de festa, trajes de casamento tradicionais chineses e, algumas vezes, até os velhos uniformes comunistas azuis dos tempos de Mao.

O que eles fazem com isso? A agência vai montar um álbum com capa dura, cujas fotos podem ter dimensões até então impessáveis pra mim, como coisa de 60cm por algo, se não mais. Outras vão virar quadrinhos, outras vão parar em porta-retratos e as melhores ainda viram poster nas paredes das salas dos recém-casados.

1, 2, 3... Beringela*! E saia bem na foto.

***

* Ok, você não tem obrigação nenhuma de entender o beringela aí de cima. É que em chinês o nosso "Xis" é substituído por Beringela na hora de mostrar os dentes. Claro que o som é outro em mandarim, "Qiezi", que a gente lê quase como "tchiêdzzu".

E viva os noivos!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Cliques

O movimento de 4 de maio, sobre o qual falei no último post, levou pouca gente às ruas, mas ainda assim quem foi fez barulho e alguns líderes chegaram a ser presos. A sacudida foi suficiente para acordar uma parcela intelectual da população que daria início ao movimento que desembocaria na fundação do Partido Comunista da China. Mas isso tudo a gente já viu ontem.

O que a gente ainda não tinha visto por aqui eram fotos da época. Então seguem duas, emprestadas do blog ilishi.com, que traz imagens antigas principalmente da China, mas também de outros acontecimentos marcantes mundo afora.


Neste clique, os revolucionários empunham duas bandeiras do primeiro período republicano chinês. Em tempos de governo central enfraquecido e tentantivas de volta ao império, era importante lutar pela democracia por meio da legitimação da república


Os estudantes de universidades conceituadas da China, especialmente a Universidade de Pequim (北京大学, Beijing Daxue, ou 北大, Beida) saíram às ruas da capital

Hoje, no meu parco mandarim, consegui entender que há registros de maio de 1968 em Paris.



Curti mesmo esta série de Suzhou, cidade conhecida pelos mais belos jardins da China. Os cliques são da década de 1980 e copio um aqui abaixo, mas sugiro fortemente todas as fotos. Os flagrantes da vida cotidiana de quase 30 anos são divertidos, e trazem um pouco do que era a moda e o estilo da época (e também lembra que estou velhinha)



Bueno, já que o tema que originou este post são os estudantes de 4 de maio de 1919, aqui vai o link para as imagens.

***

A China através das lentes de John Thomson - 1868-1872

Falando em fotos antigas, o Museu de Arte de Beijing exibe até 18 de maio A China Através das Lentes de John Thomson - 1868-1872. Thomson é um dos pioneiros do fotojornalismo. Nascido em 1837 em Edimburgo, na Escócia, mudou em 1862 para Cingapura e dali empreendeu diversas viagens asiáticas.

Quatro anos mais tarde iria viver em Bangcoc, capital tailandesa, e em 68 adotaria a então colônia britânica de Hong Kong, onde começou a estudar a cultura chinesa e a fazer viagens curtas à província vizinha de Guangdong. Em 1870, iniciou uma expedição pelo continente, que o levou até Fujian, no sudeste do país, passando pela então capital imperial, Beijing.

A viagem rendeu ao fotógrafo a alcunha de China Thomson na volta à Europa. E, claro, vários registros da época. A exibição que agora está em Beijing traz 150 imagens. A BBC preparou um slideshow com algumas delas, para quem tem preguiça de ir até o museu. Quem não tiver, siga o mapa. O museu fica na Fuxin Lu, número 9A, no Distrito Haidian.

Depois da capital chinesa, as fotos serão expostas em Fujian, de 14 de junho a 16 de agosto, em Guangzhou, de 26 de agosto a 27 de setembro, em Dongguan, de 3 de novembro a 2 de dezembro e, depois, no World Museum de Liverpool, em comemoração ao Ano Novo Chinês.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

68.8 - Dia 8

Ba, deve ser meu dia de sorte.

A exclamação de espanto e surpresa tão cara aos gaúchos é também o som para o número 8 em mandarim. 8 = ba (八). Vejam que no meu oitavo dia de tratamento, meu peso é 68,8kg. Seria sinal de boa sorte?

O número 8 na China é considerado um número afortunado. Isso porque a leitura "ba" se assemelha à de sorte ou prosperidade, "fa". O caracter para este segundo é 发, a palavra, na verdade, é 发财, ou facai. A fixação chinesa pelo 8 é tanta, que a Olimpíada de Beijing começou em 8.8.2008 às 8:08pm. Deve ter dado sorte. Eles lideraram de longe as medalhas douradas, 51, ante as 36 dos Estados Unidos, prata no ouro.

Como mesmo em dieta a gente tem sorte, fui liberada para me esbaldar em iogurtes. Chineses tomam pouco leite, fogem do queijo. Para eles, ambos são fontes de gordura e trazem problemas de pele e sei mais o quê. Mas o iogurte, resultado de leite fermentado, pode. E pode até gelado.

Eu sou fã do iogurte, que aqui se fala suannai e se escreve 酸奶, e tomo todas as manhãs. As especiarias de Beijing vêm em copinhos de cerâmica como estes aí abaixo.



Agora, se estou na rua e a fome aperta, corro para uma banquinha para me abastecer do líquido pastoso e deliciante. À noite, se fico acordada até mais tarde, é ele novamente que me salva.

Beba iogurte

Em dieta ou não, iogurte é sempre bom. Tem vitaminas, minerais, proteína. Ajuda a estimular o sistema imunológico e a matar bactérias nocivas. No sistema digestivo, o seu efeito antibiótico age para combater inflamações e proteger o intestino de toxinas. Como fonte vital de cálcio, previne osteoporose. Ginecologistas também recomendam para recuperar a flora vaginal.

Chineses tão apegados à doutrina da alimentação como passaporte para uma vida saudável talvez já tenham se dado conta dos benefícios da bebida há muito, muito tempo. Aliás, iogurte ainda é bacana porque não é só bebida. Aí abaixo, deixo uma receitinha de molho praquela salada saudável e saborosa.

Molho de iogurte

• Ingredientes
1 xícara (chá) de iogurte desnatado
1 xícara (chá) de vinagre de maçã ou aceto balsâmico
½ colher (sopa) de salsinha picada
½ colher (sopa) de cebolinha picada

• Modo de preparo
Misture bem todos os ingredientes e leve à geladeira até a hora de servir

domingo, 19 de abril de 2009

Acupuntura para quem precisa

Você meu leitor já entendeu que estou de dieta e passando por um tratamento de acupuntura, né? Conto isso tudo aqui, mas hoje, só hoje, resolvi republicar um post quase que na íntegra, até porque ele fala um pouquinho sobre o que é acupuntura, então acho que cabe. Pra ilustrar, minhas joaninhas quase à beira de um ataque, em fotinho da Paula.



A acupuntura integra a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e é utilizada na China para combater males há centenas de anos. Os primeiros registros datam de coisa de entre 2 mil e 3 mil anos. O princípio seria simples, manter a harmonia do corpo, alcançado através de estímulos em pontos específicos, que corresponderiam aos diversos órgãos. Para isso, a MTC delineou um mapa que aponta os hemisférios, ou os pontos onde deverá ocorrer a intervenção. No mapa aí de baixo, roubado daqui, você pode ter uma idéia do que estou falando.



O conceito trabalha com a questão do equilíbrio da energia no corpo, outra crença tão cara aos chineses, cujo símbolo máximo, o do equilíbrio, é o taoista Yin e Yang.

Até hoje a eficácia da acupuntura é debatida no Ocidente. Não é de agora que a técnica causa estranhamento e provoca desentendimentos. O primeiro deles ocorreu já na tradução, quando o tratamento foi mostrado fora dos limites asiáticos.

Acupuntura em mandarim é zhenjiu, ou 针灸, cujos caracteres significam agulha e moxa (este último, outra técnica da MTC que se utiliza de ervas incandescentes). Mas o jesuíta apressado (ou vítima de um mal entendido) traduziu para agulha e punção, o que no latim fica acumpunctum e dai você já entendeu. Resultado é que até hoje ligamos o nome às agulhadas e muitas vezes ignoramos que a técnica abarca outras modalidades, como a própria moxa e as ventosas.

Em resumo seria assim, a MTC tem mais de uma maneira de estimular os pontos, ou hemisférios, do nosso corpo, a fim de garantir a esse equilíbrio de energia e, logo, harmonia.

Organização Mundial de Saúde

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a acupuntura como Medicina Alternativa ou Complementar (MAC). Isso significa que a entidade acredita no tratamento como aliado às técnicas da medicina ocidental. Segundo a OMS, em países desenvolvidos, entre 70% e 80% da população já fez uso de técnicas da Medicina Tradicional – que inclui ainda fitoterapia e terapias manuais, como massagens.

No site da organização (em inglês), a entidade afirma que evidências mostram a eficácia da acupuntura no alivio de dores (e de yoga para prevenir crises de asma e de Taichichuan para o equilíbrio dos idosos, se vale a informação). No entanto, alerta que ainda são necessárias mais pesquisas. O que a entidade já faz e trabalhar junto aos países para que estes acrescentes a MT aos sistemas nacionais de saúde, a fim de que se garantam politicas sobre produtos e práticas e, por conseguinte, segurança e qualidade nos procedimentos.

Brasil

O Brasil também reconhece a acupuntura como Medicina Alternativa ou Complementar e desde 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) reconhece tais terapias como eficazes para a prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde. Assim, estão autorizadas no Sistema Único de Saúde (SUS).

Mas a mesma politica abriu um debate no meio médico e de saúde ao garantir o carater multiprofissional destes métodos. Segundo o texto, as práticas integrativas e complementares podem ser exercidas por profissionais de saúde de áreas diversas, desde que devidamente capacitados. A acupuntura, no Brasil, é realizada por profissionais da área da biomedicina, educação física, enfermagem, farmácia, fisioterapia, medicina e psicologia.

Aliás, de repente lembrei que não faço ideia da formação da minha terapeuta.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Porto Alegre visual



Na próxima quinta-feira, quem estiver em Porto Alegre tem um convite meu, visitar a exposição Diários Visuais: Imagens de uma Mente Inquieta, a primeira exposição individual do Chico. Bueno, vamos apresentar melhor o moço. É a primeira exposição individual do Chico Baldini, designer, ilustrador e artista multimeios.

As pinturas, gravuras e minigravuras ficarão expostas no andar térreo do Memorial do Rio Grande do Sul (antigo prédio dos Correios, no Centro) de 23 de abril a 10 de maio. Ou seja, o convite se estende ainda por mais alguns dias.

- O fato de trabalhar como ilustrador e designer e estar atento a todos os estímulos gráficos que preenchem a cidade me desperta a necessidade de reinterpretá-los e dar a eles uma resposta - conta o Chico.



Todas as explicações do moço e os preparativos para a exposição já têm endereço, o blog Diários Visuais. É por ali que pretendo acompanhar o balacobaco, já que não estarei lá para ver de perto. Mas você, felizardo que pisa solo gaúcho bem que pode dar uma passada. Se eu acho que será legal? Presta atenção na foto abaixo.



- Acho que quero uma nova tatuagem - disse um dia, e o Chico estava junto.

- Fala onde quer fazer e o que queres fazer e eu desenho - ele respondeu.

Entre este diálogo e a foto que vocês veem aí em cima, tirada pelo Arivaldo Chaves em fevereiro de 2006, foram quase dois anos. A Mari escolheu bem antes que eu tatuar uma borboleta no pescoço e logo ganhou uma borboleta linda. Eu demorei, só sabia que queria joaninhas. A idéia de tatuar no braço foi amadurecida ao longo de muito tempo. Afinal, olhar para um desenho a quase toda a hora em que tu te miras no espelho não é mole. A não ser que seja um baita desenho.

Definidos joaninha e braço, era hora de o Chico botar a mão na massa. Ou pegar caneta e papel. E foi assim, numa noite de fevereiro de 2006, durante um jantar na casa da Cacá e do Sérgio enquanto eu e Tati planejávamos férias no Rio (trip que teria ainda a Paula) que ele desenhou. O processo foi coisa de 20, 30 minutos, intercalado com boa conversa e palpites dele e da Elisa sobre o Rio (já que eles recém haviam estado por lá).

Saí com minhas joaninhas floridas feliz da vida e no dia seguinte estava em Capão da Canoa, onde participaria da cobertura de verão na Sucursal de Praia da RBS. Nem perdi muito tempo, encontrei um estúdio e fiz lá mesmo a tattoo. Joaninhas floridas praieiras. Ou bicuíras, como queiram.

Resultado? Até hoje as pessoas me perguntam de onde é o desenho. Algumas enxergam as joaninhas, outras falam sobre as flores, algumas falam do tribal com inspiração indiana. Foi assim desde as férias no Rio, no encontro com amigos queridos de Porto Alegre, na Tailândia, aqui na China. E a cada vez que conto toda esta história, lembro que tenho o meu amigo sempre ao lado. Pena agora estar tão longe, adoraria dar um abraço pra comemorar a exposição.

Bueno, graças ao Chico, aprendi muito rápido como dizer joaninha em chinês, 七星瓢虫, ou qīxīng piáochóng - literalmente, Joaninha Sete Estrelas. Hoje ainda foi útil, quando a terapeuta com quem faço acupuntura passava os olhos - e os dedos - encantada com a tattoo.

Bueno, agora entendeu por que pra mim o Chico Baldini será sempre só o Chico, né? Tanta intimidade suprimem o sobrenome rapidinho. E nos deixa um tanto quanto mais feliz na hora de elogiar. Porque artista, sendo meu amigo ou não, isso é facil de perceber que ele é.

Anotou o endereço da exposição? É ali na Praça da Alfândega, mané.
:)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Greta Garbo à chinesa

Pouca gente sabe quem é Ruan Lingyu (院玲玉), considerada uma das maiores atrizes chinesas, ainda que tenha atuado por cerca de apenas 10 anos, em filmes mudos dos anos 1920 e 30. Eu integrava a turma dos ignorantes a respeito de. Conheci a moça no painel Comparando o Campo de Atuação, Filmes Asiáticos e o Ocidente, com o crítico de cinema e diretor escocês Mark Cousins, que ocorreu na Bookworm, o melhor lugar pra estar antenado aqui em Beijing - na minha modesta opinião, claro.



Lingyu nasceu em Shanghai em 1910. Foi ali que morreu, aos 25 anos, após uma ingestão exagerada de remédios para dormir. O suicídio teria ocorrido porque, além de ter uma vida amorosa conturbada, ela seria vítima das fofocas da mídia da época. Não que as pessoas se matem hoje em dia por causa disso, mas bisbilhotar a vida das celebridades ainda ocorre. Canseira.

Lingyu era a queridinha do cinema na China - e como Cousins disse, nos anos 30, Shanghai e Tokyo viviam épocas de ouro. O cortejo da atriz, dizem os registros, reuniu milhares de pessoas. Três garotas teriam também cometido suicídio durante o funeral. O jornal New York Times deu na capa a história, dizendo que era o maior cortejo do século.



Até hoje Lingyu é lembrada por quem entende de cinema - em Shanghai, um monumento homenageia a atriz, já que a lápide em si foi destruída durante a Revolução Cultural. Ela é considerada uma lenda, um patrimônio da cultura shanghainense.



Goddess (神女), de 1934, é considerada uma das melhores atuações da chinesa de origem cantonesa (e é um trecho deste filme que você pode assistir logo abaixo).



Cousins compara Lingyu a Greta Garbo e se pergunta por que o Ocidente não conhece a mocinha dos olhos puxados. Sabem, mesmo aqui se conhece pouco da história do cinema. Em qualquer loja de DVD ou camelô de rua, se encontra uma gama sem fim de últimos lançamentos nacionais e do mercado internacional. Agora, filmes mais antigos, prata da casa, quase nada.

***

Bueno, mas depois de falar um pouco da diva do cinema (mudo) chinês e mostrar algumas fotos da bonitinha, deixo com vocês um pouco sobre o Cousins.

Todos os meses, ele escreve artigos sobre cinema na revista britânica Prospect. Neste, de 2004, ele fala especificamente sobre as produções da Ásia e conta, claro, a história de Lingyu (mas é tudo em inglês). No ano passado, ele foi curador da mostra internacional de documentários no 13°Festival É Tudo Verdade. Escolheu 10 filmes que "Mudaram o Mundo" e justifica os eleitos neste texto, mal traduzido para o português. Achei a linguagem chaaaata.

De qualquer forma, ele afirma o que depois eu vi reafirmando ao vivo, que filmes podem ser, sim, instrumentos de educação e informação, por meio dos quais as pessoas podem aprender sobre uma sociedade, comportamento, cultura, etc - mesmo quando estes não têm qualquer traço documental, já que aqui em Beijing discutíamos mais as obras ficcionais. Cousins arrancou gargalhadas as dizer quem nem sempre é preciso ler livros para se manter informado - e se desculpou por estar dizendo isso justamente dentro de uma livraria que promovia um festival literário para o qual ele havia sido convidado. :p

Fato é que, segundo ele, ao ir mais fundo na ironia, disse que quem lê, lê para parecer mais inteligente, lê para conhecer mais, se tornar mais culto. Ao passo que quem assiste filmes, o está fazendo apenas como lazer. Aliás, superconcordo com estas perspectivas do moço escocês - que, pena não ter levado uma câmera para fazer uma fotita, vestia confortavelmente um kilt, aquelas sainhas escocesas com pregas e padrão xadrez. Cousins, cheio de estilo e várias teorias, também já se rendeu à escrita, que fique claro. Ele é autor do livro The Story of Film, sem tradução para o português.

***

Toque brasileirinho

O 14°Festival É Tudo Verdade ocorre agora, de 25 de março a 5 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O cachorro roqueiro tibetano que meditava



Zheng Jun (郑钧) é um roqueiro quarentão chinês (e gato, vai) que entre outras pérolas, gravou em mandarim uma versão para Yellow, a fofa música do Coldplay. Para quem ficou curioso, o clipe está no final deste post. Para quem aguenta esperar, vou contar outra história sobre o cantante, antes mostrando por que eu disse que o moço era bonitão - a foto foi roubada do blog dele, cujo link abre este post, mas está tudo em chinês, já vou avisando.



Zheng tem outras duas paixões, além da música: quadrinhos e animais. E parece que o moço é criativo. Juntou todas elas para criar o Tibetan Rock Dog, uma história bacana, cheia de referências pop e trocadilhos em chinês - esta parte eu perdi...

A história começa no Tibet, onde o mastim Metal (麦头) nasceu. Ele cresceu num templo budista, depois que os pais morreram ao tentarem proteger camponeses. No templo, o avô, que aprendeu a meditar e a falar a língua dos homens depois de alcançar o mais alto grau da yoga canina, ensina a Metal os segredos da meditação canina e sobre o inimigo dos cães, o lobo tibetano.



Eis que um rock star adota Metal e traz o cão para Beijing, onde ele forma uma banda de... rock. Ah, os cães iluminados, além de conseguirem conversar com as pessoas, também podem tocar instrumentos!

Zheng já anunciou que vai transformar a história - lançada pela primeira vez há quatro anos - em filme. Eu achei divertidíssimo e, sinceramente, espero que ele faça isso. Ele quer conquistar o mesmo sucesso de Kung Fu Panda. Bobo ele não é, né: E é gato, eu já disse.

Agora, vamos à banda do Metal:



Nas guitarras, Zorro (佐罗), um dinamarquês cujo dono é também dono de um estúdio de tatuagens

Nos teclados, iKey, um labrador viciado em internet, culpa do dono, que trabalha em uma companhia de TI

Na bateria, Vaisly (瓦西里), um rotweiller descendente de família de cães que conhecem artes marciais

Wangcai (旺财), um são bernardo vegeteriano. Ele deixou de comer carne depois de encher o saco porque vivia em um restaurante de churrasco coreano, onde os clientes sempre insistiam em comê-lo. No pior sentido. O que me fez pensar se este cãozinho talvez seja veggie

Dingding (丁丁), um shnauzer hábil em bater papo, que virou o produtor da banda

Vivian (薇薇安), a golden retriever namorada do Metal



**

Esta não é a primeira vez que Zheng usa a temática Tibet. Ele tem uma música chamada De Volta a Lhasa. Esta você poderá escutar após o vídeo e a letra em mandarim para a versão de Yellow, que entre os chineses ficou conhecida como Meteoro, ou 流星 (líuxīng).



流星

我想知道流星能飞多久
它的美丽是否
值得去寻求
夜空的花
散落在你身后
幸福了我很久
值得去等候
于是我心狂奔
从黄昏到清晨
不能再承受
情愿坠落在你手中
羽化成黑夜的彩虹
蜕变成月光的清风
成月光的清风
我纵身跳
跳进你的河流
一直游到尽头
那里多自由
我许个愿
我许个愿保佑
让我的心凝固
在最美的时候
情愿缀落在你手中
羽化成黑夜的彩虹
情愿不再见明媚的天
不再见明媚的天
幸福跳进你的河流
一直游到尽头
跳进你的河
我许个愿保佑
在最美的时候
我许的愿
我想知道
流星能飞多久
幸福了我很久

**
Agora, De Volta a Lhasa

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Comer, beber, ler


A Bookworm é o que mais se aproxima de uma Livraria Cultura aqui na China, com sede em Beijing e filiais em Chengdu e Suzhou. Você come, bebe, vê gente interessante e tem acesso a livros que nem o governo permitiria. Em inglês - ou caso você seja um associado, na língua em que você encomendar sua obra preferida. Associados, aliás, podem pegar emprestados os títulos do acervo da biblioteca.

Este universo literário-gastronômico-etílico está aberto diariamente das 9h à 1h e eu só fui conhecer na semana passada. Sorte ou azar, ainda não sei. Certo é que posso gastar lá muitos e muitos kuais, como é chamado o dinheiro chinês na gíria, tipo mango, pau, pila. Pensando assim, sorte que poupei um monte de grana.

Sorte que fui a tempo até a Bookworm - que significa traça, mas, na gíria, designa devoradores de livro. Quer dizer, na prática também, anyway. O a tempo eu já explico. É que de 6 a 20 de março o local vai celebrar o Festival Literário, evento que trará à China escritores libaneses, norte-americanos, jornalistas, poetas, chineses, outros estrangeiros, uma porção de gente bacana. A programação é tão extensa que pretendo ir falando sobre ela aos poucos.

Agora, se você for curioso, pode clicar aqui para estudar por si próprio e decidir se terás ciúmes de mim nestes dias. Eu teria. Seria o maior azar se não tivesse pintado pela livraria na hora certa.

Aliás, o que nos ensina a Bookworm:

"Não há amor mais honesto do que o pela comida", Bernard Shaw

"Vinho é a coisa mais civilizada do mundo", Ernest Hemingway

"Ler para viver", Gustave Flaubert

**

Apesar de os autores aí acima serem bem conhecidos do público ocidental, é a quantidade de gente destas bandas daqui ou que fala sobre a China e arredores o que mais me prendeu à livraria. Eu estou lendo agora, por exemplo, Socialism is Great, da chinesa Lijia Zhang. A história é sobre ela mesma, como deixou um trabalho em uma fábrica de foguetes em Nanjing para se tornar jornalita. Eu ainda estou no início, mais eu conto depois, prometo também. Lançado em 2008, não creio que haja versão em português.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Figuras chinesas

Morar na China é viver eufemismos.

Bem, chegar aqui significa conhecer e incorporar uma gama incrível de novas habilidades, da gastronomia ao andar de bicicleta em meio a este trânsito maluco. Fora as questões práticas do dia a dia, talvez seja importante prestar atenção no quanto os eufemismos permeiam a sociedade. Eles podem ser a chave para uma vida tranquila por aqui. Pensando bem, eu classificaria o tema como outra das questões práticas do dia a dia.

Incorporar os eufemismos e conviver com eles pode ter dois impactos fortes: você pode se tornar cínico ou adotar uma postura um tanto quanto hipócrita em relação a tudo que o cerca. Entendê-los como fundamentos de uma sociedade que não é a minha me parece o melhor caminho. Sem meias palavras e sigo em frente, me resignando quando não tenho outra escolha.

No último sábado, fui com a Cláudia Trevisan ao distrito de arte 798, um antigo chão de fábrica da época de Mao que hoje abriga de galerias a restaurantes - e recebe democraticamente artistas de rua com violãozinho e voz chata e estridente na calçada, além de ambulantes.

O local, no qual a arte contemporânea começou a aparecer entre 2002 e 2003, já recebeu mais turistas do que a Cidade Proibida em 2007. Lá nos deparamos com a exposição Solution Scheme, ou um esquema para a solução, série de fotos em que a prostituta Yu Na é dirigida pelo fotógrafo Xu Yong, que ganhou fama na China ainda na década de 1990 ao fotografar hutongs, o emaranhado de casas e ruelas que abrigavam os altos funcionários de governo nas dinastias Qing e Ming em Beijing e que hoje servem de moradia para gente de classe mais baixa, especialmente.

Mas voltemos à Solution Scheme e aos eufemismos. As fotos trazem Yu Na nua, no comando das cenas, em que vários homens atuam como coadjuvantes. É ela quem tem o disparador na mão (claramente presente nas imagens) e escolhe o momento exato do clique. Na descrição em inglês, entendemos que se trata de uma prostituta dirigida por um artista. Na versão em chinês, ela é apresentada como uma acompanhante (getingzuotaixiaojie, ou 歌厅坐台小姐) - garota que trabalha em bares, boates e casas de karaoke, mas que, necessariamente, nao precisam fazer sexo com o cliente. Eufemismo, ainda que descarado. Ou imagens valem mais do que mil traduções?



Conversei com dois amigos chineses e fiz a mesma pergunta: Qual o significado de 歌厅坐台小姐? Um prontamente me disse que se tratavam de garotas pagas para fazerem sexo. O outro me "vendeu" a tese de se tratar apenas de acompanhantes. Seja qual for o caso, ainda na versão em inglês da apresentação da exposição, os artistas deixam claro que a prostituição é tema tabu na sociedade chinesa. Alguém duvida?

***

Eu precisava de uns dias de folga, e teria de tirá-los adiantado, pois ainda não os tenho. Tentei todas as negociações possíveis, mas não houve jeito. Resignei-me. Hoje me ligaram do Departamento Pessoal para avisar sobre meu cartão de saúde, que está pronto desde JUNHO. Estamos em FEVEREIRO.

Moral da história: a ligação ocorreu hoje apenas para que eles se certificassem de que eu não viajei escondida, tendo eventualmente negociado com instâncias inferiores. Dizer que meu cartão estava pronto foi um eufemismo. Poderia ter sido simplesmente: "Que bom que você está aí, não viajou".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Festival das Lanternas


Mais uma celebração chinesa se aproxima, o Festival das Lanternas, ou YuanXiaoJie (元宵节). Na tradução é algo como Festival da Noite do Primeiro Mês Lunar. Na prática, a comemoração se dá no 15°dia após o início do ano (ano segundo o calendário chinês, claro), quando ocorre a primeira lua cheia. É a data que encerra as festividades do Festival da Primavera (pra quem ainda não sabe, o Ano-Novo Chinês).

Neste dia, e durante a noite, as pessoas celebram carregando lanternas, cujo nome em chinés é tùzidēng (兔子灯), muitas das quais contêm espécies de enigmas, escritos em papéizinhos e que, se decifrados, trazem desejos de boa sorte. Estes bilhetes são chamados cāidēngmí (猜灯谜). Também é a data para comer bolinhos de arroz doce, chamados justamente de yuanxiao.

Bueno, será a partir desta noite que os fogos de artíficio irão parar de vez, não sem antes, claro, uma bela saraivada de luzes e estampidos - e estrondos. É certo que agora pouco se percebem espocares na cidade de Beijing, mas, de qualquer forma, o Festival das Lanternas será a última chance para fazer isso. Neste ano, a celebração será no dia 9, próxima segunda-feira.

Hoje as pessoas vão aos parques e às ruas. Talvez seja legal dar uma espiada para ver o que está acontecendo. Tomara que não seja super frio, mas até acho que não.

A origem do festival remonta mais de 2 mil anos, no entanto, várias lendas tentam contar como ele surgiu. Fato é que após a lua cheia, os agricultores se voltavam ao cultivo. Seria, então, também o momento para pedir boa sorte na plantação, antes de botar a mão na massa. Uma simbiose entre crença, natureza e festividade. Afinal, como eu contei no início do post, o YuanXiaoJie acontece na primeira noite de lua cheia do novo ano.

Ah, tem um detalhe. O festival também ganhou uma conotação romântica. É que durante a China feudal, moça não saía de casa. A exceção era justamente o festival, quando elas tinham oportunidade de conhecer rapazes. E eles, claro, de conhecê-las. Como a data marcava esta minialforria, passou a ter também um caráter de dia dos namorados.

***
A imagem, roubada daqui, mostra um trabalhador de Zhengzhou enfeitando a cidade para a celebração com as lanternas.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Adeus Ano Velho



Simples assim: basta clicar em qualquer dos blogs aí ao lado que falam sobre a China e verás que estão contando sobre as comemorações do Ano-Novo chinês.

A festa é a mais importante para os chineses, é o momento de encontro familiar e descanso. São sete dias de lazer, não importa se há crise ou não. O país para. Ou quase isso. Na verdade, ocorre uma movimentação para lá e para cá de proporções chinesas: gente que não acaba mais embarcando e desembarcando de trens, ônibus, aviões, botes, jangadas. Bicicletas. É gente que viaja para encontrar parentes, gente que viaja com os parentes para conhecer destinos turísticos.

Apenas Beijing recebeu 3,24 milhões de visitantes no feriadão, 20% a mais do que no ano passado. Em termos de rendimento, foram 15% de incremento no setor turístico. Nada mal, não?

É bem verdade que eu não tenho fotos das comemorações. Sabia da confusão que estaria nas ruas e não fiz nenhuma questão de enfrentar multidões a -5C. Amigos contaram que estava difícil pegar o metrô, que houve quem desistisse de conhecer a Cidade Proibida e a o Templo do Céu devido às filas intermináveis. E isso que os locais mais populares durante o Festival da Primavera foram as instalações feitas para sediar a Olimpíada do ano passado. Quem passeou pelas feiras em Beijing, tradicicionais durante este período e que podem ser traduzidas como uma mega festa do interior, com barraquinhas, circos de bizarrices e ambulantes vendendo toda a sorte de bugigangas, também relata superpolação pelos parques.

Meu plano de uma programação mais zen em meio ao frenesi comemorativo chinês, no entanto, não foi totalmente satisfeito. Seguindo a tradição de estourarem fogos de artifício para espantar os maus espíritos no ano que chega, o que se percebe ao longo da semana é uma artilharia incessante de petardos, sejam eles coloridos ou apenas barulhentos. Aliás, se é o barulho que espanta os espíritos, nada mais natural imaginar que as cores e formas dos espocos são meros acessórios, caem bem à noite. Mas se é pra começar o ano com o pé direito (será que chinês tem esta expressão? Preciso perguntar) o que vale é o alarde sonoro. E viva a pólvora!


Findos os festejos, todos de volta ao trabalho. E, daí, sim, espanto. Hoje é domingo e quem folgou ao longo de sete dias, agora bota a mão na massa. O domingo virou dia útil e a pirotecnia exarcebada está na lembrança.

Agora não tem mais desculpa. Começamos mesmo a ano, é hora de cumprir as resoluções que eu havia tomado lá no distante 31 de dezembro, mas que posterguei porque haveria outra virada para ter como desculpa.



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France Connexion

A Anne-Laure, uma francesa que trabalhou comigo aqui no ano passado, explicou que, de um ponto de vista puramente francês, você ainda tem até o dia 31 de janeiro para desejar tudo de bom no ano novo. Algo como ter todo o primeiro mês do ano para se acostumar com a ideia de que temos de mudar o ultimo dígito na hora de datar documentos (no ano que vem, serão dois) e de darmos uma desculpa àquela preguiça tantas vezes implacável que nos faz NÃO mandarmos email, telefonarmos ou encontrarmos os amigos queridos logo nos primeiros dias de janeiro.

Seguem os desejos e as explicações da Anne:

D'un point de vue purement français, le 31 janvier est assurément le dernier moment pour vous souhaiter espoir, joie, amour, vaillance, ardeur et douceur, légèreté et profondeur (entre autres bonnes choses dont l'inventaire exhaustif prendrait jusqu'à l'an prochain).

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A primeira foto deste post é da Alma, tirada no 19°andar, onde eu moro com a Paula. Foi durante a nossa comemoração de ano-novo, como conta, em espanhol, outra Alma.

A foto sob fumaça é minha do Cris e da Maíra, quando meus irmãos vieram comemorar o ano-novo chinês comigo. Estávamos em Sanlitun, rua boêmia da cidade.

Por último, tem um clique da Mariana, feito pouco antes de irmos a Sanltiun, quando fomos até a casa dela para celebrarmos com pirotecnia a chegada do Ano do Rato.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Um pulo no Japão

A dica veio da Paula, o vídeo é ótimo, apesar de eu ter ficado um pouco tonta com tanto movimento. Vale passear pelo Japão. Na página do autor do vídeo, ele explica passo a passo como fez. Legal compartilhar não só a experiência da viagem, mas como transformou o material num protudo internético.


This is Japan! from Eric Testroete on Vimeo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Trocadilhos e o Ano-Novo


No ano passado, alguns dias antes de começar a Olimpíada, conheci o Daniel Piza, o Felipe Machado e o Nilton Fukuda, trio do Estadão que veio parar nestas bandas para falar sobre a China, sobre os chineses, sobre a Olimpíada e, sim, algumas vezes sobre as competições.

No nosso segundo encontro, quando os levei para conhecer a Praça da Paz Celestial e o portão Qianmen, além da região revitalizada ali pelas imediações (os chineses reconstruíram uma das primeiras ruas de comércio da cidade, cujo nome também é Qianmen, literlamente portão da frente e, não por coincidência, um dos últimos antes do acesso à Cidade Proibida) eles perguntaram do que eu mais sentia falta dada a distância Brasil-China.

- De trocadilhos - eu disse, de tanta falta que os tais realmente fazem no meu cotidiano.

Naquele dia e nos próximos cerca de 30 que se seguiram, o Felipe, fazendo juz à fama que o Daniel e Fukuda haviam divulgado por aqui, me abasteceu de diversos trocadilhos. Infames, bons, horríveis, engraçadíssimos. Honrosas colaborações do Daniel e tiradas geniais do quieto, mas no ponto Fukuda.

A Olimpíada acabou, o trio Estadão voltou para onde tinha de voltar e eu fiquei sem os tais trocadilhos por aqui de novo. Triste. Aí, agora, tem um trocadilho no qual não consigo parar de pensar, mas que está em diversas revistas que tentam ser engraçadinhas, em nicks de msn e etc de chineses e estrangeiros que vivem aqui. É o happy 牛 year!

O símbolo entre as palavras happy e year lê-se como "niu", bem pertinho da pronúncia de "new" no inglês. A expressão happy new year, como todos sabem, significa feliz ano novo. O ano novo, como todos sabem, ainda não chegou aqui na China, só chegará dia 26. O que talvez nem todos saibam é que niu quer dizer boi, vaca. E o próximo ano será o ano do boi (apesar de eu adorar a expressão Ano da Vaca, uma vez que moro na Niu Jie, que é a Rua da Vaca).

Em resumo, voltando ao trocadilho, o Happy 牛 Year é um fofo trocadilho sino-inglês (ou seria anglo-mandarinico?Ugh) que deseja não só um feliz ano novo, mas um feliz ano da vaca nova. Quer dizer, um feliz ano novo da vaca. Ou do boi.

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Esse não é trocadilho, só uma curiosidade a respeito das gírias. E que tem tudo a ver com vaca!

No Brasil, quando algo é super supimpa, como um jogo de futebol na TV, um chope bem tirado ou um texto, ou o que quer que seja, isso é classificado como "do caralh*".

Pois aqui, algo "do caralh*" é algo "bucet* de vaca". Algum estrangeiro que fala super bem o mandarim, fala um chines bucet* de vaca, o show é bucet* de vaca, e assim por diante. Pra quem quer saber como se escreve, aí vão os caracteres: 牛逼, e a gente lê niu bi!

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Ah, a imagem que ilustra este post foi tirada daqui.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Sabado estarei de casa nova

A terceira aqui em Beijing, a primeira que escolhi com a marida Paula. O apartamento é uma gracinha, no meio do bairro muçulmano da capital chinesa. Os chineses muçulmanos vêm, na maioria, da região autônoma de Xinjiang. O que tem lá... bem, ainda não sei bem, nunca fui.

Mas o que tem aqui de melhor é a culinária daquela região. Já era fã do dapanji, um prato de galinha e massa regado com muito, muito molho de tomate. Sem contar os churrasquinhos de carne de ovelha e os modos como eles preparam arroz, muitas vezes misturados à carne ou legumes, com destaque pra cenoura.

Pois ontem eu e a Paula descobrimos ao lado de casa o kaobaozi, uma maravilha que consiste em minis-pastéis de forno com recheio de carne de ovelha num tempero pra lá de no ponto. Viramos absolutamente fãs. Sem contar o seguinte, no restau, a cerveja é gelada.

Nos avisaram que não teríamos problemas no bairro muçulmano, a menos que gostássemos muito de carne de porco. O maior super da região não vende...

Então, bem-vindos a uma nova viagem dentro da mesma cidade, às vésperas das férias. Tou na contagem regressiva. Falta um pouquinho mais de um mês, bem pouquinho!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Blog de férias

Estou em Hanói, na segunda parada na capital vietnamita para estas férias de 10 dias pelo Vietnã. Desta vez, a parada é rapidinha - cerca de quatro horas. Passo para dizer que o blog ficará um pouco abandonado até o próximo domingo. Eu e a Paula, com quem viajo, estamos indo para uma cidade do interior chamada Sapa, ao norte do Vietnã, perto da fronteira com o sul da China. Lá, com certeza, será difícil encontrar internet...

Voltarei com novidades deste vizinho chinês, um tanto instigador. Conto para vocês um pouco destas férias, mesmo que o tema deste blog seja a China. Bem, o Vietnã teve uma ocupação chinesa ao longo de mil anos. Há influências chinesas para se falar, não é mesmo?

Como estou correndo e sem os apetrechos necessários, fica o post sem imagens - e sim, elas são bem melhores do que descrições minhas...

Agora volto às férias. Antes, uma historinha.

A maioria do povo aqui é budista. No entanto, não hesitam em falar em Deus. Domingo, eu e Paula estávamos na van que nos levaria ao porto de Halong Bay (lembram que nuns posts abaixo comentei sobre as formações de carstes? Ficam em Halong Bay e são realmente impressionantes). Voltando à van, estava um dia nublado e nosso guia resolveu fazer gracinha.

- Telefonei para Deus agora há pouco e pedi que fizesse sol. Ele respondeu que tudo bem. À tarde teremos sol. Ele está com o dia livre para pensar em mudar o tempo, pois hoje é domingo e a mulher e as crianças saíram para passear.

Bem, fez-se silêncio. Eu mesma não entendi a que Deus ele se referia - e caso fosse o cristão, soou um tanto estranho. Esta estranheza entre as culturas é que me motiva a ficar mais e mais pela Ásia e descobrir tanto as diferenças quanto as pequenas "ignorâncias" que temos uns em relação aos outros. Nosso guia, o Kenny, não falou por mal, não cometeu nenhum erro, segundo o que ele conhece ou pensa conhecer sobre nosso Deus.

De qualquer forma, choveu à tarde. E à noite, choveu mais ainda!
:)

Até domingo.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Os dragões hibernam


Bebê vai ao cabeleireiro na cidade de Huaibei, na província de Anhui
Foto: Wang Wen, Xinhua

Segundo dia do segundo mês do calendário chinês: crianças entregues às tesouras e máquinas para cortar cabelo na China. De acordo com a tradição, é no segundo dia do segundo mês do ano que o "dragão levanta a cabeça", ou seja, que acorda depois de hibernar no inverno. Pois, nesse dia, manda a tradição, as crianças têm de cortar o cabelo.

Olha, tradição é coisa bem seria por aqui. A prova é este menino simpático e sorridente da foto de cima. Mal tem cabelo pra cortar e já está todo faceiro entregue à cabeleireira.

Bueno, tem outro detalhe. O meu colega Liu contou que quem corta o cabelo antes desta data (que aliás, ainda não falei, mas neste ano caiu em 9 de fevereiro, domingo) pode provocar algum mal a algum tio materno... Ele, por via das dúvidas, também só cortou ontem as madeixas. Logo: algumas tradições que começam na infância jamais são esquecidas, né?

Falar em datas

Essa vem da cultura russa, aprendida num boteco belga de um bairro boemio de Beijing. Os casais russos evitam, de todas as formas, casar em maio. Maio, sim, justamente o mês das noivas! Por que, perguntei ao meu amigo (como ele era o meu amigo conhecido naquela noite, e com quem não troquei cartões, desculpem a total falta de crédito ao dono da história).

Voltando ao amigo russo. A explicação é simples. O som que designa o mês de maio em russo é bem parecido ao do verbo sofrer (ele me falou ambos, eu não tinha caneta, não anotei, a história vai ficar, pelo menos por enquanto, sem as devidas explicações). Logo, união com sofrimento não é o que mais se espera de um casório. Ele, por via das dúvidas, casou em 27 de abril. Ali, ali, mas evitou maio. Hm... o sofrimento? Não perguntei se ele sofreu ou não, mas ele me contou que já está separado.


Dragões


Agora, seguinte... Eu preciso ler muito ainda sobre cultura chinesa e no que este povo acredita. A história mais legal de hoje foi saber que dragões hibernam no inverno. Que desperdício, né? Com aquele fogo que sai pela boca, poderiam muito bem ajudar no aquecimento das casas e cidades durante os tempos de muito frio aqui!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

2008: Muito dinheiro no bolso



Saúde pra dar e vender!

Aqui do outro lado do mundo, os meus votos de um feliz 2008 estão atrasados, ainda que o Ano-Novo tenha vindo com 10 horas de antecedência, na comparação com o Brasil. E que ano-novo diferente!

Pra mim, o mais estranho foi o fato de me vestir com muita roupa, muita mesmo. Temperatura abaixo de zero não é brincadeira. Em segundo lugar, ninguém nem bola para o branco - ou pouca gente, pelo menos. Minhas amigas italianas aqui ensinaram que o importante é vestir algo vermelho, algo novo e algo velho. Branco, aqui na China, lembra morte, vejam só...

O festival de estranhamento, fora uma saudade grande dos amigos e da família, foi pelo fato de na nossa ceia não ter havido lentilha, champanha ou uvas. Sete pulinhos nas ondas, então, nem pensar. Fogos de artifício? Nadica. A meia-noite foi comemorada mesmo com badaladas de sino reproduzidas em uma caixa de som. Depois? Bom, depois a coisa fica mais parecida com o que já conhecia: festa, música, dança, alegria, todos se abraçam, afinal é Ano-Novo!





O Ano-Novo na China não é tradição, aqui a reunião familiar mesmo se dá no Ano-Novo Chinês, ou Festival da Primavera, data regida pelo calendário lunar chinês e que, neste ano, será em 7 de fevereiro.

O 31 de dezembro é lembrado de formas diversas a que eu estava acostumada no Brasil. Há bastante gente na rua, algo como véspera de feriado, mas sem uma tradição mais específica. Os registros chineses que mostro a vocês são de 1º de janeiro, quando houve comemorações na Grande Muralha - em um trecho próximo a Beijing (foto lá de cima) - e em Shenzhen, na província de Guangdong, onde ocorreu o 9 Casamento Internacional Coletivo da cidade.



O clique da meia-noite, algo mais parecido com o "nosso" jeitinho fica para a cidade de Suzhou, onde as pessoas esperaram a badalada da meia-noite no templo Hanshan, por acreditar que esta traz bençãos.



Diferente ou não, chegou 2008

Então, eis 2008. Como quase todo o mundo já sabe, este é o ano da Olimpíada em Beijing. E 8 aqui é coisa séria. O som, ba, lembra Fa, palavra que designa alguém muito rico, ter muito dinheiro. Logo, o 8 é ligado à prosperidade. Estamos, pois, no ano da prosperidade.

E a Olimpíada, bem, esta começará em oito de agosto de 2008 - 8/8/08 -, que é pra dar bastante sorte e atrair muita, muita prosperidade. Lembram do som do oito? É bah!

Em bom gauchês, então, "Bah, que 2008 seja tri legal pra todos nós"!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Joana-boba



Ou o meu presentinho de Natal para vocês.

Dia desses, eu, a Mariana, nossa fiel leitora, o marido dela, cujo nome é Brian, e a Paula Coruja (outra jornalista gaúcha que resolveu vir de mala e cuia pra Beijing e também trabalha na Xinhua) fomos a um café em Nan Luo Gu Xiang, rua charmosérrima aqui de Beijing da qual preciso mostrar cada pedacinho pra vocês - mas isso, noutro post.

Escolhemos o Sandglass por indicação da Elisa Baldan, amiga italiana que mora por aqui. Ao chegarmos ao lugar, mais uma vez dei de cara com um ambiente acolhedor e simpático, bem ao estilo do porto-alegrense Mercatto D'Arte, minha segunda casa na capital gaúcha.
Pedidas as cervejinhas pra relaxar depois do trabalho, chamou a atenção uma bonequinha vermelha perto da janela, estilo o nosso joão-bobo. A Mariana logo se encantou:

- É um brinquedo típico da minha época - disse ela.
No início dos anos 80, era o que dava por aqui. A tal boneca que balança, mas não cai. Em chinês, este tipo de brinquedo se chama bu dao weng (lição da Mariana: bu é não, dao é cair e weng é homem velho - originalmente, os primeiros rostos destes modelos.

Pronto, não demorou pra dita bonequinha vir pra nossa mesa e eu e a Paula nos interessarmos em como comprar. Como comprar? Pela internet. No dia seguinte, a Mariana catou o brinquedo e, qual não é a minha surpresa, me deu de presente hoje, véspera do meu aníver - sim, estou completando 30, como lembrou a Isa ali embaixo e a quem agradeço os parabéns, já me compromentendo: tou te devendo o panda!

A Paula também terá uma surpresa, espero que ela não leia o blog antes de ir à festinha hoje à noite.

A Mariana contou mais: disse que quando era criança, a avó dela poupava todo o dinheiro que sobrava, pequenas moedinhas, para dar um bu dao weng à Mariana. Mas a nossa amiga ganhou um menininho pelado e, por isso, às vezes sentia certo constrangimento junto às outras crianças. No entanto, para a Mariana, aquele boneco sempre significou o amor da avó  por ela. Bonitinho, não?

Então, é mais ou menos isso. A minha bonequinha pra vocês é virtual, mas é uma lembrança natalina!

Deixo dois links - em chinês, mas um tem fotos e outro tem vídeo - presentes da Mariana.

Este, inspirado nas bonequinhas, traz vários brinquedos que faziam o maior sucesso entre as crianças chinesas nos anos 80. Já este, traz uma canção típica da Mongólia Interior. Por que está aqui mesmo? Por que este estilo musical foi a trilha sonora da noite em que encontramos a bonequinha no Sandglass. A Mariana desconfia que o dono seja daquela região!




Ganhei a minha bonequinha hoje, ainda no trabalho (Crédito: Li Hailong/Especial)