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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Saiba mais :)

Recebi há pouco um material produzido em Portugal pelo professor Manuel Lopes, sempre atento à China, para os seus alunos de Relações Internacionais sobre Xinjiang. Vale a leitura para entender mais sobre a região, que nomeadamente é uma Região Autônoma Especial, sob o poder da República Popular da China.

• A Região Autônoma Uigur de Xinjiang está situada em plena Ásia Central, cercada de montanhas (com um grande deserto no interior, o Taklamakan), zona de passagem obrigatória da antiga Rota da Seda e dos atuais projectos de ligação euro-asiáticos e tem 5,6 mil quilômetros de fronteira com oito países.

• População em 2004: 19.630.000. Neste cálculo, a etnia uigur (de origem turcófona) surge com 45% e a etnia han com 41%, sendo os restantes distribuídos por 47 grupos minoritários.

• O Islã é dominante, substituindo o budismo.

• Xinjiang, ou Nova Fronteira, na tradução, deve o seu nome às iniciativas da Dinastia Han (século III aC) de estender a influência para Oeste e assim proteger as rotas de caravanas da Rota da Seda.

• No final do século XIX, a Rússia estendeu a influência à parte desta área, no episódio conhecido como o Grande Jogo,a saber uma disputa com os britânicos.

• Durante o período da República (1911–49), Xinjiang foi dominada por “Senhores da Guerra”, virtualmente independentes do governo central, sendo a então URSS dominante na zona.

• Só em 1950 o poder comunista tomou o controle total de Xinjiang, criando uma Região Autónoma em 1955.

• Também ali chegaram os efeitos do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, criando instabilidade e fomentando o movimento independentista que atingiu maior expressão violenta após 1980 na sequência da intervenção soviética no Afeganistão, ao favorecer a militância islâmica.

• Em Xinjiang estão presentes, segundo as autoridades chinesas, os “três demônios”: separatismo, fundamentalismo e terrorismo.

• Os ataques de 11 de setembro acabaram por ter um efeito significativo sobre as atividades do movimento independentista Frente de Libertação do Turquestão Oriental, ao ser conotado pelas autoridades chinesas com a Al Qaeda e os talibã, sofrendo os efeitos de uma maior coordenação dos esforços internacionais na luta contra o terrorismo na Ásia.

***

Para uma visão econômica

• As principais indústrias estão relacionadas à atividade mineira (carvão), além do aumento da exploração energética (gás e petróleo).

• A importância de Xinjiang também deriva do fato de ser uma área de escoamento da energia vinda da Ásia Central, do Cáspio e da Ásia Setentrional.

• Xinjiang alimenta expectativas com o turismo, através da revitalização da antiga Rota da Seda. A China e quatro países da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão), em parceria com o Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas, criaram um programa que visa favorecer o investimento, o comércio e o turismo na região.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Poderia ser só internet, mas é também mídia e propaganda

Os protestos em Xinjiang provocam tantas discussões que é preciso um quê de interesse sobre a China somado à muita força de vontade para chegar ao fim deste texto. Mas eu conto com você. Os assuntos aqui serão a internet, a mídia e a censura. Preparado? Então ajuste o scroll, porque você vai precisar.

A política chinesa sobre a internet é a do controle. Então, ao primeiro sinal de que há algo errado ou de que algo pode dar errado, o poder central estende os tentáculos sobre a rede e já era espaço para gritaria.
Num jogo entre dissimulações e hipocrisia mal disfarçada adotado rotineiramente, a estratégia é dizer que o governo é contra a pornografia e outros temas que possam perturbar a sociedade harmônica sonhada por Beijing. O que entra em cena são filtros, que ganharam o apelido apropriado de Great Firewall of China. Depois a gente tem a figura malvada da Net Nanny, numa alusão à babá má que simplesmente tira de circulação o que os pimpolhos não devem ver. Exatamente botar abaixo e expurgar do alcance de mouses chineses referências ao Dalai, liberdade ao Tibet ou massacre de 1989.

Hoje, dois dias após o início dos protestos em Urumqi, a ideia foi abolir de vez alguns sites de redes sociais, e o Facebook – imune até então -, além da cópia chinesa do twitter, o Fanfou, pararam de funcionar, embarcando na mesma onda de twitter, youtube, blogspot. No Fanfou, a mesma mensagem deixada em 3 de junho, véspera do aniversário de 20 anos da Praça da Paz Celestial. Manutenção. Agora, a promessa é de que a coisa voltará à vida no dia 10.

Parece que o governo perdeu mesmo qualquer pudor em censurar o que não gosta. Duvida? Hoje mesmo o chefe do Partido Comunista da China em Urumqi, Li Zhi, deu declarações oficiais sobre o corte da rede para toda a cidade de Urumqi. A medida visa garantir que as incitações dos protestos não se espalhem. Uma desculpa boa, sobre a qual falei ontem. Sob o pretexto de preservar a paz e a harmonia, vale qualquer esforço, até o de calar vozes dissonantes. E isso tem apoio popular, acredite. E segue o baile sem internet.

Mas e o que fazer com os jornalistas que querem cobrir tudo isso? Conceder-lhes liberdade e uma sala com 50 computadores plugados à rede, ainda que os terminais sejam disputados quase à tapa, espero que sem disputas étnicas, numa sala de hotel, centro de imprensa montando às pressas na capital de Xinjiang.

Resultado? Declarações como a do correspondente do The Economist Ted Plasker à estatal chinesa de que nunca houve tamanha liberdade para trabalhar, nem mesmo durante os conflitos no Tibete registrados em março do ano passado (houve qualquer tipo de liberdade?), nem no terremoto de 12 de maio de 2008 em Sichuan, este último propagado como um exemplo da abertura da censura chinesa para a mídia estrangeira. Confesso que esta comparação me surpreendeu e encontra eco em outras fontes que estão no local. Tá que é uma festa para a cobertura. Claro, para quem conseguir chegar ao terminal e se manter zen ante a lentidão internética. Detalhes. E tudo contradição em termos. Quer ver um detalhe sutil? A mesma matéria que traz os elogios de Plasker à novidade no tratamento aos coleguinhas jornalistas ante o caos em Urumqi lembra que o entrevistado respondeu em chinês perfeito, resultado de longa experiência acumulada aqui desde 1989. Sutileza e detalhe, 89 é um ano a ser esquecido por aqui.

Mas esta suposta abertura lenta e gradual chinesa tem seus quês de crueldade. Na tarde desta terça-feira, a agência estatal publicou uma galeria de fotos tão de mau gosto que lembram as imagens que eu nunca vi publicadas após o acidente com o grupo Mamonas Assassinas, quando a internet ainda engatinhava e já mostrava que o ser humano tem tendência ao mau gosto e ao horripilante. Fiquei imaginando por que usar imagens fortes - e o quanto esta escolha está distante do jornalismo no qual acredito e que procuro praticar. E ainda usada oficialmente. Talvez para provar o improvável, que os mortos e feridos foram atingidos pelos manifestantes, não por policiais. Isso se daria por dois motivos primordiais. Um porque a maioria foi ferida na cabeça por estocadas ou pedradas, e não balas, e porque se trata de chineses han, os alvos dos supostos terroristas uigures.

Se estou certa, o governo agora quer tratar bem os jornalistas porque sabe que ao garantir acesso o mais facilmente às informações e às fontes, estará também conquistando mais confiança e conseguindo divulgar seus pontos de vista. Mas e por quê este caráter tão compreensivo?

Porque duas coisas, penso eu. Primeiro porque é importante divulgar o próprio ponto de vista. Segundo porque este ponto de vista tem razões para ser propagado, vamos refletir.

Das experiências que tive até agora, aprendi que que há mocinho e bandido nesta história. Nesta história eu digo cobertura sobre a China. Minoria étnica contra o governo chinês é sempre boazinha. População de baixa renda contra o governo chinês é sempre boazinha. ONG ambiental contra o governo chinês é sempre boazinha. O bom velhinho budista aquele exilado na Índia então, nem vou comentar.

Não estou dizendo que todos os que conseguem força e coragem suficientes para lutar por seus direitos dentro de um país que tolhe manifestações e o livre pensar já não tenham só por isso uma grande parcela de mérito. Mas me irrita a preguiça midiática que prefere sempre eleger a China como malvada e se esquece de apurar melhor os fatos. A coisa parte do quase insignifcamente tratamento no masculino para a Rebiya Kadeer (ninguém nem TENTOU BUSCAR UMA FOTO DA PESSOA PRA ILUSTRAR SUAS MATÉRIAS) ao fato de dizer que Xinjiang foi subjugada em 1949, período antes do qual era uma região independente. Até foi, mas foram tão poucos anos durante o combalido poder dos Nacionalistas que vou te contar...

A fórmula fácil de buscar mocinhos e bandidos desta vez não vai funcionar, o enrosco étnico está tão arraigado que vai sobrar maldade para ambos os lados. Ou todos os lados, nem creio que devamos ser maniqueístas neste caso. Assim como não vai funcionar a tentativa de mostrar que a China está preparada para uma cobertura aberta. Já teve equipe jornalística detida em Urumqi, sabe-se lá se não ocorrerão outras. E quanto ao esmagamento internético? Bem, você está me lendo aqui, então sabe que houve um jeito de barrar. Quer dizer, ainda estava me lendo?

Você é chinesa?

A primeira coisa que vem à cabeça ao pensar num chinês são os olhos rasgados, a pele amarela, o cabelo preto e liso. A fotografia básica pouco destoa entre um e outro cérebro imaginativo, mas eu mesma me surpreendo com os vizinhos de bairro aqui em Beijing. Moro na região de Niu Jie (牛街), ou Rua da Vaca, reduto dos hui, minoria muçulmana assim como os uigures de Xinjiang, região autônoma atingida por violentos protestos desde a noite deste domingo.

A diferença entre os chineses han e os uigures e hui está na cara e é tão marcante que por pelo menos uma vez alguém ousou me perguntar:

- 你是回族马? - ou "Você pertence à etnia hui"?

Ri, respondi que não e fiquei feliz com a pergunta. É que os traços turcos, iranianos e de outros povos da Ásia Central que deram origem aos hui são tantos que os olhos ficaram diferentes, a cor da pele, o jeito do cabelo. Só sendo uma hui, ou uma uigur, eu poderia ser uma chinesa. E morando ainda num bairro muçulmano, a pergunta até não pareceu tão despropositada.

Estou ambientada aos hui, aos hábitos de não comerem porco e à culinária delícia que desenvolveram. Eles professam o islamismo e, segundo revisões nas políticas a respeito das minorias étnicas da China (são 56 no total, incluindo a grande maioria han, que compõe 92% da população do país), se diferenciam dos uigures por terem incorporado mais a cultura han - estou simplificando, mas é por aí.

No bairro onde vivo, os hui estão por toda a parte, e o truque para identificá-los é procurar quais vestem chapéus brancos entre os homens, lenços brancos entre as mulheres (caso eles vistam, porque muitos aboliram o uso). Entre os muçulmanos uigures, a tradição é usar outras cores, como o preto e o verde. Aliás, esta última cor é considerada a favorita entre os muçulmanos chineses e é vista em fachadas de restaurantes, casas e lojas de Niu Jie.

Com tanta diferença gritante entre os han e os muçulmanos - que até fez uma chinesa confundir uma estrangeira com uma conterrânea -, as características físicas passam despercebidas e os traços destacados para se referir aos muçulmanos são sempre dois entre os han. Um é de espanto porque os primeiros não comem nada derivado do porco (carne preferida na China) e, bem menos cortês, o fato de serem um povo que rouba.

Acostumada à não violência chinesa, um dia perguntei se era seguro ir para casa passando por uma ruela mais escura, que liga meu trabalho ao meu apartamento.

- Melhor não, a região é de moradores vindos de Xinjiang.

Perdi as estribeiras, mas vi que era mesmo assim, um preconceito enorme. Para os han, o povo de Xinjiang ensina a roubar desde que as crianças são pequenas. Uma escola de pequenos crimes. E isto é contado na maior naturalidade, como se fosse um fato. Já estou bem acostumada a estes racismos no Brasil, afinal de qual trombadinha a gente desconfia primeiro? Do branco ou do preto?

Aqui, ser de Xinjiang significa ser tratado de jeito diferente, olhado às avessas. O preconceito rola sem qualquer traço de vergonha e se um estrangeiro diz que quer visitar a região, será aconselhado a não ir porque é perigoso. Some a este tempero o fato terem ocorrido levantes nos idos de 1990, quando diversos ônibus foram incendiados, e dois ataques terroristas terem resultado na morte de pelo menos 17 policiais às vésperas da Olimpíada do ano passado e você terá uma ideia de como são vistos os chineses muçulmanos por aqui.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O culpado é a madame

A gente ainda nem sabia – e na verdade, nem sabe – o que estava se passando em Xinjiang, mas já tínhamos um culpado pelos protestos, a uigur Rebiya Kadeer, que desde 2005 mora nos Estados Unidos. Ela e a organização que lidera, o Congresso Mundial Uigur, numa tradução bem livre e que tem sede na Alemanha, estariam por trás dos ataques premeditados, oh, a expressão tão cara aos figurões de Beijing.

Rebiya poderia ser um nome mundialmente famoso, mas não. A causa pela qual ela advoga poderia ter apelo mundial, mas não. Em linhas gerais, se trata da mesma questão tibetana, a de um povo e de uma região que vive às turras com o governo central chinês por mais liberdade, seja esta de expressão cultural e religiosa e, claro, de gerência sobre os atos políticos e econômicos concernentes aos seus territórios.

Apesar de não dar Ibope, é mais do que válido um perfil de Rebiya, que chegou a ser indicada ao Nobel da Paz em 2006, mas não levou. A mãe de 11 filhos e casada duas vezes poderia já ter muito o que pensar apenas com esta tropa, mas antes de somar este número todo à prole, dividia as atenções com os negócios e parece que bem. Na esteira da abertura política e econômica chinesa capitaneada por Deng Xiaoping ela encontrou brechas que permitiram o gerenciamento de um negócio privado e dos 100 yuans iniciais, coisa de R$ 25, de investimento usado em 1977 para um negócio de compra e venda, construiu um império em Xinjiang que a elevou nos anos 1990 ao posto de 17º pessoa mais rica da China. Elevou bem mais, e ela integrou a Conferência Consultiva Política Popular da China e, em 1995, representou o país na Conferência Mundial das Mulheres, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Dor de cabeça pouca é bobagem e com tempo sobrando, ela resolveu usar de sua influência política para falar sobre os problemas que via na terra natal relativos ao povo do qual faz parte. Um tanto ingênuo para alguém com vida tão promissora. Não que ela tenha sido um caso isolado, porque no final dos 90, o partido, com medo de novos episódios nos moldes de 89 resolveu endurecer para empresários de grana que gastavam parte de suas fortunas com questões mais sensíveis. São as cifras oficiais que mostram que das 14,5 milhões de empresas privadas da época, 1 milhão foram fechadas e os bens dos proprietários, confiscados. Aliás, este é o status de Rebiya, que de pobre passou a pobre, com um intervalo de riqueza.

A situação da amiga complicou de vez em 2000, quando foi acusada de revelar segredos de Estado ao Exterior. O marido, outro dissidente, já morava nos Estados Unidos e foi para lá que ela mandava recortes de jornais. Suficiente para formar as provas de acusação (o fato de os jornais estarem nas bancas para que qualquer que lesse mandarim ou uigur é mero detalhe, claro). Daí Rebiya foi condenada a oito anos de prisão, teve a pena reduzida em um por bom comportamento e em 2005, devido a pressões da então secretária de Estado norte-americana Condelezza Rice, foi solta. No mesmo ano, ganhou permissão para deixar a China para fazer tratamento de saúde nos Estados Unidos e lá ficou. Mesmo com base no Exterior, a ex-empresária se dedica à causa uigur e acredita nos excessos do poder em Beijing, denunciando problemas como esmagamento da cultura local, racismo e falta de participação nas decisões políticas e nos louros econômicos de recursos tão importantes como o petróleo.

***

As informações sobre o início da carreira promissora de Rebiya como mulher de negócios e sobre a dura do governo chinês nos empresários bonzinhos de então constam do livro The Chinese, do jornalista Jasper Becker, sem tradução em português.

E a internet pifou

É manchete mundial. Os protestos que se iniciaram neste domingo em Urumqi, capital e maior cidade da Região Autônoma de Xinjiang, já deixaram ao menos 140 mortos, número que deve subir segundo as fontes oficiais devido à grande cifra de feridos, que superaria os 800.

O resultado sangrento dos protestos e mesmo as motivações e os desdobramentos que levaram ao confronto entre uigures e hans, a minoria maioria em Xinjiang e a maioria chinesa minoria na mesma região, deverá ganhar contornos apenas oficiais, ou pelo menos esta se delineia como a vontade do poder central.

Por volta das 15h, pouco menos de 24 horas depois do início dos protestos, o twitter foi outra vez bloqueado na China, numa reedição do que ocorreu às vésperas de 4 de junho. Se você acompanha de perto os esforços da Net Nanny para deixar os internautas do continente na mais santa paz, já sabe que há meses não temos youtube e blogspot.

Que todo o mundo dribla a censura, quase todo o mundo dribla. E segue o baile. Mas enquanto a gente dá um intervalinho na questão de Xinjiang, que tal falarmos sobre a internet chinesa, esta dissimulada? Ou, pelo menos, este ser tão na mira do governo chinês?

Que o país tem a maior população de internautas o mundo já sabe - são mais de 300 milhões. Que vive sob o humor da Net Nanny e o rigor do Great Firewall of China também não é novidade. Para aqueles que já leram sobre o tema, talvez também não haja nada de novo em dizer que a web já foi considerada por aqui uma nova zona especial, numa referência ao tráfego livre de informações - e críticas ao governo - e às Zonas Econônomicas Especiais implantadas durante o mandato de Deng Xiaoping e precursoras do salto econômico do país. Algo como comparar os experimentos que resultaram no colosso chinês feitos nas províncias de Fujian e Guangdong nos idos de 1980 a uma suposta democratização da sociedade chinesa conquistada a partir da cidadania expressa na rede.

Nesta onda, o governo que é socialista com características chinesas e não é bobo, tratou de dar o peso à internet que à rede não necessitava e buscou chamar para si a responsabilidade pelos louros do livre pensamento via bits. Pode ser só percepção minha e ninguém veio me dizer ou mesmo eu encontrei em artigos por aí, então posso estar falando bobagem, não tomem como verdade absoluta, mas o que percebi é que houve uma febre internética pós olímpica ante os pensadores da mídia chinesa a serviço do partido que procurou disseminar a cultura da internet como passaporte para a participação política e cidadã.

Não passava dia sem que algum veículo oficial não publicasse matérias baseadas em resultados de pesquisas online ou que desse voz aos clamores dos internautas chineses publicados em fóruns. Top manchete, numa piada interna, bordão que surgiu entre os colegas do meu antigo trabalho, eram mudanças de rumo ou guinadas em decisões articuladas, supostamente, após grita online dos internautas cidadãos chineses. Foi a redenção programada do ambiente web como expressão de desejos, a criação da varinha de condão para quem não pode protestar em praça pública, visto que qualquer demonstração na China pode ser apenas pacífica - e, em muitos casos, ser realizada apenas se obtiver permissão prévia (dan).

Aí que em 28 de fevereiro deste ano, o primeiro-ministro Wen Jiabao resolveu ser super e participou de um chat com os internautas cidadãos chineses. Foram duras horas de elogios, mas também de críticas e o sonho de uma internet mais democrática sendo construído por internautas e um governo atento às mudanças, disposto a tomar para si as rédeas da falação online chinesa. Eu, do alto da minha inocência, jurei que se trataria da estratégia mais do que batida do "já que não pode vencê-los...". E fiquei feliz.

Felicidade de internauta chinês dura pouco. Menos de um mês depois, o espaço web receberia o primeiro ataque, youtube nocauteado - para não voltar até agora. Aí veio um temor de que o 4 de junho pudesse ser celebrado via web e a coisa virou palhaçada, com a criação até do Dia Nacional da Manutenção, uma piada para justificar a queda de todos os sites de redes sociais ao longo de três dias, entre 3 e 6 de junho. Alguns até se recuperaram, mas a coisa do bloqueio foi tão patética que serviu para mostrar que as estratégias aqui são poucas ou toscas quando o momento é de tensão. Calar a boca é mais fácil. Ou continuar a usar o santo nome da internet em vão.

Vamos à estratégia atual, segundo minha opinião, deixe-se claro. Na manhã desta segunda, a versão oficial sobre os protestos iniciados no domingo em Xinjiang já dava conta de que o estopim fora um boato falso na internet. A internet é do mal, a internet provoca o caos. Em uma vista rápida sobre a questão, o governo estaria jogando entre o caos e a paz, esta última tão cara ao país e o primeiro tão temido. Para que se evite o caos é que o governo limita as liberdades e informações. Povo com liberdade e informação demais acaba por ter ideias diversas, cujas defesas podem resultar em confrontos. Em caos. Logo, guiados pelas mãos do governo, os chineses viveriam em paz.

Agora, internautas, não estão vendo os estragos que um boato na internet chata, boba e feia pode causar? Precisamos filtrar os conteúdos, para que se evite o derramamento de sangue como este de Xinjiang.

Bom, tomara que esteja errada. Se tiver, juro que passo no twitter e dou meu piu.

Internet é o estopim de novo episódio de tensão etno-política chinesa

Se você terminou o domingo bem informado sobre o que acontece pelo mundo ou tratou de fazer isso logo cedo na segunda, sabe que há um tumulto ocorrendo na China, desta vez na Região Autônoma de Xinjiang, berço da minoria étnica uigur, os muçulmanos chineses, para simplificar bem a explicação sobre este povo que tem ascendência quiçá turca, escreve em árabe e fala uigur.

Segundo fontes oficiais, nos protestos ocorridos no distrito de Bazaar, na cidade de Urumqi, neste domingo pelo menos 140 pessoas foram mortas. As notícias separam hans, maioria no país, de uigures, numa distinção cujas raízes econômico políticas se formaram há centenas de anos. Pena que a gente vá saber cada vez menos do que acontece por lá. Sim, a internet que botou lenha na fogueira desta última vez já foi bloqueada por aqueles prados.

Por volta das 17h deste domingo começou a confusão. Manifestantes tomaram as ruas para protestar contra o que consideraram atos racistas ocorridos em Guangdong, a antiga Cantão, no final do mês passado, quando uma briga deixou ao menos dois uigures mortos. De centenas para milhares foi um pulo e teve ônibus queimados, ataques a pessoas inocentes, segundo o governo, e tomada das ruas pela polícia. Depois, toque de recolher e atos violentos se espalhando pela cidade até a madrugada. Mas sobre isso, tudo são rumores, fato é que, para variar, as notícias de lá agora estão bem filtradas. Aqui http://www.thenewdominion.net ainda é possível ver algumas imagens.

Comecemos do início, pelo menos do atual capítulo. No dia 29 de junho, a agência de notícias chinesa, Xinhua, divulgou uma notícia que dava conta da prisão de um homem da etnia han que havia espalhado um boato falso via internet sobre um suposto estupro na fábrica de brinquedos Xuri, na cidade de Shaoguan. Os autores da atrocidade seriam trabalhadores migrantes uigures. Pronto, o dormitório onde ficam os empregados desta minoria foi atacado e houve mortes. A motivação seria simples. A fábrica tem 10 mil empregados, 800 dos quais uigures contratados entre maio e junho. Os han não gostaram de ver os postos de trabalho perdidos e resolveram agir.

A interpretação atual do governo chinês? Na verdade, tudo foi orquestrado e premeditado, desde o boato falso, para que os uigures encontrassem uma desculpa para atacar os han. Esta é a terceira versão sobre o mesmo tema. Antes, foi o simples fato de que os uigures são malvados. Depois, que os uigures eram vítimas de um han racista. Agora, que eles são malvados e espertos, sabem usar artimanhas e até a internet.

Isso lembra algo? Para mim, lembra as teorias de que o 11 de setembro foi maquinação do próprio governo norte-americano e lembra, ainda, uma repetição sem fim da expressão ataques premeditados, preferida da mídia chinesa para se referir a qualquer coisa que saia do eixo de controle do partido. Quando surgiu pela primeira vez? No famoso editorial de 26 de abril de 1989, quando o jornal voz do partido publicou falas do então presidente Deng Xiaoping, que afirmava que os protestos na praça naqueles idos eram premeditados e organizados devido a motivações antipartido e antisocialistas. Claro, agora os protestos de domingo já têm autor, a organização separatista World Uyghur Congress, liderada pela dissidente Rebiya Kadeer, que hoje mora nos Estados Unidos.

Acordar com um barulho destes na segunda-feira me faz pensar em outras questões sobre o mundo injusto e malvado. A versão oficial dá conta de que Xinjiang foi libertada pacificamente há 60 anos, coincidentemente o mesmo tanto de tempo da fundação da República Popular da China, aniversário que pode não ser muito bem-vindo, pois os tais libertados não estão muito convencidos disso. O Departamento de Estado norte-americano, por exemplo, também não está e no início deste ano divulgou um comunicado afirmando que o governo chinês estaria implantando severas repressões culturais e religiosas na região. Coincidência ou não, o centro de Kashgar, um dos mais preservados arquitetonicamente no que diz respeito aos traços uigures, foi posto abaixo porque os prédios centenários estavam para desabar. Restauração aqui ganha traços de instauração de tudo o que for han, numa preservação de história milenar sem traços que distoem dos interesses centrais.

O pulso forte em relação à região, que ocupa um sexto do território chinês – tipo assim, acho que quase a Europa inteira – tem nome: petróleo. O recurso é abundante por lá, onde também se produzem algodão e frutas deliciosas.

Pouca gente fala sobre Xinjiang, que faz fronteiras com países da Ásia Central, Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, além da Caxemira, aquela partezinha do globo espinhosa e causa das tensões incessantes entre Índia e Paquistão. É mole? Não, não é. Mas por que ninguém dá bola, como dá bola pro Tibete (até rimou)?

Outra vez, pensando aqui com meus botões, a problemática dos uigures não atrai olhares mundiais porque eles não têm o apelo Dalai e budista. Alguém já viu outrém levantar bandeira pró muçulmano sem ser taxado de terrorista? A antipatia global ante os seguidores do Corão é tanta que os deixem tentar sozinhos seus sonhos de independência. Buda era um cara bem mais legal e contido, apesar de gordo daquele jeito.

Fato é que nesta papagaiada toda, a única coisa que fica como lição é que as motivações são econômicas, os extremismos são religiosos e a primeira medida para que se possa apertar na repressão é calar a mídia e os ativistas. E a violência aparece como única saída numa espiral de caos e sentimento de injustiça e vitimização.

***

Para a primeira notícia sobre o suposto estupro em Guangdong, em inglês:
http://www.shanghaidaily.com/sp/article/2009/200906/20090629/article_405754.htm

Para um artigo interessante do Wall Street Journal sobre os protestos deste domingo
http://online.wsj.com/article/SB124684826272698823.html

Para a versão oficial
http://news.xinhuanet.com/english/2009-07/06/content_11658819.htm

Para atualizações interessantes via twitter
http://twitter.com/mranti

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um dia em branco

Os dias que precedem a quinta-feira 4 de junho de 2009 são de expectativa na China. Governo e dissidentes, gente ligada ao movimento dos estudantes de há 20 anos, esperam que o dia passe em branco. Enquanto o primeiro apenas no sentido figurado, o segundo, literalmente.

Um dos líderes de 1989, Wang Dan, deu início a uma campanha via web desde Taiwan, onde vive atualmente, para que as pessoas vistam branco na parte continental no dia 4. O branco, que na visão ocidental é a cor da paz, por aqui simboliza luto. Wang, preso por duas vezes após os protestos e finalmente exilado nos Estados Unidos em 1998, ganhou ecos de outros nomes não queridos por aqui, como o do blogueiro Michael Anti.

Anti teve o blog derrubado pela Microsoft devido ao conteúdo em 2005. Hoje, via twitter (http://twitter.com/mranti) também pediu que as pessoas vistam o branco na quinta. Para ele, aliás, tais pedidos via serviço do microblog podem terminar em breve. Segundo ele, o twitter ainda só é o twitter na China porque os sensores ainda não se deram conta de o que ele pode significar. Ou signifca.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cegos, surdos e mudos

O 4 de junho é tema sensível na China. Tabu, mito, apagado da história oficial, barrado nos filtros internéticos governamentais. O 4 de junho marca o dia em que o exército chinês tirou da praça estudantes que estavam ali acampados havia cerca de um mês e meio. Eles queriam liberdade, abertura, talvez as diretas, apesar de aqui nunca ninguém ter me dito isso. Que eles quisessem as diretas, digo. Inclusive dizem que eles queriam tanto que acabaram se perdendo, perdendo força, perdendo apoio. Ao final, enfraquecidos, foram calados. Alguns mortos, outros presos, quiçá torturados. Uma data para ser esquecida pelo poder, que não só agiu de modo opressor e violento – e passou a ser cobrado por isso - como percebeu que mobilização popular pode ocorrer mesmo dentro de sociedades pautadas pelo controle central.

Dia desses, o New York Times troxe um artigo (http://www.nytimes.com/glogin?URI=http://www.nytimes.com/2009/05/22/world/asia/22tiananmen.html&OQ=_rQ3D2Q26refQ3Dasia&OP=63639785Q2F-VQ51E-Q5BQ2AGgQ2FQ2AQ2AQ5C_-_Q22Q22Q3B-Q22X-__-VQ2AQ2FQ60Q5B-UgQ7EU-__Q5CQ7EUdUdlQ51dQ238Q5ClQ60), aliás censurado para quem não está registrado, porque mesmo no território livre da internet o que vale é fazer grana, em que questionava a possibilidade de haver um novo 4 de junho na China. A aposta é que não.

Um resumo bem resumido da história mostra que o culpado pelo atual estado de acomodação em que se encontra a sociedade chinesa no que diz respeito a lutas por democracia e liberdade é da sociedade chinesa. Simples assim. Preocupados com carreira, empregos e aquisição de bens, os jovens de agora diferem daqueles que não tinham nada a perder quando foram lutar pelos seus direitos. Eles não tinham direitos, ou tinham poucos. E ansiavam por – mais – alguma coisa. Para quem quiser ser mais otimista, ou quem sabe cínico, pode atribuir apenas aos feitos do governo estas mudanças de humores e espíritos. Há 20 anos as políticas não estavam bem azeitadas, havia mesmo que se mudar. Hoje, para que mudar?

Pergunte a um jovenzinho sobre a Praça e ou ele não saberá, ou fingirá que não sabe ou nem se interessa em saber. Pergunte a um quarentão e se ele quiser falar, talvez diga que saiu da praça por um dos únicos corredores pelos quais ainda se podia passar, ouvindo tiros pelas costas e vendo gente ferida pelo chão. Você, como estas pessoas que trazem estas imagens registradas, pode ter uma ideia do que aconteceu clicando no vídeo abaixo. Por aqui, obviamente, ele está censurado – e vai ao ar vez que outra graças a subterfúgios que ativistas encontram para divulgar por aqui o que os hoje papais e mamães fizeram. Mas divulgar pra quem?



Às vezes tenho a impressão de que há uma gana desesperada para calar algumas vozes. Mas minha dúvida é: se estas falassem em alto e bom tom, teria gente disposta a ouvir? Tem tantas vezes que em nome do – próprio – bem-estar é tão mais fácil fechar os olhos. E segue o baile.

Ontem, no baile enquanto eu comemorava os três anos da escola de samba SambAsia, cujos músicos são meus amigos, vi na plateia o roqueiro Cui Jian, fã assumido do ritmo brasileiro e que se deu mal ao tocar para os estudantes na praça. Isso há 20 anos, quando os acordes do então mocinho se limitavam ao 1,2,3,4 roqueiro. Para falar a verdade, ele voltou com tudo à capital chinesa somente no ano passado, quando fez um show ao lado dos ritmistas chineses da batucada brasileira.

Fiquei viajando nesta conexão maluca, de estar ao lado do roqueiro sambista que se esforçava para garantir um outro requebrado ao som de Timbalada num momento em que o mundo que debate China se volta para os fatos de há 20 anos. E de este moço de boné e bebedor de cerveja sem medo de errar feio no sapateado ser um dos ícones da época. Mas não fui falar com ele, jamais teria coragem – sim, quando estamos acostumados a não ouvir, também temos uma tendência a emudecer – de perguntar o que ele sentiu tocando na praça. Hoje, ao pesquisar sobre o show, descobri que ontem foi o aniversário de 20 anos do concerto. Exatos 20 anos.

Quando Cui Jian subiu ao palco, lá e 1989, os estudantes já estavam acampados há mais de um mês, já houvera greve de fome. O movimento havia ganhado a simpatia de intelectuais país afora, sindicalistas, gente comum, policiais, monges, empresários, que foram até ali doar comida para quem não tinha embarcado na greve. Era velho, jovem, criança, todo o mundo. Muitos deles foram ver o seu Cui Jian. E o Cui Jian viu muito desta gente. Qual a sensação de ter feito parte? E qual o peso de não poder tocar mais no assunto?

De repente, lembrei das Diretas, aquelas que papai e mamãe, pelo menos os meus, tomaram parte no Brasil. Depois lembrei do Fora Collor. E com um quê de decepção, lembrei que o alagoano é senador, indicado para atuar na CPI que agora investiga a Petrobras. Nada mal para quem deixou o governo porque estava envolvido em falcatruas. E lembrei da lambança do Rio Grande do Sul atual e de que há coisa de duas semanas, ou pouco mais ou menos, manifestantes levaram velas à praça pedindo o impeachment da governadora. Nem quero me envergonhar de que havia pouca gente, até porque a gente tem sempre tantas outras coisas a fazer, né, como pensar na carreira, em como ganhar mais dinheiro, em todas estas um milhão de coisas. Muito menos cogito que alguém na sociedade democrática e livre brasileira tenha tachado os manifestantes de desocupados. Nãnã. Ninguém teria coragem.

De tudo isso, concluo, claro, que nada é mais valioso que minha liberdade de falar, escrever e votar. E a sua também deve ser. Pena que muitos de nossos compatriotas não saibam o que fazer com isso. E que a gente nem se importa, para falar a verdade.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Escanteado, mas não calado


Poderia ter havido negociação. A afirmação do ex-primeiro-ministro chinês Zhao Ziyang bota lenha na fogueira e reacende a ira dos meandros do poder comunista em Beijing, que gasta boa parte do tempo e dos esforços para se livrar do fantasma da Praça da Paz Celestial. Zhao se refere aos estudantes que acamparam em frente à Cidade Proibida e só saíram dali expulsos pelo Exército de Libertação Popular, alguns deles, mortos – entre centenas e até 2 mil mortos, ainda não se sabe a cifra exata -, em 4 de junho de 1989.
As declarações estão no livro póstumo Prisioneiro do Estado – O Diário Secreto do Premie Zhao Ziyang, lançado nesta terça-feira nos Estados Unidos e em Hong Kong, onde a obra de 306 páginas ganhou versão em chinês. Na parte continental do país ela está proibida.

Os editores aproveitaram os 20 anos do massacre para publicar o livro, até agora o relato mais crítico à cúpula política no comando da República Popular da China vindo de um integrante do primeiro escalão.

Zhao ascendeu ao Politburo em 1977, pinçado pelo então presidente Deng Xiaoping, sucessor de Mao, depois de garantir reformas profundas que fariam a indústria de Sichuan crescer 81% em três anos, mesmo período em que a agricultura deu um salto de 25% na província. Em 79, já era vice-primeiro-ministro e seis meses depois, nomeado premiê. Zhao era ambicioso e tinha como meta transformar a China numa social-democracia até 2000. Começou, conta no livro, implantando a política de reforma e abertura, que transformou o país no chão de fábrica mundial. Os louros, claro, até hoje são do então presidente, Deng.

No final da década de 1980, o que eram flores se revelou um problemão. O superaquecimento da economia trouxe inflação e descontentamento. O culpado? Zhao, óbvio. Para completar, quando os estudantes tomaram a praça, lá foi ele conversar com o povo – e nesta foto, vocês podem ver que ao lado esquerdo de Zhao, com megafone em punho, está uma figura que viria a se tornar tão importante quanto, o atual primeiro-ministro Wen Jiabao.

No debate com os estudantes, o primeiro-ministro selava seu fim político e viveria os próximos 16 anos sob prisão domiciliar, em Beijing, tirado de cena. Claro que o partido sabia do simbolismo da figura de Zhao e quando este morreu, em janeiro de 2005, um comitê foi criado às pressas para monitorar possíveis manifestações populares. Os ideais democráticos de 1989 não se revelaram, no entanto. A prudência do Politburo ainda fez com que houvesse um controle dos viajantes à capital na época, evitando um afluxo de gente do interior, além de proibir que a notícia da morte fosse veiculada em rádio e TV.

Gato escaldado tem medo de água. É que todo o movimento em 1989 surgiu a partir do luto pela morte de Hu Yaobang, outro integrante do Politburo que defendia reformas que poderiam desembocar em uma política mais democrática. Hu morreu em 15 de abril de 1989, depois de sofrer um ataque cardíaco durante reunião do partido. No dia 17, um grupo de estudantes foi à Praça homenageá-lo com flores e faixas. E àquela manifestação de pesar foram juntando-se mais flores, mais estudantes e, principalmente, mais faixas.

Nos dizeres, nem sempre Hu era o tema. A democracia era, pedidos de liberdade de expressão eram, o fim do sistema de unidades de trabalho, em que os empregos passavam de pai para filho, como um tesouro praticamente genético que dava ao governo o poder de gerenciar não só a vida profissional dos não cidadãos, como a privada, também era. E de tantas faixas, flores e estudantes surgiu uma tese, publicada no Diário do Povo de 26 de abril, a voz do partido chinês. Articulado por Li Peng, camarada linha dura e próximo a Deng, o editorial taxava a manifestação de anti-partido e anti-socialista. Decretado, pois, quem eram mocinhos e bandidos na história.

O objetivo, dizem especialistas, seriam amedrontar os manifestantes que, acovardados pelo status de inimigos, recolheriam-se à sua insignificância. Engano. A mobilização só fez crescer. E Zhao insistindo em negociação. Até que numa reunião na casa de Deng, relatada no livro, se decide decretar lei marcial e acabar com a balbúrdia. Este é um dos pontos em que Zhao inova, ao desdizer registros não oficiais, diga-se, sobre a decisão que culminou na expulsão via exército. Zhao sustenta que não houve votação entre os integrantes do Politburo sobre a questão, fato que contraria até mesmo as regras partidárias. Para mim, não faz diferença alguma se alguém antidemocrático não votou. Mas parece que aí estaria mais uma prova da arbitrariedade dos grandões chineses.

Zhao fala mesmo e fala demais. Tenta mostrar que Deng não tem nada de arquiteto das reformas, atribuindo a si muito das mudanças. Tudo isso foi gravado em cerca de 30 fitas, secretamente, claro, que saíam de casa clandestinamente. Bao Pu, responsável por traduzi-las para o inglês e um dos editores do livro, conta que levou anos para resgatar todo o material. Pu é filho de Bao Tang, assistente político de Zhao e que passou seis anos na cadeia após o episódio da Praça.Imagino, mesmo sem ter lido, que os esforços tanto de Zhao para gravar às escondidas quanto de Bao para reunir e traduzir o conteúdo valem super a pena. Botei o livro na lista de obras que lerei. E quem gosta de história política contemporânea ou tem curiosidade sobre a China deveria fazer o mesmo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Lula aqui


Lula e Hu durante a Olimpíada, foto de Ricardo Stuckert, Agência Brasil

A estas alturas, Lula e dona Marisa já jantaram com o excelentíssimo presidente da República Popular da China, Hu Jintao, casado com sabe-se lá quem. Acabei de me dar conta que não sei o nome da primeira-dama da China, sequer sei se ela existe. Mas deve existir.

Falemos, pois, do que interessa. O jantar no Jardim Imperial da Casa de Hóspedes do Estado, ou Diaoyutai (钓鱼台国宾馆) (http://www.chinadyt.com/index.htm) foi o primeiro compromisso oficial de Lula na viagem de três dias à China. Provavelmente, o mais diplomático, se considerarmos que este não previa o fechamento de contratos, anúncios de parcerias e cooperações bilaterais e etc. Mas diplomacia pode ser tudo, especialmente em se tratando do maior parceiro comercial do Brasil, status conquistado pela China em abril, quando o país asiático desbancou 80 anos de hegemonia norte-americana.

Gestada desde o ano passado, a viagem de Lula à China foi a segunda em um ano, pois o presidente esteve por aqui para a abertura da Olimpíada, em agosto último. No entanto, é a segunda visita em cinco anos à China na busca de parcerias estratégicas. Os objetivos são financeiros, deixe-se claro, mas também políticos, numa tentativa de afinar os discursos e jogar com mais força e em conjunto no cenário internacional. O papo de unir forçar Sul-Sul e etc. Nada mais oportuno.

O mundo vive a crise. A crise gerou previsões catastróficas. As exportações brasileiras para a China aumentaram 64,7% no primeiro quadrimestre em relação ao mesmo período do ano passado. A China passou os Estados Unidos como maior destino de produção verde e amarela. Opa, bom sinal. Tão promissor que Lula trouxe na pauta propostas como a de os países selarem contratos em moeda nacional, numa operação batizada como swap no jargão economês e que, em tese, escanteia o dólar e permite que os bancos centrais dos países envolvidos enviem dinheiro local um ao outro. Peso pesado político.

Ao presidente brasileiro cabem outras tarefas árduas, como convencer a China a comprar frango e suíno brasileiros, além de garantir acordos para áreas como tecnologia, biotecnologia, biocombustíveis e petróleo. A estratégia parece boa, já que Lula veio munido de um plano quinquenal, expressão tão recorrente no vocabulário político chinês, que estabelece as metas para o país em grandes congressos nacionais do Partido Comunista da China a cada cinco anos e depois lança os tais planos quinquenais, os verdadeiros guias do desenvolvimento por estas bandas. Como comentava ontem com amigos, melhor do que falar a língua é conhecer os meandros da cultura sociopolítica de um país para garantir bons negócios.

Amanhã Lula deve estar com a cartilha do mandarim na ponta da língua, seja esta recitada com ou sem tradutor. A agenda presidencial brazuca inclui encontros com a nata do poder chinês, a começar pelo primeiro-ministro, Wen Jiabao, que ocorrerá em Zhongnanhai, complexo onde vivem os figurões do partido. Dali, Lula seguirá para o Grande Palácio do Povo, onde se encontra com o vice-presidente, Xi Jinping, retribuindo a visita do chinês ao Brasil no final do ano passado, com o presidente da Conferência Consultiva do Povo Chinês, Jia Qinglin e, finalmente, com Hu. Antes de outro jantar entre a dupla Sul-Sul, ocorrerá uma sessão de assinaturas de acordos, que, se saírem do papel, podem significar números ainda mais animadores do que os 64,7% que alavacaram a China à posição de compradora número 1 do Brasil. A ver.

Ainda nesta terça-feira, o presidente concede entrevista à estatal chinesa de televisão CCTV e participa da cerimônia de inauguração do Centro de Estudos Brasileiros da Academia de Ciências Sociais da China, além de almoçar com empresários dos dois países.

terça-feira, 5 de maio de 2009

检疫, a palavra da discórdia

Você tem medo da gripe A (H1N1)? A China tem. Tanto que tomou medidas duras para tentar barrar o vírus no país do que antes era chamada a gripe suína, ou 猪流感, zhuliugan, por aqui. Agora ficou 甲型H1N1流感, ou gripe A(H1N1). Juro.

Talvez seja excesso de zelo por conta do trauma provocado pela SARS, que, como contou a Cláudia Trevisan no blog dela sobre a China, contaminou 8.096 pessoas e matou 774 em 29 países e regiões em 2003. Até agora, a tal Síndrome Respiratória Aguda Grave é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a mais séria doença contagiosa dos tempos recentes.

A SARS fez o maior número de vítimas na China e em Hong Kong. Hong Kong confirmou um caso da gripe que assusta agora. O paciente é um mexicano de 25 anos que chegou ao país no último sábado, passando por Shanghai. Pronto. Palavra de ordem: 检疫, ou jianyi, que quer dizer quarentena. Quarentena nele e nas pessoas que estiveram próximas. Grita dos países de quem ficou retido. Tem de mexicano a canadense nesta situação, passando pelos próprios chineses.

A China, gato escaldado, não quer nem saber se está reagindo drasticamente ou não e não parece se preocupar com os rótulos de antipática, racista ou radical. Para não parecer tão insensível, ofereceu ajuda humanitária de US$ 5 milhões ao México. Em dinheiro foram US$ 1 milhão, já transferido. O restante é em material de apoio. Até agora, dois aviões chineses levaram à Cidade do México kits com máscaras, termômetros e que tais. Não sei a situação da tripulação.

O governo local se defende. Segundo a subdiretora do Departamento Municipal de Saúde de Beijing, os confinados recebem flores e frutas, além de poderem se comunicar com o exterior, ver TV, ouvir música, ler livros e acessar internet. Então tá. Como pagamento, além do tempo dispendido em quartos de hotéis e de hospitais, têm de passar por exames duas vezes ao dia.

E segue o baile. Enquanto os humanos tentam lutar contra a gripe para que não se torne pandemia, os produtores de carne suína vão também pagando o pato por aqui. O preço da carne de porco caiu de 13,41 yuans, ou US$ 1,96, por quilo em janeiro para 9,88 yuans em abril, ou US$ 1,45.

A OMS, no entanto, vive advertindo. Comer porco, desde que bem cozido, não traz mal ao homem. Mas é a velha história de zelo e tals. A China, por via das dúvidas, suspendeu importações da carne e de derivados suínos do México e outras localidades dos Estados Unidos.

Sim, como vocês perceberam, não basta estar com um baita problema de saúde pública para resolver, é preciso ter encrencas econômicas envolvidas, convidadas inesperadas na ressaca mundial pós-crise.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

90 anos de movimento estudantil chinês

A China celebra hoje o Dia Nacional da Juventude, data que merece pompa e circunstância, como pedidos do presidente, Hu Jintao, para que os jovens lancem mão de todo o seu patriotismo e trabalhem duro pelo desenvolvimento do país. Tudo isso porque em 4 de maio de 1919 estudantes saíram às ruas de Beijing para pedir democracia e protestar contra o governo, com vistas ao fim do que se convencionou chamar feudalismo.

Para a cúpula do poder chinês, tal vigor juvenil ainda serve como exemplo. O movimento de cunho político e cultural de 1919 acabaria na fundação do Partido Comunista Chinês (PCC) dois anos mais tarde, em Shanghai. Apesar dos louvores aos líderes e intelectuais revolucionários e sedentos por mudanças da época, aos jovens agora é ensinado que ao lançarem mão da energia típica a esta fase, que o façam trilhando os caminhos do socialismo com características chinesas, a denominação oficial do sistema político da China, que vive épocas de competição capitalista sob controle forte de atos e até de pensamentos, se possível.

Restrição à liberdade de expressão e pânico a movimentos organizados podem ser herança de uma outra peripécia da classe estudantil, esta realizada 70 anos depois da manifestação lembrada hoje e apagada da história pelo poder em Beijing. Parece-me que a moçada de 1989 que fincou pé na praça também pedia democracia, mas àquelas alturas, a mão mais forte do governo central tapou ouvidos e bocas. Tirou o povo de Tiananmen e fez com que o baile seguisse com a mesma batida orquestrada décadas antes. Os primeiros acordes estão no movimento democrático de 4 de maio. Vamos a ele?

O conceito de república na China é recente. Somente em 1912 o país deixou para trás um sistema imperial, ao acabar com a Dinastia Qing (1616-1911), graças a articulações de Sun Yat-sen, o fundador da república. A recém instituída República da China, ou 中华民国 - Zhonghua Minguo (cuja primeira bandeira você vê abaixo), tinha um poder incipiente e sofreria golpes de militares com pretensões imperialistas e a oposição dos senhores da guerra, os verdadeiros líderes que tomavam as rédeas de controles alfandegários e fiscais de diversas regiões da China, separadamente.



Yat-sen já nem estava mais no país e o governo central enfraquecido veria seu comando se perder ainda mais ao final da I Guerra Mundial (1914-18), quando graças ao Tratado de Versalhes, o acordo entre os países vencedores e perdedores, a China viu entregues ao Japão as concessões alemãs de então no país (concessões estas frutos de uma política internacional desastrada).

Num basta aos desgovernos e pedindo a soberania do país com ideais democráticos e pelo fim do feudalismo, estudantes e intelectuais tomaram as ruas de Beijing para protestar, onda que se espalhou país afora. Um dos líderes, Chen Duxiu, professor da Universidade de Pequim, seria fundador do Partido Comunista da China. Antes, ele fundou um dos veículos que mostraram e moldaram o novo pensamento chinês, ou daqueles que queriam mudança no modelo de então, a revista Nova Juventude (新青年, Xin Qingnian). Pois são a partir de artigos e textos da publicação, cuja capa se vê abaixo, que se percebe a orientação comunista de Chen, que veria no modelo político russo o ideal para a China.



À beira do primeiro centenário, a república chinesa encerra muito mais história do que um post poderia contar. Fato é que ela segue e, desde 1949, adotou o modelo sugerido nas páginas da Nova Juventude, quando finalmente o Partido Comunista da China chegou ao poder e fundou a República Popular da China, ou 中华人民共和国 - Zhonghua Renmin Gongheguo. Vida longa à República Popular da China diz o cartaz abaixo, ou 中华人民共和国万岁 (Zhonghua Renmin Gongheguo Wansui). Esta última, aliás, completa 60 anos em 1º de outubro. Mas isso é assunto para outra hora.

domingo, 19 de abril de 2009

Golpe de mestre

Você que me lê por aqui provavelmente já ouviu falar de Jackie Chan, 55, e caso não conheça a estrela chinesa de filmes de kung fu, logo abaixo tem uma foto da carinha para refrescar sua memória. O clique é da página oficial do ator, durante filmanges de alguma coisa em Shinjuku, que, segundo o que me consta, é um bairro japonês. Deve ter alguma coisa sino-japonesa vindo por aí.



Chan figura em diversas propagandas por aqui, durante a Olimpíada, era quase mais famoso do que astros esportivos locais, como o jogador de basquete Yao Ming e o medalhista dos 110m com barreira em Atenas, Liu Xiang.

Pois neste sábado, Chan saiu das telas para entrar em cena e agradar uma plateia de elite, a de líderes políticos chineses, que junto a outros governantes da Ásia estavam reunidos em Hainan, ilha ao sul da China, para o Fórum de Boao. O evento anual seria a versão asiática do Fórum de Davos.

Pois bem, diante destes senhores, Chan, segundo a agência de notícias AP, foi breve:

- Eu não tenho certeza se seria bom ter liberdade ou não. Eu estou realmente confuso. Se você é livre, será exatamente como Hong Kong é hoje em dia. Super caótico, assim como Taiwan é caótica – disse o ator, que, aliás, é de Hong Kong.

A estrela do cinema – que tem uma legião de fãs por aqui, onde é conhecido como o Dragão Cheng, ou 成龙 – foi ainda mais querida para com o público que o assistia.

- Eu estou começando a sentir que os chineses precisam ser controlados. Se não for assim, faremos apenas o que quisermos – disse o ator.

Ao avaliar os jovens chineses, Chan disse que eles preferem o que outros (apesar de eu não ter entendido exatamente quem são estes outros) fazem, não o que os chineses fazem. Bueno, talvez ele também.

- Se eu preciso comprar uma TV, definitivamente comprarei a de uma marca japonesa. Uma chinesa poderá explodir.

Bom discurso para um encontro onde a maioria era de líderes chineses. Se tivesse Olimpíada de novo, garanto que ele novamente seria convidado para cantar na cerimônia de encerramento. Apesar de eu ter ficado de cara com a fala do astro cinematográfico, às vezes, sou obrigada a concordar com ele. Alguns produtos chineses são realmente uma bomba.

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Página em português do gajo.

terça-feira, 31 de março de 2009

1º de abril ou pirataria de pandas?

O panda é lindo, poderia dizer Caetano, né não?

Na real, Caetano e a torcida do Flamengo do mundo inteiro acham o panda fofinho. Os bichos em preto e branco, no entanto, desempenham papéis muito mais relevantes do que apenas transformar adultos em crianças e crianças em criaturinhas enlevadas pelas bolinhas blase de pelo chinesas. Pandas têm função diplomática também.

Quer ver o caso de Taiwan? Há três anos o governo chinês ofereceu um casal dos ursos ao zoo de Taipei. Mas durante a gestão de Chen Shui-bian, não houve conversa. Em maio, quando Ma Ying-Jeon, visto com mais simpatia por Beijing e tido como um concilidador nos temas espinhosos para os dois lados do estreito, resolveu aceitar o mimo.

Pois bem, em dezembro, Tuan Tuan e Yuan Yuan chegaram a Taipei. O gesto do governo chinês, que já se estendeu a países como Austrália, Japão e Estados Unidos, pega superbem. Os bichos estão em extinção, estima-se que haja pouco mais de 1,5 mil exemplares vagando à procura de bambu por aí. Um dos motivos para a escassez de pandas residiria no parco apetite sexual da espécie. A fêmea entra no cio de dois em dois anos e o panda macho é macho, mas parado que só. Além de demorar pra tomar uma iniciativa, parece que não é lá muito criativo e só faz um sexo preguiçoso e na mesma posição sempre. Acho que as pandas tão querendo uma renovada, sei lá, e se fazem de difíceis.

Pois esse não seria o comportamento da dupla Tuan Tuan e Yuan Yuan, cujos caracteres juntos (tuan e yuan) significam união. Parece que eles gostam de se unir bastante, segundo reportagem de hoje do jornal taiwanês Taipei Times. A responsável por eles no zôo, Connie Liu, disse que eles são tão ativos sexualmente que chegam a constranger pais e crianças. Panda é panda, mas o sexo dos pandas não seria tão fofinho assim.

Opa, o problema é justamente esse. Ser ou não ser panda, eis a questão. A reportagem diz que os pandas não são pandas, mas ursos selvagens de Wenzhou, outra região aqui da China. Seria primeiro de abril? A reportagem, eu digo. Não me passa pela cabeça que Taiwan teria recebido pandas falsos.



Ainda segundo a reportagem, o casal teria sido tingido, e agora os pêlos estariam aparecendo. Os pêlos marrons. O texto diz que o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Qin Gang, teria manifestado, por meio de um comunicado, que o governo chinês "espera que os amigos de Taiwan gostem dos raros ursos de Wenzhou dados como presente". Como não sei procurar muito em chinês, não achei este comunicado.

Mas, sério, tou custando a crer. Não seria por demais arriscado presentear ursos falsos justamente quando se trata de um mecanismo diplomático para aproximar regiões? O Taipei Times compara o escândalo ao do leite em pó contaminado por melamina, que deixou mais de 300 mil bebês doentes, a maioria com pedras nos rins, e provocou duas mortes.

Eu ainda tou pra ver se não é uma bela história de 1º de abril. Se for verdade, é a mentira mais legal dos últimos tempos.

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A foto eu roubei daqui.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Um primeiro-ministro internético


Wen Jiabao (温家波), o primeiro-ministro chinês, é conhecido aqui na China pela simpatia e pela maneira afável, bonachona, com que trata os chineses. Hoje ele quis ser moderno também e participou pela primeira vez de uma entrevista online.

Apareceu de tudo, como dúvidas em relação ao salário de um premiê, se ele alguma vez na infância havia almejado chegar ao cargo e até uma pergunta infame perguntando o quanto - e quando - de álcool ele bebe, comparando-o a um dos antecessores, Zhou Enlai (bueno, não sabia que o amigo do Mao tinha fama de bebum, mas vai ver que tem). O episódio do sapato arremessado contra ele em Cambridge no início deste ano também veio à baila.

A preocupação central, no entanto, tem a ver com empregos e crise. Ou a falta de emprego e a necessidade de se ampliar o consumo. Apesar de até agora 15,3% dos 120 milhões de trabalhadores migrantes terem abandonado as cidades para voltar às suas aldeias, no chat quem mais perguntava sobre o tema desemprego eram jovens recém saídos da faculdade e também ainda sem ocupação. Aliás, a quantidade de perguntas de jovens pode indicar que a rede é mesmo popular nesta faixa estária.

A China, como diversos outros países, vê o desemprego afetar prioritariamente duas esferas diferentes da sociedade, os pouco instruídos trabalhadores migrantes (mão de obra barata para pegar no pesado) e os graduados ainda sem experiência profissional.

Wen não foi lá muito otimista. Disse que a crise está longe de acabar e que o caminho para superá-la será árduo. Sobre as decisões do governo acerca da questão e de outras más, ele disse que os cidadãos têm o direito de criticar e expressar suas opiniões.

Zona Política Especial

O fórum para a declaração de Wen acerca das críticas populares parece adequado. A Internet é vista na China como um espaço de construção democrática e de discussões que levam a decisões políticas, inclusive. Inclusão digital...

A coisa é levada tão a sério que o espaço, mesmo controlado por diversos filtros impostos pelo próprio governo chinês, é chamado de Zona Política Especial, uma referência às Zonas Econômicas Especiais, as cidades chinesas que têm status diferentes das demais e que, na prática, detém mais flexibilidade na hora de negociar com o Exterior. O modelo foi implantando no país pela primeira vez há 30 anos, mais ou menos.

Os chineses, que aprenderam que podem criticar, também aprenderam ser irônicos. Quando querem falar de algum tema mais sensível, usam a expressão hexie. Um chiste com o significado "harmonioso" que hexie pode encerrar, se grafado 和谐. É assim que o presidente, Hu Jintao, classifica a sociedade da China, uma sociedade harmoniosa - e é neste caminho que ele busca apoiar suas políticas. Os sensores, ao descobrirem que a harmonia pretensa dos internautas trazia vozes dissonantes àquelas almejadas pelo poder central, começaram a censurar mensagens e sites que continha a expressão. Mas o mandarim permite que um mesmo som tenha outro significado - e, na grande maioria das vezes, isso é escrito com diferentes caracteres. Agora, para marcar temas sensíveis, os internautas usam o mesmo hexie, mas para significar caranguejo do rio: 河蟹.

Aberto a críticas

Wen Jiabao disse estar aberto a críticas, não é mesmo? Um internauta aceitou a provocação do premiê. Há poucos dias na China ele provocou polêmica a ajudar com dinheiro uma criança portadora de leucemia de uma província vizinha a Beijing, Hebei, a garantir vaga e tratamento em um hospital da capital.

Durante o chat, Wen teve de admitir que não basta um primeiro-ministro bom, mas é necessária a constituição de um sistema médico que satisfaça as necessidades da população. A China tem 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma é avaliado em quase US$ 15 mil. Wen, aliás, doou US$ 1,46 mil à paciente em questão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

12 anos da morte de Deng Xiaoping



19 de fevereiro é a data da morte de Deng Xiaoping (邓小平), que, pra quem não sabe, foi o responsável por implementar a política de reforma e abertura da China. Hoje, no 12º aniversário de morte,flores foram levadas ao túmulo do ex-presidente, na cidade de Guangan, província de Sichuan.

Deng foi o sucessor de Mao no governo. A política que ele conduziu é simplesmente o motivo pelo qual o país deixou de ser uma nação pobre para se transformar na quarta maior economia mundial. Nada mal para 30 anos.

Oficialmente, a política entrou em vigor em 18 de dezembro de 1978, durante a terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China. Em julho do ano seguinte, o país implementaria quatro zonas econômicas especiais, umas das iniciativas mais visíveis para o exterior de o que a China se propunha no momento: fazer negócios com os demais países. As zonas escolhidas foram as cidades de Shenzhen e Zhuhai, em Guandgong (Cantão), então meras vilas de pescadores, e Shantou e Xiamen, em Fujian, outras duas cidades costeiras.

Em 1997, prestes a comemorar 20 anos da implementação da nova diretriz, a China recebeu da Inglaterra a então colônia Hong Kong, inaugurando um inusitado modelo que muito orgulha os dirigentes chineses, o de um país, dois sistemas. Hong Kong, centro financeiro mundial, manteve sua política capitalista, mesmo sob o manto do governo central de Beijing, que se denomina socialista, com características chinesas.

Tais características garantiram a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o que, na prática ajudou as commoditties da China a circularem mundo afora. Lembrem, as zonas especiais constituídas lá em 1979 tinham uma razão de ser. Para o país? Em 2006, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu a invejáveis 9,67%, bem acima da média mundial daquele ano, de 3,3%. O Brasil, para quem não lembra, após uma revisão dos métodos de cálculos feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em honrosos 3,7%.

Nestas últimas três décadas, o ganho anual dos moradores urbanos, numa média per capita, pulou de US$ 46 para US$ 1,611. Nas zonas rurais, este valor era de US$ 18 e hoje passou para US$ 491, segundo números do governo chinês. Aliás, a foto das moças aí abaixo é da década de 1980 e integrou uma exposição sobre os anos subsequentes à adoção da política de Deng realizada em Beijing no ano passado.




Livro


Deng Xiaoping tem todo este papel central nas reformas que garantiram à China o papel que ela ocupa hoje na política e economia global. No entanto, não sei se esta é uma impressão só minha, mas ele me parece um personagem esquecido quando o tema é governo, economia e política chineses.

Em português, um livro de leitura chata (opinão minha, dã), mas interessante, é A China de Deng Xiaoping, escrito por Michael E. Marti. No site da Livraria Cultura, é possível entrar o PDF do primeiro capítulo. Aproveita a palhinha.

Outro que citou o Deng foi o jornalista Daniel Piza, no artigo Ensaio da China, publicado por ocasião da Olimpíada do ano passado. O clique no link é mais do que recomendado.

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Ah, as fotos que ilustram este post estão no especial sobre os 30 anos da reforma de política e abertura publicado pela agência de notícias Xinhua. Em inglês.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

奥巴马入主白宫


Os sete caracteres aí de cima devem ser lidos assim: Aobama ruzhu BaiGong. Pra quem precisa de tradução, aqui vai: Obama dono da Casa Branca.

Nesta terça-feira, o afrodescendente se tornou o 44°presidente norte-americano, mas isso todo o mundo já sabe, tamanha a repercussão da posse em Wanshington. Só no local, segundo li em jornais por aí, havia 2 milhões de pessoas enfrentando o frio para ver o moço de perto.

Em Beijing, a Obama Mania garantiu faturamente extra a bares que nem sempre estão lá muito lotados durante a semana. O Saddle Cantina, por exemplo, apostou numa comemoração para a posse, com telões ligados a todo o volume e o resultado foi uma casa abarrotada. Estive lá por dois minutos e decidimos ir ao Lugas Villa, logo atrás do Saddle, ambos no bairro boêmio de Beijing, Sanlitun.

Ali três telões estavam ligados à transmissão da BBC, cujo som estava conectado ao sistema da casa. Volume máximo, outra casa cheia (mas não lotada) e silêncio total durante o discurso de Obama. Na plateia, chineses, norteamericanos, canadenses, indianos, franceses, portugueses, brasileiros e mais um monte que eu talvez soubesse, caso perguntasse prum público estimado - por mim, claro - numas cem pessoas.

Bush foi vaiado, Obama ovacionado, mas a sensação que ficou do discurso foi de uma fala morna, que não teria o impacto daquele de Lula em 2003, quando o petista tomou posse no Congresso Nacional. Pelo menos assim lembravam os brasileiros presentes.

Eu discordo. Pelo menos uma frase está nos discursos dos dois eleitos: A Esperança Venceu o Medo. Frase de efeito? Sim, mas é ela que simboliza a mudança, que marca a escolha pelo diferente - o caso do petista no Brasil, do afrodescendente nos Estados Unidos. Na verdade, interessa muito mais o que Obama fará na Casa Branca (já que é o dono do local, segundo o termo cunhado pelos chineses) do que a fala diante da família Bush, dos seus seguidores e de seus opositores. Ali, ele tinha de ser elegante, polido, burocrático, sim, e inteligente o suficiente pra apontar caminhos.

Neste sentido, acho que ele tocou em temas que precisava. A crise por que passam os Estados Unidos agora é comparada à de 1929, então não estamos brincando de eleger um presidente negro para mudarmos a cara do poder estadunidense. Estamos realmente diante de desafios que exigirão dele maturidade e competência. Uma palavra em todo o discurso me tocou, curiosidade. É desse valor, disse Obama, que os norte-americanos precisam para enfrentar os desafios e chegarem ao sucesso. Curiosidade aliada a trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância, lealdade e patriotismo.

Pra mim, é mais do que bonito falar em curiosidade. E, sim, tolerância ao lado da curiosidade, como usou Obama no discurso, é tudo o que faria do mundo um lugar melhor, na minha visão. Barulho ele já começou a fazer. Poucas horas depois de ser efetivamente o presidente, ele já pediu que os processos conduzidos ante comissões militares da Base de Naval de Guantánamo fossem suspensos por seis meses. Seriam 21 casos, um dos quais envolve cinco homens acusados de tramar os ataques de setembro de 2001 - momento emblemático do governo de Bush filho, em que a guerra ao terrorismo passou a ser a desculpa oficial para ocupações em outros países e aperto nas regras relativas a estrangeiros no país.

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A imagem deste post é uma reprodução do site especial que a CCTV, a televisão estatal chinesa, fez sobre a posse do Obama, que às vezes vem acompanhado só do Barack, às vezes do H. e, como ele usou na hora do juramento antes da posse, do Hussein que traz no nome.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Quarta economia cresce 65,5% em cinco anos


Hoje pela manhã o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, abriu a 11ª Assembléia Popular Nacional (APN) da China, principal órgão legislativo do país. Na primeira sessão do encontro anual, o premiê deu em números um panorama da grandiosidade da economia do país - e da velocidade do crescimento: em cinco anos, a economia chinesa cresceu 65,5%, um aumento anual médio de 10,6%, que dá ao país a posição de quarta maior economia mundial. Neste ano, a meta é atingir um crescimento de 8% do Produto Interno Bruto (PIB).


Falando em PIB, o da China chegou a US$ 3,425 trilhões no ano passado, e a receita total do governo atingiu US$ 712 bilhões, uma alta de 171% nestes cinco anos. No mesmo período, as reservas de divisa estrangeira do país asiático registraram mais de US$ 1,52 trilhão.

Ainda segundo Wen, na abertura do encontro, o país asiático se tornou a terceira maior nação de comércio no mundo, com um volume de US$ 2,17 trilhões nas importações e exportações.


Junto a este crescimento, o país tem de manter um esforço para criar 10 milhões de empregos urbanos ao ano e assegurar uma taxa de desemprego de 4,3%. Aliado a isso, é preciso conter danos ao ambiente e apostar em queda no consumo de energia. A diminuição de emissões de dióxido de enxofre, por exemplo, animam o premiê: a média é de 4,66% nos últimos anos.

A Assembléia Nacional vai até semana que vem. São 2.970 participantes de todo o país, que se reúnem para discutir os temas mais importantes e que guiarão as políticas até, pelo menos, a próxima reunião.


Mas ao lado das preocupações políticas, há quem se reúna em frente ao Grande Palácio do Povo, palco da Assembléia, em Beijing, para ver os delegados de todo o país. Representantes pertencentes a minorias étnicas, por exemplo, exibem com orgulho trajes típicos e são pratos cheios para os fotógrafos atentos.