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terça-feira, 28 de julho de 2009

Onde você está com a cabeça?

站稳立场 屁股决定脑袋, 秦刚

É bem provável que você não tenha entendido o que está escrito aí, nem eu. Mas a tradução estava hoje em vários sites chineses, e eu logo compartilho, mas mesmo assim fiquei sem entender.

A frase é do 秦刚, ou Qin Gang, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês. Perguntado sobre que princípios ele segue ao responder a jornalistas chineses e estrangeiros, ele soltou a pérola:

- 站稳立场 屁股决定脑袋 - ou, "Mantenha sua posição firme, seu bumbum decide onde está seu cérebro".

Para tentar o gostinho que a frase teve em mandarim, aventure-se a dizer "Zhan wen lichang pigu jue ding nao dai".

Ainda bem que o Qin concluiu que um porta-voz precisa ser leal à sua terra e à sua gente, além de entender de política como um todo e com familiaridade. Segundo ele, a partir daí não há pergunta sem resposta.

Mas o que mesmo ele quis dizer quando respondeu esta coisa de bumbum? Não entendi o que isso tem a ver com as calças.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Coisas que eu não entendo

• Ódio racial. Quer dizer, entendo, mas não gostaria que fosse assim.

• Repressão sexual e o sentimento de que o corpo pode ser casa do pecado.

- Os balineses nunca estendem roupa acima de 1,5 metro, ou quase isso. Mesmo lavadas, as roupas por terem tido contato com o corpo, são sujas. Não devem ser postas mais perto das alturas, onde vivem os deuses.

- A moça ieminita que veste véu e trabalha comigo, e que além de tudo me faz pensar como eu ando pelada por estar de blusinha sem manga e bermuda, está hoje cobrindo a cabeça com um lenço de oncinha. Estampas de oncinha sempre me lembram a sensualidade vulgar dos anos 80. Tem alguma coisa que não está combinando na mocinha recatada. Vou pedir para ela usar algo mais neutro. Mas acho que isso não combinaria com meu modelo também.

• Mandarim. Eu gostaria muito de entender o mandarim, mas não entendo. Então hoje,como a geladeira lá de casa está estragada desde domingo, motivo pelo qual perdemos muita grana em comida boa agora estragada, a dona mandou mensagem para avisar que compraria uma nova. Uma 新的冰箱,ou xinde ping alguma coisa. Como eu não entendo chinês, liguei de volta para agradecer e pedi que a minha empregada perguntasse à dona do apartamento quando seria entregue a nova geladeira.

Detalhe, a minha empregada só fala mandarim. Não me pergunte como a gente se entende,mas a gente se entende.

A dona falou, aliás, que o conserto custa 380 kuais, tipo uns 100 reais, enquanto uma nova, sai por 1000 kuais, tipo uns 250 kuais. Como a gente é estrangeira, ela vai comprar uma nova, pois ela gosta muito de estrangeiros. Se a gente fosse chinês, ela mandaria a conta do conserto.

- Ela falou isso mesmo? - perguntei pra minha empregada, que confirmou.

Tem vezes em que seria tão melhor não entender chinês, não é mesmo?

sábado, 25 de abril de 2009

? - Dia 9

Folga no tratamento, bônus especial do meu amigo Paul Lee, 30. O guitarrista chinês mais charmoso de Beijing mostrou que homem pode ser galante em qualquer língua ou cultura - e deu de 10 na maioria dos que eu conheço por aí.

Contei para ele que estava dieta, e ele logo respondeu:

- 你会更漂亮的.

Pra quem não entendeu nada, ele disse que eu vou ficar AINDA MAIS bonita. Pra falar em chinês, você diz assim: "Ni kuai geng piaoliang de".

Sério, até hoje só um amigo tinha acertado no ponto. Os outros todos, ao elogiarem, saem com um "como você está bonita hoje". Não entenderam nada de psicologia feminina. Como assim, bonita hoje? Acaso nos outros dias não somos também?

Entenderam?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Parece difícil, mas pode piorar

A simplificação dificulta a compreensão.

Com esta expectativa um tanto estapafúrdia e pouco animadora, o vice-diretor do Instituto de Linguística da Academia de Ciências Sociais da China, Wang Ning, anunciou na semana passada que o país passará por uma, digamos, reforma ortográfica. Será a primeira vez que haverá mudanças na forma de grafar alguns ideogramas chineses em pouco mais de 20 anos.

- Este é um problema que pretendemos resolver - acalma Wang, ao se referir à simplificação que complica, dando um certo alento àqueles que já, por ventura, estejam nervosos.

A China adotou caracteres simplificados em 1956, a fim de facilitar o aprendizado. Em 1986, uma singela lista de outros 2.235 ideogramas simplificados foi lançada. Desde lá, nunca mais se mexeu nos hanzi (汉字), que é como são chamados tais símbolos em mandarim. Em outras regiões, como Taiwan, Hong Kong e Macau - e até no Japão, que herdou da China o sistema de escrita - os caracteres nunca foram alterados. Ou seja, nestes lugares ainda se usam os tradicionais, como se convencionou chamar.

O governo não dá dicas de quando publicará a lista de novos caracteres, apenas afirma que será em breve e que esta já está pronta. Hoje, no entanto, teve de desmentir uma notícia publicada na província de Guangzhou que dava conta de que as alterações atingiriam até mesmo nomes próprios. Segundo a reportagem, a partir da publicação da nova lista, passariam a ser permitidos apenas 8 mil caracteres para serem usados nos nomes das crianças. Mas, não, não, os pais que fiquem tranquilos, sustenta o governo. A escolha do nome do filho único, maior parte dos casos das famílias por aqui, não ficará restrita a tão pequena esfera.

Eu enquanto brasileira sofrendo o processo de reforma ortográfica da língua portuguesa me pergunto sobre a amplitude de modificações em um sistema que se baseia em ideogramas - ou seja, um símbolo não fonético que representa um objeto ou uma ideia (ideia sem acento, agora).

Desde o ano passado, já há uma grita em relação aos caracteres. Um membro do Comitê Permanente do Partido Comunista da China, Pan Qinglin, pediu a volta dos símbolos tradicionais. Para ele, a reforma de meio século atrás foi feita às pressas, sem respeitar aspectos estéticos e científicos da formação dos hanzi. Além disso, segundo ele, os sistemas de escrita pelo computador poderiam ajudar no retorno ao modelo anterior, iniciativa que, além disso, aproximaria a escrita da China continental à das demais regiões.

Parece que não colou, vide o anúncio de mais simplificação por aí. Aliás, quem defende a manutenção do atual sistema na parte continental diz que seria muito difícil formar novamente duas gerações de chineses que já foram alfabetizadas segundo o modelo simplificado.

Fato é que, grosso modo, simplificar significa diminuir traços dos caracteres. E os caracteres são formados justamente por estes traços, muitos dos quais remetem a significados de pictogramas antigos. Tem gente que jura que pessoa, ou 人, mostra alguém de pé. Além desta associação mais óbvia (ahan), os caracteres são formados de radicais, os quais dão pistas sobre o significado e até sobre o som. E, ainda, são uma mão na roda para buscar as palavras no dicionário - pena que haja divergências quanto a contagem dos radicais, que varia de pouco mais de uma centena a até mais de 200. Alguns dicionários consideram determinada parte um radical, outros consideram outras partes radical também e está feita a salada.

Agora, radical mesmo eu achei um dos argumentos para a volta do padrão tradicional. E ele fala sobre amor, o que poderia ser meigo.

Amor em chinês é Ai, assim como no Japão. É uma das únicas palavras que guarda o mesmo fonema. Mas enquanto por aqui se escreve 爱, no Japão e também em Taiwan, Hong Kong e Macau, o amor é mais complicado, sai como 愛. Para não iniciados, talvez fique difícil perceber, mas sob o segundo traço vertical de cima para baixo, a versão simplificada exclui o 心, o caracter de coração. Lendo pela internet, descobri que dizem que os problemas surgidos na sociedade chinesa ocorreram devido à retirada do componente humano do amor.

Ai, diria eu.

Donde concluo que, em linhas gerais, é melhor simplificar.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Misture chá com demônios e garfos no armário

Hoje meu sono me impediu de ir à aula de mandarim, mas não de aprender um pouco mais. Era dia de empregada, então às 8h lá estava ela a apertar a campainha, lá estava eu a abrir a porta. Resolvi voltar para a cama e ela perguntou se eu não tinha aula de chinês. Eu disse que tinha, mas não iria.

- 逃课! - Ela me disse, e estaria escrito assim, caso tivesse legenda. Como não tinha, o som ficou assim: táokè.

Como sabia que 课 (kè) significa aula, não precisei pedir muito dos meus dois neurônios sonolentos para adivinhar que se tratava de matar aula. Pois assim foi. Matei.

Pelas 10h, levantei lépida e faceira e fui fazer meus temas, escrever em chinês à mão, o que é 特别难. Sim, é especialmente difícil e a gente lê "tèbiénàn". Pois tema faz, tema não faz, conversava eu com a Yu, a empregada. Ela também vai à casa de outra amiga minha, a Noha, que fala um mandarim num nível ainda mais baixo que o meu, mas fala.

Quer ver um exemplo de como fala? A pobre da Noha dia desses foi a um restaurante comigo, comida de Yunnan, altamente recomendada, e chegando lá, quis beber um chá. Não precisa ser nenhum gênio, caso more na China há uns poucos meses, pra saber falar:

- 我要茶 (wǒ yào chá) - que quer dizer eu quero chá.

Ela foi até o garçom, pediu e voltou à mesa com cara de quem não tinha se feito entender. Explicou que foi difícil e tudo o mais. Foi impossível, eu diria. Chega o garçom com três garfos (éramos três estrangeiras na mesa). Como assim? Explicação facinha.

A palavra para garfo é chàzǐ (叉子), a de chá é chá (quase igual ao português, mas aqui a gente pronuncia o ch quase como fazemos com o gauchíssimo tchê - daí você entendeu que é só substituir o ê pelo a, né - e grafamos a palavra assim 茶).

O chinês não teve dúvida. Sente a equação

Estrangeiro + cha = garfo

Por que

- Estrangeiro não sabe comer de palitinho

- Estrangeiro não é acostumado a beber chá

Ainda que a Noha, caso quisesse garfo, tivesse esquecido da sílaba zi de chàzǐ, a palavra que designa garfo em mandarim, somente poderia ser esse o objeto que ela queria. E ficamos a falar mal deste condicionamento que sentimos muito por estas bandas, este pensamento tão reto, direto, sem uma nuance diferente que tantos chineses têm.

Em defesa dos donos da casa onde estou, posso dizer que muitas vezes não olhamos pro nosso próprio umbigo. O mandarim é cheio de peculiaridades. Dia desses comentei que os tons eram uma das características mais cruéis da língua. Pois há outras encrencas, uma das quais atende pelo nome e sobrenome de Palavras de Medida. Em geral, antecedem o substantivo e indicam sobre o que estamos falando. Cachorros, automóveis, copos e garrafas têm palavras distintas que combinam com elas.

Caso a Noha tivesse usado uma destas palavras de medida, não haveria confusão entre o objeto de desejo dela. Ela disse apenas

- 我要茶. Eu quero chá, apesar de não ter ficado claro que chá.

Se tivesse dito

- 我要一杯茶 - de cara o garçom teria entendido. Wǒ yào yī bēi chá significa Eu quero um copo ou xícara de chá.

ou

- 我要一壶茶 (Wǒ yào yī hú chá)- ele teria sabido direto que ela queria uma chaleira de chá.

Falamos mal deste pensamento estreito, mas esquecemos de pensar que nos expressamos mal na língua de quem nos acholhe.

Voltemos à Yu, nossa empregada. Ela estava achando engraçado porque da última vez em que foi à casa da Noha, sugeriu que uns cobertores que estavam pela casa fossem guardados no armário, porque o verão está chegando.

- 放柜子里边, ou fang guizi libian.

Pois o guizi do meio, que significa armário, 柜子, não foi compreendido pela Noha. Ou melhor, foi, mas de um jeito totalmente ao contrário. Nós, estrangeiros, além de não sabermos falar os tons, não sabemos perceber as diferenças ao ouvi-los. A Noha xingou a empregada, sem entender do que ela falava, dizendo que guizi era uma palavra muito feia, usada para maldizer os estrangeiros, segundo um colega de trabalho havia explicado. Não estava totalmente errada, pois estava pensando em 鬼子, também guizi, mas cuja pronúncia se dá no terceiro tom, e não no segundo, do caso do armário. O guizi em que a Noha estava pensando tem como tradução demônio.

O 鬼子, guǐzǐ, esteve muito tempo associado à palavra estrangeiro (老外, ou laowai). O demônio estrangeiro, então, era o 鬼子老外. A pobre Yu tentou explicar que guìzǐ não era guǐzǐ, mas se em português nem sempre a gente consegue explicar que focinho de porco não é tomada...

Ainda segundo a Yu, é assim. Hoje, os chineses não tratam mais estrangeiros por demônios, a convivência está muito mais tranquila. Segundo ela, principalmente porque tudo o que um demônio estrangeiro tem, um chinês também pode ter. Com a abertura do mercado e a concorrência, tem gente pobre, gente rica. Então dá pra invejar tranquilamente o vizinho e patrício, o olho gordo não é mais atributo exclusivo internacional (internacional, levando-se como ponto de vista o dos chineses, claro).

Mas, claro, a Yu esclareceu que tem um tipo de estrangeiro que ainda é demônio por aqui. A cada vez que eles falam 鬼子, provavelmente estarão se referindo aos japoneses - os 日本鬼子. Abaixo, reproduções dos uniformes dos soldados e oficiais japoneses na China nos anos 1930.



Tanto ressentimento não é gratuito. Apenas na história recente, entre os anos 1930 e 40, a ocupação japonesa na China deixou marcas, como a tomada de Nanjing, quando teriam morrido 300 mil chineses.

Aqui, reproduções do que seria parte das Forças Armadas chinesas à época.



O governo japonês até hoje não reconhece atrocidades na guerra e por lá, livros didáticos tratam o caso como incidente, mas jamais revelam abusos, como mortes em série em pelotões de fuzilamento, estupros e torturas.

Aliás, já que o clima ficou pesado, há um livro interessante sobre o caso de Nanjing, o Rape of Nanking (capa reproduzida abaixo), ainda sem tradução para o português. A escritora sino-americana, Iris Chang, cometeu suicídio após concluir o trabalho.



Bueno, acho que faltei à aula, mas tive uma manhã de belos aprendizados, não?

terça-feira, 17 de março de 2009

O cabeleireiro e o taxista

Dia desses estava no cabeleireiro, o mesmo a que vou desde o ano passado, e ele perguntava o que eu andava fazendo, há quanto tempo não aparecia e outras cositas más. Aproveitando todo o meu chinês, disse que estava estudando bastante, havia passado férias no Brasil, motivos estes o do desaparecimento há cinco meses. E eis que ele desfila um rol de fonemas totalmente sem sentido para mim.

Digo que não entendi lhufas. E ele, claro e direto:

- É, realmente precisas estudar mais chinês.

Acabou comigo, o cara! Conversa vai, conversa breca, conversa vem, ele me disse que eu precisaria falar com as pessoas, ter amigos, para aprimorar meu mandarim. Eu disse que seria impossível, que não conseguia ainda formar frases com sentido, me fazer entender em mandarim.

- E nós dois estamos falando o quê? - perguntou o fofo Lu Wei, cujo nome ocidental é Vicky.

Não precisei pensar muito para dizer que era mandarim.

- Viu? - retrucou ele, emendando: tu sabes falar. E, aliás, eu sou teu amigo.

TRI FOFO! Ganhou a cliente pra sempre.

Pois hoje, dia de resgate da bicicleta, quem me fez feliz foi um taxista. A bici estava abandonada desde domingo em frente a um restaurante russo, o Moscow, porque havia furado o pneu de trás bem na hora em que eu estava atrasada para um painel sobre literatura chinesa na Bookworm. Depois da aula, fui buscá-la.

Primeiro, o moço taxista, 师傅 na linguagem oral - a gente lê os dois caracteres como shifu e o significado é mestre (vai dizer, no Brasil a gente também chama o capataz, o motorista, o garçom, todo o mundo de mestre, não é? Menção honrosa para os mestres que tiram um chope supimpa) -, foi o primeiro a concordar em botar minha bicicleta no porta-malas, mesmo que isso significasse ir com a tampa aberta. Em algumas situações, adoro as confusões e as permissões a que as pessoas se propõe no terceiro mundo.

Ele não sabia onde eu morava, expliquei mais ou menos e fomos indo. Quase perto de casa, quando eu disse a famosa frase, "na próxima sinaleira, à direita", ele soltou um superelogio, pelo menos pra mim, que estou tentando me mexer um pouco pra ver se deixo de ser gorda:

- Você pedalou até lá?

- Sim, o restaurante fica perto da escola onde estudo mandarim, vou todos os dias, de segunda a sexta.

Não expliquei que o pneu tinha furado no domingo, quando eu estava indo a um encontro literário. Meu chinês não permite. Mas pensando bem, tou orgulhosa da minha vida atleta e do pouco mandarim que já falo. Daqui a pouco, chegará a hora de fazer amigos. Que tudo!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Se você disser que eu desafino, amor

Dashan (大山) é o nome do cara que fala um chinês impecável, conhecido China afora pelo mandarim perfeito. Todos os dias, ele aparece no canal em inglês da TV estatal chinesa, a CCTV, para dar aulas de mandarim. São 15 minutos de muita atenção em frente à tela.



大山 é o nome chinês adotado pelo canadense Mark Rowswell. Significa Grande Montanha. Pois o amigo Grande Montanha antes de chegar à China havia estudado mandarim por quatro anos. Aqui, aprimorou de vez o que já sabia e até integra peças e programas televisivos humorísticos falando em chinês. Celebridade, considerado o cara que mais entende de cultura chinesa sem ser chinês. Pelo menos, o cara que mais aparece na TV com estas características, vamos combinar.

A carinha dele ainda estampa um sem fim de materiais para chineses aprenderem inglês, basta ir a qualquer das grandes livrarias chinesas para conferir. Carisma puro, ainda mais porque ele tem um discurso de ser um estrangeiro, mas não alguém de fora (大山虽然是外国人,但不是外人). Fácil ser alguém como 大山? Nãnãninanão.

Há quem diga que o aprendizado do mandarim - incluindo aí falar, ler e escrever - leva em torno de oito anos, para quem se dedicar, pelo menos, seis horas à língua todos os dias.

No ano passado, quando mantinha o China in Blog, falei sobre a estrutura do mandarim, que tem cerca de 400 verbetes monissilábicos que combinam os fonemas de 21 letras classificadas como iniciais a 44 diferentes combinações chamadas de finais.

São apenas com estes 400 verbetes que se forma toda a estrutura fonética do mandarim, ou seja, todas as palavras necessárias são resultado destes sons. Ou melhor, da utilização destes sons seguindo os padrões de uma língua tonal - um certo requinte de crueldade para acrescentar um nível a mais de dificuldade no que já é bastante complicado. Temos no mandarim quatro tons, ou até cinco, levando-se em consideração que há um tom neutro. Sopa no mel, eu juro, não reclame. Você poderia se dar ainda pior se resolvesse aprender o tailandês e seus seis tons ou o cantonês e o vietnamita, com nove cada um.

Feliz por saber que tem gente em pior situação neste mundo? Eu não. Confesso que os tons não são comigo. Apesar de boa memória, na hora de falar não sei usá-los bem. Quando começamos a aprender chinês, as primeiras aulas são chatíssimas repetições de cada um dos sons, representados por quatro sinais gráficos diferentes - ā, á, ǎ e à.

Em tese, eu sou realmente fraca. Os sinais indicam direitinho o que é pra fazer. Quer ver:

Primeiro tom. O ¯ que se usa chama-se mácron e indica que a vogal é longa. Ou seja, deve ser pronunciada de forma contínua. Quem nunca escreveu em e-mails ou msn um Obaaaa que atire a primeira pedra. Entendeu mais ou menos sobre o que estou falando?

Segundo tom. O ´ é o nosso velho amigo acento agudo. No mandarim, significa mais ou menos que você terá de pronunciar a sílaba como se estivesse fazendo uma pergunta. Sacou? Isso aí, exatamente o som que saiu quando você pronunciou o "ou".

Terceiro tom. O ˇindica um sobe e desce no meio da sílaba. Imagine que "Ahan" é uma única sílaba. Esta ondinha sonora existente entre o primeiro e o segundo "a" é exatamente o movimento necessário quando você tem de pronunciar o terceiro tom. Louvores para o "Ahan" pronunciado no final da propaganda da Polar a que vocês podem assitir abaixo.

Quarto tom. O ` é outro sinal gráfico bem conhecido dos brasileiros, nosso acento grave. Grave mesmo é o tom. Imagine que está encerrando uma fala meio brabo, meio enfático. E não enche mais o saco, pô! Pronto, taí a dica para um bom quarto tom.

Tom neutro. Ele é neutro, mas significa que deve ser pronunciado como a maioria das sílabas no português. Pena que aparece tão pouco, 是吗?

***

Pra encerrar o post, uma frasezinha em que vamos do primeiro ao quarto tom, encerrando com o terceiro, que é pra você ir treinando tudo desde cedo: huāníng nǐ péngyǒu!

Ou "bem-vindo, amigo", que em chinês a gente deve escrever assim: 欢迎你朋友. E, claro, lembrar dos tons na hora de ler cada um dos caracteres. E, claro, lembrar dos fonemas de cada um dos caracteres. E, óbvio, lembrar dos significados de cada um dos caracteres também.

***

Agora uma cervejinha, por favor!

terça-feira, 10 de março de 2009

Ah, a difícil vida chinesa

Tudo bem, estou num clima total aprender chinês, então acabo precisando dividir. Hoje estou encafifada com os caracteres. Não que já não estivesse há tempos, mas eles são sempre uma confusão à parte.

Tem coisas que eu acho que só chineses fazem. À lista
- Falar chinês
- Ler chinês
- Escrever chinês
- Fazer número 2 nos banheiros cujas louças sanitárias estão acopladas ao chão.

Forçoso dizer que, bem ou mal, já experimentei todas as tentativas acima. Reitero, a técnica aprimorada de qualquer um dos itens implica ter nascido na China.

Sobre o aprendizado do mandarim, passei do nível 2 ao 3 por pura falta de opção, já disse isso por aqui. No nível 2, supõe-se aprender 1,5 mil caracteres, número que - graças ao bom Deus ou a Buda - não muda no nível 3. Imagino que seja algo assim, no 2 a gente vê vários, no 3 aprende pra valer. Eu, como parei no 1, se muito sei uns 500 caracteres. Às vezes acho que nem isso.

Dizem que para ler um jornal, são necessários uns 2, 3 mil. Os livros para iniciantes trazem cerca de 900 caracteres. A dica é escrever cada um deles pelo menos umas cem vezes para decorar e saber que traços usar, em que ordem. Os caracteres são compostos de traços. Pode ser apenas um, como o do número um, assim 一,o qual a gente lê Yi. Mas podem ser vários, como o complicado amor, ou 爱, que a gente lê Ai, porque dói.

Cada traço tem um nome - e eles fazem toda a diferença. Hoje eu vou falar do 点, ou dian, um simples pontinho, encontrado ali na parte mais de baixo do caractere grande, 太, ou dai, por exemplo.

Estava eu em casa mostrando pra minha empregada meu chá preferido, cujo nome não sabia e que não é tão fácil de achar por aqui. Ele é um líquido de coloração marrom-dourada, a coisa mais parecida que me ocorre agora é gasolina para comparar. Mas o gosto é tri bom, nada doce, mas nada amargo também. Ao ver o rótulo, ela me perguntou o nome. Olhei e soltei um "malong cha".

- Errado - disse ela, rindo.

- Niaolong cha? - perguntei, numa segunda tentativa.

- Errado de novo - e ela caiu na gargalhada.

Depois me perguntou seriamente se eu não percebia que não poderia ser niao, posto que niao tem um dian a mais no meio. E muito menos poderia ser ma, que não tem dian nenhum, até a forma é diferente. A leitura correta do caractere em questão, aliás, ela me informou, é wu. Estava tomando wulong cha, recomendadíssimo.



Para quem quiser reconhecer pelo rótulo, compre aqueles que vêm identificados como 乌龙茶 (wulong cha), ok? Se ainda sobrou curiosidade, eu confundi o 乌 com 马 da primeira vez, que se lê ma e significa cavalo. Depois, tasquei um 鸟, que lemos niao e significa pássaro. Aliás, durante a Olimpíada, o caractere foi mais do que famoso, pois 鸟巢 se refere ao Ninho de Pássaro, Niao Chao na leitura mandarinística, o nome do estádio principal das competições em 2008.

Aprendeu tudinho?

头屑洗发水


Olha, uma amiga perguntou, então aqui vai o registro, até para eu lembrar também, de como se diz xampu anticaspa em mandarim. É 头屑洗发水, ou touxie xifashui. Decorou?

单位

Danwei (单位) é unidade de trabalho em mandarim.

Poderia significar apenas isso, o local onde se trabalha. Mas o apelo é mais forte, e quem explica é a Lijia Zhang, uma jornalista chinesa por quem estou apaixonada. Estou lendo Socialism is Great, o livro em que ela conta o começo da vida profissional em uma fábrica chinesa no final dos anos 1970.

Naqueles tempos de controle forte sobre a vida do cidadão, era por meio do danwei (ou 单位) que o governo mantinha o vivente na linha. O documento indicava exatamente o local de trabalho do cidadão - o número da unidade para a qual servia -, o que, na prática, não só garantia acesso à previdência social, mas o direito a casar e ser cremado ou enterrado em caso de morte. Trivialidades...

Pois um dos sites chineses mais bacanas que conheço adotou não só o nome Danwei, como a ideia de formar uma unidade de trabalho. Ali, estão reunidas discussões - mas em inglês - sobre mídia chinesa, propaganda e a vida nas grandes cidades. Imperdível.

Todos os anos (e eles estão ativos desde 1990, então entendem do riscado), eles escolhem os melhores blogs em inglês sobre a China, basicamente Trabalhadores Modelo para a Unidade de Trabalho. Quem quiser ver, pode clicar aqui.



Os tais trabalhadores modelo é outra herança do conceito de 单位. Minha amiga Zhang foi indicada uma vez para o posto, mas, na época, não levou a distinção devido a uma jaqueta de oncinha que costumava usar e que era muito padrão burguês ocidental para a concepção do chefete recém saído do casulo forçado imposto aos chineses nos anos de Mao. Comportamento padrão dentro da fábrica, mas trajes adequados fora dela. E quem liga para uma certa divisão entre vida privada e profissional?

No site, os editores pegaram o conceito de Modelo emprestado e embarcaram de vez na ironia. Segundo eles, os ganhadores são escolhidos pelo Comitê Central do Danwei, sem nenhum tipo de democracia ou votação envolvidas.

Zhang conta no livro sobre o momento em que disputou a vaga com outra colega. "Os nossos nomes foram postos em consideração. A eleição era um exercício de democracia centralizada, democracia sob orientação central, com o líder sempre tendo a palavra final - esse era o jeito como a China se movia". Bueno, pelo menos no site não há pretensa participação.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Breve desabafo sobre o mandarim

Estudar chinês é uma das coisas mais difíceis que já vivi. Eu que até hoje só tinha rodado em exame de direção (porque esqueci de desengatar a porcaria da - do, nunca sei - ré) e em exame médico de admissão (porque falei pra médica que poderia permitir que eu trabalhasse no Terra que eu sofrera de tendinite anos antes - e então ela me vetou para a vaga), estou passando por um teste em relação à humildade, dedicação e exposição em frente aos colegas. Sério, isso é meio duro pra mim.

Passei para o nível 3 sem ter feito o 2, o que impõe alguns obstáculos, como não saber ler muitas frases, não conhecer muitas palavras e não saber formular frases gramaticalmente corretas. Vejam que nem estou falando dos tons que o mandarim tem (quatro, mais um neutro, que pra mim é tom também) ou sobre escrever caracteres. Então, as aulas em que devo ouvir diálogos são uma tragédia, no período em que devo responder às perguntas da professora sobre o que os personagens do diálogo estavam fazendo eu sou um zero à esquerda, no tempo em que deveria fazer os exercícios gramaticais eu sou uma ameba que não entende ou o que é pra fazer, ou o que a frase está dizendo e por aí vai. Estudo numa turma que tem uns 10 adolescentes russos, o que complica bastante. Tem dois CDFs que, juro, tenho a impressão que fazem gracejo com a minha cara. Além de serem adolês, eles devem só estudar mandarim, provavelmente filhos de empresários-diplomatas que vieram parar na China por causa da vida dos pais. O chinês deles é simplesmente invejável. E eu me resigno à minha burrice, pela primeira vez na vida indo TODO O TEMPO fazer perguntas à professora. Até as mais idiotas. Às vezes conheço as palavras, mas não faço idéia do caracter, assim, não consegui reconhecer lavar roupa, apesar de saber que é xi yifu. Não soube dizer o que era mesa, mesmo conhecendo zhuozi. Mas eu não sabia que o verbo xi é grafado 洗, muito menos que zhuozi se escreve 桌子. Aprendeu não leu, pau comeu. Essa é a regra do mandarim.

Alem das três horas diárias, tenho estudado de duas a três horas em casa. Mas pensava que poderia revisar o nível 2 neste meio tempo. No entanto, neste período apenas faço os temas de casa - às vezes, nem acabo estes. Gente, chinês é desesperador. Preciso muito ter um objetivo, senão esta dedicação será infrutífera. Seria melhor que continuasse fazendo meus textos e, quem sabe, começando meus minidocumentários. Por outro lado, não conheco jornalista brasileiro que fale mandarim...

E estou começando a pensar que poderia fazer pesquisas relativas à internet na China, sociedade, política, redes sociais, participação, etc. LENDO EM CHINÊS, mesmo que na volta ao Brasil. Isso parece interessante e me estimula a ficar que nem uma pateta na frente dos russinhos. Na frente dos chineses eu nem preciso dizer, né?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Dengjia!

Entrou no táxi, disse que é brasileiro, pronto, está dada a deixa para que o assunto seja futebol. Ontem, ao conversar com o shifu, mestre, ou, na gíria, o taxista, novamente o tema veio à baila.

Eu já conhecia os tradicionais Luonaerduo (Ronaldo - 罗纳尔多), Xiaoluo (Ronaldinho - 小罗), Beili (Pelé - 贝利) e até Luomaliau (Romário - 罗马里奥), mas aí ele me pegou com o tal Dengjia (邓加). Ao elencar jogadores brasileiros famosos, ele insistia no Dengjia, que tinha passado por Japão e Itália. E começou a comparar o cara ao Maradona, da Argentina. Bueno, só poderia estar falando do Beili, mas definitivamente o Dengjia não era o Beili.

Sem matar a charada, liguei para um colega chinês que fala português e é louco por futebol. O Dengjia é como eles chamam o Dunga por aqui. Esta coisa de ex-jogador de seleção virar treinador cria novos parâmetros de comparação, né, não?

Aqui, página da wikipedia chinesa sobre o Dengjia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Xampu


Acredite: é muito legal saber palavras novas quando se está aprendendo um idioma. Incrementar o vocabulário vai ser a chave para desenvolver mais e diferentes diálogos. Dia destes aprendi xiangping, 香槟, ou champanha em mandarim.

Prestando uma atençãozinha, fica fácil perceber que o xiangping chinês se assemelha ao som da palavra champagne. Este é um dos sistemas de "importação" de palavras para cá. Pega-se o som e tenta-se achar caracteres cujos fonemas se assemelhem. Em alguns casos, os caracteres encerram significados.

Falando sobre a bebida, teriamos os caracteres que designam perfume e noz-de-areca, uma planta típica da Ásia que serve como estimulante. A bebida francesa, então, manteria um nome em mandarim cujo som remete ao original e, de quebra, seria, pela leitura que os caracteres suscitam, um estimulante perfumado.

Très intéressant!

Daí que dia destes estava numa festa para comemorar o Ano-Novo Chinês na firma e havia champanha a rodo. Numa das tentativas de pedir à garçonete que me trouxesse mais uma taça, a confusão.

- 我要一杯香槟 - pedi, que é justamente "Eu quero uma taça de champanha" (Wo yao yi bei xiangping, pra ajudar na leitura), mas não houve entendimento.

Depois de uns três pedidos, resolvi ir até a mesa onde estavam as bebidas, a fim de mostrar para a mocinha qual líquido satisfaria o meu desejo.

- Ah, xampu - exclamou, tri feliz.

Eu fiquei megadesenxavida, tendo errado no nome de algo de que tanto gosto. A champanha, estou falando. Adoro xampu também, mas não pra beber, não era o que eu estava precisando na festa.

Mais tarde, quando confiscamos algumas garrafas de champanha - cansamos daquela coisa de ficar pedindo tacinhas - fui ler o rótulo, e lá estavam caracteres que eu conhecia. Os fofos 香槟, cuja leitura é xiangping. Não xampu!!!

Aliás, xampu não é uma palavra que tenha sido importada para o chinês tentando manter uma semelhança com o som em inglês (que é o que o Brasil fez, transformando - ou não - o shampoo em xampu). Como são um povo com mais de 4,5 mil anos de história, acho que estão lavando a cabeça há tempos. O produto esse para limpar e perfumar a melena por aqui se grafa 洗发水 e a gente lê xianfashui.


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Mandarim eno-etílico
Bom, segundo me explicou o Ricardo Duarte, champanha ainda pode ser chamada de 香檳酒, ou xiangbinjiu. Se quiserem um espumante, peça um 起泡酒, ou qipaojiu.

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Só para terminar este post bebumno-linguistico, ontem aprendi a terceira ou quarta frase em francês da minha vida:

J'adore la bièrre, ou "Eu adoro cerveja". Espero que vocês também.

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Ah, a foto foi feita pela Alma Soto na festa da firma, quando as garrafas já estavam em nossa mesa.

Au revoir

Trocadilhos e o Ano-Novo


No ano passado, alguns dias antes de começar a Olimpíada, conheci o Daniel Piza, o Felipe Machado e o Nilton Fukuda, trio do Estadão que veio parar nestas bandas para falar sobre a China, sobre os chineses, sobre a Olimpíada e, sim, algumas vezes sobre as competições.

No nosso segundo encontro, quando os levei para conhecer a Praça da Paz Celestial e o portão Qianmen, além da região revitalizada ali pelas imediações (os chineses reconstruíram uma das primeiras ruas de comércio da cidade, cujo nome também é Qianmen, literlamente portão da frente e, não por coincidência, um dos últimos antes do acesso à Cidade Proibida) eles perguntaram do que eu mais sentia falta dada a distância Brasil-China.

- De trocadilhos - eu disse, de tanta falta que os tais realmente fazem no meu cotidiano.

Naquele dia e nos próximos cerca de 30 que se seguiram, o Felipe, fazendo juz à fama que o Daniel e Fukuda haviam divulgado por aqui, me abasteceu de diversos trocadilhos. Infames, bons, horríveis, engraçadíssimos. Honrosas colaborações do Daniel e tiradas geniais do quieto, mas no ponto Fukuda.

A Olimpíada acabou, o trio Estadão voltou para onde tinha de voltar e eu fiquei sem os tais trocadilhos por aqui de novo. Triste. Aí, agora, tem um trocadilho no qual não consigo parar de pensar, mas que está em diversas revistas que tentam ser engraçadinhas, em nicks de msn e etc de chineses e estrangeiros que vivem aqui. É o happy 牛 year!

O símbolo entre as palavras happy e year lê-se como "niu", bem pertinho da pronúncia de "new" no inglês. A expressão happy new year, como todos sabem, significa feliz ano novo. O ano novo, como todos sabem, ainda não chegou aqui na China, só chegará dia 26. O que talvez nem todos saibam é que niu quer dizer boi, vaca. E o próximo ano será o ano do boi (apesar de eu adorar a expressão Ano da Vaca, uma vez que moro na Niu Jie, que é a Rua da Vaca).

Em resumo, voltando ao trocadilho, o Happy 牛 Year é um fofo trocadilho sino-inglês (ou seria anglo-mandarinico?Ugh) que deseja não só um feliz ano novo, mas um feliz ano da vaca nova. Quer dizer, um feliz ano novo da vaca. Ou do boi.

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Esse não é trocadilho, só uma curiosidade a respeito das gírias. E que tem tudo a ver com vaca!

No Brasil, quando algo é super supimpa, como um jogo de futebol na TV, um chope bem tirado ou um texto, ou o que quer que seja, isso é classificado como "do caralh*".

Pois aqui, algo "do caralh*" é algo "bucet* de vaca". Algum estrangeiro que fala super bem o mandarim, fala um chines bucet* de vaca, o show é bucet* de vaca, e assim por diante. Pra quem quer saber como se escreve, aí vão os caracteres: 牛逼, e a gente lê niu bi!

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Ah, a imagem que ilustra este post foi tirada daqui.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

奥巴马入主白宫


Os sete caracteres aí de cima devem ser lidos assim: Aobama ruzhu BaiGong. Pra quem precisa de tradução, aqui vai: Obama dono da Casa Branca.

Nesta terça-feira, o afrodescendente se tornou o 44°presidente norte-americano, mas isso todo o mundo já sabe, tamanha a repercussão da posse em Wanshington. Só no local, segundo li em jornais por aí, havia 2 milhões de pessoas enfrentando o frio para ver o moço de perto.

Em Beijing, a Obama Mania garantiu faturamente extra a bares que nem sempre estão lá muito lotados durante a semana. O Saddle Cantina, por exemplo, apostou numa comemoração para a posse, com telões ligados a todo o volume e o resultado foi uma casa abarrotada. Estive lá por dois minutos e decidimos ir ao Lugas Villa, logo atrás do Saddle, ambos no bairro boêmio de Beijing, Sanlitun.

Ali três telões estavam ligados à transmissão da BBC, cujo som estava conectado ao sistema da casa. Volume máximo, outra casa cheia (mas não lotada) e silêncio total durante o discurso de Obama. Na plateia, chineses, norteamericanos, canadenses, indianos, franceses, portugueses, brasileiros e mais um monte que eu talvez soubesse, caso perguntasse prum público estimado - por mim, claro - numas cem pessoas.

Bush foi vaiado, Obama ovacionado, mas a sensação que ficou do discurso foi de uma fala morna, que não teria o impacto daquele de Lula em 2003, quando o petista tomou posse no Congresso Nacional. Pelo menos assim lembravam os brasileiros presentes.

Eu discordo. Pelo menos uma frase está nos discursos dos dois eleitos: A Esperança Venceu o Medo. Frase de efeito? Sim, mas é ela que simboliza a mudança, que marca a escolha pelo diferente - o caso do petista no Brasil, do afrodescendente nos Estados Unidos. Na verdade, interessa muito mais o que Obama fará na Casa Branca (já que é o dono do local, segundo o termo cunhado pelos chineses) do que a fala diante da família Bush, dos seus seguidores e de seus opositores. Ali, ele tinha de ser elegante, polido, burocrático, sim, e inteligente o suficiente pra apontar caminhos.

Neste sentido, acho que ele tocou em temas que precisava. A crise por que passam os Estados Unidos agora é comparada à de 1929, então não estamos brincando de eleger um presidente negro para mudarmos a cara do poder estadunidense. Estamos realmente diante de desafios que exigirão dele maturidade e competência. Uma palavra em todo o discurso me tocou, curiosidade. É desse valor, disse Obama, que os norte-americanos precisam para enfrentar os desafios e chegarem ao sucesso. Curiosidade aliada a trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância, lealdade e patriotismo.

Pra mim, é mais do que bonito falar em curiosidade. E, sim, tolerância ao lado da curiosidade, como usou Obama no discurso, é tudo o que faria do mundo um lugar melhor, na minha visão. Barulho ele já começou a fazer. Poucas horas depois de ser efetivamente o presidente, ele já pediu que os processos conduzidos ante comissões militares da Base de Naval de Guantánamo fossem suspensos por seis meses. Seriam 21 casos, um dos quais envolve cinco homens acusados de tramar os ataques de setembro de 2001 - momento emblemático do governo de Bush filho, em que a guerra ao terrorismo passou a ser a desculpa oficial para ocupações em outros países e aperto nas regras relativas a estrangeiros no país.

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A imagem deste post é uma reprodução do site especial que a CCTV, a televisão estatal chinesa, fez sobre a posse do Obama, que às vezes vem acompanhado só do Barack, às vezes do H. e, como ele usou na hora do juramento antes da posse, do Hussein que traz no nome.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Meu nome? Fala mais alto!


Eu sou Janaína. Fácil para você que leu até aqui, né?

Nome brasileiro, do qual tenho muito orgulho, o Janaína no entanto não é o nome mais fácil de ser pronunciado. Falantes de língua inglesa adoram um "Janáina" - com a sílaba tônica no primeiro "na" e esquecendo do "i" forte - e outros estrangeiros vão entre um Djanáina a Jenain'na. E segue o baile!

Pois entre os chineses, eu sou Renayina. Pelo menos é assim que se transcrevem os caracteres 热娜伊娜. Ganhei o nome mesmo antes de pisar em terras chinesas.

Os caracteres não encerram um significado, como muitos poderiam pensar, no estilo "Esplendor da Aurora nos Campos Verdejantes". Nem mesmo um "Rainha das Águas", significado de Janaína. É formado a partir dos sons e só. Daí, vários aprendizados sobre o chinês e viver na China.

- Familiarizar-se com estes caracteres para designar meu nome foi engraçado. E nada fácil

- "Re" lê-se algo entre "Je" e "Ja", mas na hora de fazer um som meio de "r", meio de "j", a língua fica parada um tempo no céu da boca, quase que curvada pra trás. É, nada, nada fáceis os fonemas chineses!

- "Re (热)" é quente. "Na (娜)" é mulher. "Yi (伊)" é mulher de corpo bonito.

De volta ao português, a mistura parece até apelativa, não? Melhor mesmo é esquecer dos significados dos caracteres separados. Mas eles escritos assim, lado a lado, formam um conjunto bonito. Eu acho, pelo menos.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Meimei


Gege e Meimei
Foto: Jana Jan/China in Blog

Meimei (妹妹) quer dizer irmã mais nova em chinês. Mas "meimei" pode ter significados diferentes. Já houve quem usasse a palavra para designar amante, para designar moça bonita, para se referir ao seu bem-querer.

"Meimei", me contou a Mariana, encerra ainda um outro conceito bem mais sutil: é aquela menina que não sendo exatamente só a sua amiga, também não é a sua namorada.

Desta vez, não se fala de amante, nem se critica de maneira alguma a forma de relação entre os casais. Mas foi com espanto que percebi que os laços de amor/amizade/cumplicidade ultrapassam barreiras culturais. E até na China, onde imaginei que se flertava-namorava-casava, os homens e mulheres tem os mais diferentes tipos de laços e dão nomes diferentes para o que eu chamaria de "rolinho".

Gurias!

Gurias, pra gente, nosso namoradinho, rolinho, casinho, gato é "Gege (哥哥)", mas não leiam "Jeje", e sim, algo como "Gaga" (eu estou sem acentos no meu teclado, imaginem acentos til em cima de cada um dos "a". Quase como a primeira sílaba de "Gana").

Eu aprendi a palavra Meimei - em outro sentido que não fosse irmã mais nova - por causa do chinês aí da foto. Só não sei exatamente se era pra ser amiga, moça bonita ou outra coisa. Casinho e rolinho é que não foi, isso eu asseguro - apesar de por alguns momentos eu ter achado que descobriria muito sobre o comportamento amoroso desta gente dos lados de cá.

domingo, 4 de maio de 2008

Fei Luo


Na China, acostume-se: os nomes ocidentais são "achinesados" para facilitar não apenas o entedimento, mas para que possam ser escritos em caracteres. É que muitos sons e sílabas simplesmente não existem aqui, então, é preciso adaptar. Meu nome, por exemplo, virou Renayina, 热娜伊娜 (mas isso é outra história e conto noutro post). Brasil, por exemplo, fica Baxi (巴西).

Bem, quando alguém me pergunta de onde eu sou, e digo "Baxi", muita gente logo lembra de futebol, logo lembra de Kaká, 卡卡 (esse é fácil, não trocou de nome), algumas vezes de Pelé e muitas, muitas vezes, do fenômeno, o Luonaerduo,罗纳尔多 (o Ronaldo, entenderam, né?). É algo mais ou menos assim:

- De onde você é?

- Do Brasil.

- Ah, futebol? Ronaldo! - ouço dos simpáticos e interessados interlocutores.

Aí, concordo e o papo, devido ao meu chinês precário nunca evolui muito.

Mas, bueno, o Ronaldo que aqui já havia virado Luonaerduo (são quatro caracteres que fazem o nome dele: 罗纳尔多) mudou de nome outra vez para os chineses. Querem saber? Agora é Fei Luo, 肥罗.

Um rolinho primavera para quem acertar o que significa Fei!

Chutou gordo? Fez gol. Agora aqui ele é o Luo Gordinho.

sábado, 8 de março de 2008

Sanba para as mulheres


Modelos desfilaram os tradicionais qipao, o nome destes vestidos e cuja pronúncia é mais ou menos assim: tipao
Foto: Divulgação, Agência Xinhua

Calma, não desaprendi totalmente o português. Mas é que "sanba" em terras chinesas é o "Dia das Mulheres". Explicação fácil para o nome: "san" é "três", "ba", "oito". Março é o mês três e o dia das mulheres, hoje, dia 8. Logo, a junção das sílabas "san" e "ba" dá "sanba", ou 三八.

Agora, tem uma questão engraçada, digamos assim. Sanba, em mandarim, também pode significar "chato", "burro" ou designar alguém que costuma espalhar por aí notícias negativas - e falsas - sobre outrem.

Questões fonéticas à parte, comemora-se na China o 98 Dia da Mulher. Ontem mulheres estrangeiras que estão em Beijing - ou parte delas, como jornalistas, empresárias, diplomatas, mulheres de diplomatas - foram recepcionadas no Grande Salão do Povo, palco de decisões políticas e encontros importantes no coração da capital, a praça Tiananmen, ou Praça da Paz Celestial.

Quem falou às presentes, foi a vice-presidente do Comitê Permanente da Assembléia Nacional Popular, Gu Xiulian. A mulher com mais prestígio na política do país destacou problemas que são tão caros a nós: a preocupação com a saúde da mulher - a expectativa de vida delas por aqui é de 75,25 anos - e o incremento da força de trabalho feminino na economia chinesa. Hoje, são 347 milhões de mulheres empregadas, ou 45,4% do total.

A recepção, no entanto, foi pouco focada nas questões econômicas ou políticas, e após as boas-vindas de Gu, o que se viu foram desfiles com roupas típicas. Primeiro, de regiões da China, como Mongólia e Tibet, além dos tradicionais Qipao, estes vestidos lindos vermelhos que vocês vêem aí em cima. Em seguida, árabes, africanas, latino-americanas e mulheres do sudeste asiático mostraram seus trajes típicos, mostrando o colorido das roupas. Roupas com muito pano. Fiquei pensando se alguma brasileira não poderia ter vindo com fantasias de carnaval. O samba seria outro!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Fome de quê?


Maíra e eu fazendo pose enquanto pensávamos em encarar o tomate com muuuuuuito açúcar (viram, né? Os pescoços de galinha foram quase todos)
Foto: Rafa Debastiani, Especial

Então, estava de férias. O motivo era nobre: não era um simples descanso, mas a recepção aos meus queridos irmãos Cristiano e Maira e da irmã de coração Rafa. A vontade que dá de mostrar tudo ao mesmo tempo agora te leva a propor programas de índio. E ainda dá vontade de mostrar o quanto se está adaptada ao novo país - onde, no meu caso e em se tratando de China, além de praticamente analfabeta, ainda estou aprendendo a falar.

Na saída do passeio à Cidade Proibida, íamos a Xidan, bairro de compras aqui de Beijing. Pegamos um táxi e ao ler - só com caracteres - que passávamos em frente a um restaurante de jiaozi (os bolinhos estilo ravioli que no Brasil costumamos chamar de gyoza - numa cópia do nome japonês), um dos meus pratos chineses favoritos, não tive a mais mínima dúvida:

- Dao le! - anunciei ao motorista, o que significa: "Chegamos!". Assim, de supetão, sem avisar aos meus irmãos. Pronto, hora de todos descerem.

Desceram, né? Afinal, quem conhece Beijing sou eu. Eles meio que não entenderam por que estávamos entrando em um dos maiores pé-sujo jamais visitado por eles durante toda a vida, mas, pensaram: "ela deve conhecer o dono", "com certeza esse lugar é um dos segredos que só um local da cidade pode desvendar" e outras coisas assim.

Que nada, eu só tinha lido mesmo o caractere de jiaozi.

Aliás, li e devo ter esquecido na hora. Chega o garçom, me dá o cardápio, eu começo a "ler". Totalmente no comando da situação, comecei a pedir os jiaozi. Vi um caractere de galinha e pedi. Outro de tomate, pedi. Outro de carne de gado, pedi. Depois, pedi outro com tofu. É que os jiaozi têm recheios diferentes. O garçom anotou o pedido e foi. Voltou...

- Vocês não vão querer pedir jiaozi? - ele perguntou num chinês tão português que até a Rafa, há dois ou três dias na China, entendeu.

- Hum... Acho que eu não pedi, então, né? - pensei eu em voz alta, já sabendo que viria problema pela frente. Pedi jiaozi, outros dois sabores e respirei fundo, só à espera do que poderia acontecer.


Rafa e Cris amaram os pescocinhos com alho
Foto: Maíra Akemi, Especial

Bem, o que aconteceu foi: uma das primeiras refeições dos meus queridos irmãos em solo chinês foram - nem tão - saborosos salame de carne de gado com temperinho verde, salada apimentada de tofu, pescoço de galinha com muito alho e o tradicional, imbatível e estranho pra maior parte dos brasileiros, imagino, tomate com açúcar. Tomate com muitooooooooooo açúcar. Um milhão de risadas depois e um esforço pra comer algo tão típico, chegaram os jiaozi. A gente até tentou beliscar, mas decidimos que tem horas em que ou o fast food salva, ou o negócio é procurar restaurante cujos cardápios ofereçam fotos.

Sério, ainda tenho muito mico pra pagar antes de ser uma boa anfitriã em terras chinesas...