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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Coisas que eu não entendo

• Ódio racial. Quer dizer, entendo, mas não gostaria que fosse assim.

• Repressão sexual e o sentimento de que o corpo pode ser casa do pecado.

- Os balineses nunca estendem roupa acima de 1,5 metro, ou quase isso. Mesmo lavadas, as roupas por terem tido contato com o corpo, são sujas. Não devem ser postas mais perto das alturas, onde vivem os deuses.

- A moça ieminita que veste véu e trabalha comigo, e que além de tudo me faz pensar como eu ando pelada por estar de blusinha sem manga e bermuda, está hoje cobrindo a cabeça com um lenço de oncinha. Estampas de oncinha sempre me lembram a sensualidade vulgar dos anos 80. Tem alguma coisa que não está combinando na mocinha recatada. Vou pedir para ela usar algo mais neutro. Mas acho que isso não combinaria com meu modelo também.

• Mandarim. Eu gostaria muito de entender o mandarim, mas não entendo. Então hoje,como a geladeira lá de casa está estragada desde domingo, motivo pelo qual perdemos muita grana em comida boa agora estragada, a dona mandou mensagem para avisar que compraria uma nova. Uma 新的冰箱,ou xinde ping alguma coisa. Como eu não entendo chinês, liguei de volta para agradecer e pedi que a minha empregada perguntasse à dona do apartamento quando seria entregue a nova geladeira.

Detalhe, a minha empregada só fala mandarim. Não me pergunte como a gente se entende,mas a gente se entende.

A dona falou, aliás, que o conserto custa 380 kuais, tipo uns 100 reais, enquanto uma nova, sai por 1000 kuais, tipo uns 250 kuais. Como a gente é estrangeira, ela vai comprar uma nova, pois ela gosta muito de estrangeiros. Se a gente fosse chinês, ela mandaria a conta do conserto.

- Ela falou isso mesmo? - perguntei pra minha empregada, que confirmou.

Tem vezes em que seria tão melhor não entender chinês, não é mesmo?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Noivas à beira-mar









O aparato todo das fotos aí de cima não revela um casamento coletivo à beira-mar, mas flagras de uma mania nacional chinesa registrados no último final de semana, quando estava na cidade costeira de Qingdao (青岛). São as fotos para os álbuns de casamento, uma espécie de book do casal, tão importante na celebração quanto o sim dos noivos. Diria que tão ou mais importante, uma vez que as fotos são produzidas com semanas ou até meses de antecedência ao dia da festa - que, dependendo das finanças dos pombinhos, algumas vezes nem existe.
É comum andar por lugares turísticos e-ou bonitos da China e dar de cara com noivas, noivos, fotógrafos, assistentes e maquiadores. A gente até acostuma. Mas as hordas que vi em Qingdao foram surpreendentes. Talvez haja um porquê. A cidade é muito verde, o mar é bonito, as pedras dão um toque a mais na paisagem e se é pra retratar a felicidade que espera-se seja eterna, nada melhor do que um cenário inspirador. E natural.

A brincadeira, que envolve disposição do noivo e da noiva para bancar os modeletes e passar horas sorrindo, pulando, fazendo pose e trocando de roupa, sai cara. Em um estúdio de foto onde fiquei pesquisando preços, vi que os pacotes variavam entre 3 mil RMB e 7 mil RMB, algo entre R$ 860 e R$ 2 mil. Claro que eu não entendi o que cada pacote continha, mas, em termos gerais, vale dizer que os modelos vão vestir roupas ocidentais para casamento, algumas roupas de festa, trajes de casamento tradicionais chineses e, algumas vezes, até os velhos uniformes comunistas azuis dos tempos de Mao.

O que eles fazem com isso? A agência vai montar um álbum com capa dura, cujas fotos podem ter dimensões até então impessáveis pra mim, como coisa de 60cm por algo, se não mais. Outras vão virar quadrinhos, outras vão parar em porta-retratos e as melhores ainda viram poster nas paredes das salas dos recém-casados.

1, 2, 3... Beringela*! E saia bem na foto.

***

* Ok, você não tem obrigação nenhuma de entender o beringela aí de cima. É que em chinês o nosso "Xis" é substituído por Beringela na hora de mostrar os dentes. Claro que o som é outro em mandarim, "Qiezi", que a gente lê quase como "tchiêdzzu".

E viva os noivos!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cervelle de pigeon

Esquenta em Beijing e a pedida é sair à rua. Bicicletas, amigos, quem sabe música e cervejinha antes ou depois do passeio. Pois foi este o programa do final de abril, com minhas amigas Paula e Tarsila e o francês Pierre, que de violão em punho nos brindou com Adieu minette, ou Adeus, garota.

A música de Renaud, um sessentão francês que bebeu da fonte do movimento estudantil de 1968 em Paris para começar a compor e protestar contra os hábitos da pequena burguesia, as injustiças sociais e todas estas outras futilidades da boa vida não proletária, tem uma ironia e um sarcasmo rasgados para falar destas garotas cabecinha de vento. Na versão francesa, "cérebro de pomba", expressão que dá título a este post.

Eu, cerebrinho avícola (com todo o respeito à classe penosa) fiquei com o som francês na cabeça, peguei uma câmera e saí por Beijing cantarolando à noite, pra tentar registrar a capital num quê de escuro, mas em temperaturas pra lá de agradáveis, como estas nas casas dos 20ºC que agora são comuns por aqui quando cai o sol.

O registro ruim somado à inabilidade no editor de vídeos não garante um resultado dos mais animadores. Mas é de coração, espero que cliquem.

Bici à noite from Janaína Camara da Silveira on Vimeo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Cliques

O movimento de 4 de maio, sobre o qual falei no último post, levou pouca gente às ruas, mas ainda assim quem foi fez barulho e alguns líderes chegaram a ser presos. A sacudida foi suficiente para acordar uma parcela intelectual da população que daria início ao movimento que desembocaria na fundação do Partido Comunista da China. Mas isso tudo a gente já viu ontem.

O que a gente ainda não tinha visto por aqui eram fotos da época. Então seguem duas, emprestadas do blog ilishi.com, que traz imagens antigas principalmente da China, mas também de outros acontecimentos marcantes mundo afora.


Neste clique, os revolucionários empunham duas bandeiras do primeiro período republicano chinês. Em tempos de governo central enfraquecido e tentantivas de volta ao império, era importante lutar pela democracia por meio da legitimação da república


Os estudantes de universidades conceituadas da China, especialmente a Universidade de Pequim (北京大学, Beijing Daxue, ou 北大, Beida) saíram às ruas da capital

Hoje, no meu parco mandarim, consegui entender que há registros de maio de 1968 em Paris.



Curti mesmo esta série de Suzhou, cidade conhecida pelos mais belos jardins da China. Os cliques são da década de 1980 e copio um aqui abaixo, mas sugiro fortemente todas as fotos. Os flagrantes da vida cotidiana de quase 30 anos são divertidos, e trazem um pouco do que era a moda e o estilo da época (e também lembra que estou velhinha)



Bueno, já que o tema que originou este post são os estudantes de 4 de maio de 1919, aqui vai o link para as imagens.

***

A China através das lentes de John Thomson - 1868-1872

Falando em fotos antigas, o Museu de Arte de Beijing exibe até 18 de maio A China Através das Lentes de John Thomson - 1868-1872. Thomson é um dos pioneiros do fotojornalismo. Nascido em 1837 em Edimburgo, na Escócia, mudou em 1862 para Cingapura e dali empreendeu diversas viagens asiáticas.

Quatro anos mais tarde iria viver em Bangcoc, capital tailandesa, e em 68 adotaria a então colônia britânica de Hong Kong, onde começou a estudar a cultura chinesa e a fazer viagens curtas à província vizinha de Guangdong. Em 1870, iniciou uma expedição pelo continente, que o levou até Fujian, no sudeste do país, passando pela então capital imperial, Beijing.

A viagem rendeu ao fotógrafo a alcunha de China Thomson na volta à Europa. E, claro, vários registros da época. A exibição que agora está em Beijing traz 150 imagens. A BBC preparou um slideshow com algumas delas, para quem tem preguiça de ir até o museu. Quem não tiver, siga o mapa. O museu fica na Fuxin Lu, número 9A, no Distrito Haidian.

Depois da capital chinesa, as fotos serão expostas em Fujian, de 14 de junho a 16 de agosto, em Guangzhou, de 26 de agosto a 27 de setembro, em Dongguan, de 3 de novembro a 2 de dezembro e, depois, no World Museum de Liverpool, em comemoração ao Ano Novo Chinês.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Burrocratices


Hoje precisava pegar o metrô duas vezes, para ir e voltar de Xuanwumen (宣武门), onde moro e trabalho. O destino seria Dawanglu (大望路), onde sigo firme e forte nas sessões de acupuntura. Superesperta, resolvi comprar dois cartões de metrô, a fim de poupar tempo na volta.

Chego no guichê eletrônico de Dawanglu, meu bilhete não funciona. Pergunto para uma moça, ela manda eu ir ao guichê, onde há uma fila para comprar os tíquetes. Foi-se o tempo poupado.

No guichê, a moça pergunta se comprei o cartão em Xuanwumen, e digo que sim. Ela gentilmente troca. E eu me pergunto: Se apesar de Beijing ter uma infinidade de linhas, o que você pode ver no mapa abaixo, uma viagem tem o mesmo valor, então por que cargas d'água só posso usar o bilhete que comprei em Xuanwumen em Xuanwumen e assim sempre para todas as outras estações?



Só pra constar, antes não comprava bilhetes porque tinha um cartão permanente, roubado junto à minha carteira.

terça-feira, 31 de março de 2009

O Rio Grande à minha volta

A semana está supergaúcha em Beijing. Nada a ver com China velha ou qualquer outra coisa.

Desde 15 de novembro, a calefação foi desligada na maior parte das casas - apartamentos funcionais dentro de órgãos governamentais ainda mantêm o aquecimento. Assim, passo frio dentro de casa, pois a temperatura está ou próxima ou abaixo de zero. Igual aos tempos dos rigorosos invernos gaúchos, cujas pendengas eu já havia esquecido. Ai, como é chato ter de tomar banho tiritando de frio e como é difícil sair de manhã do quentinho das cobertas.

Pra completar o clima sulino, um passeio até Osório, a terra do vento. Aqui, março se encarrega de trazer a ventania.

Pronto, não bastasse ir de mochilinha pra aula, agora sim me senti na adolescência. Fiz o Segundo Grau, que agora seria chamado de Ensino Médio, em Osório, que se acha a metrópole cosmopolita do Litoral Norte.

Aliás, já que estou falando de Rio Grande à minha volta, vou voltar aos tempos do colégio. Em Osório, estudei no Marquês de Herval, escola cenecista e pá. O corpo docente tinha uma sensiblidade super no que diz respeito a integrar os alunos que não eram da cidade. No meu primeiro ano, havia a turma A para alunos do Marquês, a turma B, para outros estudantes da cidade, a turma C, para adolescentes dos arredores, como Santo Antônio da Patrulha e Tramandaí, e a turma D, para o resto dos caipiras. Sim, a gente era chamado de caipira pelos colegas - e, a meu ver, com aval deste sistema ridículo da escola. Eu era de Terra de Areia, tinha vários colegas de Palmares do Sul.

Fui chamada à direção apenas duas vezes. A primeira ocorreu quando a escola resolveu implementar a obrigatoriedade do uso do uniforme. Calça azul, camiseta branca. Eu morava em Terra de Areia e pegava (e pagava) ônibus todo o dia, num trecho de uma hora para ir, outro tanto para voltar, enfrentando a BR-101 congestionada, esburacada e perigosa. Chego com um logotipo de uns 5cm bordado em branco sobre a camiseta branca. E não pude assistir à aula, sequer entrar na escola. Fui levada à diretoria para dar explicações. Uma boa aula aos 14 anos sobre como micropoderes sobem à cabeça, como a sociedade é instransigente e como o ser humano é patético. Claro que uma semana depois caiu a lei do uniforme e dava pra ir de roupa de escola de samba, se eu quisesse. Minhas aulas, meu tempo e meu dinheiro perdidos ninguém nem tchuns.

A segunda vez, depois de ter passado quase três anos invisível para a trupe de colegas da metrópole e a direção da escola (mas não para alguns professores de Português, Matemática e Física, graças!), foi quando eu passei num vestibular da UFRGS para Letras, acho que em 95 ou 97, talvez 94, nem lembro. Claro que nem apareci, né.

Humpf.

Era só pra falar do frio. Mas frio me deixa de péssimo humor mesmo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Hora do Planeta



Às 20h30min deste sábado acontece a hora do planeta, um evento simbólico em que governos, empresas e população são convidados a apagarem as luzes para demonstrar a preocupação com o aquecimento global.

Aqui em Beijing, as luzes do Ninho de Pássaro, o estádio símbolo da Olimpíada do ano passado, serão desligadas. Vários bares e restaurantes também aderiram, oferecendo jantares à luz de velas e por aí vai. A maioria dos hotéis cinco estrelas da capital chinesa irão ficar na penumbra. Apenas dentro dos quartos a energia será mantida, para aqueles que não estão nem aí, não sabem ou esqueceram.

Você que leu este post não tem desculpa, apaga a luz!

Falar em apagar, quem anda apagado, com ou sem energia, é o próprio Ninho. Aqui, um post do Raul Lores, correspondente da Folha de São Paulo em Beijing, sobre o estádio.

A foto é minha e foi tirada nos saudosos tempos olimpícos.

terça-feira, 24 de março de 2009

Blog de luto



O chef paraibano Valdenir Augusto de Souza, o Paraíba, 35, morreu na noite desta terça-feira em Beijing, vítima de um acidente de moto. Paraíba morava na China desde 2004, quando veio para cá trabalhar no restaurante Alameda, de cozinha brasileira, com inspirações múltiplas, fusion cuisine. O toque de Paraíba deu tão certo que o restaurante foi eleito o melhor de Beijing por três anos consecutivos e até hoje, se quiseres provar, a dica é reservar.

Conheci o Paraíba logo que cheguei aqui, em 2007, e ele era figurinha fácil. Boa pinta, bom papo, não era difícil parar para dois dedos de prosa. Num destes dias, ele contou um pouco sobre a vida.

Adolescente, foi pro Vale do Paraíba (em casa, praticamente), em São Paulo, para tentar uma vida melhor, fugir das condições financeiras ruins que tinha em Cajazeiras, onde nasceu. O primeiro emprego foi numa quitanda. Ali, tirava uns trocados, mas bem pouco. De tanto vender verdura em porta de restaurante, um dia foi convidado pra trabalhar como ajudante de cozinha. Foi. Uns trocos a mais fariam diferença.

Paraíba tomou gosto pela coisa e de ajudante passou a chef e como chef passou a ser reconhecido em São José dos Campos. Foi por isso que, em 2004, seria convidado para uma aventura chinesa, caminho que fez sem medo e onde garantiu sucesso, tranquilidade financeira e amigos. A saudade é que incomodava. Uma vez por ano, ia ao Brasil ver a mulher e o filho, além do restante da família.



Aqui, deixo o link de uma entrevista de Paraíba para a TV Estadão, na época da Olimpíada. Naquele dia, fui ao Alameda com os amigos Nilton Fukuda, Daniel Piza e Felipe Machado. O Felipe tratou de entrevistar o Paraíba, que fez bonito no vídeo. Confiram.

**

As duas fotos deste post são do arquivo pessoal do Paraíba, da página dele no Orkut. Creio que ele não vai se importar. Todo orgulhoso de seus experimentos culinários, deixo aí um peixinho de dar água na boca. A primeira imagem é da equipe na cozinha do Alameda.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Febre de Quizz

Ali no facebook, existe uma febre danada por Quizz. Eu fiz vários e achei a maioria superengraçado.

Começamos bem. I'm Still Standing, do Elton John, é a minha música. Desliguem o rádio, plis! Se eu fosse um personagem da Disney, seria a chinesinha Mulan (pra ir até as últimas consequências lutando pelo meu amor).

A Mulan, no caso, teria nascido na Noruega, falaria espanhol e morarai em Seatle.



A favor da coitada romântica que tem de suportar Elton John nos ouvidos, está o fato de ela estar entre os 5% top top na hora de fazer sexo. Se fosse uma estrela sexy, ela seria Audrey Hepburn, devido à doçura e à delicadeza. E, bueno, a belga era também lembrada pela elegäncia, o que muito me agrada. Aliás, a Audrey fora das telas é encantadora, visite o site oficial pra saber mais.



Sexo, açúcar e romantismo misturados transformaram nossa Mulan sino-latina em Hamlet, caso ela fosse um personagem de Shakespeare. Indecisão, ser ou não ser... Como profissão, a que melhor se apresenta é o cargo de presidente. Simples assim.

Bueno, talvez não seja fácil chegar lá, pois poucas pessoas conseguem descobrir o caráter inventivo que existe em Mulan, porque, caso fosse uma figura histórica, ela seria Leonardo Da Vinci.

Adorei a descrição do homem que vai despertar a Mulan romântica em mim:

Meu coração pertence a alguém com ritmo

Meu futuro amor deverá ser alguém com talento. Alguém que possa driblar a falta de tempo pra fazer esta relação funcionar. Eu e este cara temos algo de realmente importante nesta vida em comum.


Que lindo, adoro talento e criatividade. E ritmo é comigo mesmo.

Pra encerrar este post, adoto um que de noruguês, aproveito a deixa musical britânica para mostrar algo de bom feito por aqueles pagos para contar uma história de romance - mas nada tão grave assim. Norwegian Wood, by Beatles, com vocês.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Vida privada

Algumas coisas na vida nao sao explicadas. Por exemplo, meu computador consegue reconhecer caracteres japoneses e chineses, mas nao consigo digitar em portugues.

Outra questao eh, tudo bem que meus vizinhos estao fazendo reforma na casa e tudo isso dah uma sujeira e faz com que surja um monte de entulho. Mas precisa botar a privada no corredor comum?



Esta cena foi clicada no sabado a noite quando chegava em casa. Hoje o vaso sanitario esta na frente do elevador, ao lado da pia do banheiro e de um pedaco do armario da cozinha. Espero, sinceramente, nao encontrar uma familia vivendo por ali na semana que vem.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Breve desabafo sobre o mandarim

Estudar chinês é uma das coisas mais difíceis que já vivi. Eu que até hoje só tinha rodado em exame de direção (porque esqueci de desengatar a porcaria da - do, nunca sei - ré) e em exame médico de admissão (porque falei pra médica que poderia permitir que eu trabalhasse no Terra que eu sofrera de tendinite anos antes - e então ela me vetou para a vaga), estou passando por um teste em relação à humildade, dedicação e exposição em frente aos colegas. Sério, isso é meio duro pra mim.

Passei para o nível 3 sem ter feito o 2, o que impõe alguns obstáculos, como não saber ler muitas frases, não conhecer muitas palavras e não saber formular frases gramaticalmente corretas. Vejam que nem estou falando dos tons que o mandarim tem (quatro, mais um neutro, que pra mim é tom também) ou sobre escrever caracteres. Então, as aulas em que devo ouvir diálogos são uma tragédia, no período em que devo responder às perguntas da professora sobre o que os personagens do diálogo estavam fazendo eu sou um zero à esquerda, no tempo em que deveria fazer os exercícios gramaticais eu sou uma ameba que não entende ou o que é pra fazer, ou o que a frase está dizendo e por aí vai. Estudo numa turma que tem uns 10 adolescentes russos, o que complica bastante. Tem dois CDFs que, juro, tenho a impressão que fazem gracejo com a minha cara. Além de serem adolês, eles devem só estudar mandarim, provavelmente filhos de empresários-diplomatas que vieram parar na China por causa da vida dos pais. O chinês deles é simplesmente invejável. E eu me resigno à minha burrice, pela primeira vez na vida indo TODO O TEMPO fazer perguntas à professora. Até as mais idiotas. Às vezes conheço as palavras, mas não faço idéia do caracter, assim, não consegui reconhecer lavar roupa, apesar de saber que é xi yifu. Não soube dizer o que era mesa, mesmo conhecendo zhuozi. Mas eu não sabia que o verbo xi é grafado 洗, muito menos que zhuozi se escreve 桌子. Aprendeu não leu, pau comeu. Essa é a regra do mandarim.

Alem das três horas diárias, tenho estudado de duas a três horas em casa. Mas pensava que poderia revisar o nível 2 neste meio tempo. No entanto, neste período apenas faço os temas de casa - às vezes, nem acabo estes. Gente, chinês é desesperador. Preciso muito ter um objetivo, senão esta dedicação será infrutífera. Seria melhor que continuasse fazendo meus textos e, quem sabe, começando meus minidocumentários. Por outro lado, não conheco jornalista brasileiro que fale mandarim...

E estou começando a pensar que poderia fazer pesquisas relativas à internet na China, sociedade, política, redes sociais, participação, etc. LENDO EM CHINÊS, mesmo que na volta ao Brasil. Isso parece interessante e me estimula a ficar que nem uma pateta na frente dos russinhos. Na frente dos chineses eu nem preciso dizer, né?

quarta-feira, 4 de março de 2009

Viagens chinesas

Sexta francesa
Após filmar umas duas horas dentro de uma mesquita, a mais antiga de Beijing, fui encher a cara num boteco francês, com amigos franceses e brasileiros e finalmente beijei o francês que eu tava afins. Que me contou que mora com a namorada, que está em tempo indefinido no país dela. Ó vida, ó céus, ó azar.

Sábado chinês
Após vagabundear o dia inteiro e antes de me deliciar num dos melhores restaurantes de comida chinesa a que fui até agora (tá no meu blog), fui fazer uma massagem. Deito de bruços, o chinesinho aperta minhas costas, numa espécie de shiatsu, mas bem mais dolorido. Falou pouco, eu também tava mais a fim de descansar. Quando chega o momento de apalpar a minha bunda, acho que na segunda mãozada, veio a pergunta.

- De onde você é?

Sério, foi engraçado.

Domingo búlgaro
Após conhecer o paraíso literário de Beijing (tá no meu blog), fui jantar com duas amigas, uma egípcia e uma búlgara. Esta última relembrou os tempos de infância e adolescência, quando cresceu sob o regime comunista. Quando o país se abriu, o primeiro presente da mãe foi um lindo diário com cadeado, que a deixou maravilhada e livre pra escrever o que bem entendesse. Até que um dia a mãe mostrou como abria o cadeado usando um grampo de cabelo. No comunismo, pelo menos as pessoas não tem a falsa sensação de privacidade.

Segunda árabe
Minha amiga árabe me levou no melhor libanês, restaurante, que conheço até agora aqui em Beijing. Só me falta mesmo o kibe cru, apesar de a beringela gratinada deixar saudades. Tanto o gerente palestino quanto a egípcia e o chef alguma coisa não fazem idéia do que eu falei. Pois a egípcia contou uma conversa que teve com outra colega da Xinhua, esta do Iemen.

- Sabe que no Iemen poucas mulheres usam véu como eu - disse a garota, que tem a cabeça coberta pelo tecido, bem atado logo abaixo do queixo.

- Verdade? - replicou minha amiga espantada.

- Sim. A grande maioria deixa só os olhos de fora.

Estas são as explicações da nossa iemenita pra lá de moderna

Terça espanhola
Após assistir a Vicky Cristina Barcelona, cair de novo de amor por Barcelona, me decepcionar com os beijos - que imagina serem ardentes - entre a Scarlet e a Penélope e rir muito da pobre da Cristina, justamente a personagem da Scarlet, que se acha meio incopetente e sabe falar chinês (motivo de piada para a gostosa Penélope), saí para jantar com dois casais espanhóis no melhor japonês custo-benefício da cidade e tomar uma das melhores cervejas do mundo, a Asahi Super Dry, que em chinês chamamos JiaoRi.

Um dos espanhóis trabalha como crítico literário e fez mestrado em alguma coisa por aí. Foi uma das únicas pessoas que me deixou com calor ao descrever o frio: "me trepa por los pies hasta erizar los pelos de mi nuca".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A neve do 19º andar



Ontem voltei pra casa com neve, minha roupa ficou branquinha. Hoje ao acordar, me deparei com este cenário branco, tão raro na Beijing que, na maior parte do tempo, é seca, seca. Para se ter uma idéia, havia mais de 100 dias que não chovia por aqui, período interrompido por um mísero diazinho e uma chuvinha mais ou menos semana passada.

Agora, as condições climáticas garantiram uma nevinha, que, vez ou outra, é tri charmosa, ainda mais se eu pensar que no Brasil eu nunca vejo os floquinhos (aliás, uma das coisas mais engraçadas a se descobrir em relação à neve, é que os flocos são mesmo como os desenhos mostram, ou seja, tem extermidades que se dividem em uma espécie de estrela. E têm uma textura de isopor.

Hoje a humidade relativa do ar está em 86% - um montão, se pensares que há dias em que este índice cai para menos de 20%, a neve é leve e, pelo que vejo na previsão, amanhã continuaremos a ter floquinhos na cabeça.



Ah, ontem à noite, vindo de bike pra casa, descobri que neve nos olhos incoda. Tive de botar meus óculos escuros pra andar. Pedalando e aprendendo.

As duas fotos foram tiradas na hora em que acordei, de dentro do meu quarto, que fica no 19º andar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Quem bate?

13h, hora do banho, já que trabalho às 14h30min. Estava saindo do box, fiquei sem luz. Quem leu há poucos dias o blog, lembra que não pude voltar pra casa porque meu prédio estava sem energia, sem elevador, eu sem energia para subir 19 andares.

Lembrando disso, bateu certo panicozinho e alguém bate à campainha. Melhor atender, né? Vai ver é um moço que vai me explicar o que está acontecendo e resolver o problema.

Ainda perguntei:

- 谁啊?- Ou, Shei a? (uma expressão que significa "quem é", na qual o "a" final está ali por puro cacoete linguístico comum aos moradores de Beijing).

O moço do lado de fora respondeu muitas coisas que totalmente escapam à minha compreensão, mas entendi o 公司 (gongsi) do final, ou seja, companhia, empresa. Abri a porta, deixei entrar, não entendi xongas, liguei pra dona da casa, também chinesa, com quem pouco me comunico e deixei os dois conversando. Ela explicou alguma coisa que eu não entendi e então, fiquei olhando pro moço, que não ia embora.

Talvez nesta altura seja conveniente eu explicar que como eu havia recém saído do banho, eu estava vestindo uma camiseta e tinha uma toalha enrolada à cintura (sim, eu faço coisas ridículas na China que no Brasil não faria nem sob tortura, do tipo, abrir a porta mal vestida. Mas, poxa, imagina ter de descer 19 lances de escada... Eu jurava que era urgente).

Bueno, o cara não ia embora. Eu não entendia o que ele queria, a não ser cobrar 4 mil kuais, um montante que dá aí uns R$ 500, numa conversão grosseira e preguiçosa que fiz agora de cabeça. Liguei pro meu escritório, a fim de que alguém servisse de tradutor pra mim. Expliquei a situação pro meu chefe, que falou com o chinês e depois veio falar comigo, ao telefone:

- Jana, eu acho que ele é um ladrão.

- Ah, tá. Que que eu faço com um ladrão dentro da minha casa agora?

Bueno, a coisa era que o cara era de uma empresa de reforma de casas e apartamentos e não iria embora sem receber o dinheiro, grana que a dona ficou devendo pra ele. A dona não iria lá para pagar para o cara, eu precisava sair para trabalhar, o cara não saia da minha casa, meus colegas falavam comigo, com a dona, com o cara, tudo por telefone. Eu de toalha, já nervosa, quase ficando com um certo medo. Pedi pra chamarem a polícia.

A estas alturas, eu já gritava com o cara, num mandarim sofrível. Ele me dizia:

- Daqui não saio, daqui ninguém me tira. A dona vai chegar em cinco minutos.

- Eu não tenho cinco minutos. Eu preciso trocar de roupa. Você pode esperar ali fora, não pode esperar dentro do apartamento - eu respondia.

- 不明白 - ou, bu mingbai, que é não entendi, insistia.

E eu replicava que ele entendia, sim. E voltava a dizer:

- 我没有五分钟。 我想换衣服。 你可以等外边。 不可以等房子里边 - que é justamente "Eu não tenho cinco minutos. Eu preciso trocar de roupa. Você pode esperar ali fora, não pode esperar dentro do apartamento", ou "Wo meiyou wu fenzhong. Wo xiang huan yifu. Ni keyi deng waibian. Bu keyi deng fangzi libian". Sacou o mandarim?

Isso já era aos gritos, eu meio que empurrando a criatura e segurando a toalha já que, totalmente exasperada, a última coisa que eu poderia fazer naquele momento era jogar a toalha.

Passados uns 40 minutos, com a promessa de que a polícia subiria ao meu apartamento (a gente tem uma base da polícia dentro do nosso condomínio, exatamente em frente ao nosso prédio), alguém ligou para o chinês maluco, suposto ladrão, e ele foi embora.

Troquei de roupa, bateu a polícia. Minha explicação foi maluca, eu não sabia dizer tudo isso em chinês, liguei de novo pro meu chefe, que explicou o que tinha ocorrido, agradeceu a gentileza dos policiais e eu desci com os dois moços. Eles me ofereceram um cigarrinho, prontamente recusado, e eu fiquei contando que era brasileira, morava há um ano e meio em Beijing, era jornalista e não tinha tempo de estudar chinês, em resumo, as únicas coisas que sei dizer.

A dona é uma caloteira, eu agora não abro mais porta para estranhos e ainda fico me perguntando por que minhas semanas não podem passar sem uma emoção doméstica.

奥巴马入主白宫


Os sete caracteres aí de cima devem ser lidos assim: Aobama ruzhu BaiGong. Pra quem precisa de tradução, aqui vai: Obama dono da Casa Branca.

Nesta terça-feira, o afrodescendente se tornou o 44°presidente norte-americano, mas isso todo o mundo já sabe, tamanha a repercussão da posse em Wanshington. Só no local, segundo li em jornais por aí, havia 2 milhões de pessoas enfrentando o frio para ver o moço de perto.

Em Beijing, a Obama Mania garantiu faturamente extra a bares que nem sempre estão lá muito lotados durante a semana. O Saddle Cantina, por exemplo, apostou numa comemoração para a posse, com telões ligados a todo o volume e o resultado foi uma casa abarrotada. Estive lá por dois minutos e decidimos ir ao Lugas Villa, logo atrás do Saddle, ambos no bairro boêmio de Beijing, Sanlitun.

Ali três telões estavam ligados à transmissão da BBC, cujo som estava conectado ao sistema da casa. Volume máximo, outra casa cheia (mas não lotada) e silêncio total durante o discurso de Obama. Na plateia, chineses, norteamericanos, canadenses, indianos, franceses, portugueses, brasileiros e mais um monte que eu talvez soubesse, caso perguntasse prum público estimado - por mim, claro - numas cem pessoas.

Bush foi vaiado, Obama ovacionado, mas a sensação que ficou do discurso foi de uma fala morna, que não teria o impacto daquele de Lula em 2003, quando o petista tomou posse no Congresso Nacional. Pelo menos assim lembravam os brasileiros presentes.

Eu discordo. Pelo menos uma frase está nos discursos dos dois eleitos: A Esperança Venceu o Medo. Frase de efeito? Sim, mas é ela que simboliza a mudança, que marca a escolha pelo diferente - o caso do petista no Brasil, do afrodescendente nos Estados Unidos. Na verdade, interessa muito mais o que Obama fará na Casa Branca (já que é o dono do local, segundo o termo cunhado pelos chineses) do que a fala diante da família Bush, dos seus seguidores e de seus opositores. Ali, ele tinha de ser elegante, polido, burocrático, sim, e inteligente o suficiente pra apontar caminhos.

Neste sentido, acho que ele tocou em temas que precisava. A crise por que passam os Estados Unidos agora é comparada à de 1929, então não estamos brincando de eleger um presidente negro para mudarmos a cara do poder estadunidense. Estamos realmente diante de desafios que exigirão dele maturidade e competência. Uma palavra em todo o discurso me tocou, curiosidade. É desse valor, disse Obama, que os norte-americanos precisam para enfrentar os desafios e chegarem ao sucesso. Curiosidade aliada a trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância, lealdade e patriotismo.

Pra mim, é mais do que bonito falar em curiosidade. E, sim, tolerância ao lado da curiosidade, como usou Obama no discurso, é tudo o que faria do mundo um lugar melhor, na minha visão. Barulho ele já começou a fazer. Poucas horas depois de ser efetivamente o presidente, ele já pediu que os processos conduzidos ante comissões militares da Base de Naval de Guantánamo fossem suspensos por seis meses. Seriam 21 casos, um dos quais envolve cinco homens acusados de tramar os ataques de setembro de 2001 - momento emblemático do governo de Bush filho, em que a guerra ao terrorismo passou a ser a desculpa oficial para ocupações em outros países e aperto nas regras relativas a estrangeiros no país.

***

A imagem deste post é uma reprodução do site especial que a CCTV, a televisão estatal chinesa, fez sobre a posse do Obama, que às vezes vem acompanhado só do Barack, às vezes do H. e, como ele usou na hora do juramento antes da posse, do Hussein que traz no nome.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Queijo da Serra com Guacamole


Morar fora, em geral, significa fazer amigos estrangeiros. Mais ou menos porque as pessoas do lugar já tem seus amigos e suas vidas e as pessoas de fora estao sozinhas, loucas por companhia. O resultado é que voce acaba por formar uma família multicultural, um grupo de gente que se torna unido e começa a planejar de passeios a jantares juntos, um grupo que se torna meio inseperável. Bem, pelo menos esse é o caso em que eu e meus amigos nos encaixamos.

A turminha reúne brasileiros, italianos, franceses, egípcios, portugueses, mexicanos, espanhóis e, claro, chineses. É, acho que estas sao as nacionalidades predominantes nos nossos encontros. Desta (con)fusao, uma das maiores delícias sao as trocas culturais. Em termos linguísticos, sempre dá pano pra manga. Em termos culinários, hum, eu que sou meio glutona, sempre fico com culpa depois de experimentar - e exagerar no consumo - delícias estrangeiras.

O queijo Serra da Estrela, ou só queijo da serra para os íntimos desta iguaria portuguesa, é um dos casos. Desde que conheci o Ricardo Duarte, ele me falava de o quao bom era o tal queijo. Produzido em pequenas propriedades na Serra da Estrela, é resultado da mistura do leite tirado das ovelhas Bordaleira da Serra da Estrela - o segundo maior rebanho portugues (na foto voces veem alguns exemplares) - ao cardo, uma flor típica de Portugal (que também aparece pela Argentina e algumas regioes da África) usada para coagular o queijo, além de sal.

O resultado é um queijo molinho, que vai do branco ao ligeiramente amarelado, numa consistencia amanteigada. A gente come de colher e bota em cima de torradinhas. Delícia. Entre conhecer o Ricardo e conhecer o queijo que o Ricardo nos trouxe, levou uns nove, 10 meses. Mas valeu a pena esperar. Ele nos trouxe um queijo da Casa Matias.

Agora, nem tudo o que é bom vem sozinho. A Alma, nossa mexicana fofa, fez um guacamole que vou te contar. Eu já tinha comido na rua, mas assim, em casa, nunca. O pure de abacate salgado é companhia perfeita pros nachos. E o Ricardo ficou reclamando que se comia a fruta com sal, nao com açucar. Pois a mistura ao doce é comum em Portugal e no Brasil, mas impensável no México. Pra quem quer seguir a receita, anota aí.

- Abacates maduros
- Cebola média cortada em pedacinhos minúsculos
- Um dente de algo super picado
- Salsinha picada
- Pimentas verdes
- Suco de limao
- Sal a gosto

Mistura tudo numa tigela, amassa, amassa, amassa e depois sirva com nachos. No México, me contou a Alma, algumas vezes ainda se bota tomate verde. Em receitas que vi em sites brasileiros, havia o tomate vermelho mesmo (aliás, já comi assim em outros bares de Beijing). Outras receitas ainda falam em pimenta malagueta e coentro. Bueno, tempere a gosto, mas coma guacamole! E se fores a Portugal, já sabes o que pedir.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A primeira vaga


Jianhuananlu é o nome da rua do antigo prédio
Foto: Jana Jan, China in Blog

Qual o maior medo ao deixar um lugar? Pra mim, o medo de se perder. E se não encontrar minha casa, onde dormirei? Não interessa se isso não seja bem uma casa, mas o hotel naquela viagem de fim de semana ou os diversos locais em que nos hospdemaos nas férias merecidas. A perspectiva de mudança sempre deixa a sensação de que terei de novo de saber quem é meu vizinho, o dono do mercado - e onde é o mercado -, qual o melhor salão de beleza da redondeza, onde comer bem e barato. E pra qual rua virar? E qual o ponto de referência?

Eis o ponto, as referências. Quando mudei para a capital chinesa, aos poucos fui me acostumando a minha região. Sabia andar a pé e de bicicleta, metrô e taxi. Até guiar eventuais amigos motoristas durante caronas já conseguia. Com a chegada da minha amiga e colega Paula, nos mudamos de Jianguomen (建国门) para Fangzhuan (方庄). Novamente, outras descobertas. E na ruazinha onde vivi os primeiros seis meses de Beijing, lá ficou minha bicicleta. Até hoje.

Calor chegando - agradaveis 20ºC por volta das 15h desta quarta-feira -, resolvi reaver a magrela, quatro meses depois de tê-la abandonado no saguão do antigo prédio (apartamento, aliás, que "herdei" do Sergio Capparelli, a quem vim substituir). De novo, as referências, ainda que por tão pouco tempo.

O sistema de interfone mudou, agora está mais moderno. As paredes do hall também foram pintadas de branco. E minha bicicleta - outra herança do Cappa - uma sujeira de dar dó. Mas tudo bem. Enchi os pneus, dei uma primeira limpada, voltei ao antigo salão de beleza, depois à antiga conveniência e me toquei pra casa (que, depois de quatro meses, já nem é tão nova, é meu lar de verdade). Em dois trechos, me perdi. Tudo bem, até não foi tão mal.

Andar de bicicleta é uma curtição. Enquanto não pedalo, achei novo endereço para o meu veículo: a primeira vaga que aluguei num condomínio (visto que nunca tive carro) é para ela. Por menos de R$ 20, a bike tem endereço seguro durante um ano. Agora, estou louca pra desbravar de verdade meu novo bairro. Enquanto não faço isso, deixo foto do antigo prédio - imagem ainda de uma gaúcha recém chegada a estes pagos, lá por junho do ano passado.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Santa Sexta-feira


Conhecer culturas diferentes é, também, algumas vezes esquecer um pouquinho, mesmo que bem pouquinho, dos nossos costumes tão caros.

A sensação, pelo menos para mim, é de ser pego de surpresa por datas ou acontecimentos que antes teriam sido previamente planejados. Estou falando de Natal, Carnaval e, agora, Sexta-Feira Santa. De repente, meus amigos brasileiros que trocam e-mails comigo começam a falar sobre o feriado de Páscoa. Ei, Páscoa! Como assim?

Por aqui, ninguém planejou almoço com peixes e frutos do mar para hoje - eu, aliás, saí correndo de casa para a redação e tomei apenas café. Confesso que na janta tentarei comer algo legal e que lembre a data em algum restaurante por aqui.

Mas, para a noite, o mais engraçado para mim é primeiro uma festa funk - de uma banda de amigos meus que tocam o melhor do funk norte-americano 70`s (outro dia falo sobre eles) - e depois a um Carnaval. Sim, festa brasileira promovida por brasileiros aqui em Beijing. O bar é o Kokomo. E, sim, eles também não haviam lembrado que hoje é Sexta-Feira Santa.

Bom, feliz Páscoa para todos!
(ah, por mais supermercados que tu visites por aqui, esqueça que encontrarás ovos de chocolate para vender...)

sábado, 8 de março de 2008

Sanba para as mulheres


Modelos desfilaram os tradicionais qipao, o nome destes vestidos e cuja pronúncia é mais ou menos assim: tipao
Foto: Divulgação, Agência Xinhua

Calma, não desaprendi totalmente o português. Mas é que "sanba" em terras chinesas é o "Dia das Mulheres". Explicação fácil para o nome: "san" é "três", "ba", "oito". Março é o mês três e o dia das mulheres, hoje, dia 8. Logo, a junção das sílabas "san" e "ba" dá "sanba", ou 三八.

Agora, tem uma questão engraçada, digamos assim. Sanba, em mandarim, também pode significar "chato", "burro" ou designar alguém que costuma espalhar por aí notícias negativas - e falsas - sobre outrem.

Questões fonéticas à parte, comemora-se na China o 98 Dia da Mulher. Ontem mulheres estrangeiras que estão em Beijing - ou parte delas, como jornalistas, empresárias, diplomatas, mulheres de diplomatas - foram recepcionadas no Grande Salão do Povo, palco de decisões políticas e encontros importantes no coração da capital, a praça Tiananmen, ou Praça da Paz Celestial.

Quem falou às presentes, foi a vice-presidente do Comitê Permanente da Assembléia Nacional Popular, Gu Xiulian. A mulher com mais prestígio na política do país destacou problemas que são tão caros a nós: a preocupação com a saúde da mulher - a expectativa de vida delas por aqui é de 75,25 anos - e o incremento da força de trabalho feminino na economia chinesa. Hoje, são 347 milhões de mulheres empregadas, ou 45,4% do total.

A recepção, no entanto, foi pouco focada nas questões econômicas ou políticas, e após as boas-vindas de Gu, o que se viu foram desfiles com roupas típicas. Primeiro, de regiões da China, como Mongólia e Tibet, além dos tradicionais Qipao, estes vestidos lindos vermelhos que vocês vêem aí em cima. Em seguida, árabes, africanas, latino-americanas e mulheres do sudeste asiático mostraram seus trajes típicos, mostrando o colorido das roupas. Roupas com muito pano. Fiquei pensando se alguma brasileira não poderia ter vindo com fantasias de carnaval. O samba seria outro!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Polícia para quem precisa


Hoje pela manhã fui visitada por quatro moços vestidos como este de preto
Foto: Duan Zhuoli, Xinhua

Querido estrangeiro (não-chinês, digo eu) que pretende morar na China ou mesmo passar uns dias aqui na casa de alguém, amigo, parente, parente do amigo, amigo do parente: faça o registro de estadia na estação de polícia mais próxima.

Assim que pisei aqui, a Li Wei, responsável pelos brasileiros na Xinhua insistia e insistia para que eu fizesse o tal registro. A lei chinesa manda assim: 24 horas após a chegada, NO MÁXIMO, é necessário fazer o registro. Para tanto, é preciso comprovante da imobiliária sobre o apartamento que tu estás alugando ou, no meu caso, ir acompanhada do dono do imóvel (meu aluguel não tem intermediário). Óbvio que me enrolei da primeira vez...

Com a chegada da Paula a Beijing, a moça esta com quem divido a casa e o blog, nos mudamos. De novo, ir à polícia fazer novo registro de endereço. A multa para quem não cumpre o procedimento é de 500 yuans, pouco menos de R$ 120. Fizemos, as duas, o tal novo registro depois de bastante insistência - e paciência - da Li Wei. Pois bem...

Hoje estava eu em casa me recuperando de uma gripe pós-férias, a Paula no trabalho, ouço batidas fortes na porta.

– Deng yi xia, deng yi xia (等一下,等一下) - gritei eu, num esforço pra tentar dizer um "espere um pouco".

Em vão. Batidas incessantes até eu abrir a porta e dar de cara com quatro guardinhas uniformizados como este aí de cima. Pronto! Não é que eles vêm mesmo pedir os documentos? Chegaram perguntando se havia mesmo duas brasileiras morando aqui, onde estava a outra, eu perguntando se alguém falava inglês, um deles dizendo que sim e continuando a falar chinês, pois meu chinês era muito bom, segundo ele.

Educadamente, convidei os quatro homens da lei para entrarem, caso quisessem, eles disseram que não, catei meus documentos, olharam, conferiram os dados, cruzaram com outros que tinham impressos em uma folha de ofício, agradeceram e foram embora. Não sem antes eu ter notado que o guardinha que falava comigo e supostamente saberia inglês, tremia como vara verde. Achei estranha a situação matinal! E, sabem, me deu um certo alívio. Se tivessem vindo há poucos dias, teria sido a maior confusão: estava hospedando três irmãos aqui... Imaginem a confusão pra explicar por que aquele bando de estrangeiro não estava cadastrado e a multinha ainda a pagar.

Bom, a foto de cima

O registro captado pelas lentes do fotógrafo Duan Zhuoli, da agência Xinhua, mostra um policial conversando com trabalhadores migrantes nas proximidades da estação de trem da cidade de Hefei, na província chinesa de Anhui, em janeiro de 2006. Estava explicando sobre políticas e regulamentações sobre leis de trabalho e emprego. O período, pré-Ano-Novo chinês, é considerado propício porque no feriado muita gente volta para casa. Logo, há muitos trabalhadores migrantes nas estações buscando os bilhetes ferroviários.