terça-feira, 31 de março de 2009

1º de abril ou pirataria de pandas?

O panda é lindo, poderia dizer Caetano, né não?

Na real, Caetano e a torcida do Flamengo do mundo inteiro acham o panda fofinho. Os bichos em preto e branco, no entanto, desempenham papéis muito mais relevantes do que apenas transformar adultos em crianças e crianças em criaturinhas enlevadas pelas bolinhas blase de pelo chinesas. Pandas têm função diplomática também.

Quer ver o caso de Taiwan? Há três anos o governo chinês ofereceu um casal dos ursos ao zoo de Taipei. Mas durante a gestão de Chen Shui-bian, não houve conversa. Em maio, quando Ma Ying-Jeon, visto com mais simpatia por Beijing e tido como um concilidador nos temas espinhosos para os dois lados do estreito, resolveu aceitar o mimo.

Pois bem, em dezembro, Tuan Tuan e Yuan Yuan chegaram a Taipei. O gesto do governo chinês, que já se estendeu a países como Austrália, Japão e Estados Unidos, pega superbem. Os bichos estão em extinção, estima-se que haja pouco mais de 1,5 mil exemplares vagando à procura de bambu por aí. Um dos motivos para a escassez de pandas residiria no parco apetite sexual da espécie. A fêmea entra no cio de dois em dois anos e o panda macho é macho, mas parado que só. Além de demorar pra tomar uma iniciativa, parece que não é lá muito criativo e só faz um sexo preguiçoso e na mesma posição sempre. Acho que as pandas tão querendo uma renovada, sei lá, e se fazem de difíceis.

Pois esse não seria o comportamento da dupla Tuan Tuan e Yuan Yuan, cujos caracteres juntos (tuan e yuan) significam união. Parece que eles gostam de se unir bastante, segundo reportagem de hoje do jornal taiwanês Taipei Times. A responsável por eles no zôo, Connie Liu, disse que eles são tão ativos sexualmente que chegam a constranger pais e crianças. Panda é panda, mas o sexo dos pandas não seria tão fofinho assim.

Opa, o problema é justamente esse. Ser ou não ser panda, eis a questão. A reportagem diz que os pandas não são pandas, mas ursos selvagens de Wenzhou, outra região aqui da China. Seria primeiro de abril? A reportagem, eu digo. Não me passa pela cabeça que Taiwan teria recebido pandas falsos.



Ainda segundo a reportagem, o casal teria sido tingido, e agora os pêlos estariam aparecendo. Os pêlos marrons. O texto diz que o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Qin Gang, teria manifestado, por meio de um comunicado, que o governo chinês "espera que os amigos de Taiwan gostem dos raros ursos de Wenzhou dados como presente". Como não sei procurar muito em chinês, não achei este comunicado.

Mas, sério, tou custando a crer. Não seria por demais arriscado presentear ursos falsos justamente quando se trata de um mecanismo diplomático para aproximar regiões? O Taipei Times compara o escândalo ao do leite em pó contaminado por melamina, que deixou mais de 300 mil bebês doentes, a maioria com pedras nos rins, e provocou duas mortes.

Eu ainda tou pra ver se não é uma bela história de 1º de abril. Se for verdade, é a mentira mais legal dos últimos tempos.

**

A foto eu roubei daqui.

O Rio Grande à minha volta

A semana está supergaúcha em Beijing. Nada a ver com China velha ou qualquer outra coisa.

Desde 15 de novembro, a calefação foi desligada na maior parte das casas - apartamentos funcionais dentro de órgãos governamentais ainda mantêm o aquecimento. Assim, passo frio dentro de casa, pois a temperatura está ou próxima ou abaixo de zero. Igual aos tempos dos rigorosos invernos gaúchos, cujas pendengas eu já havia esquecido. Ai, como é chato ter de tomar banho tiritando de frio e como é difícil sair de manhã do quentinho das cobertas.

Pra completar o clima sulino, um passeio até Osório, a terra do vento. Aqui, março se encarrega de trazer a ventania.

Pronto, não bastasse ir de mochilinha pra aula, agora sim me senti na adolescência. Fiz o Segundo Grau, que agora seria chamado de Ensino Médio, em Osório, que se acha a metrópole cosmopolita do Litoral Norte.

Aliás, já que estou falando de Rio Grande à minha volta, vou voltar aos tempos do colégio. Em Osório, estudei no Marquês de Herval, escola cenecista e pá. O corpo docente tinha uma sensiblidade super no que diz respeito a integrar os alunos que não eram da cidade. No meu primeiro ano, havia a turma A para alunos do Marquês, a turma B, para outros estudantes da cidade, a turma C, para adolescentes dos arredores, como Santo Antônio da Patrulha e Tramandaí, e a turma D, para o resto dos caipiras. Sim, a gente era chamado de caipira pelos colegas - e, a meu ver, com aval deste sistema ridículo da escola. Eu era de Terra de Areia, tinha vários colegas de Palmares do Sul.

Fui chamada à direção apenas duas vezes. A primeira ocorreu quando a escola resolveu implementar a obrigatoriedade do uso do uniforme. Calça azul, camiseta branca. Eu morava em Terra de Areia e pegava (e pagava) ônibus todo o dia, num trecho de uma hora para ir, outro tanto para voltar, enfrentando a BR-101 congestionada, esburacada e perigosa. Chego com um logotipo de uns 5cm bordado em branco sobre a camiseta branca. E não pude assistir à aula, sequer entrar na escola. Fui levada à diretoria para dar explicações. Uma boa aula aos 14 anos sobre como micropoderes sobem à cabeça, como a sociedade é instransigente e como o ser humano é patético. Claro que uma semana depois caiu a lei do uniforme e dava pra ir de roupa de escola de samba, se eu quisesse. Minhas aulas, meu tempo e meu dinheiro perdidos ninguém nem tchuns.

A segunda vez, depois de ter passado quase três anos invisível para a trupe de colegas da metrópole e a direção da escola (mas não para alguns professores de Português, Matemática e Física, graças!), foi quando eu passei num vestibular da UFRGS para Letras, acho que em 95 ou 97, talvez 94, nem lembro. Claro que nem apareci, né.

Humpf.

Era só pra falar do frio. Mas frio me deixa de péssimo humor mesmo.

Ir para voltar

A China com doçura e poesia em prosa estrangeira tem endereço: o blog El Espigado, escrito com maestria pelo crítico literário espanhol Miguel Iglesias, o Miki. O guapo está de passagem por aqui, aliás com data para acabar, a próxima quarta-feira. Se você não tem preguiça de ler em espanhol, eu fortemente recomendo o clique.

Miki veio para a China morar com a namorada Teresa, que trabalha na Universidade de Pequim, a Beida para os mais íntimos do apelido chinês (formado pelas iniciais das duas palavras que compõem o nome, Beijing Daxue, ou como disse, Universidade de Pequim). Ela ainda cumpre o contrato por mais um tempo, regressa à Espanha e, depois, há planos de o casal vir morar por aqui. Eu fico torcendo.

Vi a Teresa três vezes, o Miki, duas. Não é preciso mais do que 10 minutos para perceber que conversar com a dupla será sinônimo de diversão, troca de informações e discussões diversas que vão desde o mundo chinês ao universo literário e à condição feminina. Passando por muitas outros temas, asseguro.

A conversa flui, o ritmo é bacana e as impressões são bárbaras. Miki, além de falar, escreve. São textos longos, mas tão delícia que você nem percebe, lê e ainda sente vontade de comentar no final. Para quem se convenceu, deixo aqui o link do meu texto preferido até agora.



La imagen és también de Miki, qué, no contento em solo escrivir com maestria, maneja muy bien las tecnicas de la fotografía. Esta es de Tiananmen, enero de 2009.

E, sim, entender espanhol não tem nada a ver com falar, como vocês perceberam.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Hora do Planeta



Às 20h30min deste sábado acontece a hora do planeta, um evento simbólico em que governos, empresas e população são convidados a apagarem as luzes para demonstrar a preocupação com o aquecimento global.

Aqui em Beijing, as luzes do Ninho de Pássaro, o estádio símbolo da Olimpíada do ano passado, serão desligadas. Vários bares e restaurantes também aderiram, oferecendo jantares à luz de velas e por aí vai. A maioria dos hotéis cinco estrelas da capital chinesa irão ficar na penumbra. Apenas dentro dos quartos a energia será mantida, para aqueles que não estão nem aí, não sabem ou esqueceram.

Você que leu este post não tem desculpa, apaga a luz!

Falar em apagar, quem anda apagado, com ou sem energia, é o próprio Ninho. Aqui, um post do Raul Lores, correspondente da Folha de São Paulo em Beijing, sobre o estádio.

A foto é minha e foi tirada nos saudosos tempos olimpícos.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Crise no mercado asiático

Eu tentarei fazer graça sobre esta história, mas eu acho triste, na real.

O Shanghai Daily, que é um jornal de Shanghai de controle estatal, traz hoje uma matéria cujo título é "Homens estrangeiros nem tão atrativos". Trata-se de uma pesquisa sobre que tipo de marido as chinesas querem. A baixa popularidade dos estrangeiros, segundo a reportagem, começou depois da crise financeira mundial.

Antes, as mulheres dispostas a casar com estrangeiros na China chegavam a 42,5%, número que caiu para 16,8% agora, na comparação com setembro do ano passado. Aliás, agora os chineses são a primeira opção para 68% das donzelas amarelinhas, ante 53% de há poucos meses.

Fiquei passada com a notícia. Ainda mais neste país, onde a prostituição é proibida.

A matéria fala, claro, que não é uma questão de caçar marido rico. A preferência pela prata da casa se daria porque os locais têm a cultura de economizar dinheiro, enquanto os estrangeiros não estão muito aí para poupança (eu diria, num ataque de irritação, que realmente os que casam com chinesas não estão aí mesmo para poupança, mas isso é outra história). E depois vêm com este papo de amor. Ahan. Antes os chineses não poupavam, então?

Tá, sem generalizar, não posso ficar braba com a pesquisa, que talvez nem refleta o que pensam todas as chinesas, mas se eu encará-la com um pouco de seriedade, ela põe por terra a simpatia que procurei ter em relação aos casais compostos de chinesas e estrangeiros.

Na vida real, urbana, no dia a dia e nos bares, restaurantes e afins de Beijng, cidade onde eu moro, é supernormal ver chinesa com estrangeira. De um modo geral, o diagnóstico para o fenômeno é que as chinesas vêem nos homens ocidentais um meio de terem um passaporte - literalmente - para o mundo, além de grana. Nos meus dias de bom humor, eu costumo pensar que é bem mais do que isso. É encontrar um companheiro que esteja mais aberto às expectativas e desejos do universo feminino, o que pode incluir questões que vão do sexo à maternidade e à vida profissional. No ocidente somos menos reprimidos, os homens são mais abertos, o que torna os casais mais amigos, algo nesta linha. Pô, seria de se respeitar que algumas chinesinhas não dessem nem bola pras diferenças culturais e fossem construir suas vidas matrimoniais com gente que nem fala a língua delas.

Aí vem a tal pesquisa pra dizer que não, a escolha do parceiro tem a ver com grana. Isso me faz pensar que tem muita mulher que nasceu pra ser submissa mesmo. Neste balaio, estariam aquelas que querem alguém que lhes garanta um futuro confortável. Me poupe! Pois outra pesquisa envolvendo chinesas que ganhou o mundo indica que os ricos dão mais prazer às mulheres. Numa sociedade socialista, comunista, pelo visto dinheiro compra até orgasmo. Quem diria.

É, o texto não ficou por nenhum momento engraçadinho. Mas é tão triste ver a escolha de uma vida que tem a ver com seu cotidiano, seus filhos e sua família ser orientada por dinheiro. Aff

quarta-feira, 25 de março de 2009

Filme chato

No final do ano passado, descobri que Shanghai Baby, o filme, havia sido lançado na Itália. Fiquei curiosa. Havia lido a obra da chinesinha Wei Hui - o filme é baseado num livro - e ao encontrar o DVD graças à pirataria chinesa, fui assistir.

Tudo ruim, do início ao fim. O roteiro não colou, achei os atores ruinzinhos e, como disse o Bruno Porto num comentário no meu blog antigo, o China in Blog, o que mais se curte são as cenas que mostram Shanghai.

Eu total lembrei da viagem que fiz para lá com meus irmãos no ano passado. Há uma cena em que a Coco, a personagem principal, está dançando num bar e eis que este é o Zapatas, uma casa noturna bacana (e uma das únicas que conheço), um lugar onde estrangeiro pega chinesa. Acho que é assim, salvo engano. Alguém de Shanghai que me leia que me corrija.

A tal Shanghai Baby é vivida pela chinesa Ling Bai, expert em aparecer. Pena que ao aparecer na tela, nem sempre convence. No ano passado, a mocinha sugeriu um sexo a três interessante, com a Angelina Joelie e o Brad Pitt. Até eu proporia, você não? Não sei se a Ling Bai levou.

Talvez o talento da Ling Bai tenha ofuscado o do gato Gregory Wong, o chinês que contracena com ela, vivendo o pobre drogado artista frustrado Tian Tian. Ai, homem gostoso. Não achei uma foto do guapo pela internet. Que popularidade mais baixa.

terça-feira, 24 de março de 2009

Blog de luto



O chef paraibano Valdenir Augusto de Souza, o Paraíba, 35, morreu na noite desta terça-feira em Beijing, vítima de um acidente de moto. Paraíba morava na China desde 2004, quando veio para cá trabalhar no restaurante Alameda, de cozinha brasileira, com inspirações múltiplas, fusion cuisine. O toque de Paraíba deu tão certo que o restaurante foi eleito o melhor de Beijing por três anos consecutivos e até hoje, se quiseres provar, a dica é reservar.

Conheci o Paraíba logo que cheguei aqui, em 2007, e ele era figurinha fácil. Boa pinta, bom papo, não era difícil parar para dois dedos de prosa. Num destes dias, ele contou um pouco sobre a vida.

Adolescente, foi pro Vale do Paraíba (em casa, praticamente), em São Paulo, para tentar uma vida melhor, fugir das condições financeiras ruins que tinha em Cajazeiras, onde nasceu. O primeiro emprego foi numa quitanda. Ali, tirava uns trocados, mas bem pouco. De tanto vender verdura em porta de restaurante, um dia foi convidado pra trabalhar como ajudante de cozinha. Foi. Uns trocos a mais fariam diferença.

Paraíba tomou gosto pela coisa e de ajudante passou a chef e como chef passou a ser reconhecido em São José dos Campos. Foi por isso que, em 2004, seria convidado para uma aventura chinesa, caminho que fez sem medo e onde garantiu sucesso, tranquilidade financeira e amigos. A saudade é que incomodava. Uma vez por ano, ia ao Brasil ver a mulher e o filho, além do restante da família.



Aqui, deixo o link de uma entrevista de Paraíba para a TV Estadão, na época da Olimpíada. Naquele dia, fui ao Alameda com os amigos Nilton Fukuda, Daniel Piza e Felipe Machado. O Felipe tratou de entrevistar o Paraíba, que fez bonito no vídeo. Confiram.

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As duas fotos deste post são do arquivo pessoal do Paraíba, da página dele no Orkut. Creio que ele não vai se importar. Todo orgulhoso de seus experimentos culinários, deixo aí um peixinho de dar água na boca. A primeira imagem é da equipe na cozinha do Alameda.

103 em um



Esta eu roubei do blog gracinha Y a ti que te han contado?. Trata-se de um quadro chinês de 2006, dos artistas Dai Dudu, Li Tiezi e Zhang Anjun. Pois os três observam outras cem celebridades na tela Debatendo a Divina Comédia com Dante.

Mesmo que já tenha três anos, somente agora o quadro está ganhando a atenção na internet chinesa. Tem brasileiro por ali, e é o Pelé. Ele está bem perto do Cui Jian, o pai do rock chinês, e único entre os tais personagens de quem já cheguei perto. A foto mais abaixo confirma.

Gao Yun, autor do blog de onde peguei a história, chama a atenção pra um detalhe curioso. Enquanto o Bush fica observando o Saddam de longe, não percebe que o Obama está às suas costas. Tem um link para um site de uma santa criatura que mapeou todas as celebridades e ainda colocou um link para as respectivas páginas da Wikipedia. Adorei uma dúvida cruel que assaltou o bom moço: Noé ou Darwin, se pergunta ele sobre um dos personagens.

Para quem não quis brincar de adivinhar os nomes - o que pode ser bem divertido e você tem mais uma chance se parar de ler agora -, seguem os nomes. Mas vários ainda geram controvérsias. Aliás, é possível sugerir correções ao dono do site cujo link eu postei acima.



Não chineses

Dante, Arquimedes, Bill Gates, Lenin, Pelé, Tutancamon, Hitler, Mussolini, Saddam, Chopin, Hepburn, Ford, Charlie Chaplin, Bethune, Gorky, Pushkin, Charles de Gaulle, Paul, Bill Clinton, Pedro, Matisse, Margaret Thatcher, Winston Churchill, Roosevelt, Ernest Hemingway, Elvis, Stalin, Da Vinci, Marx, Engels, Goethe, Nietzsche, Robert Caro, Shakespeare , Mozart, Napoleão, Che Guevara, Fidel Castro, Marlon Brando, Yasser Arafat, Monroe, Washington, Lincoln, Marie Curie, Rodin, Picasso, César, Osama bin Laden, Bush, Luciano Pavarotti, Dali, Jordan, Sharon, Chennault, Charles, Kofi Annan, Mikhail Gorbachev, Hideki Tojo, Madre Teresa, Michelangelo, Bismarck, Nobel, Tagore, Rousseau, Van Gogh, Eisenhower, Lautrec, Corneliu Baba, Gandhi, Noé, Einstein, Tolstoy, Hans Christian Andersen, Spielberg, Shirley Temple, Tyson, Vladimir Putin, Juan Antonio Samaranch, Freud, Isabel II.

Chineses

Mao Zedong, Zhou Enlai, Deng Xiaoping, Confúcio, Laozi, Li Bai, Sun Yatsen, Chiang Kai-shek, Qin Shi Huang, Genghis Khan, Cixi, Song Qingling, Mei Lanfang, Run Run Shaw, Lu Xun, Lei Feng, Guan Yu, Liu Baishi, Qi Baishi, Bruce Lee, Liu Xiang, e Cui Jian.

Sem Youtube

De quais sites você, meu querido leitor, depende para viver?

Se depender de Youtube, estarás com problemas por estes dias na China. O portal foi bloqueado, sem motivo aparente. Poderia ser por causa de protestos envolvendo tibetanos no Tibete e mesmo em outras regiões chinesas, como Qinghai e Sichuan. Ou devido a vídeos sobre o embróglio envolvendo norte-americanos e chineses no Mar do Sul da China.



Fato é que ninguém sabe ao certo por que não temos Youtube por aqui nestes dias - senti falta nesta segunda-feira, 23 de março. Esta foi a segunda queda no mês de março, obra do Great Firewall of China (um trocadilho para Great Wall of China, ou a Grande Muralha).

Pois o GFC, como é carinhosamente chamado pelas próprias vítimas que vivem por aqui e o mecanismo mais popular no exterior, não é o único sistema de controle sobre o que passa e o que não passa na internet de cá. Ele consiste em bloquear sites e portais inteiros, como o caso do Youtube, mas somente para os internautas que estão dentro da China continental (e que não possuem um endereço de IP falso, como um norte-americano, que engana o controle).

Claro que quando ocorrem estes bloqueios em megaportais, há apenas alguns conteúdos que incomodam, mas se toma a parte pelo todo e se derruba o acesso. Simples assim. Era isso o que ocorria com todos os blogs hospedados no Blogpost, por exemplo, que ressuscitou no ano passado, ou no Wordpress, que apareceu como um milagre na última semana. O GFC é um mecanismo sensível, que permite e bloqueia sites conforme o humor. O mau humor pode levar horas ou anos, o que me leva a crer que o GFC tem belas crises de TPM. PQP!

Ah, o GFC tem um quê de ironia. Na maior parte das vezes em que o acesso é bloqueado, ele tenta disfarçar a censura mostrando mensagens de erro que atribuem o fato a problemas técnicos na rede chinesa.

Hoje, os internautas chineses se referem mais à Net Nanny, uma espécie de babá virtual, mas com todas as características de governanta má. A partir do olhar inquisidor da Net Nanny, o que ocorre é até auto-censura, ninguém quer se expor demais. Auto-censura, neste caso, significa a não publicação de conteúdos. O conteúdo, assim, não é eliminado, ele simplesmente nunca vai ao ar. Logo, nem aí nem na China você verá o que poderia estar vendo caso não houvesse assuntos proibidos e sensíveis ao governo chinês, que age no mundo virtual por meio da Divisão de Gerenciamento de Internet do Departamento de Informação do Conselho de Estado.

Um terceiro mecanismo na web chinesa é a Manipulação de Mecanismos de Busca (SEM, na sigla em inglês para Search Engines Manipulation). Aqui na parte continental, o SEM esconde conteúdos, deixando alguns sites invisíveis. É o preferido de Nanny. Ouve o que a governanta má tem a dizer e harmoniza os resultados das buscas dos internautas de acordo com o que os internautas chineses podem ouvir e ler.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Calcinha

Deixei um comentário no clicRBS num post sobre calcinhas beges e a quantidade de gente que chegou aqui a partir do comentário é impressionante. Pelo visto, o povo gosta de saber quem veste calcinhas de bichinhos e que tais, segundo o comentário que deixei por lá. Engraçado. Aliás, talvez um dia devesse fazer um post sobre as calcinhas que encontro por aqui. Incompráveis. Sutiãs até que achei alguns, mas o que tem de inspiração barroco-renda-rococó, vou te contar...

Agora, espanto mesmo eu tive ao ler sobre o livro Zonas Úmidas, da "neofeminista" alemã Charlotte Roche. Pois a moçoila cai de pau na depilação, dizendo que a moda virou obsessão, e ainda sobra pra gente, pobres brasileiras, tão adeptas deste costume. Segundo Charlotte, ela gosta é de sair de calcinha furada e passar gotas do líquido vaginal como perfume.

Eu sinceramente me pergunto o que isso tem a ver com feminismo. Parece uma atitude punk-mulherzinha com características de autoajuda para quem ainda não se encaixou no universo amoroso se encontrar. Ou até para quem já se encaixou. Algo como: na era das mulheres com independência financeira, deixem-nos também sermos independentes para não nos depilarmos, arrumarmos e perfumarmos. Sério, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Será que eu, aos 31 e com calcinhas de bichinhos, também poderia lançar um manifesto feminista? Ou deveria apenas continuar a usar o que mais me convém porque é assim que considero o mundo como mundo, um espaço para as minhas escolhas - e a das outras pessoas também?

Falando em depilação, o post logo abaixo conta sobre o espanto do portuguezinho Pero Vaz de Caminha ao ver as índias brasileiras totalmente sem pelos pubianos. No texto de 1500, ele manda um recado para as portuguesas: que aquelas, as européias, tivessem vergonha de tanta cabeleira. Pois mais de meio milênio se passou e tem gente que ainda não aprendeu. Só falta completar com calcinha bege furada.

Ele voltou

Alexandre Almeida vem e volta do blog (dele), e a cada vez que volta, eu adoro. Hoje ele nos brinda com dois textos gigantes e adoráveis. Um deles caiu como uma luva, reproduzo o trecho aqui, sobre uma discussão surgida nos tempos do mestrado:

"Dizia-se que quem vem à China por um mês pode escrever um livro; quem vive cá um ano pode escrever um artigo; quem vive dois anos, pode escrever um parágrafo; e quem estuda a China durante muito tempo não consegue escrever nada. Estou a sentir esse processo no sangue".

Bueno, ele cá está há sete anos, talvez quase oito, e pode até sofrer o tal processo no sangue - como nós, brasileiros, talvez sentíssemos na carne. Mas a cada vez que arregaça as mangas e conta experiências no blog, deixa um pouco a impressão de que a tal discussão tem seus quês de verdade, mas tantos e tantos outros quês de mentira.

Impossível não se surpreender com a China e eis aí o material farto para quem transforma uma primeira olhada num relato escrito. São tantos os contrastes que fica difícil para o observador atento e talentoso fugir do desejo de escrever. Pensando no Alexandre e nos portugueses, parece-me que a única dica para este panorama fragmentado e fugaz (estou levando super a sério a coisa de um mês de China) vem de outro português, o Pero Vaz de Caminha, o gajo que se encarregou de escrever a Portugal o que recém haviam descoberto no que ainda não era Brasil, mas Terra da Vera Cruz.

"Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu", advertiu Caminha à Vossa Alteza, Dom Manuel I. Uma reprodução do documento original você vê aqui embaixo.



O fenômeno chinês, no entanto, é visto por mim de outras formas. Por mais efêmera que seja a passagem aqui, um visitante curioso se traveste de sinólogo, esquecendo-se de que, apesar da boa vontade, traz consigo enormes ignorâncias. Caminha explica que não quer alindar nem afear, e vai contar o que vê e o que pensa. Pois outro fenômeno dos sinólogos de ocasião, segundo prisma pelo qual vejo e percebo, esquecem-se de se apropriar deste pedaço de mundo a partir das suas próprias sensações e tornam a papagair mitos e preconceitos em relação aos chineses em suas próprias línguas, com toques ora mais irônicos, ora mais sóbrios, ora mais relaxados. Mas quase tudo, repito, já dito.

O que se repete? O estranhamento causado pelos molhos, sabores, temperos e ingredientes da culinária chinesa, das peculiaridades dos hábitos cotidianos chineses e das implicações políticas e socioeconômicas vividas pelo país após a fundação da Nova República pelo Partido Comunista da China, em 1949. Partem-se destes olhares para dar um giro de 360°e voltar ao mesmo lugar. E pronto, temos o livro.

No fim, parece-me, muitas vezes variações sobre o mesmo tema - e isso pode se aplicar a blogs, pílulas de futuros livros, salvo exceções, óbvio. Talento está aí para isso. Para mim, no entanto, dose de talento com base e conhecimento de causa garante uma fórmula certeira para uma análise interessante, um discurso mais profundo e maduro. Eis aí porque gosto de ler o Alexandre, eis porque adoraria lê-lo com mais frequencia.

Aliás, imagino que você também gostará, então se perdeu a oportunidade lá em cima, deixo aqui novamente o link. Não sem antes brindá-los com o espanto - e a ironia - do nosso distante Caminha, ao falar sobre as índias que encontrou no Brasil.



"Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.



E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela".



As fotos são do Mário Vilela, da Funai. Aliás, a marca d'água ridícula em cima das fotos lindas já denuncia que as imagens são da Fundação Nacional do Índio.

Quando eu amo o Google

Coloquei duas agendas na barra da direita do blog, uma com eventos aos quais gostaria de ir aqui na China e no Brasil. Estão separados por país e respeitam o fuso horário local.

O mais legal é que o Google acha o mapa dos locais. Das três inserções que fiz até agora, todas estavam corretas. Que tudo.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Febre de Quizz

Ali no facebook, existe uma febre danada por Quizz. Eu fiz vários e achei a maioria superengraçado.

Começamos bem. I'm Still Standing, do Elton John, é a minha música. Desliguem o rádio, plis! Se eu fosse um personagem da Disney, seria a chinesinha Mulan (pra ir até as últimas consequências lutando pelo meu amor).

A Mulan, no caso, teria nascido na Noruega, falaria espanhol e morarai em Seatle.



A favor da coitada romântica que tem de suportar Elton John nos ouvidos, está o fato de ela estar entre os 5% top top na hora de fazer sexo. Se fosse uma estrela sexy, ela seria Audrey Hepburn, devido à doçura e à delicadeza. E, bueno, a belga era também lembrada pela elegäncia, o que muito me agrada. Aliás, a Audrey fora das telas é encantadora, visite o site oficial pra saber mais.



Sexo, açúcar e romantismo misturados transformaram nossa Mulan sino-latina em Hamlet, caso ela fosse um personagem de Shakespeare. Indecisão, ser ou não ser... Como profissão, a que melhor se apresenta é o cargo de presidente. Simples assim.

Bueno, talvez não seja fácil chegar lá, pois poucas pessoas conseguem descobrir o caráter inventivo que existe em Mulan, porque, caso fosse uma figura histórica, ela seria Leonardo Da Vinci.

Adorei a descrição do homem que vai despertar a Mulan romântica em mim:

Meu coração pertence a alguém com ritmo

Meu futuro amor deverá ser alguém com talento. Alguém que possa driblar a falta de tempo pra fazer esta relação funcionar. Eu e este cara temos algo de realmente importante nesta vida em comum.


Que lindo, adoro talento e criatividade. E ritmo é comigo mesmo.

Pra encerrar este post, adoto um que de noruguês, aproveito a deixa musical britânica para mostrar algo de bom feito por aqueles pagos para contar uma história de romance - mas nada tão grave assim. Norwegian Wood, by Beatles, com vocês.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Misture chá com demônios e garfos no armário

Hoje meu sono me impediu de ir à aula de mandarim, mas não de aprender um pouco mais. Era dia de empregada, então às 8h lá estava ela a apertar a campainha, lá estava eu a abrir a porta. Resolvi voltar para a cama e ela perguntou se eu não tinha aula de chinês. Eu disse que tinha, mas não iria.

- 逃课! - Ela me disse, e estaria escrito assim, caso tivesse legenda. Como não tinha, o som ficou assim: táokè.

Como sabia que 课 (kè) significa aula, não precisei pedir muito dos meus dois neurônios sonolentos para adivinhar que se tratava de matar aula. Pois assim foi. Matei.

Pelas 10h, levantei lépida e faceira e fui fazer meus temas, escrever em chinês à mão, o que é 特别难. Sim, é especialmente difícil e a gente lê "tèbiénàn". Pois tema faz, tema não faz, conversava eu com a Yu, a empregada. Ela também vai à casa de outra amiga minha, a Noha, que fala um mandarim num nível ainda mais baixo que o meu, mas fala.

Quer ver um exemplo de como fala? A pobre da Noha dia desses foi a um restaurante comigo, comida de Yunnan, altamente recomendada, e chegando lá, quis beber um chá. Não precisa ser nenhum gênio, caso more na China há uns poucos meses, pra saber falar:

- 我要茶 (wǒ yào chá) - que quer dizer eu quero chá.

Ela foi até o garçom, pediu e voltou à mesa com cara de quem não tinha se feito entender. Explicou que foi difícil e tudo o mais. Foi impossível, eu diria. Chega o garçom com três garfos (éramos três estrangeiras na mesa). Como assim? Explicação facinha.

A palavra para garfo é chàzǐ (叉子), a de chá é chá (quase igual ao português, mas aqui a gente pronuncia o ch quase como fazemos com o gauchíssimo tchê - daí você entendeu que é só substituir o ê pelo a, né - e grafamos a palavra assim 茶).

O chinês não teve dúvida. Sente a equação

Estrangeiro + cha = garfo

Por que

- Estrangeiro não sabe comer de palitinho

- Estrangeiro não é acostumado a beber chá

Ainda que a Noha, caso quisesse garfo, tivesse esquecido da sílaba zi de chàzǐ, a palavra que designa garfo em mandarim, somente poderia ser esse o objeto que ela queria. E ficamos a falar mal deste condicionamento que sentimos muito por estas bandas, este pensamento tão reto, direto, sem uma nuance diferente que tantos chineses têm.

Em defesa dos donos da casa onde estou, posso dizer que muitas vezes não olhamos pro nosso próprio umbigo. O mandarim é cheio de peculiaridades. Dia desses comentei que os tons eram uma das características mais cruéis da língua. Pois há outras encrencas, uma das quais atende pelo nome e sobrenome de Palavras de Medida. Em geral, antecedem o substantivo e indicam sobre o que estamos falando. Cachorros, automóveis, copos e garrafas têm palavras distintas que combinam com elas.

Caso a Noha tivesse usado uma destas palavras de medida, não haveria confusão entre o objeto de desejo dela. Ela disse apenas

- 我要茶. Eu quero chá, apesar de não ter ficado claro que chá.

Se tivesse dito

- 我要一杯茶 - de cara o garçom teria entendido. Wǒ yào yī bēi chá significa Eu quero um copo ou xícara de chá.

ou

- 我要一壶茶 (Wǒ yào yī hú chá)- ele teria sabido direto que ela queria uma chaleira de chá.

Falamos mal deste pensamento estreito, mas esquecemos de pensar que nos expressamos mal na língua de quem nos acholhe.

Voltemos à Yu, nossa empregada. Ela estava achando engraçado porque da última vez em que foi à casa da Noha, sugeriu que uns cobertores que estavam pela casa fossem guardados no armário, porque o verão está chegando.

- 放柜子里边, ou fang guizi libian.

Pois o guizi do meio, que significa armário, 柜子, não foi compreendido pela Noha. Ou melhor, foi, mas de um jeito totalmente ao contrário. Nós, estrangeiros, além de não sabermos falar os tons, não sabemos perceber as diferenças ao ouvi-los. A Noha xingou a empregada, sem entender do que ela falava, dizendo que guizi era uma palavra muito feia, usada para maldizer os estrangeiros, segundo um colega de trabalho havia explicado. Não estava totalmente errada, pois estava pensando em 鬼子, também guizi, mas cuja pronúncia se dá no terceiro tom, e não no segundo, do caso do armário. O guizi em que a Noha estava pensando tem como tradução demônio.

O 鬼子, guǐzǐ, esteve muito tempo associado à palavra estrangeiro (老外, ou laowai). O demônio estrangeiro, então, era o 鬼子老外. A pobre Yu tentou explicar que guìzǐ não era guǐzǐ, mas se em português nem sempre a gente consegue explicar que focinho de porco não é tomada...

Ainda segundo a Yu, é assim. Hoje, os chineses não tratam mais estrangeiros por demônios, a convivência está muito mais tranquila. Segundo ela, principalmente porque tudo o que um demônio estrangeiro tem, um chinês também pode ter. Com a abertura do mercado e a concorrência, tem gente pobre, gente rica. Então dá pra invejar tranquilamente o vizinho e patrício, o olho gordo não é mais atributo exclusivo internacional (internacional, levando-se como ponto de vista o dos chineses, claro).

Mas, claro, a Yu esclareceu que tem um tipo de estrangeiro que ainda é demônio por aqui. A cada vez que eles falam 鬼子, provavelmente estarão se referindo aos japoneses - os 日本鬼子. Abaixo, reproduções dos uniformes dos soldados e oficiais japoneses na China nos anos 1930.



Tanto ressentimento não é gratuito. Apenas na história recente, entre os anos 1930 e 40, a ocupação japonesa na China deixou marcas, como a tomada de Nanjing, quando teriam morrido 300 mil chineses.

Aqui, reproduções do que seria parte das Forças Armadas chinesas à época.



O governo japonês até hoje não reconhece atrocidades na guerra e por lá, livros didáticos tratam o caso como incidente, mas jamais revelam abusos, como mortes em série em pelotões de fuzilamento, estupros e torturas.

Aliás, já que o clima ficou pesado, há um livro interessante sobre o caso de Nanjing, o Rape of Nanking (capa reproduzida abaixo), ainda sem tradução para o português. A escritora sino-americana, Iris Chang, cometeu suicídio após concluir o trabalho.



Bueno, acho que faltei à aula, mas tive uma manhã de belos aprendizados, não?

Greta Garbo à chinesa

Pouca gente sabe quem é Ruan Lingyu (院玲玉), considerada uma das maiores atrizes chinesas, ainda que tenha atuado por cerca de apenas 10 anos, em filmes mudos dos anos 1920 e 30. Eu integrava a turma dos ignorantes a respeito de. Conheci a moça no painel Comparando o Campo de Atuação, Filmes Asiáticos e o Ocidente, com o crítico de cinema e diretor escocês Mark Cousins, que ocorreu na Bookworm, o melhor lugar pra estar antenado aqui em Beijing - na minha modesta opinião, claro.



Lingyu nasceu em Shanghai em 1910. Foi ali que morreu, aos 25 anos, após uma ingestão exagerada de remédios para dormir. O suicídio teria ocorrido porque, além de ter uma vida amorosa conturbada, ela seria vítima das fofocas da mídia da época. Não que as pessoas se matem hoje em dia por causa disso, mas bisbilhotar a vida das celebridades ainda ocorre. Canseira.

Lingyu era a queridinha do cinema na China - e como Cousins disse, nos anos 30, Shanghai e Tokyo viviam épocas de ouro. O cortejo da atriz, dizem os registros, reuniu milhares de pessoas. Três garotas teriam também cometido suicídio durante o funeral. O jornal New York Times deu na capa a história, dizendo que era o maior cortejo do século.



Até hoje Lingyu é lembrada por quem entende de cinema - em Shanghai, um monumento homenageia a atriz, já que a lápide em si foi destruída durante a Revolução Cultural. Ela é considerada uma lenda, um patrimônio da cultura shanghainense.



Goddess (神女), de 1934, é considerada uma das melhores atuações da chinesa de origem cantonesa (e é um trecho deste filme que você pode assistir logo abaixo).



Cousins compara Lingyu a Greta Garbo e se pergunta por que o Ocidente não conhece a mocinha dos olhos puxados. Sabem, mesmo aqui se conhece pouco da história do cinema. Em qualquer loja de DVD ou camelô de rua, se encontra uma gama sem fim de últimos lançamentos nacionais e do mercado internacional. Agora, filmes mais antigos, prata da casa, quase nada.

***

Bueno, mas depois de falar um pouco da diva do cinema (mudo) chinês e mostrar algumas fotos da bonitinha, deixo com vocês um pouco sobre o Cousins.

Todos os meses, ele escreve artigos sobre cinema na revista britânica Prospect. Neste, de 2004, ele fala especificamente sobre as produções da Ásia e conta, claro, a história de Lingyu (mas é tudo em inglês). No ano passado, ele foi curador da mostra internacional de documentários no 13°Festival É Tudo Verdade. Escolheu 10 filmes que "Mudaram o Mundo" e justifica os eleitos neste texto, mal traduzido para o português. Achei a linguagem chaaaata.

De qualquer forma, ele afirma o que depois eu vi reafirmando ao vivo, que filmes podem ser, sim, instrumentos de educação e informação, por meio dos quais as pessoas podem aprender sobre uma sociedade, comportamento, cultura, etc - mesmo quando estes não têm qualquer traço documental, já que aqui em Beijing discutíamos mais as obras ficcionais. Cousins arrancou gargalhadas as dizer quem nem sempre é preciso ler livros para se manter informado - e se desculpou por estar dizendo isso justamente dentro de uma livraria que promovia um festival literário para o qual ele havia sido convidado. :p

Fato é que, segundo ele, ao ir mais fundo na ironia, disse que quem lê, lê para parecer mais inteligente, lê para conhecer mais, se tornar mais culto. Ao passo que quem assiste filmes, o está fazendo apenas como lazer. Aliás, superconcordo com estas perspectivas do moço escocês - que, pena não ter levado uma câmera para fazer uma fotita, vestia confortavelmente um kilt, aquelas sainhas escocesas com pregas e padrão xadrez. Cousins, cheio de estilo e várias teorias, também já se rendeu à escrita, que fique claro. Ele é autor do livro The Story of Film, sem tradução para o português.

***

Toque brasileirinho

O 14°Festival É Tudo Verdade ocorre agora, de 25 de março a 5 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O cachorro roqueiro tibetano que meditava



Zheng Jun (郑钧) é um roqueiro quarentão chinês (e gato, vai) que entre outras pérolas, gravou em mandarim uma versão para Yellow, a fofa música do Coldplay. Para quem ficou curioso, o clipe está no final deste post. Para quem aguenta esperar, vou contar outra história sobre o cantante, antes mostrando por que eu disse que o moço era bonitão - a foto foi roubada do blog dele, cujo link abre este post, mas está tudo em chinês, já vou avisando.



Zheng tem outras duas paixões, além da música: quadrinhos e animais. E parece que o moço é criativo. Juntou todas elas para criar o Tibetan Rock Dog, uma história bacana, cheia de referências pop e trocadilhos em chinês - esta parte eu perdi...

A história começa no Tibet, onde o mastim Metal (麦头) nasceu. Ele cresceu num templo budista, depois que os pais morreram ao tentarem proteger camponeses. No templo, o avô, que aprendeu a meditar e a falar a língua dos homens depois de alcançar o mais alto grau da yoga canina, ensina a Metal os segredos da meditação canina e sobre o inimigo dos cães, o lobo tibetano.



Eis que um rock star adota Metal e traz o cão para Beijing, onde ele forma uma banda de... rock. Ah, os cães iluminados, além de conseguirem conversar com as pessoas, também podem tocar instrumentos!

Zheng já anunciou que vai transformar a história - lançada pela primeira vez há quatro anos - em filme. Eu achei divertidíssimo e, sinceramente, espero que ele faça isso. Ele quer conquistar o mesmo sucesso de Kung Fu Panda. Bobo ele não é, né: E é gato, eu já disse.

Agora, vamos à banda do Metal:



Nas guitarras, Zorro (佐罗), um dinamarquês cujo dono é também dono de um estúdio de tatuagens

Nos teclados, iKey, um labrador viciado em internet, culpa do dono, que trabalha em uma companhia de TI

Na bateria, Vaisly (瓦西里), um rotweiller descendente de família de cães que conhecem artes marciais

Wangcai (旺财), um são bernardo vegeteriano. Ele deixou de comer carne depois de encher o saco porque vivia em um restaurante de churrasco coreano, onde os clientes sempre insistiam em comê-lo. No pior sentido. O que me fez pensar se este cãozinho talvez seja veggie

Dingding (丁丁), um shnauzer hábil em bater papo, que virou o produtor da banda

Vivian (薇薇安), a golden retriever namorada do Metal



**

Esta não é a primeira vez que Zheng usa a temática Tibet. Ele tem uma música chamada De Volta a Lhasa. Esta você poderá escutar após o vídeo e a letra em mandarim para a versão de Yellow, que entre os chineses ficou conhecida como Meteoro, ou 流星 (líuxīng).



流星

我想知道流星能飞多久
它的美丽是否
值得去寻求
夜空的花
散落在你身后
幸福了我很久
值得去等候
于是我心狂奔
从黄昏到清晨
不能再承受
情愿坠落在你手中
羽化成黑夜的彩虹
蜕变成月光的清风
成月光的清风
我纵身跳
跳进你的河流
一直游到尽头
那里多自由
我许个愿
我许个愿保佑
让我的心凝固
在最美的时候
情愿缀落在你手中
羽化成黑夜的彩虹
情愿不再见明媚的天
不再见明媚的天
幸福跳进你的河流
一直游到尽头
跳进你的河
我许个愿保佑
在最美的时候
我许的愿
我想知道
流星能飞多久
幸福了我很久

**
Agora, De Volta a Lhasa

terça-feira, 17 de março de 2009

Japa Jazz

Assim, lá pelos anos 1990 a japinha Monday 満ちる (que lemos Michiru) iniciou no Japão o movimento de jazz e até hoje vai num clima acid jazz, smooth jazz e por aí vai. Pudera, a moça respira jazz.

Ela nasceu em 1963, filha da pianista japa de jazz Toshiko Akiyoshi e do saxofonista Charlie Mariano. Verdade que ela ganhou notoriedade no cinema, ao estrelar Hikaru Onna, filme de 1987 - pelo qual foi premiada pela academia japonesa. Mas logo ela se voltou para a música.

Até em casa ela mantém a paixão. Hoje ela mora em Nova York com o marido, o trumpetista Alex Sipiagin. O som de hoje é You Make Me, o hit da japonesa. Gostoso para manhãs de sol.

O cabeleireiro e o taxista

Dia desses estava no cabeleireiro, o mesmo a que vou desde o ano passado, e ele perguntava o que eu andava fazendo, há quanto tempo não aparecia e outras cositas más. Aproveitando todo o meu chinês, disse que estava estudando bastante, havia passado férias no Brasil, motivos estes o do desaparecimento há cinco meses. E eis que ele desfila um rol de fonemas totalmente sem sentido para mim.

Digo que não entendi lhufas. E ele, claro e direto:

- É, realmente precisas estudar mais chinês.

Acabou comigo, o cara! Conversa vai, conversa breca, conversa vem, ele me disse que eu precisaria falar com as pessoas, ter amigos, para aprimorar meu mandarim. Eu disse que seria impossível, que não conseguia ainda formar frases com sentido, me fazer entender em mandarim.

- E nós dois estamos falando o quê? - perguntou o fofo Lu Wei, cujo nome ocidental é Vicky.

Não precisei pensar muito para dizer que era mandarim.

- Viu? - retrucou ele, emendando: tu sabes falar. E, aliás, eu sou teu amigo.

TRI FOFO! Ganhou a cliente pra sempre.

Pois hoje, dia de resgate da bicicleta, quem me fez feliz foi um taxista. A bici estava abandonada desde domingo em frente a um restaurante russo, o Moscow, porque havia furado o pneu de trás bem na hora em que eu estava atrasada para um painel sobre literatura chinesa na Bookworm. Depois da aula, fui buscá-la.

Primeiro, o moço taxista, 师傅 na linguagem oral - a gente lê os dois caracteres como shifu e o significado é mestre (vai dizer, no Brasil a gente também chama o capataz, o motorista, o garçom, todo o mundo de mestre, não é? Menção honrosa para os mestres que tiram um chope supimpa) -, foi o primeiro a concordar em botar minha bicicleta no porta-malas, mesmo que isso significasse ir com a tampa aberta. Em algumas situações, adoro as confusões e as permissões a que as pessoas se propõe no terceiro mundo.

Ele não sabia onde eu morava, expliquei mais ou menos e fomos indo. Quase perto de casa, quando eu disse a famosa frase, "na próxima sinaleira, à direita", ele soltou um superelogio, pelo menos pra mim, que estou tentando me mexer um pouco pra ver se deixo de ser gorda:

- Você pedalou até lá?

- Sim, o restaurante fica perto da escola onde estudo mandarim, vou todos os dias, de segunda a sexta.

Não expliquei que o pneu tinha furado no domingo, quando eu estava indo a um encontro literário. Meu chinês não permite. Mas pensando bem, tou orgulhosa da minha vida atleta e do pouco mandarim que já falo. Daqui a pouco, chegará a hora de fazer amigos. Que tudo!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cachorrada



O registro aí acima é de um simpático cachorrinho aguardando pacientemente a sua vez no açougue. Tirada no último sábado em um hutong na região de Houhai chamado Mianhua Hutong, guarda pra mim uma autêntica tortura chinesa.

Não, não pense que o bicho irá para a faca dentro em pouco, ele é um amado bichinho de estimação. A coisa toda é que cachorro amarrado dentro do açougue, pobre cãozinho!

Anos de estudo

Hábitos de uma sociedade estão aí para formarem uma unidade e para serem respeitados, certo?

Pois no ano passado, durante a febre olímpica e a invasão de tropas jornalísticas estrangeiras na China, o hábito que alguns chineses mantêm de cuspir onde quer que estejam virou manchete, grifo, tese, parte de matérias, fossem elas visuais, sonoras ou apenas escritas. Para ilustrar exatamente como os chineses se comportam, o cuspe virou multimídia, quase tão famoso como comer inseto - realidade esta tão próxima da maioria das famílias chinesas aqui de Beijing como a de macacos andando em cipós pelas principais cidades brasileiras.

Fato é que chineses escarram, sim, alguns mais, outros menos, creio que alguns nem o façam. Então, vá lá, apesar de haver um milhão de outras coisas para se falar sobre este povo com milênios de história, o cuspe acaba sendo meio central, talvez pelo fator inusitado, estranho à cultura ocidental. Agora não pense que a preocupação de barrar a cusparada seja atributo dos não chineses. A mania já foi alvo de propaganda (contrária, deixe-se claro) governamental ainda nos anos 50, como mostra esta pérola encontrada no Youtube, que achei graças a um artigo do site Shanghaiist. A mensagem deixa claro que cuspir pode transmitir doenças e seria mais adequado que os transeuntes o fizessem no seu próprio lenço. Durante a SARS, o governo lançou mão de campanhas severas em relação ao tema, desta vez preocupado com uma epidemia que poderia matar milhares de pessoas.



Tanto alarde para questões de saúde e higiene, no entanto, ainda não foram suficientes para barrar a moda. Para terminar, um cartaz recentemente fotografado por mim no mercado de pulgas de Beiijng, o Panjiayuan (潘家园).



Hm... menti. Não vou terminar com o cartaz. No ano passado, ainda na onda olímpica, as diversas campanhas pedindo para que se parassem como cusparadas foram interpretadas por muito estrangeiro como uma tentativa das autoridades para educar a população chinesa, segundo moldes ocidentais. Esquecemos, pois, que tais campanha também encerram caráteres mais primordiais, como saúde pública.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Se você disser que eu desafino, amor

Dashan (大山) é o nome do cara que fala um chinês impecável, conhecido China afora pelo mandarim perfeito. Todos os dias, ele aparece no canal em inglês da TV estatal chinesa, a CCTV, para dar aulas de mandarim. São 15 minutos de muita atenção em frente à tela.



大山 é o nome chinês adotado pelo canadense Mark Rowswell. Significa Grande Montanha. Pois o amigo Grande Montanha antes de chegar à China havia estudado mandarim por quatro anos. Aqui, aprimorou de vez o que já sabia e até integra peças e programas televisivos humorísticos falando em chinês. Celebridade, considerado o cara que mais entende de cultura chinesa sem ser chinês. Pelo menos, o cara que mais aparece na TV com estas características, vamos combinar.

A carinha dele ainda estampa um sem fim de materiais para chineses aprenderem inglês, basta ir a qualquer das grandes livrarias chinesas para conferir. Carisma puro, ainda mais porque ele tem um discurso de ser um estrangeiro, mas não alguém de fora (大山虽然是外国人,但不是外人). Fácil ser alguém como 大山? Nãnãninanão.

Há quem diga que o aprendizado do mandarim - incluindo aí falar, ler e escrever - leva em torno de oito anos, para quem se dedicar, pelo menos, seis horas à língua todos os dias.

No ano passado, quando mantinha o China in Blog, falei sobre a estrutura do mandarim, que tem cerca de 400 verbetes monissilábicos que combinam os fonemas de 21 letras classificadas como iniciais a 44 diferentes combinações chamadas de finais.

São apenas com estes 400 verbetes que se forma toda a estrutura fonética do mandarim, ou seja, todas as palavras necessárias são resultado destes sons. Ou melhor, da utilização destes sons seguindo os padrões de uma língua tonal - um certo requinte de crueldade para acrescentar um nível a mais de dificuldade no que já é bastante complicado. Temos no mandarim quatro tons, ou até cinco, levando-se em consideração que há um tom neutro. Sopa no mel, eu juro, não reclame. Você poderia se dar ainda pior se resolvesse aprender o tailandês e seus seis tons ou o cantonês e o vietnamita, com nove cada um.

Feliz por saber que tem gente em pior situação neste mundo? Eu não. Confesso que os tons não são comigo. Apesar de boa memória, na hora de falar não sei usá-los bem. Quando começamos a aprender chinês, as primeiras aulas são chatíssimas repetições de cada um dos sons, representados por quatro sinais gráficos diferentes - ā, á, ǎ e à.

Em tese, eu sou realmente fraca. Os sinais indicam direitinho o que é pra fazer. Quer ver:

Primeiro tom. O ¯ que se usa chama-se mácron e indica que a vogal é longa. Ou seja, deve ser pronunciada de forma contínua. Quem nunca escreveu em e-mails ou msn um Obaaaa que atire a primeira pedra. Entendeu mais ou menos sobre o que estou falando?

Segundo tom. O ´ é o nosso velho amigo acento agudo. No mandarim, significa mais ou menos que você terá de pronunciar a sílaba como se estivesse fazendo uma pergunta. Sacou? Isso aí, exatamente o som que saiu quando você pronunciou o "ou".

Terceiro tom. O ˇindica um sobe e desce no meio da sílaba. Imagine que "Ahan" é uma única sílaba. Esta ondinha sonora existente entre o primeiro e o segundo "a" é exatamente o movimento necessário quando você tem de pronunciar o terceiro tom. Louvores para o "Ahan" pronunciado no final da propaganda da Polar a que vocês podem assitir abaixo.

Quarto tom. O ` é outro sinal gráfico bem conhecido dos brasileiros, nosso acento grave. Grave mesmo é o tom. Imagine que está encerrando uma fala meio brabo, meio enfático. E não enche mais o saco, pô! Pronto, taí a dica para um bom quarto tom.

Tom neutro. Ele é neutro, mas significa que deve ser pronunciado como a maioria das sílabas no português. Pena que aparece tão pouco, 是吗?

***

Pra encerrar o post, uma frasezinha em que vamos do primeiro ao quarto tom, encerrando com o terceiro, que é pra você ir treinando tudo desde cedo: huāníng nǐ péngyǒu!

Ou "bem-vindo, amigo", que em chinês a gente deve escrever assim: 欢迎你朋友. E, claro, lembrar dos tons na hora de ler cada um dos caracteres. E, claro, lembrar dos fonemas de cada um dos caracteres. E, óbvio, lembrar dos significados de cada um dos caracteres também.

***

Agora uma cervejinha, por favor!

quarta-feira, 11 de março de 2009

É bom viajar

Viajar é uma das melhoras invenções do mundo.



Nós brasileiros temos de agradecer ao ímpeto português de percorrer mares. Afinal, não fossem eles, nós não seríamos os brasileiros. Falamos um português diferente, maroto, enviesado, ou qualquer outra coisa que o valha. Nos apropriamos do caldo português, entornamos a mistura, botamos mais água para ferver bem e, no final das contas, com pitadas de exagero tropical, aprendemos, entre tantos outros, o valor de uma saudade.

Há quem sustente que somente os portugueses poderiam ter inventado a palavra saudade. Passavam tanto tempo a ver navios, longe de casa, saudosos de algo familiar, que precisavam batizar o sentimento. Pois foi por misto de saudade com certa familiaridade - ainda que apenas linguística - agora sem acento - àquele tempo que conheci o Paulo em Chengdu, capital da província de Sichuan.

Português viajando não seria bem uma novidade, mas parece que uma brasileira por aquelas bandas era coisa meio rara, tanto que o dono do bar onde estávamos, o Pepe (esse é o nome do dono, não o do bar), veio me falar, assim que soube minha nacionalidade:

- Quero que você conheça o Paulo, ele mora aqui e está com saudades de falar português.

Feito, conheci o guri, que é gente boa pra caramba e no dia seguinte já estava num restaurante com ele e os amigos, donde seguimos para uma danceteria. Os nomes, esqueci todos, tanto dos lugares, quanto dos amigos. Pra minha sorte, mantive contato com o Paulo, e vez que outra nos falamos via msn. Aqui ao lado na lista, tem o blog dele. Ali mantenho um baita contato, fico sabendo das andanças do moço.

Ele é português... curioso por conhecer lugares! Mas melhor do que isso, ele ainda partilha as experiências, que se revelam deliciosas em fotos lindas e textos leves.



Vez que outra ele fala do cotidiano, afinal, descobrir o novo é também olhar ao nosso redor - especialmente quando estamos em outro país. Mas agora, especialmente, está contando a viagem que fez nas últimas férias.



O mapa que abre este post - e mostra o roteiro percorrido pelo Paulo, cujo sobrenome é Xavier - te interessou? As fotos roubadas lá do blog do Paulo te chamaram a atenção? Não perca tempo e clique aqui para saber mais e mais o que este gajo está a contar.

terça-feira, 10 de março de 2009

Ah, a difícil vida chinesa

Tudo bem, estou num clima total aprender chinês, então acabo precisando dividir. Hoje estou encafifada com os caracteres. Não que já não estivesse há tempos, mas eles são sempre uma confusão à parte.

Tem coisas que eu acho que só chineses fazem. À lista
- Falar chinês
- Ler chinês
- Escrever chinês
- Fazer número 2 nos banheiros cujas louças sanitárias estão acopladas ao chão.

Forçoso dizer que, bem ou mal, já experimentei todas as tentativas acima. Reitero, a técnica aprimorada de qualquer um dos itens implica ter nascido na China.

Sobre o aprendizado do mandarim, passei do nível 2 ao 3 por pura falta de opção, já disse isso por aqui. No nível 2, supõe-se aprender 1,5 mil caracteres, número que - graças ao bom Deus ou a Buda - não muda no nível 3. Imagino que seja algo assim, no 2 a gente vê vários, no 3 aprende pra valer. Eu, como parei no 1, se muito sei uns 500 caracteres. Às vezes acho que nem isso.

Dizem que para ler um jornal, são necessários uns 2, 3 mil. Os livros para iniciantes trazem cerca de 900 caracteres. A dica é escrever cada um deles pelo menos umas cem vezes para decorar e saber que traços usar, em que ordem. Os caracteres são compostos de traços. Pode ser apenas um, como o do número um, assim ,o qual a gente lê Yi. Mas podem ser vários, como o complicado amor, ou , que a gente lê Ai, porque dói.

Cada traço tem um nome - e eles fazem toda a diferença. Hoje eu vou falar do , ou dian, um simples pontinho, encontrado ali na parte mais de baixo do caractere grande, , ou dai, por exemplo.

Estava eu em casa mostrando pra minha empregada meu chá preferido, cujo nome não sabia e que não é tão fácil de achar por aqui. Ele é um líquido de coloração marrom-dourada, a coisa mais parecida que me ocorre agora é gasolina para comparar. Mas o gosto é tri bom, nada doce, mas nada amargo também. Ao ver o rótulo, ela me perguntou o nome. Olhei e soltei um "malong cha".

- Errado - disse ela, rindo.

- Niaolong cha? - perguntei, numa segunda tentativa.

- Errado de novo - e ela caiu na gargalhada.

Depois me perguntou seriamente se eu não percebia que não poderia ser niao, posto que niao tem um dian a mais no meio. E muito menos poderia ser ma, que não tem dian nenhum, até a forma é diferente. A leitura correta do caractere em questão, aliás, ela me informou, é wu. Estava tomando wulong cha, recomendadíssimo.



Para quem quiser reconhecer pelo rótulo, compre aqueles que vêm identificados como 乌龙茶 (wulong cha), ok? Se ainda sobrou curiosidade, eu confundi o com da primeira vez, que se lê ma e significa cavalo. Depois, tasquei um , que lemos niao e significa pássaro. Aliás, durante a Olimpíada, o caractere foi mais do que famoso, pois 鸟巢 se refere ao Ninho de Pássaro, Niao Chao na leitura mandarinística, o nome do estádio principal das competições em 2008.

Aprendeu tudinho?

头屑洗发水


Olha, uma amiga perguntou, então aqui vai o registro, até para eu lembrar também, de como se diz xampu anticaspa em mandarim. É 头屑洗发水, ou touxie xifashui. Decorou?

单位

Danwei (单位) é unidade de trabalho em mandarim.

Poderia significar apenas isso, o local onde se trabalha. Mas o apelo é mais forte, e quem explica é a Lijia Zhang, uma jornalista chinesa por quem estou apaixonada. Estou lendo Socialism is Great, o livro em que ela conta o começo da vida profissional em uma fábrica chinesa no final dos anos 1970.

Naqueles tempos de controle forte sobre a vida do cidadão, era por meio do danwei (ou 单位) que o governo mantinha o vivente na linha. O documento indicava exatamente o local de trabalho do cidadão - o número da unidade para a qual servia -, o que, na prática, não só garantia acesso à previdência social, mas o direito a casar e ser cremado ou enterrado em caso de morte. Trivialidades...

Pois um dos sites chineses mais bacanas que conheço adotou não só o nome Danwei, como a ideia de formar uma unidade de trabalho. Ali, estão reunidas discussões - mas em inglês - sobre mídia chinesa, propaganda e a vida nas grandes cidades. Imperdível.

Todos os anos (e eles estão ativos desde 1990, então entendem do riscado), eles escolhem os melhores blogs em inglês sobre a China, basicamente Trabalhadores Modelo para a Unidade de Trabalho. Quem quiser ver, pode clicar aqui.



Os tais trabalhadores modelo é outra herança do conceito de 单位. Minha amiga Zhang foi indicada uma vez para o posto, mas, na época, não levou a distinção devido a uma jaqueta de oncinha que costumava usar e que era muito padrão burguês ocidental para a concepção do chefete recém saído do casulo forçado imposto aos chineses nos anos de Mao. Comportamento padrão dentro da fábrica, mas trajes adequados fora dela. E quem liga para uma certa divisão entre vida privada e profissional?

No site, os editores pegaram o conceito de Modelo emprestado e embarcaram de vez na ironia. Segundo eles, os ganhadores são escolhidos pelo Comitê Central do Danwei, sem nenhum tipo de democracia ou votação envolvidas.

Zhang conta no livro sobre o momento em que disputou a vaga com outra colega. "Os nossos nomes foram postos em consideração. A eleição era um exercício de democracia centralizada, democracia sob orientação central, com o líder sempre tendo a palavra final - esse era o jeito como a China se movia". Bueno, pelo menos no site não há pretensa participação.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Vida privada

Algumas coisas na vida nao sao explicadas. Por exemplo, meu computador consegue reconhecer caracteres japoneses e chineses, mas nao consigo digitar em portugues.

Outra questao eh, tudo bem que meus vizinhos estao fazendo reforma na casa e tudo isso dah uma sujeira e faz com que surja um monte de entulho. Mas precisa botar a privada no corredor comum?



Esta cena foi clicada no sabado a noite quando chegava em casa. Hoje o vaso sanitario esta na frente do elevador, ao lado da pia do banheiro e de um pedaco do armario da cozinha. Espero, sinceramente, nao encontrar uma familia vivendo por ali na semana que vem.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Breve desabafo sobre o mandarim

Estudar chinês é uma das coisas mais difíceis que já vivi. Eu que até hoje só tinha rodado em exame de direção (porque esqueci de desengatar a porcaria da - do, nunca sei - ré) e em exame médico de admissão (porque falei pra médica que poderia permitir que eu trabalhasse no Terra que eu sofrera de tendinite anos antes - e então ela me vetou para a vaga), estou passando por um teste em relação à humildade, dedicação e exposição em frente aos colegas. Sério, isso é meio duro pra mim.

Passei para o nível 3 sem ter feito o 2, o que impõe alguns obstáculos, como não saber ler muitas frases, não conhecer muitas palavras e não saber formular frases gramaticalmente corretas. Vejam que nem estou falando dos tons que o mandarim tem (quatro, mais um neutro, que pra mim é tom também) ou sobre escrever caracteres. Então, as aulas em que devo ouvir diálogos são uma tragédia, no período em que devo responder às perguntas da professora sobre o que os personagens do diálogo estavam fazendo eu sou um zero à esquerda, no tempo em que deveria fazer os exercícios gramaticais eu sou uma ameba que não entende ou o que é pra fazer, ou o que a frase está dizendo e por aí vai. Estudo numa turma que tem uns 10 adolescentes russos, o que complica bastante. Tem dois CDFs que, juro, tenho a impressão que fazem gracejo com a minha cara. Além de serem adolês, eles devem só estudar mandarim, provavelmente filhos de empresários-diplomatas que vieram parar na China por causa da vida dos pais. O chinês deles é simplesmente invejável. E eu me resigno à minha burrice, pela primeira vez na vida indo TODO O TEMPO fazer perguntas à professora. Até as mais idiotas. Às vezes conheço as palavras, mas não faço idéia do caracter, assim, não consegui reconhecer lavar roupa, apesar de saber que é xi yifu. Não soube dizer o que era mesa, mesmo conhecendo zhuozi. Mas eu não sabia que o verbo xi é grafado 洗, muito menos que zhuozi se escreve 桌子. Aprendeu não leu, pau comeu. Essa é a regra do mandarim.

Alem das três horas diárias, tenho estudado de duas a três horas em casa. Mas pensava que poderia revisar o nível 2 neste meio tempo. No entanto, neste período apenas faço os temas de casa - às vezes, nem acabo estes. Gente, chinês é desesperador. Preciso muito ter um objetivo, senão esta dedicação será infrutífera. Seria melhor que continuasse fazendo meus textos e, quem sabe, começando meus minidocumentários. Por outro lado, não conheco jornalista brasileiro que fale mandarim...

E estou começando a pensar que poderia fazer pesquisas relativas à internet na China, sociedade, política, redes sociais, participação, etc. LENDO EM CHINÊS, mesmo que na volta ao Brasil. Isso parece interessante e me estimula a ficar que nem uma pateta na frente dos russinhos. Na frente dos chineses eu nem preciso dizer, né?

quarta-feira, 4 de março de 2009

Viagens chinesas

Sexta francesa
Após filmar umas duas horas dentro de uma mesquita, a mais antiga de Beijing, fui encher a cara num boteco francês, com amigos franceses e brasileiros e finalmente beijei o francês que eu tava afins. Que me contou que mora com a namorada, que está em tempo indefinido no país dela. Ó vida, ó céus, ó azar.

Sábado chinês
Após vagabundear o dia inteiro e antes de me deliciar num dos melhores restaurantes de comida chinesa a que fui até agora (tá no meu blog), fui fazer uma massagem. Deito de bruços, o chinesinho aperta minhas costas, numa espécie de shiatsu, mas bem mais dolorido. Falou pouco, eu também tava mais a fim de descansar. Quando chega o momento de apalpar a minha bunda, acho que na segunda mãozada, veio a pergunta.

- De onde você é?

Sério, foi engraçado.

Domingo búlgaro
Após conhecer o paraíso literário de Beijing (tá no meu blog), fui jantar com duas amigas, uma egípcia e uma búlgara. Esta última relembrou os tempos de infância e adolescência, quando cresceu sob o regime comunista. Quando o país se abriu, o primeiro presente da mãe foi um lindo diário com cadeado, que a deixou maravilhada e livre pra escrever o que bem entendesse. Até que um dia a mãe mostrou como abria o cadeado usando um grampo de cabelo. No comunismo, pelo menos as pessoas não tem a falsa sensação de privacidade.

Segunda árabe
Minha amiga árabe me levou no melhor libanês, restaurante, que conheço até agora aqui em Beijing. Só me falta mesmo o kibe cru, apesar de a beringela gratinada deixar saudades. Tanto o gerente palestino quanto a egípcia e o chef alguma coisa não fazem idéia do que eu falei. Pois a egípcia contou uma conversa que teve com outra colega da Xinhua, esta do Iemen.

- Sabe que no Iemen poucas mulheres usam véu como eu - disse a garota, que tem a cabeça coberta pelo tecido, bem atado logo abaixo do queixo.

- Verdade? - replicou minha amiga espantada.

- Sim. A grande maioria deixa só os olhos de fora.

Estas são as explicações da nossa iemenita pra lá de moderna

Terça espanhola
Após assistir a Vicky Cristina Barcelona, cair de novo de amor por Barcelona, me decepcionar com os beijos - que imagina serem ardentes - entre a Scarlet e a Penélope e rir muito da pobre da Cristina, justamente a personagem da Scarlet, que se acha meio incopetente e sabe falar chinês (motivo de piada para a gostosa Penélope), saí para jantar com dois casais espanhóis no melhor japonês custo-benefício da cidade e tomar uma das melhores cervejas do mundo, a Asahi Super Dry, que em chinês chamamos JiaoRi.

Um dos espanhóis trabalha como crítico literário e fez mestrado em alguma coisa por aí. Foi uma das únicas pessoas que me deixou com calor ao descrever o frio: "me trepa por los pies hasta erizar los pelos de mi nuca".