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terça-feira, 4 de agosto de 2009

O velho jornalismo

Se você acha que conhece um jeito antigo de fazer jornalismo e não conhece a mídia chinesa, então você não sabe o que é ser atrasado. Imagine a maior potencial potência econômica mundial com poder político suficiente para amedrontar países ou, pelo menos, chantageá-los com joguinhos diplomáticos, recorrendo a métodos tão arcaicos quanto jornalismo propagandístico mal feito. É por aí. Puro atraso para deleite dos críticos de plantão, combustível para descerebrados papagaiarem historietas oficiais.

Hoje a grande história do dia nos meios estatais foi a carta escrita por membros da família da uigur Rebiya Kadeer (http://news.xinhuanet.com/english/2009-08/04/content_11823397.htm) pedindo para que ela interrompesse atos separatistas e pensasse na harmonia e na paz étnica que reinam em Xinjiang, Crueldade e ingenuidade na mesma medida.

Tem de tudo ali. Os signatários culpam Rebiya pelos incidentes que deixaram 197 mortos em Urumqi, segundo as cifras oficiais. Reconhecem que ela fez uma ligação naquele domingo, 5 de julho, que seria um aviso de o que ocorreria seis horas mais tarde e, por isso, prova de que ela estaria envolvida na organização dos atos violentos. Os signatários são da família, eu já disse. Filhos, irmão, uma parentada.

O filho mais novo do primeiro casamento de Rebiya, que tem 11 ao total, Alim, é capítulo à parte. Ao ser apresentado, o menino hoje com 33 anos lembra que a mãe é divorciada, praticamente um crime por aqui, motivo de preconceito de sul a norte, leste a oesta da China, unificada ou não. Diz que nunca perdoou ter sido abandonado aos seis meses e depois conta uma história triste dos tempos em que, ao tomar conta dos negócios da mãe, então ricaça, teria sido instado por ela a atear fogo sobre si próprio para protestar contra o governo chinês que acusava a empresária de evasão de divisas – ela, aliás, teve todos os bens confiscados e virou pobre de marré.

A carta e a história são uma sucessão de histórias que podem ser muito bem maquinadas ou conseguidas via coerção, mas que, em sendo totalmente verídicas e apuradas segundo os preceitos éticos do jornalismo, dão conta da visão tacanha das autoridades propagandísticas do Partido que, em outras palavras, é o governo. Um tom emocional que beira o mau gosto, num jogo de palavras que casaria bem com o tom de telenovela étnico familiar. Eu não acompanho a atual novela das oito aí no Brasil, ainda bem, mas imagino o roteiro seja parecido. Apela-se para uma falsa harmonia em nome do progresso e bem-estar comum.

Eu fico imaginando muitas vezes como devem ser as reuniões dos líderes políticos responsáveis pela mídia. Diz-se que a China que se abriu economicamente ao mundo foi pródiga em fazer de trabalhadores do campo ou operários empresários fenomenalmente ricos – aliás, a própria trajetória da Rebiya, que só depois teve o azar de se indispor com o governo e por aparente birra, resolveu preferir a via dissidente à da pobrezinha injustiçada. Enfim, a China é um país de muita gente muito simples com muita grana. E por que nas esferas políticas o cenário não se repetiria?

Num paralelo, fico imaginando os lapsos de visão crítica e estratégica entre os líderes que efetivamente detêm o poder e um que outro especialista que integra os quadros do partido apenas para darem status de decisões científicas e especializadas. Por que tem, esta coisa toda é tão arcaica, eu digo as entranhas do poder chinês, que o modelo deve ser bem este. O jeca tatu que manda, os pensantes que não têm poder de voto e a populácia que engula, a seco e calada, uma vez que não tem voz nenhuma. E quando tenta ter acaba calada.

Uma irritação só que é ver o que é feito dos meios de comunicação aqui. Uma irritação só ver o que é feito do público aqui. E uma irritação maior ainda imaginar o que ocorre nas esferas privadas.

Pulinho para irritação brazuca

Pelo menos com tanto cacique protegido pelas esferas partidárias, a gente não precisa ver a lambança Lula, Sarney, Collor e Simon. Aliás, só este último ainda não foi nosso presidente. Que bem que estamos.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Onde você está com a cabeça?

站稳立场 屁股决定脑袋, 秦刚

É bem provável que você não tenha entendido o que está escrito aí, nem eu. Mas a tradução estava hoje em vários sites chineses, e eu logo compartilho, mas mesmo assim fiquei sem entender.

A frase é do 秦刚, ou Qin Gang, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês. Perguntado sobre que princípios ele segue ao responder a jornalistas chineses e estrangeiros, ele soltou a pérola:

- 站稳立场 屁股决定脑袋 - ou, "Mantenha sua posição firme, seu bumbum decide onde está seu cérebro".

Para tentar o gostinho que a frase teve em mandarim, aventure-se a dizer "Zhan wen lichang pigu jue ding nao dai".

Ainda bem que o Qin concluiu que um porta-voz precisa ser leal à sua terra e à sua gente, além de entender de política como um todo e com familiaridade. Segundo ele, a partir daí não há pergunta sem resposta.

Mas o que mesmo ele quis dizer quando respondeu esta coisa de bumbum? Não entendi o que isso tem a ver com as calças.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

E a TV chinesa agora fala árabe

A partir de hoje, 24 de julho, a televisão estatal chinesa, a CCTV, tem um canal em árabe, a exemplo do que já ocorre com a pioneira em inglês e as seguintes francesa e espanhola. Os canais em português e em russo são os próximos da lista, segundo plano anunciado no início do ano na mídia em Hong Kong.

O objetivo é simples, divulgar a visão de mundo chinesa, na língua daqueles que se pretende alcançar. No caso árabe, os episódios em Xinjiang aceleraram os planos. É bem verdade que o canal já estava sendo preparado e o pessoal contratado desde o início do primeiro semestre. Mas o cronograma previa um lançamento algo entre setembro e outubro. Aí corre todo o mundo e ação. Ah, claro que ninguém reconhece o motivo da antecipação, não oficialmente.

O canal lançado hoje terá transmissão de 24 horas, focado em notícias, educação e entretenimento. Os programas especiais, como documentários e de aulas de chinês, por exemplo, serão transmitidos seis vezes ao dia. O resto é notícia.

Segundo o vice-presidente da CCTV, Zhang Changming, a TV chegará via satélite ao Oriente Médio, região da Ásia Pacífico e África, num total de 200 milhões de potenciais espectadores.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Na internet chinesa você vê de tudo, até o que não vê

A China fechou o primeiro semestre com 338 milhões de internautas, um incremento nada acanhado de 40 milhões de usuários em seis meses, segundo o Centro de Informações da Internet, órgão que regula a rede no país. Ou um dos. Banda larga? Realidade para 94,3% deste batalhão online.

Salto bem mais significativo foi no número de gente que acessa a web via celular. Agora são 155 milhões (ou eram, há coisa de quase um mês, já que o crescimento por aqui é mesmo espantoso), 32,1% a mais do que em dezembro de 2008. Feliz mesmo é quem vende. Num mercado já nada desprezível, quem antes atendia 14 milhões de compradores online, há seis meses, agora tem 87,9 milhões de consumidores à disposição. Quem dá mais?

Privar da companhia desta gente que tecla por meio de caracteres vai além dos mistérios dos 1001 desenhos que compõem o arsenal básico do bate-papo chinês. Perpassa por sensíveis barreiras censoras e o filtro individual.

Veja o Facebook, a rede social que agora chega ao mercado brasileiro e que comemorou faceira nesta semana 250 milhões de usuários. Como ela aparece aqui na China? Escondida sob desvios de proxy e, ainda assim, mais pra lá do que pra cá, literalmente e geograficamente falando. E os internautas chineses? Querem mais é que o Facebook se exploda.

A rede social foi um dos meios de propagação de campanhas pró independência de Xinjiang - a região autônoma muçulmana onde eclodiu a violência entre a maioria chinesa han e a minoria uigur, de origem turca e maioria naqueles pagos a oeste do país -, decretou no dia 8 de julho o jornal chinês Global Times (http://www.globaltimes.cn/), uma versão em inglês de o que os chineses pensam sobre o mundo.

Um grupo criado nas páginas do Facebook clamava a independência da tal região. Para os internautas da China, não clamou por muito tempo. O Facebook foi um dos primeiros alvos das garras sujas e feias da censura, seguindo o rastro do twitter, do blogspot, do wordpress, de tantos outros que de tão distantes até parecem fazer parte do imaginário coletivo dos internautas ocidentais. E só.

Aproveitando a onda, o jornal resolveu perguntar a opinião dos internautas. E, uma vez que tenha sido um meio de propagação de tal mensagem de desarmonia e desunião, o Facebook deveria ser punido. Entre aqueles que votaram, 81,7% apóiam uma punição ao site. Bacana.

O povo aqui anda sem muita paciência e sem meias palavras. Em Xinjiang, palco dos protestos, internet nem com sinal de fumaça. Os negócios via rede estão parados e o único local com acesso é o centro de imprensa montado no hotel Hoi Tak, da capital Urumqi, onde você leva seu laptop, briga por um daqueles famigerados cabinhos azuis e reza para a conexão não cair, não importa seu credo. Reze. Se não rolar, cruz credo, adeus transmissão das notícias quentinhas. Ah, e se você não é jornalista, nem pense em usar o local. É preciso credenciamento para adentrar o salão (onde, de 15 em 15 minutos toca Garota de Ipanema instrumental, porque o DJ local tem um CD com quatro músicas, repetidas à exaustão. Eu diria que até é parte do processo. De tortura psicológica. Quantas Garotas de Ipanema você precisa para gerar uma matéria de TV?).

Divagações à parte, voltemos ao papo sério. Para especialitas chineses em internet, a linha dura adotada agora resulta num dilema para o governo.

Em entrevista ao estatal China Daily, o especialista em novas mídias da Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Pequim Hu Yong afirma que, se por um lado pela primeira vez o governo admite abertamente que está cortando a internet, provavelmente imaginando que terá apoio popular ao mostrar que a medida visa garantir a segurança, por outro, está restringindo a realização de negócios e outras atividades online, como participação em fóruns e chats.

- Os jovens usuários podem começar a ter dúvidas sobre as políticas governamentais em relação à internet, o que poderá trazer impactos profundos - prediz Hu.

Em tempos de mensagens diretas, Yu Xiaofeng, da Universidade de Zhejiang, alfineta:

- Bloquear informações não deve ser a primeira escolha em uma sociedade aberta.

E esta É uma sociedade aberta? Eu cá tenho minhas dúvidas, mas o tal senhor Yu tem outro conselho.

- O governo deveria permitir a propagação de fontes oficiais e não oficiais. Assim, tanto o governo como os cidadãos poderiam procurar a verdade através do conhecimento.

Falou bonito. Para quem quiser ver, em inglês, a matéria na íntegra, aqui vai
http://www.chinadaily.com.cn/china/2009xinjiangriot/2009-07/16/content_8434260.htm

E clique abaixo para ver a notícia sobre o apoio dos internautas chineses à punição ao Facebook, publicada no Diário do Povo, a principal voz do Partido Comunista.
http://english.peopledaily.com.cn/90001/90776/90882/6697993.html

terça-feira, 7 de julho de 2009

Poderia ser só internet, mas é também mídia e propaganda

Os protestos em Xinjiang provocam tantas discussões que é preciso um quê de interesse sobre a China somado à muita força de vontade para chegar ao fim deste texto. Mas eu conto com você. Os assuntos aqui serão a internet, a mídia e a censura. Preparado? Então ajuste o scroll, porque você vai precisar.

A política chinesa sobre a internet é a do controle. Então, ao primeiro sinal de que há algo errado ou de que algo pode dar errado, o poder central estende os tentáculos sobre a rede e já era espaço para gritaria.
Num jogo entre dissimulações e hipocrisia mal disfarçada adotado rotineiramente, a estratégia é dizer que o governo é contra a pornografia e outros temas que possam perturbar a sociedade harmônica sonhada por Beijing. O que entra em cena são filtros, que ganharam o apelido apropriado de Great Firewall of China. Depois a gente tem a figura malvada da Net Nanny, numa alusão à babá má que simplesmente tira de circulação o que os pimpolhos não devem ver. Exatamente botar abaixo e expurgar do alcance de mouses chineses referências ao Dalai, liberdade ao Tibet ou massacre de 1989.

Hoje, dois dias após o início dos protestos em Urumqi, a ideia foi abolir de vez alguns sites de redes sociais, e o Facebook – imune até então -, além da cópia chinesa do twitter, o Fanfou, pararam de funcionar, embarcando na mesma onda de twitter, youtube, blogspot. No Fanfou, a mesma mensagem deixada em 3 de junho, véspera do aniversário de 20 anos da Praça da Paz Celestial. Manutenção. Agora, a promessa é de que a coisa voltará à vida no dia 10.

Parece que o governo perdeu mesmo qualquer pudor em censurar o que não gosta. Duvida? Hoje mesmo o chefe do Partido Comunista da China em Urumqi, Li Zhi, deu declarações oficiais sobre o corte da rede para toda a cidade de Urumqi. A medida visa garantir que as incitações dos protestos não se espalhem. Uma desculpa boa, sobre a qual falei ontem. Sob o pretexto de preservar a paz e a harmonia, vale qualquer esforço, até o de calar vozes dissonantes. E isso tem apoio popular, acredite. E segue o baile sem internet.

Mas e o que fazer com os jornalistas que querem cobrir tudo isso? Conceder-lhes liberdade e uma sala com 50 computadores plugados à rede, ainda que os terminais sejam disputados quase à tapa, espero que sem disputas étnicas, numa sala de hotel, centro de imprensa montando às pressas na capital de Xinjiang.

Resultado? Declarações como a do correspondente do The Economist Ted Plasker à estatal chinesa de que nunca houve tamanha liberdade para trabalhar, nem mesmo durante os conflitos no Tibete registrados em março do ano passado (houve qualquer tipo de liberdade?), nem no terremoto de 12 de maio de 2008 em Sichuan, este último propagado como um exemplo da abertura da censura chinesa para a mídia estrangeira. Confesso que esta comparação me surpreendeu e encontra eco em outras fontes que estão no local. Tá que é uma festa para a cobertura. Claro, para quem conseguir chegar ao terminal e se manter zen ante a lentidão internética. Detalhes. E tudo contradição em termos. Quer ver um detalhe sutil? A mesma matéria que traz os elogios de Plasker à novidade no tratamento aos coleguinhas jornalistas ante o caos em Urumqi lembra que o entrevistado respondeu em chinês perfeito, resultado de longa experiência acumulada aqui desde 1989. Sutileza e detalhe, 89 é um ano a ser esquecido por aqui.

Mas esta suposta abertura lenta e gradual chinesa tem seus quês de crueldade. Na tarde desta terça-feira, a agência estatal publicou uma galeria de fotos tão de mau gosto que lembram as imagens que eu nunca vi publicadas após o acidente com o grupo Mamonas Assassinas, quando a internet ainda engatinhava e já mostrava que o ser humano tem tendência ao mau gosto e ao horripilante. Fiquei imaginando por que usar imagens fortes - e o quanto esta escolha está distante do jornalismo no qual acredito e que procuro praticar. E ainda usada oficialmente. Talvez para provar o improvável, que os mortos e feridos foram atingidos pelos manifestantes, não por policiais. Isso se daria por dois motivos primordiais. Um porque a maioria foi ferida na cabeça por estocadas ou pedradas, e não balas, e porque se trata de chineses han, os alvos dos supostos terroristas uigures.

Se estou certa, o governo agora quer tratar bem os jornalistas porque sabe que ao garantir acesso o mais facilmente às informações e às fontes, estará também conquistando mais confiança e conseguindo divulgar seus pontos de vista. Mas e por quê este caráter tão compreensivo?

Porque duas coisas, penso eu. Primeiro porque é importante divulgar o próprio ponto de vista. Segundo porque este ponto de vista tem razões para ser propagado, vamos refletir.

Das experiências que tive até agora, aprendi que que há mocinho e bandido nesta história. Nesta história eu digo cobertura sobre a China. Minoria étnica contra o governo chinês é sempre boazinha. População de baixa renda contra o governo chinês é sempre boazinha. ONG ambiental contra o governo chinês é sempre boazinha. O bom velhinho budista aquele exilado na Índia então, nem vou comentar.

Não estou dizendo que todos os que conseguem força e coragem suficientes para lutar por seus direitos dentro de um país que tolhe manifestações e o livre pensar já não tenham só por isso uma grande parcela de mérito. Mas me irrita a preguiça midiática que prefere sempre eleger a China como malvada e se esquece de apurar melhor os fatos. A coisa parte do quase insignifcamente tratamento no masculino para a Rebiya Kadeer (ninguém nem TENTOU BUSCAR UMA FOTO DA PESSOA PRA ILUSTRAR SUAS MATÉRIAS) ao fato de dizer que Xinjiang foi subjugada em 1949, período antes do qual era uma região independente. Até foi, mas foram tão poucos anos durante o combalido poder dos Nacionalistas que vou te contar...

A fórmula fácil de buscar mocinhos e bandidos desta vez não vai funcionar, o enrosco étnico está tão arraigado que vai sobrar maldade para ambos os lados. Ou todos os lados, nem creio que devamos ser maniqueístas neste caso. Assim como não vai funcionar a tentativa de mostrar que a China está preparada para uma cobertura aberta. Já teve equipe jornalística detida em Urumqi, sabe-se lá se não ocorrerão outras. E quanto ao esmagamento internético? Bem, você está me lendo aqui, então sabe que houve um jeito de barrar. Quer dizer, ainda estava me lendo?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pra TV

Hoje a agência estatal chinesa de notícias, a Xinhua, divulgou uma singela nota. A CCTV, a televisão estatal chinesa, lançará um canal em português. Prazo brasileirinho: demorará entre um e dois anos para que a emissora entre em operação (tipo assim, há uma bela distância entre uma previsão e outra).

A característica da nota seguia os moldes do jornalismo chinês. Nenhum detalhe, nada de aprofundar a informação que, aliás, foi gerada via escritório de Brasília, a partir de dados da portuguesa Lusa.

A CCTV tem endereço de luxo, o prédio cujas torres inclinadas se encontram no alto, tipo o que nos faz pensar que a coisa toda está ou de cabeça pra baixo ou prestes a desabar. Mas esta seria apenas uma ótica simplista e carente de qualquer senso estético ou valor arquitetônico. Quer dizer, eu não tenho nenhum nem outro, mas vai que algum fã do seu Rem Koolhaas venha parar no blog, ou ele mesmo, afinal nunca se sabe quando um arquiteto holandês pode entender português, não é mesmo? Aliás, vai ver é por isso o Roupa Nova cantava tão empolgado "Eu te abraçava, tu e o holandês,/ e perguntava "tu e o holandês?"/ Beijar você um sonho a mais não faz mal".

O endereço é tão de luxo que o povo trabalhador ainda nem se mudou para lá. Pelas contas originais, deveria ser antes da Olimpíada, mas como vimos, não rolou. Os jogos já acabaram há quase um ano e nada. Claro que agora o motivo é resolver o que fazer com o prédio do Oriental Hotel localizado no complexo e que se consumiu-se todinho em chamas no último dia do Festival da Primavera aqui. Pirotecnia pura.

A ver quem vem primeiro, o canal em português ou a mudança pra casa nova. A TV já exibe canais em inglês, francês e espanhol e prepara o árabe. O russo, assim como o tuga, está na lista. Aliás, pra duas línguas tão parecidas, acho que poderiam contratar a mesma equipe.

***

Depois de imaginar que este post tenha acabado com qualquer chance de ser contratada pela dita emissora tamanho festival de nonsense (aliás, querido leitor, chegou até aqui?), deixo uma singela homenagem dos tempos olímpicos aos holandeses. Som na caixa, Roupa Nova.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O mundo em inglês com características chinesas

A imprensa escrita chinesa interpreta os fatos do cenário internacional por meio do jornal Global Times, 环球 (Huanqiu, ou Global), e, a partir desta segunda-feira, 20 de abril, traduz para quem lê em inglês. Está no ar o site www.globaltimens.cn, a versão para quem não sabe mandarim do jornal especializado em cobertura mundial.

O Global Times sem caracteres estreou hoje também nas bancas, fruto de uma iniciativa da mídia chinesa para se aproximar do mundo ocidental, digamos assim, ainda que dentro de casa. A circulação, de segunda a sexta, será nacional.



O Global Times, ligado ao poderoso - e sob controle estatal - Diário do Povo, começou a circular em 1993, trazendo uma cobertura mundial sob a perspectiva chinesa, com os pontos de vista e as opiniões dos chineses, segundo o próprio jornal.

Para o editor-chefe, Hu Xijin, o lançamento marca o início de novos tempos.

- Nós ganhamos confiança para obter sucesso, para fazer amizade com os estrangeiros e facilitar a comunicação entre a China e o mundo - disse Hu, em entrevista à agência de notícias estatal chinesa, a Xinhua, ao falar sobre o lançamento do novo produto.

Hu afirma que não se trata de uma tradução da versão chinesa, mas de um jornal feito por um time independente de repórteres, editores e especialistas. Aliás, segundo o site, são mais de 500 correspondentes ou colaboradores pelo mundo.

O lançamento do Global Times lembra a abertura de uma redação do jornal em inglês mais famoso da China, o China Daily, nos Estados Unidos, ocorrida no final de fevereiro. É que neste ano, o governo chinês prometeu propagandear os feitos chineses através da mídia chinesa em outras línguas, ao criar desde jornais a estações de TV.

Será que agora vai?

terça-feira, 10 de março de 2009

单位

Danwei (单位) é unidade de trabalho em mandarim.

Poderia significar apenas isso, o local onde se trabalha. Mas o apelo é mais forte, e quem explica é a Lijia Zhang, uma jornalista chinesa por quem estou apaixonada. Estou lendo Socialism is Great, o livro em que ela conta o começo da vida profissional em uma fábrica chinesa no final dos anos 1970.

Naqueles tempos de controle forte sobre a vida do cidadão, era por meio do danwei (ou 单位) que o governo mantinha o vivente na linha. O documento indicava exatamente o local de trabalho do cidadão - o número da unidade para a qual servia -, o que, na prática, não só garantia acesso à previdência social, mas o direito a casar e ser cremado ou enterrado em caso de morte. Trivialidades...

Pois um dos sites chineses mais bacanas que conheço adotou não só o nome Danwei, como a ideia de formar uma unidade de trabalho. Ali, estão reunidas discussões - mas em inglês - sobre mídia chinesa, propaganda e a vida nas grandes cidades. Imperdível.

Todos os anos (e eles estão ativos desde 1990, então entendem do riscado), eles escolhem os melhores blogs em inglês sobre a China, basicamente Trabalhadores Modelo para a Unidade de Trabalho. Quem quiser ver, pode clicar aqui.



Os tais trabalhadores modelo é outra herança do conceito de 单位. Minha amiga Zhang foi indicada uma vez para o posto, mas, na época, não levou a distinção devido a uma jaqueta de oncinha que costumava usar e que era muito padrão burguês ocidental para a concepção do chefete recém saído do casulo forçado imposto aos chineses nos anos de Mao. Comportamento padrão dentro da fábrica, mas trajes adequados fora dela. E quem liga para uma certa divisão entre vida privada e profissional?

No site, os editores pegaram o conceito de Modelo emprestado e embarcaram de vez na ironia. Segundo eles, os ganhadores são escolhidos pelo Comitê Central do Danwei, sem nenhum tipo de democracia ou votação envolvidas.

Zhang conta no livro sobre o momento em que disputou a vaga com outra colega. "Os nossos nomes foram postos em consideração. A eleição era um exercício de democracia centralizada, democracia sob orientação central, com o líder sempre tendo a palavra final - esse era o jeito como a China se movia". Bueno, pelo menos no site não há pretensa participação.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

China Daily nos Esteites



O maior jornal chinês em língua inglesa agora tem uma redação nos Estados Unidos. Desde segunda-feira, 23 de fevereiro, o China Daily USA circula nas bancas norte-americanas com uma proposta um tanto ousada, transformar o inverno econômico em primavera, segundo escreveu em carta aos leitores o editor-chefe da publicação, Zhu Ling.

O braço estatal do governo chinês chega com pompa e anuncia que é espaço para os tomadores de decisões e os pensadores independentes. Sem crise. Com tanto jornalão norte-americano pedindo água, o aporte chinês pode ser até alívio para os jornalistas. Entre as propostas, está a apuração dos fatos em cima dos fatos, com repórteres in loco. Certa contradição para uma imprensa - a chinesa - vista com ressalvas. Seria a forma de apuração o pulo do gato? Em tempos de enxugamento de redações, os chineses vão contra a maré.

Mas há mais coisas neste caldo do que só salvar jornalistas aflitos por empregos. Por mais que eleger modelos midiáticos mais modernos - e objetivos, digamos assim - possa ser um truque interessante, o alvo parece outro. O slogan do jornal é claro ao dizer a que ele veio: "Traga o seu negócio para perto da China". Somado a isso, o desejo claro dos chineses de propagandear o seu país por meio de uma visão sem preconceitos ocidentais.

Por enquanto, o China Daily USA circula em todos os estados norte-americanos e no Canadá na edição de segundas-feiras. Já de terça a sexta, a tiragem abrange apenas a cidade de Nova York.

Na China, a publicação em inglês, o único jornal nacional do gênero, tem uma tiragem diária de 260 mil exemplares. No celular, o número de assinantes supera os 150 mil. Segundo o próprio China Daily, 85% dos leitores estão na faixa dos 31 a 55 anos. Gente que consome - e que gera renda pra isso -, saca?

Para o outono de 2010 na Europa, o que a gente pode contar como algo perto de setembro, está previsto o lançamento da edição China Daily Velho Continente.

A iniciativa norte-americana é o primeiro passo concreto de um pacote governamental não anunciado formalmente, mas que vazou em janeiro na imprensa de Hong Kong. O governo planejaria gastar mais de US$ 6,5 bilhões para melhorar a imagem do país no Ocidente. Toda esta grana, voltada às principais mídias estatais chinesas.

Com uma estratégia a ser construída junto a consultores internacionais, o objetivo seria ganhar notoriedade. A Xinhua, agência oficial, por exemplo, ampliaria a presença exterior dos atuais 100 países para 186. Aliás, este mesmo ramal seria o responsável pela criação de um canal de televisão em português, o que até agora não consegui confirmar. Ai, mal de fontes. Para a telinha, um dos modelos a serem seguidos é o da televisão Al Jazeera, do Qatar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Crise na China?

A Rádio Internacional da China (CRI, na sigla em inglês) tem transmissão de notícias e programas em 43 idiomas - entre os quais o português. O site tem até seções de vídeos, mas estes são feitos pelo serviço em inglês, principalmente.

Hoje, um vídeo tenta mostrar como a crise econômica mundial afeta a vida de quem mora em Beijing, sejam eles chineses ou expatriados. Roteiro, edição e imagens são do indiano Rahul Venkit, jornalista que já teve experiências ainda em Cingapura e Londres, além de na própria Índia, obviamente.

A diversidade resulta num olhar preocupado com o cidadão comum e foi para estas pessoas que se perguntou como anda a crise por aqui. Quem quiser conferir, clica ali no vídeo abaixo, em inglês.



By the way, a província de Guangdong, ou Cantão, como a gente conhece, é considerada o motor do desenvolvimento econômico da China. No entanto, hoje o governo local baixou para 8,5% a previsão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, abaixo dos 10% estimados anteriormente.

O valor combinado das importações e importações da província representa um terço do total do país, mas 40% das vendas vão para os Estados Unidos, superatingido pela crise e motivo pelo qual as perspectivas estão sendo revistas para baixo.


2020


Como o governo chinês não perde tempo, Guangdong já busca transformação. Até 2020, quer ser uma base para manufatura avançada, inovação e indústria pesada. Além disso, repetindo passos de 30 anos atrás, Guandong será um campo de teste para novas reformas econômicas que podem pintar por aí, abrindo-se mais par ao exterior. O plano do governo consiste em integrar o Delta do Rio da Pérola a Hong Kong e Macau numa espécia de região competitiva globalmente e um centro de produção e comércio com o maior vigor da região Ásia-Pacífico.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Gato na banca


Perto da minha casa há uma banca de revistas. As revistas - e os jornais e demais publicações - estão todas em chinês, motivo pelo qual é simplesmente melhorar ignorar o que talvez eles quisessem me dizer. Eu não entenderei de forma alguma.

No entanto, dia destes, ao ver a capa da Men's Health, não desgrudei do moço da capa. Gente, que gato. Ele ainda tem uma tatuagem abaixo do umbigo que é só pra deixar o cara mais perfeito ainda. Sério, tem gente que não curte muito asiático, mas com um destes por perto... Ouch...

Bueno, dando uma olhadinha no site da revista, achei esta foto pra lá de provocante.



Coloquei o texto no Google Translator e o que eu achei foi uma espécie de crônica a respeito do sexo em 2.049, quando um homem falava espantado que havia transado com uma menina de carne e osso, em vez do sexo que andava fazendo via msn, facebook e etc.

Pelo menos durante as fotos, o cara parece que se divertiu. Ou, será que mesmo em 2009, esta imagem é fruto de montagem? Olha...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Reconstrução: objetivo após o tremor


Praça Tiananmen amanheceu com bandeira a meio mastro, em Beijing
Foto: Tang Zhaoming/Agência Xinhua

A manhã desta segunda-feira é de luto. Por toda a China, as bandeiras a meio mastro revelam o sentimento em relação às vítimas do terremoto que já deixou pelo menos 32 mil mortos e mais de 220 mil feridos. O terror espalhado pelo sismo em Wenchuan é revisto em números, cada vez mais sombrios. Até a intensidade do sismo foi revista para cima pelas autoridades chinesas. Segundo o Departamento de Sismologia da China, o terremoto atingiu 8 graus na Escala Richter, de acordo com novas medições realizadas no domingo.

A gravidade e o tempo decorrido após o tremor já diminuem as chances de se encontrarem sobreviventes. Apesar de o resgate ser encorajado todo o tempo pelas autoridades, o foco agora parece ser mesmo a reconstrução. Os sites chineses reforçam hoje o dia de luto (e muitos trocaram as cores para cinza, em forma de homenagem), mas alertam para a necessidade constante de doações para as áreas atingidas - um total de 100 mil quilômetros quadrados.

De hoje até quarta-feira, o país vive luto nacional. Às 14h28min (horário local, na China) todas as sirenes de carros, trens e navios devem soar no país enquanto as pessoas deverão prestar três minutos de silêncio. É exatamente nesta hora que o terremoto atingiu Wenchuan há uma semana.


O sina.com, um dos mais populares, adotou mesmas cores em homenagem às vítimas


Site da agência Xinhua usa cores cinzas nesta segunda

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Extra! Extra!


Jornal de graça na saída do metrô
Foto: Jana Jan/China in Blog

A quinta-feira 8 de maio foi um dia de conquista para os chineses. O registro mostra a edição extra do Jornal da Juventude que contava a chegada de alpinistas portadores da tocha olímpica ao topo do Everest.

O suplemento era entregue de graça em regiões movimentadas de Beijing, como a saída da estação de metrô Chongwenmen (崇文门).

Ah, as estações de trem

Aliás, o clique da distribuição do jornal ocorreu quando encontrei a Mariana e ela me mostrou o que estava acontecendo. Teve tempo para observar bem a distribuição do jornal. Uma meia hora, pelo menos.

Havíamos combinado de nos encontrarmos na saída C da estação Chongwenmen às 12h30min. Trata-se de uma estação em que se encontrar as linhas 2 e 5. Desci do metrô na linha 5, procurei a saída C, lá fiquei esperando a Mariana. Ela estava na linha 2, saiu pela saída C da linha 2, lá ficou me esperando.

Pra complicar a história, eu estava sem celular - havia esquecido em casa - e nós estávamos sem comunicação. Nos encontramos por acaso, quando decidi buscar um telefone público pra telefonar à Mariana.

Cuidado! Ao combinar encontro nas estações de Beijing, cuidem se nestas há linhas que se cruzam ou não. É capaz de o mesmo local ter mais de uma saída A, B, C ou D - uma para a linha X, outra para a linha Y. Só eu que acho que as letras deveriam ser diferentes, e azar que houvesse até a saída H?