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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Recusa zero

Agora é oficial. Qualquer jornalista estrangeiro tem de ser atendido na China, seja em relação a pedidos de dados, seja em relação a pedidos de entrevista. Nem que seja para receber um não como resposta.

O Departamento de Comunicação do Conselho de Estado lançou uma campanha de "recusa zero". Nenhuma solicitação ficará perdida nos recantos burocráticos. Todos os ministérios deverão ter pessoas responsáveis pelo tratamento de entrevistas e pelos telefonemas dos jornalistas, o que a gente conhece por assessores de imprensa ou algo do gênero. Guo Weimin disse ao jornal China Daily, a publicação oficial em inglês que circula por toda a China, que qualquer contato deverá ter retorno em até 24 horas.

A China se esforça para ser aberta. A Olimpíada marcou mudanças no tratamento aos coleguinhas estrangeiros. Um ano antes dos Jogos, em 2007, o governo suspendeu a obrigatoriedade de autorização prévia dos governos locais para a realização de entrevistas (a pessoas comuns, o cidadão aquele que você está vendo ali passar na rua), além de permitir que fossem contratados assistentes chineses - em se tratando de entrevistas em mandarim, você faz ideia de a mão na roda que estes profissionais acabam por se tornar. Aí terminou a Olimpíada e a ideia foi manter o rumo.

A medida é simpática, mas em nada garante transparência ou mesmo acesso por parte da mídia ao governo e a livre investigação de pautas espinhosas. Mas, claro, já sinaliza como uma abertura para os bisbilhoteiros de plantão, nós, os jornalistas. Digamos que se agora é ruim, antes era bem pior.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O medo agora é também burocrático

Eu tenho medo de voar de avião. Eu vôo bastante de avião. Logo, volta e meia tou com medo. A cada acidente aéreo ou tensão no ar, lá vou eu pensar no pânico de passageiros, na tripulação atônita e na dor dos familiares. É inevitável. Parece que tragédias aéreas me causam mais pesar. Todos os outros pesares que a vida traz aos outros me doem também, devo confessar. Logo, volta e meia estou acusando a humanidade de raça que não deu certo.

Ontem, uma manchete pintada em amarelo fosforescente na página de notícas da Xinhua, a agência estatal chinesa, despertou antes da piedade, o espírito jornalístico - típico dos exemplares da tal raça humana que caçam notícias que causam pesares como se fossem tesouros. Num cacoete profissional, lá fui eu retuitar (você conhece o twitter e sabe do que tou falando, né) mal digitadas linhas sobre o suposto sequestro. Imaginava que dali seria merd* e uma madrugada sem dormir.

Além de um suposto sequestro de avião na China, outro componente entornava o caldo, oavião teria partido de Urumqi, a capital de Xinjiang que ainda lambe as feridas dos atos de violência que deixaram 197 mortos em 5 de julho e insabidos presos.

Em tempos de twitter e notícia a pronta entrega na velocidade dos bits, a AP embarcou, a CNN, eu e mais uma galera fã dos RTs. Fui atualizar a página da Xinhua, de onde todos nos abastecíamos, e cadê notícia? O amarelo fosforescente tinha abandonado a capa, o flash publicado na lista de últimas notícias desaparecido, o link aparecendo como quebrado. Despublicação sumária e suspeita de que a imprensa chinesa, tão afeita a versões bastante próprias dos temas nacionais e internacionais, havia dado uma barriga, e daquelas. Barriga, no jargão jornalístico, é quando você publica uma informação que não condiz com a verdade. De jeito nenhum. Não confundir com informação distorcida, pois.

Barriguei eu, barrigou CNN (com uma tarja amarela fosforescente ainda maior do que a original chinesa), AP, outro bando. Aí a Xinhua sai com outra versão oficial, desta vez dizendo que um avião que partira de Cabul, no Afeganistão, com destino a Urumqi, teria sofrido uma ameaça de bomba, retornado ao Afeganistão, pousado em Kashgar e era isso. Fui dormir.

Acordei com a CNN explicando que não houve qualquer sequestro, qualquer ameaça de bomba, mas restrições impostas pelo Quirguistão para que o avião afegão usasse seu espaço aéreo.

Então pensei que a mídia chinesa tão afeita a versões bastante particulares e dona de um coportamento raro quanto ao fazer jornalístico não havia sequer se preocupado em apurar muito os fatos. Por quê? Porque o que poderia ser melhor do que um sequestro ou ameaça de bomba envolvendo um avião que viajava para Urumqi, centro nervoso das tensões étnicas atuais por aqui? Segundo minha lógica sobre a lógica midiática oficial chinesa, a história seria mais uma a reforçar a necessidade da luta contra o extremismo, o separatismo e o terrorismo, as três forças do mal publicadas dia a dia por aqui.

Nesta onda propagandística, a agência, que já não goza de exatamente credibilidade, protagonizou um belo mico ao fazer todo o mundo barrigar. Coisa feia.

Hoje, diz a Reuters, o avião afegão da Kam Air retornou ao Afeganistão devido à falta de documentação. Segundo as fontes afegãs, este seria o primeiro voo da rota Cabul-Urumqi, e que o aeroporto na província chinesa de Xinjiang negou permissão para aterrissagem.

Fiquei imaginando que agora pelos ares preciso também temer a burocracia. Em terra, percebo que a humanidade realmente não deu certo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

As redes sociais da rede chinesa

Uma das principais redes sociais chinesas, a Xiaonei, agora não é mais Xiaonei, mas Renren. A mudança no nome não foi bem explicada, mas a novidade é fresquinha por aqui, coisa desta terça-feira.

Numa análise bem superficial, o que se diz é que enquanto o primeiro nome se refere a campus, e por isso acaba atraindo um público prioritariamente de alunos de Ensino Médio e graduação, o segundo significa "todo mundo". Bem, e todo mundo você sabe o que é.







O domínio Renren não tem lá um currículo muito animador. Criado em 1999, o site teve uma curta vida de bons lucros até 2001, quando a bolha internética estourou e fez com o negócio fosse pelos ares. Em 2005, o domínio foi comprado e teve curta vida como site de classificados entre 2006 e 2007. Agora volta à vida. Será que com força? Sei lá, esta coisa de agradar a todos...

Certo que o planeta internético chinês é, para rimar, um tanto hermético, acredite. E aqui a gente não está falando das barreiras governamentais impostas para barrar o que seria pornografia e outras barbaridades, mas é muito mais do que isso, é filtro mesmo para que se evitem trocas de ideias sobre questões políticas e tals. E a gente sabe, sendo brasileiro, o quão bom é viver num país democrático, com imprensa livre e livre troca de pensamentos via internet. É só olharmos para nosso Congresso para nos orgulharmos de nossa liberdade e construção de cidadania e democracia.

Mas voltando à China, o olhar chinês sobre o próprio umbigo é fenômeno antigo, se é que se pode classificar como antigo um comportamento percebido na internet, que há pouco começou a integrar a vida das pessoas. Aqui, 338 milhões de pessoas, até junho - 22% da população, ante os 75% dos Estados Unidos. Imagina o que tem de espaço para crescimento. O resultado, anota Tom Melcher, que atua no mercado de internet da China desde 2005, é uma total falta de percepção dos geeks, nerds e Marcks Zuckerbers e afins de o que os chineses esperam na tela do computador.

Enquanto o fundador do Facebook flana pelo Brasil comemorando um crescimento da rede entre os usuários brazucas, na China, ele vê o fraco desempenho ficar ainda mais capenga. Em julho, o número de usuários no país chegava a 1 milhão, mas caiu pela metade em um mês. Claro que é fácil atribuir a culpa ao governo, já que desta vez, assim como fez com Twitter, Youtube e outras maravilhas do mundo web ocidental, os incansáveis operários que não param de alargar os horizontes do Great Wall of China trataram de barrar o Facebook. A desculpa da vez foi o uso da rede para propagar mensagens separatistas pouco após os espinhosos conflitos étnicos de 5 de julho em Xinjiang, a terra da minoria uigur hoje cheia de moradores da maioria han.

Mas então, voltando ao cenário lindo e do qual pouco lembro da liberdade via bits na China, Melcher dá a primeira dica. Admitir que ninguém de fora entende nada do mercado chinês e que trazer modelos ocidentais é o primeiro passo rumo ao caminho errado. Mal, bem mal, se você pensar que em 2008 a Tencent, responsável pelo QQ, que é o MSN que conta para os chineses, ou serviço de mensagens instatâneas, se é que você lembra do termo, teve uma renda de US$ 1 bilhão e ostenta um market cap de US$ 24 milhões, deixando para trás o Yahoo, por exemplo.

Mas aí Melcher não dá muitas pistas de como conquistar o gosto do internauta chinês. Uma pena. Agora, o artigo, cujo link eu vou deixar ali abaixo, reforça uma crença minha. Que no fundo, muito dos filtros chineses não importam tanto assim para a massa online quando os alvos são sites estrangeiros. Aqui twitter é fanfou, msn é QQ, Google é Baidu, Youtube é Youku. Para você isso pode não ter o menor sentido, mas para quem está deste lado daqui, tem. Tanto tem que o povo da Web Asia 2.0 fez uma lista delícia dos equivalentes chineses das estrelas ocidentais. Essa você confere aqui http://www.web2asia.com/2009/08/05/asian-equivalents-of-western-web-services-part-03-china/.

Agora eu deixo você com o artigo do Melcher
http://www.businessinsider.com/henry-blodget-the-us-internet-industry-leads-the-world-right-wrong-2009-8

E, para quem quiser saber mais sobre os números do Facebook no país, aqui vai a dica
http://www.insidefacebook.com/2009/08/04/facebook-traffic-from-china-drops-by-half-in-the-last-month/

***

Em tempo. Nesta quarta-feira, a agência estatal chinesa divulgou uma notícia um tanto quanto irônica. Só pode ser ironia, penso eu, que cada vez entendo menos de o que se entende por jornalismo aqui (deve ser porque a mídia tem influência direta do poder político, e o poder político tem este vício de fazer pouco caso do coraçãozinho da população). Enfins, a matéria dava conta de que o Facebook mantém a rápida subida rumo ao topo da lista de maiores sites do mundo, em quarto lugar, com 340 milhões de visitantes únicos do mundo inteiro. Do mundo inteiro, menos a China e alguns outros né. Sério, ai minha paciência.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O velho jornalismo

Se você acha que conhece um jeito antigo de fazer jornalismo e não conhece a mídia chinesa, então você não sabe o que é ser atrasado. Imagine a maior potencial potência econômica mundial com poder político suficiente para amedrontar países ou, pelo menos, chantageá-los com joguinhos diplomáticos, recorrendo a métodos tão arcaicos quanto jornalismo propagandístico mal feito. É por aí. Puro atraso para deleite dos críticos de plantão, combustível para descerebrados papagaiarem historietas oficiais.

Hoje a grande história do dia nos meios estatais foi a carta escrita por membros da família da uigur Rebiya Kadeer (http://news.xinhuanet.com/english/2009-08/04/content_11823397.htm) pedindo para que ela interrompesse atos separatistas e pensasse na harmonia e na paz étnica que reinam em Xinjiang, Crueldade e ingenuidade na mesma medida.

Tem de tudo ali. Os signatários culpam Rebiya pelos incidentes que deixaram 197 mortos em Urumqi, segundo as cifras oficiais. Reconhecem que ela fez uma ligação naquele domingo, 5 de julho, que seria um aviso de o que ocorreria seis horas mais tarde e, por isso, prova de que ela estaria envolvida na organização dos atos violentos. Os signatários são da família, eu já disse. Filhos, irmão, uma parentada.

O filho mais novo do primeiro casamento de Rebiya, que tem 11 ao total, Alim, é capítulo à parte. Ao ser apresentado, o menino hoje com 33 anos lembra que a mãe é divorciada, praticamente um crime por aqui, motivo de preconceito de sul a norte, leste a oesta da China, unificada ou não. Diz que nunca perdoou ter sido abandonado aos seis meses e depois conta uma história triste dos tempos em que, ao tomar conta dos negócios da mãe, então ricaça, teria sido instado por ela a atear fogo sobre si próprio para protestar contra o governo chinês que acusava a empresária de evasão de divisas – ela, aliás, teve todos os bens confiscados e virou pobre de marré.

A carta e a história são uma sucessão de histórias que podem ser muito bem maquinadas ou conseguidas via coerção, mas que, em sendo totalmente verídicas e apuradas segundo os preceitos éticos do jornalismo, dão conta da visão tacanha das autoridades propagandísticas do Partido que, em outras palavras, é o governo. Um tom emocional que beira o mau gosto, num jogo de palavras que casaria bem com o tom de telenovela étnico familiar. Eu não acompanho a atual novela das oito aí no Brasil, ainda bem, mas imagino o roteiro seja parecido. Apela-se para uma falsa harmonia em nome do progresso e bem-estar comum.

Eu fico imaginando muitas vezes como devem ser as reuniões dos líderes políticos responsáveis pela mídia. Diz-se que a China que se abriu economicamente ao mundo foi pródiga em fazer de trabalhadores do campo ou operários empresários fenomenalmente ricos – aliás, a própria trajetória da Rebiya, que só depois teve o azar de se indispor com o governo e por aparente birra, resolveu preferir a via dissidente à da pobrezinha injustiçada. Enfim, a China é um país de muita gente muito simples com muita grana. E por que nas esferas políticas o cenário não se repetiria?

Num paralelo, fico imaginando os lapsos de visão crítica e estratégica entre os líderes que efetivamente detêm o poder e um que outro especialista que integra os quadros do partido apenas para darem status de decisões científicas e especializadas. Por que tem, esta coisa toda é tão arcaica, eu digo as entranhas do poder chinês, que o modelo deve ser bem este. O jeca tatu que manda, os pensantes que não têm poder de voto e a populácia que engula, a seco e calada, uma vez que não tem voz nenhuma. E quando tenta ter acaba calada.

Uma irritação só que é ver o que é feito dos meios de comunicação aqui. Uma irritação só ver o que é feito do público aqui. E uma irritação maior ainda imaginar o que ocorre nas esferas privadas.

Pulinho para irritação brazuca

Pelo menos com tanto cacique protegido pelas esferas partidárias, a gente não precisa ver a lambança Lula, Sarney, Collor e Simon. Aliás, só este último ainda não foi nosso presidente. Que bem que estamos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

E a TV chinesa agora fala árabe

A partir de hoje, 24 de julho, a televisão estatal chinesa, a CCTV, tem um canal em árabe, a exemplo do que já ocorre com a pioneira em inglês e as seguintes francesa e espanhola. Os canais em português e em russo são os próximos da lista, segundo plano anunciado no início do ano na mídia em Hong Kong.

O objetivo é simples, divulgar a visão de mundo chinesa, na língua daqueles que se pretende alcançar. No caso árabe, os episódios em Xinjiang aceleraram os planos. É bem verdade que o canal já estava sendo preparado e o pessoal contratado desde o início do primeiro semestre. Mas o cronograma previa um lançamento algo entre setembro e outubro. Aí corre todo o mundo e ação. Ah, claro que ninguém reconhece o motivo da antecipação, não oficialmente.

O canal lançado hoje terá transmissão de 24 horas, focado em notícias, educação e entretenimento. Os programas especiais, como documentários e de aulas de chinês, por exemplo, serão transmitidos seis vezes ao dia. O resto é notícia.

Segundo o vice-presidente da CCTV, Zhang Changming, a TV chegará via satélite ao Oriente Médio, região da Ásia Pacífico e África, num total de 200 milhões de potenciais espectadores.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Na internet chinesa você vê de tudo, até o que não vê

A China fechou o primeiro semestre com 338 milhões de internautas, um incremento nada acanhado de 40 milhões de usuários em seis meses, segundo o Centro de Informações da Internet, órgão que regula a rede no país. Ou um dos. Banda larga? Realidade para 94,3% deste batalhão online.

Salto bem mais significativo foi no número de gente que acessa a web via celular. Agora são 155 milhões (ou eram, há coisa de quase um mês, já que o crescimento por aqui é mesmo espantoso), 32,1% a mais do que em dezembro de 2008. Feliz mesmo é quem vende. Num mercado já nada desprezível, quem antes atendia 14 milhões de compradores online, há seis meses, agora tem 87,9 milhões de consumidores à disposição. Quem dá mais?

Privar da companhia desta gente que tecla por meio de caracteres vai além dos mistérios dos 1001 desenhos que compõem o arsenal básico do bate-papo chinês. Perpassa por sensíveis barreiras censoras e o filtro individual.

Veja o Facebook, a rede social que agora chega ao mercado brasileiro e que comemorou faceira nesta semana 250 milhões de usuários. Como ela aparece aqui na China? Escondida sob desvios de proxy e, ainda assim, mais pra lá do que pra cá, literalmente e geograficamente falando. E os internautas chineses? Querem mais é que o Facebook se exploda.

A rede social foi um dos meios de propagação de campanhas pró independência de Xinjiang - a região autônoma muçulmana onde eclodiu a violência entre a maioria chinesa han e a minoria uigur, de origem turca e maioria naqueles pagos a oeste do país -, decretou no dia 8 de julho o jornal chinês Global Times (http://www.globaltimes.cn/), uma versão em inglês de o que os chineses pensam sobre o mundo.

Um grupo criado nas páginas do Facebook clamava a independência da tal região. Para os internautas da China, não clamou por muito tempo. O Facebook foi um dos primeiros alvos das garras sujas e feias da censura, seguindo o rastro do twitter, do blogspot, do wordpress, de tantos outros que de tão distantes até parecem fazer parte do imaginário coletivo dos internautas ocidentais. E só.

Aproveitando a onda, o jornal resolveu perguntar a opinião dos internautas. E, uma vez que tenha sido um meio de propagação de tal mensagem de desarmonia e desunião, o Facebook deveria ser punido. Entre aqueles que votaram, 81,7% apóiam uma punição ao site. Bacana.

O povo aqui anda sem muita paciência e sem meias palavras. Em Xinjiang, palco dos protestos, internet nem com sinal de fumaça. Os negócios via rede estão parados e o único local com acesso é o centro de imprensa montado no hotel Hoi Tak, da capital Urumqi, onde você leva seu laptop, briga por um daqueles famigerados cabinhos azuis e reza para a conexão não cair, não importa seu credo. Reze. Se não rolar, cruz credo, adeus transmissão das notícias quentinhas. Ah, e se você não é jornalista, nem pense em usar o local. É preciso credenciamento para adentrar o salão (onde, de 15 em 15 minutos toca Garota de Ipanema instrumental, porque o DJ local tem um CD com quatro músicas, repetidas à exaustão. Eu diria que até é parte do processo. De tortura psicológica. Quantas Garotas de Ipanema você precisa para gerar uma matéria de TV?).

Divagações à parte, voltemos ao papo sério. Para especialitas chineses em internet, a linha dura adotada agora resulta num dilema para o governo.

Em entrevista ao estatal China Daily, o especialista em novas mídias da Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Pequim Hu Yong afirma que, se por um lado pela primeira vez o governo admite abertamente que está cortando a internet, provavelmente imaginando que terá apoio popular ao mostrar que a medida visa garantir a segurança, por outro, está restringindo a realização de negócios e outras atividades online, como participação em fóruns e chats.

- Os jovens usuários podem começar a ter dúvidas sobre as políticas governamentais em relação à internet, o que poderá trazer impactos profundos - prediz Hu.

Em tempos de mensagens diretas, Yu Xiaofeng, da Universidade de Zhejiang, alfineta:

- Bloquear informações não deve ser a primeira escolha em uma sociedade aberta.

E esta É uma sociedade aberta? Eu cá tenho minhas dúvidas, mas o tal senhor Yu tem outro conselho.

- O governo deveria permitir a propagação de fontes oficiais e não oficiais. Assim, tanto o governo como os cidadãos poderiam procurar a verdade através do conhecimento.

Falou bonito. Para quem quiser ver, em inglês, a matéria na íntegra, aqui vai
http://www.chinadaily.com.cn/china/2009xinjiangriot/2009-07/16/content_8434260.htm

E clique abaixo para ver a notícia sobre o apoio dos internautas chineses à punição ao Facebook, publicada no Diário do Povo, a principal voz do Partido Comunista.
http://english.peopledaily.com.cn/90001/90776/90882/6697993.html

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pra TV

Hoje a agência estatal chinesa de notícias, a Xinhua, divulgou uma singela nota. A CCTV, a televisão estatal chinesa, lançará um canal em português. Prazo brasileirinho: demorará entre um e dois anos para que a emissora entre em operação (tipo assim, há uma bela distância entre uma previsão e outra).

A característica da nota seguia os moldes do jornalismo chinês. Nenhum detalhe, nada de aprofundar a informação que, aliás, foi gerada via escritório de Brasília, a partir de dados da portuguesa Lusa.

A CCTV tem endereço de luxo, o prédio cujas torres inclinadas se encontram no alto, tipo o que nos faz pensar que a coisa toda está ou de cabeça pra baixo ou prestes a desabar. Mas esta seria apenas uma ótica simplista e carente de qualquer senso estético ou valor arquitetônico. Quer dizer, eu não tenho nenhum nem outro, mas vai que algum fã do seu Rem Koolhaas venha parar no blog, ou ele mesmo, afinal nunca se sabe quando um arquiteto holandês pode entender português, não é mesmo? Aliás, vai ver é por isso o Roupa Nova cantava tão empolgado "Eu te abraçava, tu e o holandês,/ e perguntava "tu e o holandês?"/ Beijar você um sonho a mais não faz mal".

O endereço é tão de luxo que o povo trabalhador ainda nem se mudou para lá. Pelas contas originais, deveria ser antes da Olimpíada, mas como vimos, não rolou. Os jogos já acabaram há quase um ano e nada. Claro que agora o motivo é resolver o que fazer com o prédio do Oriental Hotel localizado no complexo e que se consumiu-se todinho em chamas no último dia do Festival da Primavera aqui. Pirotecnia pura.

A ver quem vem primeiro, o canal em português ou a mudança pra casa nova. A TV já exibe canais em inglês, francês e espanhol e prepara o árabe. O russo, assim como o tuga, está na lista. Aliás, pra duas línguas tão parecidas, acho que poderiam contratar a mesma equipe.

***

Depois de imaginar que este post tenha acabado com qualquer chance de ser contratada pela dita emissora tamanho festival de nonsense (aliás, querido leitor, chegou até aqui?), deixo uma singela homenagem dos tempos olímpicos aos holandeses. Som na caixa, Roupa Nova.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O mundo em inglês com características chinesas

A imprensa escrita chinesa interpreta os fatos do cenário internacional por meio do jornal Global Times, 环球 (Huanqiu, ou Global), e, a partir desta segunda-feira, 20 de abril, traduz para quem lê em inglês. Está no ar o site www.globaltimens.cn, a versão para quem não sabe mandarim do jornal especializado em cobertura mundial.

O Global Times sem caracteres estreou hoje também nas bancas, fruto de uma iniciativa da mídia chinesa para se aproximar do mundo ocidental, digamos assim, ainda que dentro de casa. A circulação, de segunda a sexta, será nacional.



O Global Times, ligado ao poderoso - e sob controle estatal - Diário do Povo, começou a circular em 1993, trazendo uma cobertura mundial sob a perspectiva chinesa, com os pontos de vista e as opiniões dos chineses, segundo o próprio jornal.

Para o editor-chefe, Hu Xijin, o lançamento marca o início de novos tempos.

- Nós ganhamos confiança para obter sucesso, para fazer amizade com os estrangeiros e facilitar a comunicação entre a China e o mundo - disse Hu, em entrevista à agência de notícias estatal chinesa, a Xinhua, ao falar sobre o lançamento do novo produto.

Hu afirma que não se trata de uma tradução da versão chinesa, mas de um jornal feito por um time independente de repórteres, editores e especialistas. Aliás, segundo o site, são mais de 500 correspondentes ou colaboradores pelo mundo.

O lançamento do Global Times lembra a abertura de uma redação do jornal em inglês mais famoso da China, o China Daily, nos Estados Unidos, ocorrida no final de fevereiro. É que neste ano, o governo chinês prometeu propagandear os feitos chineses através da mídia chinesa em outras línguas, ao criar desde jornais a estações de TV.

Será que agora vai?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Mais nada pra fazer

Outra brincadeirinha no facebook, desta vez a de escolher quais os cinco jornais que eu sempre leio.



Tive de criar o Zero Hora, que ainda não havia sido escolhido por ninguém, e escolhi uma capa especial. O 4 de abril já é bastante comemorado lá em casa por ser aniversário do meu pai, mas no último sábado, a capa do maior jornal do RS trazia uma história bacana para aqueles que gostam de futebol, o centenário do Inter.



Agora, se você também escolher ZH nesta brincadeirinha, verá a bonita capa que esta jornalista e torcedora escolheu.

terça-feira, 10 de março de 2009

单位

Danwei (单位) é unidade de trabalho em mandarim.

Poderia significar apenas isso, o local onde se trabalha. Mas o apelo é mais forte, e quem explica é a Lijia Zhang, uma jornalista chinesa por quem estou apaixonada. Estou lendo Socialism is Great, o livro em que ela conta o começo da vida profissional em uma fábrica chinesa no final dos anos 1970.

Naqueles tempos de controle forte sobre a vida do cidadão, era por meio do danwei (ou 单位) que o governo mantinha o vivente na linha. O documento indicava exatamente o local de trabalho do cidadão - o número da unidade para a qual servia -, o que, na prática, não só garantia acesso à previdência social, mas o direito a casar e ser cremado ou enterrado em caso de morte. Trivialidades...

Pois um dos sites chineses mais bacanas que conheço adotou não só o nome Danwei, como a ideia de formar uma unidade de trabalho. Ali, estão reunidas discussões - mas em inglês - sobre mídia chinesa, propaganda e a vida nas grandes cidades. Imperdível.

Todos os anos (e eles estão ativos desde 1990, então entendem do riscado), eles escolhem os melhores blogs em inglês sobre a China, basicamente Trabalhadores Modelo para a Unidade de Trabalho. Quem quiser ver, pode clicar aqui.



Os tais trabalhadores modelo é outra herança do conceito de 单位. Minha amiga Zhang foi indicada uma vez para o posto, mas, na época, não levou a distinção devido a uma jaqueta de oncinha que costumava usar e que era muito padrão burguês ocidental para a concepção do chefete recém saído do casulo forçado imposto aos chineses nos anos de Mao. Comportamento padrão dentro da fábrica, mas trajes adequados fora dela. E quem liga para uma certa divisão entre vida privada e profissional?

No site, os editores pegaram o conceito de Modelo emprestado e embarcaram de vez na ironia. Segundo eles, os ganhadores são escolhidos pelo Comitê Central do Danwei, sem nenhum tipo de democracia ou votação envolvidas.

Zhang conta no livro sobre o momento em que disputou a vaga com outra colega. "Os nossos nomes foram postos em consideração. A eleição era um exercício de democracia centralizada, democracia sob orientação central, com o líder sempre tendo a palavra final - esse era o jeito como a China se movia". Bueno, pelo menos no site não há pretensa participação.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

China Daily nos Esteites



O maior jornal chinês em língua inglesa agora tem uma redação nos Estados Unidos. Desde segunda-feira, 23 de fevereiro, o China Daily USA circula nas bancas norte-americanas com uma proposta um tanto ousada, transformar o inverno econômico em primavera, segundo escreveu em carta aos leitores o editor-chefe da publicação, Zhu Ling.

O braço estatal do governo chinês chega com pompa e anuncia que é espaço para os tomadores de decisões e os pensadores independentes. Sem crise. Com tanto jornalão norte-americano pedindo água, o aporte chinês pode ser até alívio para os jornalistas. Entre as propostas, está a apuração dos fatos em cima dos fatos, com repórteres in loco. Certa contradição para uma imprensa - a chinesa - vista com ressalvas. Seria a forma de apuração o pulo do gato? Em tempos de enxugamento de redações, os chineses vão contra a maré.

Mas há mais coisas neste caldo do que só salvar jornalistas aflitos por empregos. Por mais que eleger modelos midiáticos mais modernos - e objetivos, digamos assim - possa ser um truque interessante, o alvo parece outro. O slogan do jornal é claro ao dizer a que ele veio: "Traga o seu negócio para perto da China". Somado a isso, o desejo claro dos chineses de propagandear o seu país por meio de uma visão sem preconceitos ocidentais.

Por enquanto, o China Daily USA circula em todos os estados norte-americanos e no Canadá na edição de segundas-feiras. Já de terça a sexta, a tiragem abrange apenas a cidade de Nova York.

Na China, a publicação em inglês, o único jornal nacional do gênero, tem uma tiragem diária de 260 mil exemplares. No celular, o número de assinantes supera os 150 mil. Segundo o próprio China Daily, 85% dos leitores estão na faixa dos 31 a 55 anos. Gente que consome - e que gera renda pra isso -, saca?

Para o outono de 2010 na Europa, o que a gente pode contar como algo perto de setembro, está previsto o lançamento da edição China Daily Velho Continente.

A iniciativa norte-americana é o primeiro passo concreto de um pacote governamental não anunciado formalmente, mas que vazou em janeiro na imprensa de Hong Kong. O governo planejaria gastar mais de US$ 6,5 bilhões para melhorar a imagem do país no Ocidente. Toda esta grana, voltada às principais mídias estatais chinesas.

Com uma estratégia a ser construída junto a consultores internacionais, o objetivo seria ganhar notoriedade. A Xinhua, agência oficial, por exemplo, ampliaria a presença exterior dos atuais 100 países para 186. Aliás, este mesmo ramal seria o responsável pela criação de um canal de televisão em português, o que até agora não consegui confirmar. Ai, mal de fontes. Para a telinha, um dos modelos a serem seguidos é o da televisão Al Jazeera, do Qatar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O mundo lusófono está na China


"É um ópio...esta China! Que o vício da escrita (e o da leitura também) venha dar a este blog!". É acertando na mosca em relação ao ópio que é a China e pedindo leituras e escritas viciantes que a jornalista Vera Pêneda apresenta o seu De olho no Dragão.

Eu ontem estava procurando mais e mais blogs em português que falassem sobre a China (até agrupei-os na lista aí ao lado) e me deparei com o De Olho. A Vera é conhecida desde os tempos que chegou a Beijing, amiga de festas, amiga de outras horas. Mas não sabia que ela tinha um blog. Foi depois de buscar referências em Macau que descobri o diário desta jornalista portuguesinha que está por estas bandas há bem mais de um ano.

Minha intenção é, mesmo que os links estejam ali ao lado para vocês clicarem, falar um pouco de por que escolhi os blogs que estou recomendando. Algo como: leiam porque eu acho isso. Tudo bem, minha opinião pode até nem ser tão válida, mas se você está me lendo por aqui, imagino que dê bola para o que eu penso.

O blog da Vera tem inúmeras coisas giras. O layout é agradável, só pra começar. Os textos são uma delícia e a construção tem uma unidade que poucos conseguem dar, especialmente porque a moça é fã do teclado e digita posts grandes. Mais do que recomendadíssimos. Leitura é um vício, a Vera já avisou.

Para mim, outro destaque nos textos da Vera são a diversidade de temas que ela aborda e a quantidade de fontes que usa ao discorrer sobre os temas. Trabalho de quem pesquisou, se interessa, conhece e quer dividir o que sabe. Eu virei fã, irei sempre lá me informar mais e mais.

E, bom, tem mais uma coisinha. Ler em português de Portugal é um prazer por si só. Parece que a língua tem um tratamento mais elegante. E, claro, vários "c" que eu não sei pra que servem, de facto, mas que fazem parte da prosa escrita dos nossos lusófonos europeus.

Bueno, chega de ler sobre a Vera aqui. Quem perdeu a chance de clicar lá em cima, agora não tem mais desculpa. Tó o link!