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segunda-feira, 6 de julho de 2009

O culpado é a madame

A gente ainda nem sabia – e na verdade, nem sabe – o que estava se passando em Xinjiang, mas já tínhamos um culpado pelos protestos, a uigur Rebiya Kadeer, que desde 2005 mora nos Estados Unidos. Ela e a organização que lidera, o Congresso Mundial Uigur, numa tradução bem livre e que tem sede na Alemanha, estariam por trás dos ataques premeditados, oh, a expressão tão cara aos figurões de Beijing.

Rebiya poderia ser um nome mundialmente famoso, mas não. A causa pela qual ela advoga poderia ter apelo mundial, mas não. Em linhas gerais, se trata da mesma questão tibetana, a de um povo e de uma região que vive às turras com o governo central chinês por mais liberdade, seja esta de expressão cultural e religiosa e, claro, de gerência sobre os atos políticos e econômicos concernentes aos seus territórios.

Apesar de não dar Ibope, é mais do que válido um perfil de Rebiya, que chegou a ser indicada ao Nobel da Paz em 2006, mas não levou. A mãe de 11 filhos e casada duas vezes poderia já ter muito o que pensar apenas com esta tropa, mas antes de somar este número todo à prole, dividia as atenções com os negócios e parece que bem. Na esteira da abertura política e econômica chinesa capitaneada por Deng Xiaoping ela encontrou brechas que permitiram o gerenciamento de um negócio privado e dos 100 yuans iniciais, coisa de R$ 25, de investimento usado em 1977 para um negócio de compra e venda, construiu um império em Xinjiang que a elevou nos anos 1990 ao posto de 17º pessoa mais rica da China. Elevou bem mais, e ela integrou a Conferência Consultiva Política Popular da China e, em 1995, representou o país na Conferência Mundial das Mulheres, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Dor de cabeça pouca é bobagem e com tempo sobrando, ela resolveu usar de sua influência política para falar sobre os problemas que via na terra natal relativos ao povo do qual faz parte. Um tanto ingênuo para alguém com vida tão promissora. Não que ela tenha sido um caso isolado, porque no final dos 90, o partido, com medo de novos episódios nos moldes de 89 resolveu endurecer para empresários de grana que gastavam parte de suas fortunas com questões mais sensíveis. São as cifras oficiais que mostram que das 14,5 milhões de empresas privadas da época, 1 milhão foram fechadas e os bens dos proprietários, confiscados. Aliás, este é o status de Rebiya, que de pobre passou a pobre, com um intervalo de riqueza.

A situação da amiga complicou de vez em 2000, quando foi acusada de revelar segredos de Estado ao Exterior. O marido, outro dissidente, já morava nos Estados Unidos e foi para lá que ela mandava recortes de jornais. Suficiente para formar as provas de acusação (o fato de os jornais estarem nas bancas para que qualquer que lesse mandarim ou uigur é mero detalhe, claro). Daí Rebiya foi condenada a oito anos de prisão, teve a pena reduzida em um por bom comportamento e em 2005, devido a pressões da então secretária de Estado norte-americana Condelezza Rice, foi solta. No mesmo ano, ganhou permissão para deixar a China para fazer tratamento de saúde nos Estados Unidos e lá ficou. Mesmo com base no Exterior, a ex-empresária se dedica à causa uigur e acredita nos excessos do poder em Beijing, denunciando problemas como esmagamento da cultura local, racismo e falta de participação nas decisões políticas e nos louros econômicos de recursos tão importantes como o petróleo.

***

As informações sobre o início da carreira promissora de Rebiya como mulher de negócios e sobre a dura do governo chinês nos empresários bonzinhos de então constam do livro The Chinese, do jornalista Jasper Becker, sem tradução em português.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Escanteado, mas não calado


Poderia ter havido negociação. A afirmação do ex-primeiro-ministro chinês Zhao Ziyang bota lenha na fogueira e reacende a ira dos meandros do poder comunista em Beijing, que gasta boa parte do tempo e dos esforços para se livrar do fantasma da Praça da Paz Celestial. Zhao se refere aos estudantes que acamparam em frente à Cidade Proibida e só saíram dali expulsos pelo Exército de Libertação Popular, alguns deles, mortos – entre centenas e até 2 mil mortos, ainda não se sabe a cifra exata -, em 4 de junho de 1989.
As declarações estão no livro póstumo Prisioneiro do Estado – O Diário Secreto do Premie Zhao Ziyang, lançado nesta terça-feira nos Estados Unidos e em Hong Kong, onde a obra de 306 páginas ganhou versão em chinês. Na parte continental do país ela está proibida.

Os editores aproveitaram os 20 anos do massacre para publicar o livro, até agora o relato mais crítico à cúpula política no comando da República Popular da China vindo de um integrante do primeiro escalão.

Zhao ascendeu ao Politburo em 1977, pinçado pelo então presidente Deng Xiaoping, sucessor de Mao, depois de garantir reformas profundas que fariam a indústria de Sichuan crescer 81% em três anos, mesmo período em que a agricultura deu um salto de 25% na província. Em 79, já era vice-primeiro-ministro e seis meses depois, nomeado premiê. Zhao era ambicioso e tinha como meta transformar a China numa social-democracia até 2000. Começou, conta no livro, implantando a política de reforma e abertura, que transformou o país no chão de fábrica mundial. Os louros, claro, até hoje são do então presidente, Deng.

No final da década de 1980, o que eram flores se revelou um problemão. O superaquecimento da economia trouxe inflação e descontentamento. O culpado? Zhao, óbvio. Para completar, quando os estudantes tomaram a praça, lá foi ele conversar com o povo – e nesta foto, vocês podem ver que ao lado esquerdo de Zhao, com megafone em punho, está uma figura que viria a se tornar tão importante quanto, o atual primeiro-ministro Wen Jiabao.

No debate com os estudantes, o primeiro-ministro selava seu fim político e viveria os próximos 16 anos sob prisão domiciliar, em Beijing, tirado de cena. Claro que o partido sabia do simbolismo da figura de Zhao e quando este morreu, em janeiro de 2005, um comitê foi criado às pressas para monitorar possíveis manifestações populares. Os ideais democráticos de 1989 não se revelaram, no entanto. A prudência do Politburo ainda fez com que houvesse um controle dos viajantes à capital na época, evitando um afluxo de gente do interior, além de proibir que a notícia da morte fosse veiculada em rádio e TV.

Gato escaldado tem medo de água. É que todo o movimento em 1989 surgiu a partir do luto pela morte de Hu Yaobang, outro integrante do Politburo que defendia reformas que poderiam desembocar em uma política mais democrática. Hu morreu em 15 de abril de 1989, depois de sofrer um ataque cardíaco durante reunião do partido. No dia 17, um grupo de estudantes foi à Praça homenageá-lo com flores e faixas. E àquela manifestação de pesar foram juntando-se mais flores, mais estudantes e, principalmente, mais faixas.

Nos dizeres, nem sempre Hu era o tema. A democracia era, pedidos de liberdade de expressão eram, o fim do sistema de unidades de trabalho, em que os empregos passavam de pai para filho, como um tesouro praticamente genético que dava ao governo o poder de gerenciar não só a vida profissional dos não cidadãos, como a privada, também era. E de tantas faixas, flores e estudantes surgiu uma tese, publicada no Diário do Povo de 26 de abril, a voz do partido chinês. Articulado por Li Peng, camarada linha dura e próximo a Deng, o editorial taxava a manifestação de anti-partido e anti-socialista. Decretado, pois, quem eram mocinhos e bandidos na história.

O objetivo, dizem especialistas, seriam amedrontar os manifestantes que, acovardados pelo status de inimigos, recolheriam-se à sua insignificância. Engano. A mobilização só fez crescer. E Zhao insistindo em negociação. Até que numa reunião na casa de Deng, relatada no livro, se decide decretar lei marcial e acabar com a balbúrdia. Este é um dos pontos em que Zhao inova, ao desdizer registros não oficiais, diga-se, sobre a decisão que culminou na expulsão via exército. Zhao sustenta que não houve votação entre os integrantes do Politburo sobre a questão, fato que contraria até mesmo as regras partidárias. Para mim, não faz diferença alguma se alguém antidemocrático não votou. Mas parece que aí estaria mais uma prova da arbitrariedade dos grandões chineses.

Zhao fala mesmo e fala demais. Tenta mostrar que Deng não tem nada de arquiteto das reformas, atribuindo a si muito das mudanças. Tudo isso foi gravado em cerca de 30 fitas, secretamente, claro, que saíam de casa clandestinamente. Bao Pu, responsável por traduzi-las para o inglês e um dos editores do livro, conta que levou anos para resgatar todo o material. Pu é filho de Bao Tang, assistente político de Zhao e que passou seis anos na cadeia após o episódio da Praça.Imagino, mesmo sem ter lido, que os esforços tanto de Zhao para gravar às escondidas quanto de Bao para reunir e traduzir o conteúdo valem super a pena. Botei o livro na lista de obras que lerei. E quem gosta de história política contemporânea ou tem curiosidade sobre a China deveria fazer o mesmo.

domingo, 19 de abril de 2009

O gato diz adeus

Estou super Porto Alegre aqui em Beijing. Quem está na capital gaúcha tem outro convite meu: ir ao lançamento do O gato diz adeus, o novo romance do Michel Laub, gaúcho radicado em São Paulo há uma pá de anos.



Dia 22, próxima quarta-feira, ele autografa o livro na Palavraria, que fica na Vasco da Gama, 165. Eu não estarei por lá, então adoraria que vocês fossem. Garanto que é leitura deliciosa. Do Michel, só soube que o livro está "lindão". Espero que outro amigo leia pra me contar depois. Meu exemplar, só em dezembro, nas férias no Brasil.

O Segundo Tempo

Conheci o Michel numa bela noite de CHOPE na Vila Madelena, em São Paulo, quando fui encontrar um amigo em comum, o Marcelo Carneiro da Cunha. Eu estava superinteressada no chope, pra dizer a verdade, artigo inexistente aqui na China e uma das minhas paixões. E, bueno, aquela era a primeira vez que eu estava experimentando chope nas minhas férias no Brasil, o que já seria mais do que suficiente para me deixar muito de bom humor. Como aquele era um dia de sorte, a companhia dos meninos só fez melhorar o que já estava muito bom e saí de lá com uma baita vontade de ler o que o Michel já havia escrito.

Bueno, no Natal, minha irmã me deu O Segundo Tempo de presente, romance do Michel lançado em 2006. Caso você ainda não tenha tido o prazer de ler, aqui tem um trecho, mas eu super recomendo comprar. Nem precisa sair de casa - ai, saudades das livrarias que entregam livro em português pra gente (!).

Eu li o romance no dia 25 de dezembro, enquanto tomava sol em Curumim, a praia de estimação da família, no litoral norte gaúcho. Posso dizer que foi a leitura que fez o dia mais agradável, mas a crítica do livro eu superpasso porque nunca soube fazer, acho que nunca saberei. Para mim, no entanto, reforçou a crença de que a gente se torna mais cético ao longo do tempo. Mas você pode ter outra interpretação, e espero que tenha. Repetindo, espero que leia.

Aliás, Maíra, por que tu não vai à Palavraria pegar um autógrafo pra mim?

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Conexão São Paulo


Dia 27, o Michel lança O gato diz adeus na Mercearia São Pedro (Rodésia, 34, na Vila Madalena). Se quiseres ser pontual, chegue às 19h.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Misture chá com demônios e garfos no armário

Hoje meu sono me impediu de ir à aula de mandarim, mas não de aprender um pouco mais. Era dia de empregada, então às 8h lá estava ela a apertar a campainha, lá estava eu a abrir a porta. Resolvi voltar para a cama e ela perguntou se eu não tinha aula de chinês. Eu disse que tinha, mas não iria.

- 逃课! - Ela me disse, e estaria escrito assim, caso tivesse legenda. Como não tinha, o som ficou assim: táokè.

Como sabia que 课 (kè) significa aula, não precisei pedir muito dos meus dois neurônios sonolentos para adivinhar que se tratava de matar aula. Pois assim foi. Matei.

Pelas 10h, levantei lépida e faceira e fui fazer meus temas, escrever em chinês à mão, o que é 特别难. Sim, é especialmente difícil e a gente lê "tèbiénàn". Pois tema faz, tema não faz, conversava eu com a Yu, a empregada. Ela também vai à casa de outra amiga minha, a Noha, que fala um mandarim num nível ainda mais baixo que o meu, mas fala.

Quer ver um exemplo de como fala? A pobre da Noha dia desses foi a um restaurante comigo, comida de Yunnan, altamente recomendada, e chegando lá, quis beber um chá. Não precisa ser nenhum gênio, caso more na China há uns poucos meses, pra saber falar:

- 我要茶 (wǒ yào chá) - que quer dizer eu quero chá.

Ela foi até o garçom, pediu e voltou à mesa com cara de quem não tinha se feito entender. Explicou que foi difícil e tudo o mais. Foi impossível, eu diria. Chega o garçom com três garfos (éramos três estrangeiras na mesa). Como assim? Explicação facinha.

A palavra para garfo é chàzǐ (叉子), a de chá é chá (quase igual ao português, mas aqui a gente pronuncia o ch quase como fazemos com o gauchíssimo tchê - daí você entendeu que é só substituir o ê pelo a, né - e grafamos a palavra assim 茶).

O chinês não teve dúvida. Sente a equação

Estrangeiro + cha = garfo

Por que

- Estrangeiro não sabe comer de palitinho

- Estrangeiro não é acostumado a beber chá

Ainda que a Noha, caso quisesse garfo, tivesse esquecido da sílaba zi de chàzǐ, a palavra que designa garfo em mandarim, somente poderia ser esse o objeto que ela queria. E ficamos a falar mal deste condicionamento que sentimos muito por estas bandas, este pensamento tão reto, direto, sem uma nuance diferente que tantos chineses têm.

Em defesa dos donos da casa onde estou, posso dizer que muitas vezes não olhamos pro nosso próprio umbigo. O mandarim é cheio de peculiaridades. Dia desses comentei que os tons eram uma das características mais cruéis da língua. Pois há outras encrencas, uma das quais atende pelo nome e sobrenome de Palavras de Medida. Em geral, antecedem o substantivo e indicam sobre o que estamos falando. Cachorros, automóveis, copos e garrafas têm palavras distintas que combinam com elas.

Caso a Noha tivesse usado uma destas palavras de medida, não haveria confusão entre o objeto de desejo dela. Ela disse apenas

- 我要茶. Eu quero chá, apesar de não ter ficado claro que chá.

Se tivesse dito

- 我要一杯茶 - de cara o garçom teria entendido. Wǒ yào yī bēi chá significa Eu quero um copo ou xícara de chá.

ou

- 我要一壶茶 (Wǒ yào yī hú chá)- ele teria sabido direto que ela queria uma chaleira de chá.

Falamos mal deste pensamento estreito, mas esquecemos de pensar que nos expressamos mal na língua de quem nos acholhe.

Voltemos à Yu, nossa empregada. Ela estava achando engraçado porque da última vez em que foi à casa da Noha, sugeriu que uns cobertores que estavam pela casa fossem guardados no armário, porque o verão está chegando.

- 放柜子里边, ou fang guizi libian.

Pois o guizi do meio, que significa armário, 柜子, não foi compreendido pela Noha. Ou melhor, foi, mas de um jeito totalmente ao contrário. Nós, estrangeiros, além de não sabermos falar os tons, não sabemos perceber as diferenças ao ouvi-los. A Noha xingou a empregada, sem entender do que ela falava, dizendo que guizi era uma palavra muito feia, usada para maldizer os estrangeiros, segundo um colega de trabalho havia explicado. Não estava totalmente errada, pois estava pensando em 鬼子, também guizi, mas cuja pronúncia se dá no terceiro tom, e não no segundo, do caso do armário. O guizi em que a Noha estava pensando tem como tradução demônio.

O 鬼子, guǐzǐ, esteve muito tempo associado à palavra estrangeiro (老外, ou laowai). O demônio estrangeiro, então, era o 鬼子老外. A pobre Yu tentou explicar que guìzǐ não era guǐzǐ, mas se em português nem sempre a gente consegue explicar que focinho de porco não é tomada...

Ainda segundo a Yu, é assim. Hoje, os chineses não tratam mais estrangeiros por demônios, a convivência está muito mais tranquila. Segundo ela, principalmente porque tudo o que um demônio estrangeiro tem, um chinês também pode ter. Com a abertura do mercado e a concorrência, tem gente pobre, gente rica. Então dá pra invejar tranquilamente o vizinho e patrício, o olho gordo não é mais atributo exclusivo internacional (internacional, levando-se como ponto de vista o dos chineses, claro).

Mas, claro, a Yu esclareceu que tem um tipo de estrangeiro que ainda é demônio por aqui. A cada vez que eles falam 鬼子, provavelmente estarão se referindo aos japoneses - os 日本鬼子. Abaixo, reproduções dos uniformes dos soldados e oficiais japoneses na China nos anos 1930.



Tanto ressentimento não é gratuito. Apenas na história recente, entre os anos 1930 e 40, a ocupação japonesa na China deixou marcas, como a tomada de Nanjing, quando teriam morrido 300 mil chineses.

Aqui, reproduções do que seria parte das Forças Armadas chinesas à época.



O governo japonês até hoje não reconhece atrocidades na guerra e por lá, livros didáticos tratam o caso como incidente, mas jamais revelam abusos, como mortes em série em pelotões de fuzilamento, estupros e torturas.

Aliás, já que o clima ficou pesado, há um livro interessante sobre o caso de Nanjing, o Rape of Nanking (capa reproduzida abaixo), ainda sem tradução para o português. A escritora sino-americana, Iris Chang, cometeu suicídio após concluir o trabalho.



Bueno, acho que faltei à aula, mas tive uma manhã de belos aprendizados, não?

Greta Garbo à chinesa

Pouca gente sabe quem é Ruan Lingyu (院玲玉), considerada uma das maiores atrizes chinesas, ainda que tenha atuado por cerca de apenas 10 anos, em filmes mudos dos anos 1920 e 30. Eu integrava a turma dos ignorantes a respeito de. Conheci a moça no painel Comparando o Campo de Atuação, Filmes Asiáticos e o Ocidente, com o crítico de cinema e diretor escocês Mark Cousins, que ocorreu na Bookworm, o melhor lugar pra estar antenado aqui em Beijing - na minha modesta opinião, claro.



Lingyu nasceu em Shanghai em 1910. Foi ali que morreu, aos 25 anos, após uma ingestão exagerada de remédios para dormir. O suicídio teria ocorrido porque, além de ter uma vida amorosa conturbada, ela seria vítima das fofocas da mídia da época. Não que as pessoas se matem hoje em dia por causa disso, mas bisbilhotar a vida das celebridades ainda ocorre. Canseira.

Lingyu era a queridinha do cinema na China - e como Cousins disse, nos anos 30, Shanghai e Tokyo viviam épocas de ouro. O cortejo da atriz, dizem os registros, reuniu milhares de pessoas. Três garotas teriam também cometido suicídio durante o funeral. O jornal New York Times deu na capa a história, dizendo que era o maior cortejo do século.



Até hoje Lingyu é lembrada por quem entende de cinema - em Shanghai, um monumento homenageia a atriz, já que a lápide em si foi destruída durante a Revolução Cultural. Ela é considerada uma lenda, um patrimônio da cultura shanghainense.



Goddess (神女), de 1934, é considerada uma das melhores atuações da chinesa de origem cantonesa (e é um trecho deste filme que você pode assistir logo abaixo).



Cousins compara Lingyu a Greta Garbo e se pergunta por que o Ocidente não conhece a mocinha dos olhos puxados. Sabem, mesmo aqui se conhece pouco da história do cinema. Em qualquer loja de DVD ou camelô de rua, se encontra uma gama sem fim de últimos lançamentos nacionais e do mercado internacional. Agora, filmes mais antigos, prata da casa, quase nada.

***

Bueno, mas depois de falar um pouco da diva do cinema (mudo) chinês e mostrar algumas fotos da bonitinha, deixo com vocês um pouco sobre o Cousins.

Todos os meses, ele escreve artigos sobre cinema na revista britânica Prospect. Neste, de 2004, ele fala especificamente sobre as produções da Ásia e conta, claro, a história de Lingyu (mas é tudo em inglês). No ano passado, ele foi curador da mostra internacional de documentários no 13°Festival É Tudo Verdade. Escolheu 10 filmes que "Mudaram o Mundo" e justifica os eleitos neste texto, mal traduzido para o português. Achei a linguagem chaaaata.

De qualquer forma, ele afirma o que depois eu vi reafirmando ao vivo, que filmes podem ser, sim, instrumentos de educação e informação, por meio dos quais as pessoas podem aprender sobre uma sociedade, comportamento, cultura, etc - mesmo quando estes não têm qualquer traço documental, já que aqui em Beijing discutíamos mais as obras ficcionais. Cousins arrancou gargalhadas as dizer quem nem sempre é preciso ler livros para se manter informado - e se desculpou por estar dizendo isso justamente dentro de uma livraria que promovia um festival literário para o qual ele havia sido convidado. :p

Fato é que, segundo ele, ao ir mais fundo na ironia, disse que quem lê, lê para parecer mais inteligente, lê para conhecer mais, se tornar mais culto. Ao passo que quem assiste filmes, o está fazendo apenas como lazer. Aliás, superconcordo com estas perspectivas do moço escocês - que, pena não ter levado uma câmera para fazer uma fotita, vestia confortavelmente um kilt, aquelas sainhas escocesas com pregas e padrão xadrez. Cousins, cheio de estilo e várias teorias, também já se rendeu à escrita, que fique claro. Ele é autor do livro The Story of Film, sem tradução para o português.

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Toque brasileirinho

O 14°Festival É Tudo Verdade ocorre agora, de 25 de março a 5 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

terça-feira, 10 de março de 2009

单位

Danwei (单位) é unidade de trabalho em mandarim.

Poderia significar apenas isso, o local onde se trabalha. Mas o apelo é mais forte, e quem explica é a Lijia Zhang, uma jornalista chinesa por quem estou apaixonada. Estou lendo Socialism is Great, o livro em que ela conta o começo da vida profissional em uma fábrica chinesa no final dos anos 1970.

Naqueles tempos de controle forte sobre a vida do cidadão, era por meio do danwei (ou 单位) que o governo mantinha o vivente na linha. O documento indicava exatamente o local de trabalho do cidadão - o número da unidade para a qual servia -, o que, na prática, não só garantia acesso à previdência social, mas o direito a casar e ser cremado ou enterrado em caso de morte. Trivialidades...

Pois um dos sites chineses mais bacanas que conheço adotou não só o nome Danwei, como a ideia de formar uma unidade de trabalho. Ali, estão reunidas discussões - mas em inglês - sobre mídia chinesa, propaganda e a vida nas grandes cidades. Imperdível.

Todos os anos (e eles estão ativos desde 1990, então entendem do riscado), eles escolhem os melhores blogs em inglês sobre a China, basicamente Trabalhadores Modelo para a Unidade de Trabalho. Quem quiser ver, pode clicar aqui.



Os tais trabalhadores modelo é outra herança do conceito de 单位. Minha amiga Zhang foi indicada uma vez para o posto, mas, na época, não levou a distinção devido a uma jaqueta de oncinha que costumava usar e que era muito padrão burguês ocidental para a concepção do chefete recém saído do casulo forçado imposto aos chineses nos anos de Mao. Comportamento padrão dentro da fábrica, mas trajes adequados fora dela. E quem liga para uma certa divisão entre vida privada e profissional?

No site, os editores pegaram o conceito de Modelo emprestado e embarcaram de vez na ironia. Segundo eles, os ganhadores são escolhidos pelo Comitê Central do Danwei, sem nenhum tipo de democracia ou votação envolvidas.

Zhang conta no livro sobre o momento em que disputou a vaga com outra colega. "Os nossos nomes foram postos em consideração. A eleição era um exercício de democracia centralizada, democracia sob orientação central, com o líder sempre tendo a palavra final - esse era o jeito como a China se movia". Bueno, pelo menos no site não há pretensa participação.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Comer, beber, ler


A Bookworm é o que mais se aproxima de uma Livraria Cultura aqui na China, com sede em Beijing e filiais em Chengdu e Suzhou. Você come, bebe, vê gente interessante e tem acesso a livros que nem o governo permitiria. Em inglês - ou caso você seja um associado, na língua em que você encomendar sua obra preferida. Associados, aliás, podem pegar emprestados os títulos do acervo da biblioteca.

Este universo literário-gastronômico-etílico está aberto diariamente das 9h à 1h e eu só fui conhecer na semana passada. Sorte ou azar, ainda não sei. Certo é que posso gastar lá muitos e muitos kuais, como é chamado o dinheiro chinês na gíria, tipo mango, pau, pila. Pensando assim, sorte que poupei um monte de grana.

Sorte que fui a tempo até a Bookworm - que significa traça, mas, na gíria, designa devoradores de livro. Quer dizer, na prática também, anyway. O a tempo eu já explico. É que de 6 a 20 de março o local vai celebrar o Festival Literário, evento que trará à China escritores libaneses, norte-americanos, jornalistas, poetas, chineses, outros estrangeiros, uma porção de gente bacana. A programação é tão extensa que pretendo ir falando sobre ela aos poucos.

Agora, se você for curioso, pode clicar aqui para estudar por si próprio e decidir se terás ciúmes de mim nestes dias. Eu teria. Seria o maior azar se não tivesse pintado pela livraria na hora certa.

Aliás, o que nos ensina a Bookworm:

"Não há amor mais honesto do que o pela comida", Bernard Shaw

"Vinho é a coisa mais civilizada do mundo", Ernest Hemingway

"Ler para viver", Gustave Flaubert

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Apesar de os autores aí acima serem bem conhecidos do público ocidental, é a quantidade de gente destas bandas daqui ou que fala sobre a China e arredores o que mais me prendeu à livraria. Eu estou lendo agora, por exemplo, Socialism is Great, da chinesa Lijia Zhang. A história é sobre ela mesma, como deixou um trabalho em uma fábrica de foguetes em Nanjing para se tornar jornalita. Eu ainda estou no início, mais eu conto depois, prometo também. Lançado em 2008, não creio que haja versão em português.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

12 anos da morte de Deng Xiaoping



19 de fevereiro é a data da morte de Deng Xiaoping (邓小平), que, pra quem não sabe, foi o responsável por implementar a política de reforma e abertura da China. Hoje, no 12º aniversário de morte,flores foram levadas ao túmulo do ex-presidente, na cidade de Guangan, província de Sichuan.

Deng foi o sucessor de Mao no governo. A política que ele conduziu é simplesmente o motivo pelo qual o país deixou de ser uma nação pobre para se transformar na quarta maior economia mundial. Nada mal para 30 anos.

Oficialmente, a política entrou em vigor em 18 de dezembro de 1978, durante a terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China. Em julho do ano seguinte, o país implementaria quatro zonas econômicas especiais, umas das iniciativas mais visíveis para o exterior de o que a China se propunha no momento: fazer negócios com os demais países. As zonas escolhidas foram as cidades de Shenzhen e Zhuhai, em Guandgong (Cantão), então meras vilas de pescadores, e Shantou e Xiamen, em Fujian, outras duas cidades costeiras.

Em 1997, prestes a comemorar 20 anos da implementação da nova diretriz, a China recebeu da Inglaterra a então colônia Hong Kong, inaugurando um inusitado modelo que muito orgulha os dirigentes chineses, o de um país, dois sistemas. Hong Kong, centro financeiro mundial, manteve sua política capitalista, mesmo sob o manto do governo central de Beijing, que se denomina socialista, com características chinesas.

Tais características garantiram a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o que, na prática ajudou as commoditties da China a circularem mundo afora. Lembrem, as zonas especiais constituídas lá em 1979 tinham uma razão de ser. Para o país? Em 2006, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu a invejáveis 9,67%, bem acima da média mundial daquele ano, de 3,3%. O Brasil, para quem não lembra, após uma revisão dos métodos de cálculos feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em honrosos 3,7%.

Nestas últimas três décadas, o ganho anual dos moradores urbanos, numa média per capita, pulou de US$ 46 para US$ 1,611. Nas zonas rurais, este valor era de US$ 18 e hoje passou para US$ 491, segundo números do governo chinês. Aliás, a foto das moças aí abaixo é da década de 1980 e integrou uma exposição sobre os anos subsequentes à adoção da política de Deng realizada em Beijing no ano passado.




Livro


Deng Xiaoping tem todo este papel central nas reformas que garantiram à China o papel que ela ocupa hoje na política e economia global. No entanto, não sei se esta é uma impressão só minha, mas ele me parece um personagem esquecido quando o tema é governo, economia e política chineses.

Em português, um livro de leitura chata (opinão minha, dã), mas interessante, é A China de Deng Xiaoping, escrito por Michael E. Marti. No site da Livraria Cultura, é possível entrar o PDF do primeiro capítulo. Aproveita a palhinha.

Outro que citou o Deng foi o jornalista Daniel Piza, no artigo Ensaio da China, publicado por ocasião da Olimpíada do ano passado. O clique no link é mais do que recomendado.

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Ah, as fotos que ilustram este post estão no especial sobre os 30 anos da reforma de política e abertura publicado pela agência de notícias Xinhua. Em inglês.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Resolução de ano-novo: ler


Há pouco tomei uma nova resolução de ano-novo, ler. Tudo bem que ler é um dos exercícios a que mais me dedico, mas desta vez quero ler clássicos chineses e, então, escolhi as quatro principais novelas escritas por aqui pra começar. A categorização é dos próprios chineses. Mãos às obras.

O primeiro livro, Dream of the Red Chamber (sem tradução para o português) foi sugestao da Cacá, reforçada pela Tarsila, pelo Ricardo e pela Mariana. Neste balaio de gente boa aí tem uma descendente de chineses devoradora de livros no Brasil, uma brasileira devoradora de livros que dá aula de português na China, um português devorador de livros que mora na China e uma chinesa devoradora de livros falante de português.

A leitura se transformou em resolução de ano novo porque hoje recebi a escala para o Festival da Primavera que, apesar de ser no inverno, é quando os chineses comemoram a chegada do novo ano, seguindo o calendário lunar chinês. Durante este período, que soma nove dias sem trabalho - sábado, domingo, os cinco dias úteis subsequentes, mais o outro final de semana - o território chinês, com nada desprezíveis 9,5 mil quilômetros quadrados, mais um troco, se transforma num grande corredor turístico. É gente viajando para todos os lados para se reunir aos familiares ou conhecer novos lugares. Resumo da ópera de Pequim: fique em casa a maior quantidade de tempo que puderes. Com temperaturas máximas que não deverão ultrapassar os 0C na próxima semana, é o que eu vou fazer. Como não tenho internet, nem computador, e não posso escrever, qual a resolução? Ler.

Dream of the Red Chamber

O livro também é chamado de Histórias de Uma Pedra, estava me contando a Mariana. Em mandarim, seria Hong Luo Meng (红楼梦). Escrito no meio do século 18, durante a Dinastia Qing, a obra de Cao Xuequin é conhecida pela infinidade personagens. Só na linha de frente, são 30, apoiados por outros 600 personagens secundários. Haja fôlego pra acompanhar a história.

Complexidades à parte, o fato é que o título virou referência, já ganhou versões para o cinema, foi série da televisão estatal chinesa e agora está recebendo nova roupagem pra estrear novamente na telinha.

Eu vou parar de falar dela por aqui, mas você, do outro lado, torça para que eu encontre a versão em inglês numa das livrarias daqui antes do feriado. Começar o ano novo sem cumprir resoluções dá o maior azar, né? Já basta o 1 de janeiro que passou há tempos e no qual já deixei promessas abandonadas. Nada melhor do que vir pra China e ter outra chance de fazer novas resoluções no ano que novamente se inicia. Melhor não desperdiçar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

De olho em vocês

Não apareço há dias, e peço desculpas. O frio em Beijing há tempos passou da época de renguear cusco. Hoje acordei a menos nove graus, e isso é uma experiência nova, e bastante chata pra mim. Definitivamente, não fui feita pro frio. Vivendo e aprendendo, bastante lugar comum. Uma vez que se experimenta algo, isso passa a ser parte da sua vida, fica gravado, você pode reviver, não é mesmo?

Toda essa minifilosofia tem hoje uma razão de ser. Eis uma aulinha de chinês, pra mim, pra lá de interessante.

Lia um texto sobre um jornalista que visitou a China. E ele fala sobre uma das maiores contradições da língua chinesa pra mim.

Rapidinho, prestem atenção:

- Qian (前)= pra frente. Assim, quando alguém te disser que alguma coisa é qianbianr (前边), siga em frente.

- Hou (后)= pra trás. Assim, quando alguém te disser que alguma coisa é houbianr (后边), volte duas casas. Ou quantas forem necessárias.

Aí você tem uma linha de tempo. Assim:

Hoje - jintian (今天)
Amanhã - mingtian (明天)
Ontem - zuotian (昨天)

Chega um dia em que você sente a necessidade de dizer: anteontem. Então, perguntei pra professora: como é anteontem?

E ela fez a linha, em português, primeiro

Anteontem - Ontem - Hoje - Amanhã - Depois de Amanhã

E escreveu:

Qiantian (前天) - Zuotian (昨天) - Jintian (今天)- Mingtian(明天) - Houtian (后天)

Eu que sou chata, disse. Gisela, acho que você se enganou. Hou (后)é pra trás, então Houtian (后天)é anteontem.

Não, ela me assegurou, e, bem, não explicou muito. Só disse que em chinês é assim. Aí vem o amigo jornalista no texto dele pra explicar o que explicaram pra ele (e que é mais uma das aulas de chinês que explicam bem mais que a língua, explicam uma lógica, uma forma de ver a vida). Olhem que fofo:

Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian (后天)" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã. "O futuro está atrás de você porque você não vê o que o futuro te reserva. O passado está à tua frente porque você consegue vê-lo." É. Até faz sentido.

Então lia um livro interessante, o tal A China Sacode o Mundo.

Lá o autor, 19 anos de China, muito mais entendido do que eu nos assuntos chineses, falava que muitas vezes os chineses têm as mais diversas explicações pra filosofias chinesas.

Algo como: o velho sábio chinês que te ensinou alguma coisa interessante era muito sábio, mas num país de população extensa, imaginem quantos sábios velhos e que sabem coisas interessantes as quais podem te ser úteis existem...

Perguntei a Mariana sobre o hou (后) e o qian (前) e tenho a dizer duas coisas.

- ou a filosofia chinesa de ver o passado, e somente o passado, é mesmo nacional, ou o velho sábio chinês que ensinou isso era um cara famoso. Ela contou a mesma história.

Agora, podemos confiar!

Ela lembrou mais:

Duas palavras que já sabia:
Yihou (以后) - depois (um pouco pra trás, na tradução)
Yiqian (以前)- antes (um pouco pra frente, na tradução)

Aí, falávamos sobre namorados. pra mim, a palavra namorado é ótima: "nanpengyou" (男朋友), que significa amigo homem.

Voltando ao qian (前), se o que a palavra que significa pra frente traduz passado, porque é o que a gente viu, logo o teu ex-namorado, será o teu pra frente amigo homem, ou qiannanpengyou (前男朋友).

Agora, só me fica uma dúvida: a gente chama o próximo ou chama o último?

A China me confundiu sobre esta história de figurinha repetida não completar álbum.