quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pressões da vida moderna

A manhã chinesa começou com outro caso de horror em jardins de infância do país. O agressor identificado como Wu Huanmin, de 48 anos, matou sete crianças - cinco meninos e duas meninas - e uma professora, voltou para casa e se suicidou. Ainda há um adulto e outras 11 crianças feridas, duas delas em estado grave. 

O caso das 8h desta quarta-feira na pequena vila de Lichang, na província de Shaanxi (a mesma famosa pelos Soldados de Terracota, localizados em Xi'an) é o quinto semelhante ocorrido em menos de dois meses. Segundo um especialista, cujo nome não é revelado, ouvido pela agência oficial de notícias, a Xinhua, as causas dos crimes são as pressões da vida moderna. Bela explicação para um crime ainda sem explicação. 

O primeiro da série, em 23 de março, teve o médico Zheng Minsheng como protagonista, num ato - desesperado? - após perder o emprego e a namorada. 

Como na China as armas de fogo são ilegais - e ainda que existam clandestinamente, não são fáceis de serem compradas - todos os casos envolvem mortes a facadas ou marteladas, um traço ainda mais cruel do que seria o desespero da tal pressão da vida moderna. 

Para mim, impossível não traçar um paralelo com uma característica que, embora seja baseada apenas em observações minhas por aqui, sem que sequer tenha lido ou ouvido alguma opinião mais efetiva a respeito, chama-me muito a atenção: os chineses, em geral, mais do que uma habilidade para copiar o comportamento alheio, o fazem quase como uma necessidade premente e inadiável. Ou não haveria outro jeito de descarregar as pressões da vida moderna que atacando criancinhas em jardins de infância?

O governo já prometeu a ampliação da segurança no entorno de escolas e jardins de infância e, ainda que circule extraoficialmente, a ideia seria atirar para matar supostos agressores. 

A morte ronda quem se sente pressionado, digamos. Hoje também foi o dia do anúncio do sexto caso de suicídio envolvendo funcionários da gigante de componentes eletrônicos Foxconn, um conglomerado de origem taiwanesa cuja planta em Shenzhen, no sul da China, emprega 300 mil pessoas. Todos os casos ocorreram ali. 

A Foxconn, que pertence ao grupo Hon Hai, produz equipamentos para a Apple e Sony, por exemplo. Além de extensas jornadas de trabalho e salários que podem não ser necessariamente motivo de inveja, a empresa prima por sigilo, dado ao alto grau de complexidade e sofisticação dos equipamentos que produz. Qualquer vazamento de informações de projetos conjuntos que realiza com as bambambans de gadgets e quetais poderia significar agito no mercado, quebra de contrato e algo por aí. Quem trabalha por ali é submetido a controle estrito. Fichinha. Os tais 300 mil empregados já vivem uma rotina sob slongas do fundador do conglomerado, Terry Gou, cujas fotos adornam paredes de um prédio aqui, outro acolá, tipo cantinas e outros essenciais à vida desta comunidade trabalhadora.

E seguem a imitação de tendências, estas tais tendências vindas das pressões da vida moderna, como disse o amigo especialista anônimo.

Um comentário:

Cássia disse...

Querida Janajan, li hoje teu texto na Piauí. Gostei muito. Estou com saudades. Volta logo, depois de aproveitar muito NY com as gurias.