quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Visite شىنجاڭ

A China é o quinto maior país do mundo em espaço territorial, um sexto
do qual pertence à Região Autônoma Uigur de Xinjiang, a casa da etnia
que dá nome ao local, os uigures. Em julho deste ano, Xinjiang entrou
para o noticiário internacional graças a uma explosão de violência
étnica envolvendo os moradores locais e os chineses han, etnia que
compõe 92% da população chinesa e, a grosso modo, detentora do poder
político e dos direitos de ascensão social e econômica no país.

Desde então, internamente recrudesceram a repressão e os limites no
local, tradicionalmente o mais militarizado da China, em razão de o
que se considera celeiro de movimentos separatistas e até de
terrorismo. Não bastassem os quase 200 mortos após os confrontos de
julho e cerca de 1,8 mil presos, em setembro ataques com seringas -
cujo conteúdo é desconhecido ou não divulgado, apenas - voltaram a
aterrorizar a população, aumentando medos e preconceitos em relação
aos moradores da região, conhecidos pela China por serem responsáveis
por assaltos país afora. Um belo destino para cinco dias de descanso.

Sim, um belo destino, que me chamava a atenção desde a chegada à
China, em 2007, devido à diversidade cultural. Certo, pensava eu, que
grande parte dos mal-entendidos entre uigures e hans se davam por
desconhecimento - e falta de vontade de aprofundar relações - mútuo.
Acho que acertei. Às vésperas da viagem, não foi um nem foram dois os
chineses a me aconselhar a desistir, devido ao perigo. Do início ao
fim da viagem, as duas únicas situações de constrangimento nada
tiveram a ver com violência e foram protagonizadas pelos chineses han,
sinal de que civilidade não escolhe raça, mas índole - uma questão bem
mais individual que coletiva, em certos casos.

A viagem desta vez começou em Kashgar, cidade batizada pelos han como
Kashi, devido a dificuldades na pronúncia. Entreposto comercial dos
áureos tempos da Rota das Sedas, o local abriga cerca de 90% de
uigures, uns 8% de hans e outros 2% divididos em minorias como
quirguizes, cazaques, tadjiques e outros mais, a maioria com fortes
raízes da Ásia Central. Orgulhosos de seu passado cuja ligação turca
se revela na fala e cuja religiosidade segue os preceitos do Islã, os
muçulmanos locais adotaram o alfabeto árabe e não se sentem nem um
pouco constrangidos em deixar claro o quanto pertecem à cultura dos
países vizinhos e o quanto se vêem discriminados dentro do país que
resolveu os acolher, ou dominar – use o verbo que se encaixar melhor a
suas concepções geopolíticas.

Uigures escrevem شىنجاڭ para dizer 新疆, que é como os chineses
escrevem Xinjiang, ou Nova Fronteira, o nome dado pelos poderosos da
Dinastia Qing (1644-1911), os primeiros chineses - ainda que manchus -
a estender os limites do Império do Meio àquelas paragens. Mas é
justamente nesta manutenção da raiz cultural (que eu, e mais uma
galera que a gente pode chamar de a torcida do Flamengo e mais um
pouco, apoio) que os uigures dançam, encontram dificuldades nas
carreiras públicas e mesmo privadas no local onde moram. Exames para
admissão em universidades, cargos no governo, todos exigem testes
realizados em mandarim. E, então, desde crianças os pequenos uigures
são convidados pelos próprios pais a deixarem de lado um pouco de suas
raízes em busca do sonho de crescer na vida. Recebem educação formal
segundo os moldes chineses, têm turno dobrado em casa para aulas com a
vovó, a mamãe, a titia, ou quem estiver por perto para ajudar.

Eles estão em meio a uma cultura que não lhes diz nada, tão exótica
quanto a portuguesa foi para os amigos índios de outrora. Sim, a
comparação aqui pode te levar tranquilamente a episódios como
dominação pela força, colonização, exploração de recursos naturais -
então não que eu queira ser manipuladora, mas se você optou por
acolher no verbo lá em cima, revise a escolha. Ou você acha que a Nova
Fronteira é tão importante só por ser nova e só por ser fronteira com
oito países (Rússia, Mongólia, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão,
Afeganistão, Paquistão e Índia)? Nada, ali tem gás e tem petróleo, só
para citar dois produtos tão caros aos chineses, tão carentes em
energia.

Antes de chegarmos mais perto deste povo, a gente faz uma pausa por
aqui. Depois tem mais, amiguinhos.

--
Janaína Camara da Silveira
***
www.twitter.com/chinainblog
www.linkedin.com/in/janajan
www.janajan.blogspot.com
***
Phone: 0086 (10) 8355 6368
Mobile: 0086 1352-151-4145
***
Xuanwu District - Beijing - China

Um comentário:

kika disse...

perfeito pra esquentar os tambores!

embora eu não saiba - pelo menos ainda - o que rolou contigo, vou fazer um comentário feio, bobo e chato: pra mim os chineses (ou os han, se for o caso) são o reis do constrangimento e da falta de tato. ;P

enfim, já tô em contagem regressiva, menos de 15 dias apenas, posta tudo looogo :)