sexta-feira, 16 de maio de 2008

O chão está tremendo


Evânia acampou durante três dias no campus da universidade em Chengdu
Foto: Jana Jan/China in Blog

Vir à China era o sonho de criança da acreana Evânia Maria Maia, 30 anos. Há quatro meses, ela garantiu o passaporte - e o dinheiro suficiente - e se instalou em Chengdu, capital de Sichuan, onde estuda mandarim na Southwest University for Nationalities. Aí na segunda-feira passada, o sonho ganhou contornos de pesadelo.

- O chão está tremendo - alertou a colega com quem Evânia divide o apartamento no terceiro andar, a mexicana Arele Barde Perez, 42.

- Tremendo? - duvidou a acreana, que estava entretida mesmo em uma faxina.

É, tremia. Quando se deram conta, foi o tempo de correrem aos quartos e pegarem os passaportes. Uma eternidade para alcançar a rua.

- Demorou muito, foi o tempo mais longo do mundo - diz Evânia, ao lembrar do tremor de 6.5 graus na escala Richter que atingiu a cidade por volta das 14h28min.

Na rua, hora de decidir para onde ir: o campus da universidade onde estuda. Ela, a colega e milhares de pessoas (o milhares fica por conta de Evânia) tiveram a mesma idéia.

- O campus tava cheio. Mas qual o lugar que não é cheio quando se fala em China, né? - ri a estudante.

Cheio ou não, o fato é que o pátio do campus se transformou na casa de Evânia por três dias. No primeiro, ela nem buscou roupa, dinheiro, celular. Ganhou emprestada esteira e cobertor de uma colega e foi com isso que passou a noite. No campus, eles também receberam alimentação e orientações pela rádio da universidade. Além disso, tendas coletivas foram instaladas. O objetivo dela e dos recentes vizinhos do acampamento improvisado era o mesmo: estar o mais longe possível de prédios, a fim de escapar de queda de lajes, paredes, aço e qualquer outra coisa na eventualidade de um novo terremoto.

Aulas suspensas, trabalhadores sem trabalhar, a rotina deu lugar à apreensão.

- Tive de ligar pra casa, imagina a minha mãe lá no Acre, sabendo que estou aqui - conta Evânia.

É, parece que foi bom mesmo ligar para a dona Maria de Nazaré, 75. Ela leu a notícia de que nenhum brasileiro havia se ferido no terremoto, mas...

- Entendeu que não havia nenhum brasileiro por aqui. Ficou em pânico pelo que pudesse ter acontecido comigo - diz a filhota que resolveu vir para o outro lado do mundo. Foi aí que Evânia telefonou para a embaixada brasileira em Beijing para dar um sinal e fazer o registro como cidadã do Brasil que mora na China.

Com a Evânia, agora há seis brasileiros registrados que vivem entre Chengdu e Chongqing, diz o primeiro-secretário da embaixada, Celso França.

Susto na volta ao apartamento

Evânia e Arela voltaram para casa quinta-feira. Era o que podiam fazer, pois o governo local pediu que as pessoas deixassem o campus. A primeira noite foi relativamente tranquila, apesar de o sono ter demorado a chegar.

- Dormi só pelas 2h. Lembrava das rachaduras pelo teto e da sensação de que iria morrer soterrada pelos escombros do edifício - diz a brasileira, que mora no terceiro andar de um prédio de 11.

- Apaguei de cansaço mesmo, mas acordei às 6h, ao sentir um novo tremor - conta. Ela se referia a um aftershock, fenômeno comum após terremotos. E constantes na região: foram mais de 1,9 mil nas últimas 28 horas perto de Chengdu. O pior na cidade hoje foi por volta do meio-dia, quando até um porta-retrato caiu da estante.

- Deu medo, mas vou dormir em casa hoje de novo. O que ainda não consigo é pegar elevador. Quem sabe amanhã? - fala a garota, sem demonstrar convicção.

Pouco depois Evânia encerrou a entrevista. Hora de comprar lona para fazer uma tenda.

- Só para alguma eventualidade - riu.

Medo, mas bem pouquinho

A acreana levou a sério o que sentiu na infância. Se antes era só um desejo de vir à China, com o tempo, se transformou na vontade de aprender mandarim.

- Fiz as contas. O custo de vida aqui é bem mais barato do que pagar universidade particular no Brasil - fala Evânia.

Foi graças a esta contabilidade que ela saiu da pequena Sena Madureira, na fronteira com o Peru e a Bolívia, e foi morar em Rio Branco. Fez só o Magistério, era professora do Ensino Fundamental. Perfeito. Com este currículo, pouco tempo depois se mudou para São Paulo, onde juntou dinheiro por dois anos e conheceu o bairro da Liberdade. O contato no cantinho oriental da cidade aumentou o desejo de vir à China. Frequentou algumas aulas de mandarim e, sim, não tinha mais volta. Queria vir pra cá. O plano inicial era ficar um ano. E agora, com o terremoto?

- Em um mês, já sabia que teria de ficar dois anos se quisesse falar mandarim. Agora, já sei que tenho de ficar três ou quatro anos. Essa língua, sim, é difícil. Com terremoto, a gente acostuma - garante.

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